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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

CORA RÓNAI
publicado em: 27/12/2016 por: Lou Micaldas

PALAVRAS DE DESPREZO E DE AMOR
A CAMINHO DO BREJO

 

PALAVRAS DE DESPREZO E DE AMOR

Temer acredita que tudo o que precisa fazer para agradar uma mulher é abrir a porta do carro com condescendência

Sim, eu sei — o Dia Internacional da Mulher foi na semana passada e está tão longe que dá para ver os dinossauros trotando no calendário. Mas a minha coluna já estava escrita, e provavelmente impressa, quando o presidente Temer veio a público nos cumprimentar por cuidarmos tão bem dos filhos. Extravasei no Facebook, que, como diz um amigo, é a maior UTI de todas, mas ainda estou com a indignação entalada na garganta. Uma coisa é o tiozinho idiota da família fazer observações infelizes durante o churrasco de sábado; outra é o presidente arrotar a sua mentalidade vitoriana urbi et orbi.

“Ah, não é para tanto, ele estava só fazendo um elogio à maneira dele!”, exclamou alguém por lá.

Mas esta é, justamente, a pior parte: a sua maneira. Temer é o que há de retrógrado na política e na sociedade, um homem que parou no tempo e que acredita que tudo o que precisa fazer para agradar uma mulher é abrir a porta do carro com condescendência. Ouvir ofensas de alguém que sequer se dá conta de que está ofendendo é duplamente ofensivo.

“É só uma questão geracional”, escreveu mais alguém. “Seu pai e seu avô não diriam a mesma coisa?”

Não. Nem meu pai, nascido em 1907, nem meu avô, nascido em 1891, diriam a mesma coisa. Ambos tinham plena consciência de que homens e mulheres têm o mesmo potencial e ambos criaram filhas para enfrentar o mundo, não para ir ao supermercado.

O pior é que nem posso dizer que tenha ficado surpresa com as palavras de Temer. Ele seguiu à risca o script que se adivinha na sua figura anacrônica. Também não posso dizer que esperava mais inteligência ou astúcia da sua parte. Uma pessoa inteligente não aceitaria ser vice de Dilma Rousseff.

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Na internet, muitas pessoas atribuíram o desastre a uma falha na assessoria, que ou teria errado no tom, ou não teria aconselhado corretamente o presidente. Temer, dizem, foi “mal assessorado”. Desculpa clássica — e furada. Assessorias assessoram nos detalhes, não na essência.

Temer é o seu discurso: basta olhar para ele e para a maneira como se conduz.

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A única coisa positiva dessa história toda é que o discurso foi tão caricato e tão universalmente criticado que talvez tenha servido pelo exemplo inverso, mostrando aos idiotas como não se deve pensar — e muito menos falar — no ano de 2017.

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“Ah, então você quer os discursos da Dilma?”

Não, não quero.

Eu quero um presidente que consiga fazer um discurso bom, bem pensado e bem escrito, compreensível, sem demagogia, sem incitações ao ódio, sem erros de português ou de raciocínio; um presidente que saiba se comunicar e, sobretudo, que tenha o que comunicar.

A maneira como as pessoas falam denota o que elas pensam, o que elas são.

Não há um político nesse país, ou talvez haja uma meia dúzia, mas quase nenhum em cargo elevado, que eu consiga ouvir sem perceber o populismo, o pensamento tacanho, a má-fé, a falta de cultura, de patriotismo e de ideias, o desprezo mais absoluto pela inteligência dos cidadãos.

Cada vez que um político abre a boca, eu me sinto insultada.

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O Facebook é um caldeirão de confusão e de intolerância, uma terra de ninguém onde se lê muita bobagem e onde, com frequência, é fácil perder a fé na Humanidade. Às vezes, porém, a gente encontra momentos de genuína beleza, e todas as horas perdidas se justificam. Foi o que me aconteceu no domingo, quando li o que a Luciana Barreiro Bastos Arnaud escreveu:

“Anteontem eu caminhava na rua aqui perto de casa e vi meu marido do outro lado voltando do trabalho. Eu estava toda fogueteira indo encontrar amigas para um chope de happy hour. Me entristeci com o que captei da imagem dele. Ele estava com fones no ouvido, os passos largos de sempre, mas a cabeça baixa e o movimento corporal me pareceram evidência incontestável de que carregava um mundo pesado demais nas costas.

Esta rua na qual caminhávamos tem um pequeno canal no meio. Não dava pra atravessar. Gritei: ‘Juuuu, Julio Céeeesar’. Nada. Gritei mais alto, acenei gritando mais, gritei de novo, até que ele levantou a cabeça, olhou na minha direção e quando me viu abriu o sorriso lindo de sempre. Todo o corpo dele mudou. Eu vi. Naquele instante ele largou o tal peso nas costas que eu avistara antes.

‘Vou ali encontrar as meninas’, eu disse. Ele mostrou uma sacola das Lojas Americanas e falou: ‘Comprei copos’. Retruquei: ‘Os meninos estão todos em casa’. Ficamos nos olhando por breves segundos, e eu gritei um dos ‘eu te amo’ mais gostosos da minha vida.

Hoje fazemos 23 anos de casados. Um mundo feito de tanto, mas tanto bem-querer em meio aos desafios da vida que é quase impossível descrever.

Bora, meu Ju, bora pra novidade que será nossa vida daqui pra frente sem o pior do ‘peso nas costas’, e com todo nosso amor. Te amo demais, Júlio Arnaud.”

 

A CAMINHO DO BREJO

A sociedade dá de ombros, vencida pela inércia

Um país não vai para o brejo de um momento para o outro — como se viesse andando na estradinha, qual vaca, cruzasse uma cancela e, de repente, saísse do barro firme e embrenhasse pela lama. Um país vai para o brejo aos poucos, construindo a sua desgraça ponto por ponto, um tanto de corrupção aqui, um tanto de demagogia ali, safadeza e impunidade de mãos dadas. Há sinais constantes de perigo, há abundantes evidências de crime por toda a parte, mas a sociedade dá de ombros, vencida pela inércia e pela audácia dos canalhas.

Aquelas alegres viagens do então governador Sérgio Cabral, por exemplo, aquele constante ir e vir de helicópteros. Aquela paixão do Lula pelos jatinhos. Aquelas comitivas imensas da Dilma, hospedando-se em hotéis de luxo. Aquele aeroporto do Aécio, tão bem localizado. Aqueles jantares do Cunha. Aqueles planos de saúde, aqueles auxílios moradia, aqueles carros oficiais. Aquelas frotas sempre renovadas, sem que se saiba direito o que acontece com as antigas. Aqueles votos secretos. Aquelas verbas para “exercício do mandato”. Aquelas obras que não acabam nunca. Aqueles estádios da Copa. Aqueles superfaturamentos. Aquelas residências oficiais. Aquelas ajudas de custo. Aquelas aposentadorias. Aquelas vigas da perimetral. Aquelas diretorias da Petrobras.

A lista não acaba.
Um país vai para o brejo quando políticos lutam por cargos em secretarias e ministérios não porque tenham qualquer relação com a área, mas porque secretarias e ministérios têm verbas — e isso é noticiado como fato corriqueiro da vida pública.

Um país vai para o brejo quando representantes do povo deixam de ser povo assim que são eleitos, quando se criam castas intocáveis no serviço público, quando esses brâmanes acreditam que não precisam prestar contas a ninguém — e isso é aceito como normal por todo mundo.

Um país vai para o brejo quando as suas escolas e os seus hospitais públicos são igualmente ruins, e quando os seus cidadãos perdem a segurança para andar nas ruas, seja por medo de bandido, seja por medo de polícia.
Um país vai para o brejo quando não protege os seus cidadãos, não paga aos seus servidores, esfola quem tem contracheque e dá isenção fiscal a quem não precisa.

Um país vai para o brejo quando os seus poderosos têm direito a foro privilegiado.

Um país vai para o brejo quando se divide, e quando os seus habitantes passam a se odiar uns aos outros; um país vai para o brejo quando despenca nos índices de educação, mas a sua população nem repara porque está muito ocupada se ofendendo mutuamente nas redes sociais.
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O Brasil caminha firme em direção ao brejo há muitas e muitas luas, mas um passo decisivo nessa direção foi dado quando Juscelino construiu Brasília, aquela farra para as empreiteiras, e quando parlamentares e funcionários públicos em geral ganharam privilégios inéditos em troca do “sacrifício” da mudança para lá.
Brasília criou um fosso entre a nomenklatura e os cidadãos comuns. A elite mora com a elite, convive com a elite e janta com a elite, sem vista para o Brasil. Os tempos épicos do faroeste acabaram há décadas, mas os privilégios foram mantidos, ampliados e replicados pelos estados. De todas as heranças malditas que nos deixaram, essa é a pior de todas.
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Acho que está rolando uma leve incompreensão dos reais motivos de mobilização da população em alguns setores. Eles parecem acreditar que o MBL e o Vem Pra Rua falam pelos manifestantes, ou têm algum significado político, quando, na verdade, esses movimentos funcionam mais como agentes de mobilização — afinal, alguém precisa marcar uma data e um horário, ou nenhuma manifestação acontece.

A maioria das pessoas que foi às ruas está pouco se lixando para eles. Seu alvo primordial é gritar contra a corrupção, a sordidez que rege a vida política brasileira, a bagunça geral que toma conta do país. Seu principal recado é o apoio à Lava-Jato, que parece ser a única coisa que funciona num cenário em que o resto se desmancha.

Se ninguém fez muita questão de gritar #ForaTemer nos protestos de domingo passado, isso talvez se deva menos a palavras de ordem vindas de carros de som do que a dois fatos bastante simples. O primeiro é que está implícita na insatisfação popular a insatisfação com Temer, e naquele momento parecia mais urgente responder aos insultos do Congresso; o segundo é que há uma resistência natural a se usar uma palavra de ordem criada pelo “outro lado”, pela turma que acredita na narrativa do golpe.
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Gilmar Mendes disse que a decisão de Marco Aurélio Mello de afastar Renan da mesa do Senado é “indecente”. Não, ministro. Pode ser qualquer outra coisa, mas indecente não é. Indecente é um homem como Renan Calheiros ocupar a mesa do Senado. Aliás, indecente é um homem como Renan Calheiros, que já renunciou ao mandato para não ser cassado e tem mais prontuário do que biografia.
Com todo o respeito, ministro, o senhor precisa rever as suas prioridades e dar um trato nos seus adjetivos.

Autor(a): Cora Rónai
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): Lika Dutra

 

 

 

 

 

 


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