Logomarca Velhos Amigos
LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

ARTUR XEXÉO
publicado em: 26/10/2016 por: Lou Micaldas

O CASO DO ANEL DE 200 MIL EUROS
 
Que tipo de gente não vê problema em ser governador do estado e incluir entre seus melhores amigos empresários com interesses em obras do governo?
 
Os últimos dias foram animados para quem busca assuntos para uma coluna semanal. Teve, por exemplo, o prêmio Nobel de Literatura para Bob Dylan, que, além de ser polêmico em si, tornou-se mais polêmico ainda com a aparente indiferença do cantor e compositor em receber a deferência. Desde que foi anunciado o prêmio, nem a Academia Sueca conseguiu entrar em contato com Dylan. O sujeito não deu as caras nem para recusar a honraria. Mais polêmico que isso, só o Verissimo revelando que, se é para abrir para letristas de música popular, Bruce Springsteen é mais merecedor. Mas não foi o Nobel de Dylan minha notícia preferida da semana.
 
Teve também a prisão de Eduardo Cunha. Sei que todo o país ficou satisfeito com o fato. Mas eu, particularmente, fiquei feliz ao perceber que os lulopetistas têm menos um argumento para bancarem as vítimas dizendo que são perseguidos pela Operação Lava-Jato. A prisão de Cunha era esperada, mas teve consequências que renderiam uma coluna. Uma delas foi a visita que sua esposa, Claudia Cruz, lhe fez na sexta-feira. De óculos escuros e vestindo preto da cabeça aos pés, Claudia deixou em seu rastro uma pergunta que não quer calar: está de luto? O cardápio de Cunha atrás das grades também renderia uma coluna. Não me refiro à quentinha de arroz, feijão, frango e salada que a Polícia Federal ofereceu em sua primeira noite no cárcere, mas às cinco caixas de macarrão instantâneo que seus advogados lhe levaram para ele escapar da dieta carcerária. Vem cá, quem come cinco caixas de macarrão instantâneo? Faz até mal. Vai ver que é por isso que Claudia Cruz está adiantando o luto. Mas Eduardo Cunha também não é meu personagem da semana.
 
Quem acompanha esta coluna sabe que, antes mesmo de passar uma temporada dormindo, eu perguntava por onde andava o ex-governador Sérgio Cabral Filho. A ausência de Cabral das páginas de jornal dava a impressão de que ele não tinha nada a ver, por exemplo, com a falência do Estado do Rio. E todo mundo sabe que, para as finanças do estado chegarem até onde chegaram, os problemas de gestão não podem ter começado com Pezão ou Dornelles. Tudo começou com Cabral. Mesmo assim, o ex-governador desapareceu do noticiário que constatava a penúria dos hospitais, o atraso nos pagamentos dos funcionários públicos, ou a decadência das escolas estaduais. Mas Cabral, enfim, ressurgiu, como estrela, no noticiário de quinta-feira. Foi O GLOBO quem o recuperou do ostracismo revelando o escandaloso caso do anel de 200 mil euros. Ainda não é uma prova cabal da má gestão que levou o estado à ruína. Mas é uma evidência da maneira pouco séria com que Sérgio Cabral nos governava. E motivo para ser meu assunto da semana.
 
Num primeiro momento, Cabral comportou-se como costumam se comportar nossos políticos quando são pegos em flagrante. Não tinha nada a declarar, não comentaria um fato que desconhecia, quem sabe amanhã ninguém se lembrará mais disso. Mas a denúncia do empresário Fernando Cavendish era forte demais. Ele não só afirmava que, a mando de Cabral, comprou em Mônaco o tal anel de 200 mil euros para ser dado para a então primeira-dama Adriana Ancelmo, como tinha como prova a nota fiscal da compra e a comprovação da despesa em seu cartão de crédito. Na sexta, Cabral mudou de tática. O anel teria sido um presente de aniversário de Cavendish para sua esposa. Ele não sabia o valor do mimo e nem passou pela sua cabeça perguntar quanto custara. As duas versões deixam o ex-governador muito mal.
 
Na primeira, ele é um achacador que se aproveita da proximidade com um empreiteiro para adquirir um bem de valor, deixando claro que o amigo será recompensado com a concessão de obras do governo. Na segunda, aceita um presente com embalagem da Van Cleef & Arpels, certamente uma das joalherias mais caras do mundo, se não for a mais cara, sem se questionar se isso seria ético. E ainda tem a cara de pau de dizer que não fazia ideia do valor do presente.
 
Há outro fator que derruba o ex-governador nesse episódio. Afinal, que tipo de gente compra anéis de 200 mil euros? Que tipo de gente se dedica tanto à ostentação? Que tipo de gente não vê problema em ser governador do estado e incluir entre seus melhores amigos empresários com interesses em obras do governo? Para encerrar a questão: o imbróglio, além de levantar a suspeita de corrupção em seu governo, prova de modo cabal como Sérgio Cabral Filho é cafona.

Autor(a): Artur Xexéo
Colaborador(a): Valdir Quirino

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA