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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

ARTHUR DAPIEVE
publicado em: 24/08/2018 por: Lou Micaldas

PROIBIDO APLAUDIR NO MUNICIPAL?

Nada simpático, o 'shhh' faz quase tanto barulho quanto o aplauso que busca silenciar

Quando o violinista brasileiro Cármelo de los Santos encerrou o primeiro movimento do concerto de Korngold, na noite da última sexta-feira, a maior parte da plateia no Municipal aplaudiu. Quando o violinista israelense Itamar Zorman encerrou o primeiro movimento do concerto de Tchaikovsky, na tarde do domingo passado, a maior parte da plateia no mesmo teatro também aplaudiu. Porém, em ambas as ocasiões, uma minoria reprovou os aplausos e pediu silêncio fazendo “shhh!”

Essa minoria assim agiu não porque não tenha gostado do desempenho dos solistas à frente, respectivamente, da Petrobras Sinfônica e da Sinfônica de Jerusalém. É que se convencionou, ao tempo de Beethoven, que uma obra de música clássica só deve ser aplaudida ao seu final, não entre os seus movimentos. Era diferente, por exemplo, quando Mozart respirava. Numa carta famosa, ele se queixou ao pai de que a plateia não irrompera em palmas em determinada passagem, composta exatamente para esse fim.

Há razões além da mera formalidade para que o hábito de não se aplaudir entre os movimentos tenha se imposto nos últimos dois séculos. A música ressoa melhor nas salas, a peça conserva a contiguidade imaginada pelo autor, e os intérpretes mantêm a concentração mais facilmente. Dito isso, cabe reconhecer que os “shhh” fazem quase tanto barulho quanto os aplausos que buscam silenciar, além de serem bem menos simpáticos. Vale a pena? Vale a pena tentar “educar” uma plateia formada por pessoas que não frequentam o Municipal ou conter o eventual entusiasmo de quem frequenta?

Porque o mesmo desejo de aplaudir “fora de hora” se manifestou em públicos distintos. O concerto da Petrobras Sinfônica, regido pelo espanhol Francisco Valero-Terribas, tinha ingressos a preços baixos o bastante para atrair não iniciados. O da Sinfônica de Jerusalém, regido pelo argentino Yeruham Scharovsky, titular da nossa OSB entre 1998 e 2005, tinha preços condizentes com um espetáculo beneficente, organizado pelo Beit Lubavitch, e de público mais familiarizado com a música clássica.

As plateias aplaudiram não por serem mal-educadas e sim porque o virtuosismo exigido dos violinistas é de entusiasmar. Acho que o aplauso “fora de hora” deve ser entendido como dois sinais positivos: há um público novo a conquistar para as salas de concerto; e a música clássica ainda empolga. O que mais poderia querer quem a ama?

Particularmente, nunca amei o concerto de Korngold, meloso demais. Já a leitura de Debussy que encerrou a sexta-feira não me molhou: um “La mer” agitado de menos, o de Valero-Terribas. Contudo, a abertura, com a suíte sinfônica da ópera “Piedade”, do carioca João Guilherme Ripper, ficou linda. O concerto de domingo foi de alto nível da abertura, com a dança “Hora”, terceira parte do poema sinfônico “Emek”, do lituano-israelense Mark Lavry, à sétima sinfonia de Dvorák. Os bis dos violinistas — de los Santos, com Piazzolla (“Oblivion”) e Tárrega (“Recuerdos de la Alhambra”), e Zorman, com Joseph Achron (“Hebrew melody”) — também foram merecedores de aplausos. Aí, sim, nas “horas certas”. A questão em aberto é: existe hora certa para o arrebatamento?

O TERROR, O TERROR

Nós nos atiramos à injeção para podermos aceitar o que acontece no Brasil como normal

O que os assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes têm de diferente dos cerca de 60 mil que ocorrem todos os anos no Brasil?, perguntam as pessoas que veem exagero emocional e midiático em torno do caso. O que os assassinatos de Marielle e Anderson têm de diferente das mortes de Benjamin da Silva, 1 ano e 7 meses, de Maria Lúcia Costa e de José Roberto da Silva, ambos de 58 anos, ocorridas dois dias depois, no Alemão?, poderiam acrescentar, caso se importassem de verdade com quem não faz parte do seu círculo social imediato. A empatia atingiu a mínima histórica no Brasil desde a quarta-feira da semana passada.

Os assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes no Estácio não são essencialmente diferentes dos assassinatos de Benjamin, Maria Lúcia e José Roberto salvo, talvez, os dois terem sido dolosos e os outros, culposos, “danos colaterais” na guerra particular entre a PM e a bandidagem. Fazem todos parte de uma mesma tragédia e, como tal, devem ser todos pranteados. Aliás, era contra a morte de inocentes como Benjamin, Maria Lúcia e José Roberto que Marielle se batia, era contra as incursões truculentas ou atabalhoadas da PM nas favelas, como se há muito já não se soubesse que os traficantes usam os habitantes como escudos humanos.

Os assassinatos de Marielle, Anderson, Benjamin, Maria Lúcia e José Roberto não são diferentes das execuções de PMs, abatidos apenas por serem PMs, execuções que também não comovem quem agora vê exagero na repercussão do caso da vereadora. Assassinatos são assassinatos. Diferem somente circunstâncias e implicações. As pessoas desprovidas de empatia espalham que Marielle foi “eleita por bandidos”. Como se o PSOL fosse um fenômeno da Maré e do Alemão, como se favelado fosse bandido. Acostumamo-nos a dizer que a violência do dia a dia nos anestesiou, mas não que nós nos atiramos à injeção para podermos aceitar o que acontece no Brasil como normal.

Todo país é fundado em cima de algumas mentiras — ou mitos — reconfortantes, bonitas, capazes de unir os povos em torno de uma ideia de origem ou propósito. O Brasil incorporou fantasias europeias de paraíso terreal, onde em se plantando tudo é dado pela natureza risonha, poupada de terremotos, vulcões e furacões, onde as pessoas vivem em paz e inexiste racismo. Nada disso resiste à passagem d’olhos por noticiário ou estatística. Se você é mulher, negra, jovem e gay, terá de se esquivar de preconceitos e balas para “chegar lá”. Lá onde Marielle chegou, lá onde não a deixaram ficar muito tempo. Porque, paradoxalmente, sua presença chamava atenção para a ausência relativa de mulheres, negros, jovens e gays numa democracia que se quer representativa.

Outra das lorotas com as quais sempre gostamos de conviver é a de que aqui não há nem nunca houve terrorismo, a não ser quando o terrorismo estatal de extrema-direita e o terrorismo de grupos de extrema-esquerda se enfrentaram nos anos 1960-70. Definições acadêmicas de terrorismo não costumam ser generosas o bastante para incluir a tensão cotidiana nas comunidades escravizadas pelo tráfico de drogas e pela milícia, além de esculachadas por alguns PMs. Ao menos, elas contemplam assassinatos de políticos para lhes interromper a atuação e disseminar o medo entre os seguidores. Portanto, o assassinato de Marielle foi um atentado terrorista. Os tiros cassaram os votos dos 46.502 eleitores da quinta vereadora mais votada na segunda cidade do Brasil.

Não é o primeiro atentado terrorista desde o fim da ditadura. O ambientalista Chico Mendes (em 1988), o jornalista Tim Lopes (em 2002), a missionária Dorothy Stang (em 2005) e a juíza Patrícia Acioli (2011), por exemplo, foram mortos não só pelo que eram, seres humanos como nós, mas também pelo que simbolizavam: variadas formas pelas quais buscamos justiça. O terrorista caça símbolos. Duas torres chamadas World Trade Center, a redação do “Charlie Hebdo”, templos alheios, figuras públicas... Por ser mulher, negra, jovem, gay e socialista, Marielle representava um pacote de maiorias não reconhecidas e minorias que têm de ser respeitadas numa democracia.

Proclama-se nas vigílias que o assassinato de Marielle será um ponto de virada na luta contra a implantação definitiva de uma criminocracia no Brasil. Oxalá seja, mas o retrospecto não alimenta a esperança. Não ocorreram viradas depois dos assassinatos de Chico, Tim, Dorothy e Patrícia. “Daqui não passam!”, dissemos. Passaram. A fossa se aprofundou. Para o assassinato de Marielle marcar mesmo uma inflexão, fica também um dever de casa para os militantes identitários: encontrar o melhor modo de conciliar a justeza de suas causas progressistas com um discurso unificador, multi-identitário. Senão, o conservadorismo sempre arrebanhará as massas indecisas, por formular um discurso uniformizador, baseado em conceitos amplos e abstratos, como Pátria ou Deus.

Ó, CALCUTA

Nosso futebol tem papel importante no imaginário do Terceiro Mundo e arredores

Não ficava tão emocionado com as cores nacionais desde as manifestações de rua em 2013. Desta vez, porém, elas não estavam nas mãos e nos corpos de brasileiros exigindo transporte, saúde, educação e segurança de qualidade do Estado autocentrado, de brasileiros já denunciando a roubalheira em torno da Copa e das Olimpíadas.

Nossas cores estavam em indianos reunidos às dezenas de milhares num estádio de Calcutá, domingo passado, para assistir ao jogo entre Brasil e Alemanha, pelas quartas-de-final do Mundial Sub-17. A sua preferência era expressa na profusão de camisas da seleção, fitinhas verde-amarelas e bandeiras brasileiras improvisadas.

Assim, a nossa vitória por 2 a 1, de virada, premiou tanto a equipe que jogou bem melhor quanto os torcedores que a apoiaram o tempo todo. Já na última quarta-feira, não senti igual vibração dos amigos indianos, embora também não os tenha visto torcer em massa pela sua ex-metrópole, a Inglaterra. A verdade é que a atuação mediana da seleção brasileira não ajudou a empolgar as arquibancadas do Salt Lake Stadium.

A nossa derrota por 3 a 1 na semifinal é irrelevante. Perder é do jogo. O que deixa marcas é o como se perde. E os meninos foram dignos. Assisti a duas partidas de uma garotada que, com sorte e cabeça, pode nos dar ainda mais alegrias. Casos do vascaíno Paulinho e do palmeirense Alan. Ou Alanzinho, por causa da estatura de 1,63 metro. Ele foi comparado pelo jornal espanhol “As” a um novo Philippe Coutinho.

Depois da virada no domingo, o atacante flamenguista Lincoln foi focalizado gritando, entre palavrões adequados ao momento: “Isso aqui é Brasil!” Não, não era. Era a Índia, mas dava para entender o que ele queria dizer: os garotos representavam o melhor do futebol brasileiro, não os galalaus que levaram o 7 a 1 da Alemanha.

Não, aquele vexame jamais será vingado. Assim como ele não vingou a final da Copa de 2002, em Yokohama, ganha pelo Brasil por 2 a 0. Cada partida é disputada apenas uma vez. Não há vida além do apito final. Não há prorrogação eterna. No Mineirão, admitamos, os alemães foram até clementes conosco. O cara que meteu os dois gols deles no segundo tempo, Schürrle, devia estar fazendo pipi na hora em que o técnico Joachim Löw pediu para tirarem o pé do acelerador. Era para ter sido 5 a 1.

A minha emoção no domingo foi menos pela atuação exuberante dos meninos brasileiros e mais por ser lembrado, pelos torcedores indianos, de que, historicamente, nosso futebol desempenha um papel importante no imaginário do Terceiro Mundo e arredores. Nossos times, formados por garotos que não dispunham de transporte, saúde, educação e segurança pública decentes até eventualmente irem jogar no Primeiro Mundo, sempre forneceram a compensação possível, simbólica, pelo atraso social.

Lembrei-me do documentário “Promessas de um novo mundo”, lançado em 2001, que acompanhava crianças israelenses e palestinas. Havia um momento em que dois gêmeos liberais judeus e um menino liberal muçulmano — aparentemente os três únicos que haviam obtido autorizações familiares para se encontrar — descobriam que torciam pelo mesmo time, o Brasil, na Copa de 98, suponho. Chorei no cinema.

Lembrei-me da semifinal daquela Copa, vista pela TV num pub de bairro em Londres. Os ingleses torciam, quase todos, pela Holanda. Os imigrantes do Terceiro Mundo — indianos, paquistaneses, nigerianos, jamaicanos — torciam pelo Brasil. Uma amiga nossa dizia para a televisão coisas de enrubescer Temer no Jaburu. Felizmente, nossa amiga vinha sem legendas ou tradução simultânea. Ganhamos nos pênaltis.

Lembrei-me de uma reportagem de Pedro Bial na Guerra da Bósnia, em 1994. No meio da noite, ele e a equipe da Globo captavam o som de tiros vindos de todos os lados. Ele explicava, entretanto, que não ouvíamos um novo confronto. Era a forma de combatentes de todas as facções comemorarem a vitória do Brasil sobre a Itália, nos pênaltis, na final da Copa, na distante Califórnia. Eles atiravam para o alto.

Posso estar sendo romântico, mas não sou ingênuo. Passo adiante, sem tragar, o cachimbo do “ópio do povo”. Aqui, sim, é Brasil. Seja com a garotada sub-17, seja com a seleção do Tite, nosso futebol alegre e abusado não resolve os problemas do país, não anula a crise política e econômica, mas nos proporciona uma rara razão de orgulho.

Ou, citando um verso que o americano Allen Ginsberg escreveu num contexto diverso, ao falar de um novo namorado, “é duro comer merda, sem ter visões”.

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Alguns hão de se lembrar que “Oh! Calcutta!” era uma peça de teatro de revista, criada pelo crítico inglês Kenneth Tynan. O título não tinha nada a ver com a cidade, era um trocadilho bilíngue. A peça tratava de sexo e, mesmo no Primeiro Mundo, causou escândalo pelo elenco ficar peladão quase o tempo todo. Mas isso foi em 1969.

 
Governo do estado “não compreende a dimensão do Municipal”
RIO — Aos 108 anos incompletos, o Teatro Municipal é sobrevivente da época em que a França era a referência cultural da capital da República. O prefeito Pereira Passos desmantelou cortiços e abriu a Rio Branco inspirado na reforma do Barão Haussmann em Paris. Para o Municipal, os projetos arquitetônicos vitoriosos em concurso propunham, ambos, versões reduzidas da Ópera Garnier, também em Paris. Foram fundidos. Um era do francês Albert Guilbert, outro teria sido do filho do prefeito, Francisco de Oliveira Passos. A ideia de um palco de qualidade para o Rio, porém, nascera antes, pela pena do dramaturgo Artur Azevedo, que, pelos jornais, clamava por uma academia teatral nos moldes da Comédie-Française. Na capital francesa, é claro.

Fora isso, o Municipal nunca, nem nos melhores momentos, contou com o vigor do apoio estatal à cultura que se vê na França, sendo muitas vezes submetido à política de ocasião. Foi o caso da demissão do presidente João Guilherme Ripper, apenas para abrir espaço ao ator e peemedebista histórico Milton Gonçalves. Este, prudentemente, desistiu da ideia de administrar o teatro no quadro de um estado falido. Estado que, aliás, hoje não compreende a dimensão do Municipal. Na demissão de Ripper, o secretário de Cultura, André Lazaroni, que acabou acumulando a presidência da instituição, justificou-se com o tolo clichê da “popularização”. No preço ou na programação? E, se for este o caso, para que concorrer com os palcos comerciais?

Ao submeter funcionários à indignidade dos salários atrasados e frequentadores à inatividade parcial da sua casa, o mesmo estado que desdenha do Municipal promove, involuntariamente, um espetáculo tocante como o que ontem foi visto nas escadarias da Cinelândia. Arte de qualidade, atemporal, para o povo reunido em praça pública. Não há cidade no mundo que possa abrir mão de um teatro com a história do Municipal, história pela qual passaram, entre tantos outros, Villa-Lobos, Stravinsky, Bidu Sayão, Maria Callas e Vaslav Nijinski. A não ser se quiser sapatear na própria autoestima.
 
 
Nossos políticos são quase todos farinha do mesmo saco. Ou melhor, cimento do mesmo saco
Era uma manhã como esta, final de ano, há mais de três décadas. Também fazia calor, embora muito menos do que faz hoje.
Estávamos uns oito ou nove espremidos à sombra da Barraca do Baixinho, bebendo cerveja para comemorar a chegada de um Ano Novo qualquer. Ao sol, grupos de umbandistas já organizavam a homenagem a Iemanjá. A horas tantas, bêbado da pieguice comum a todos os finais de ano, um de nós propôs um brinde: “Aos amigos! Porque as mulheres passam, e os amigos ficam!”

Era bravata de machos jovens. Se três ali tivessem namoradas fixas seria muito. A maior parte de nós apenas via o mulherio passar mesmo. Não tínhamos como saber que amigos também passam. Eles mudam, eles se mudam, nós mudamos, nós nos mudamos. Hoje, ainda encontro dois parceiros da turma de praia e troco e-mails com outro, que mora em Salvador. Mas era genuíno o desejo de que continuássemos sendo amigos, independentemente do que nos acontecesse na vida.

Olho para 2016 e penso naqueles jovens suarentos de Copacabana. Talvez nada de tão ruim tenha acontecido ao Brasil neste ano quanto o fim de longas amizades devido à polarização. A crise econômica irá arrefecer cedo ou tarde (tarde). A falta de confiança nas instituições políticas também vai decrescer cedo ou tarde (mais tarde). Não se sabe, porém, se as pessoas que cortaram relações e bloquearam amigos no Facebook só por eles terem opiniões diferentes das suas um dia voltarão a se falar.

Acho triste. Não porque eu conserve a crença pueril na eternidade das amizades. Há inúmeras razões para que amigos se afastem, inclusive razão nenhuma, mas não por causa de política. Não vale a pena. O sujeito que votou na Dilma rompe com o sujeito que votou no Aécio. Ou vice-versa. Aí, numa pausa do impeachment no Senado, um fotógrafo registra Dilma, Aécio e José Eduardo Cardozo rindo juntos. Passa-se um tempo e outra foto mostra Aécio e Sérgio Moro às gargalhadas. Como ri o Aécio!

Para quem se lembrava dos embates entre Lula e Collor e depois testemunhou Lula e Collor aliados, não existe opção senão o ceticismo diante das coreografias do poder. Inimigos figadais nos trabalhos da tarde, amigos de infância nos trabalhos da noite. Quiçá seja do jogo, aquele papo de a política ser igual às nuvens no céu, uma hora você olha e elas estão assim, outra hora você olha e elas estão assado. Então, por que comprometer boas amizades por causa dos princípios de quem não os tem?

A própria ideia de que há uma polarização no Brasil me parece meio furada. Entre os eleitores, certamente. Entre os políticos, definitivamente não. Pegue-se, por exemplo, a ideia de um golpe em 2016. Primeiro, ela é incorreta. Pode-se chamar o que houve de rasteira, traição, sacanagem ou até de putaria, mas não de golpe. A lei foi seguida, ninguém se viu calado ou preso, Dilma não perdeu os direitos políticos (a única coisa inconstitucional no rito). Segundo, não é só ao PT que a palavra golpe serve de cortina de fumaça para os crimes fiscais que ajudaram a ferrar a economia do país. Ela também ajuda bastante o PMDB, porque insinua uma oposição sua que nunca existiu ao vilipendiado PT. O que houve foi uma luta pelo poder dentro do Consórcio Brasília. Os acordos da Odebrecht fornecerão fartas evidências complementares de que os nossos políticos são quase todos farinha do mesmo saco. Ou melhor, cimento do mesmo saco.

Pegue-se Renan Calheiros. Fez parte da tropa de choque de Collor, foi ministro da Justiça de Fernando Henrique, chapa de Lula, aliado de Dilma até o último minuto. Na hora em que ele encarou o Supremo, intercederam a seu favor Temer, FH e Sarney, e o Supremo piscou. Embora almeje uma independência constitucional, o tribunal está sujeito aos humores políticos de cada um de seus membros. No entanto, não conheço ninguém que tenha rompido com ninguém por causa de Gilmar Mendes ou Dias Toffoli.

Houve amigos brigando não só porque apoiavam ou esta ou aquela facção como patrulhando os que se recusavam a apoiar qualquer facção. Movida pela indignação seletiva, a caça ao “isentão” soava agressiva, mas era apenas ingênua ao aceitar a ideia de um conflito essencial dentro da classe política. Há quem seja progressista e há quem seja conservador, ótimo, é a democracia. Contudo, a volúpia pelo poder faz com que os eleitores engulam uma gororoba amorfa. Vide a chapa PT-PMDB. Ou PSDB-DEM. O objetivo primordial da política se torna continuar fazendo política. Fenômenos variados — de Trump a João Dória, do Brexit ao Podemos — sinalizam a atual ojeriza ao “sistema”. O que, claro, configura outra forma de política, não necessariamente melhor.

Por isso, minha porção Pollyanna (dois centímetros, em repouso) deseja que grupos de adultos suarentos reunidos na nossa grande praia metafórica assim brindem a 2017: “Aos amigos! Porque os políticos passam, e os amigos ficam!”

Autor(a): Arthur Dapieve
Fonte: oglobo.globo.com/cultura/proibido-aplaudir-no-municipal-23006306
Colaborador(a): Maria de Lourdes

 

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