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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

CORA RÓNAI
publicado em: 27/12/2016 por: Lou Micaldas

ESTAMOS FRITOS
A CULPA É DA IMPRENSA
PALAVRAS DE DESPREZO E DE AMOR
A CAMINHO DO BREJO

 

ESTAMOS FRITOS

Um dia, uma lei idiota e aparentemente inofensiva; no outro, um episódio de censura; no terceiro, pessoas apedrejadas

Houve um tempo em que o Egito era um país quase ocidental em relação aos costumes. Bebida era servida livremente em todos os lugares, e não se via uma única mulher de véu pela rua. Niqabs, hijabs e burcas eram coisa do passado, de um tempo em que elas viviam escondidas nos haréns e não tinham qualquer participação na vida social e política do país. Fotos dos anos 50 e 60 mostram essa sociedade laica misturando-se aos turistas, bebendo nos cafés, pertindo-se em público; romances da época falam de uma cidade do Cairo efervescente e cosmopolita.

No Egito que visitei há uns três ou quatro anos, as únicas mulheres sem véu eram turistas, e a venda de álcool só era permitida — pelo menos oficialmente — em hotéis e alguns restaurantes. Na Biblioteca de Alexandria, cuja nova encarnação é, sem dúvida, uma das maravilhas do mundo, vasto templo de sabedoria com obras do mundo inteiro, é comum encontrar estudantes cobertas dos pés à cabeça, usando luvas pretas até nas mãos com que viram as páginas dos livros e manipulam o mouse dos computadores.

Hoje é tão difícil imaginar o Egito laico de 50 anos atrás quanto é difícil imaginar o Egito dos faraós. Os dois parecem irremediavelmente perdidos no tempo. Como explicar que, em menos de 50 anos, um país tenha mudado tanto?

Tenho a impressão de que lá aconteceu o mesmo que começa a acontecer no Brasil. Um dia, uma lei idiota e aparentemente inofensiva; no outro, um pequeno episódio de censura; no terceiro, pessoas apedrejadas porque estão sem véu. Religiosos defendem as suas crenças enviesadas, conservadores apoiam porque o mundo está perdido e antigamente era melhor — o mundo está sempre perdido para eles, antigamente era sempre melhor. A sociedade liberal reage um pouco, algumas vozes se erguem aqui e acolá, mas para que brigar por causa de um pedaço de papel ou de pano?

Quando a gente acorda, está andando de burca na rua.

Aqui tivemos, em rápida sucessão, o encerramento de uma exposição, a apreensão de quadros pela polícia a mando de deputados, a censura de uma peça por ferir suscetibilidades.

“Ah, a direita hidrófoba!”

Não seja por isso.

Já tivemos, e não faz muito tempo, uma outra peça, retirada de cartaz por ferir outras suscetibilidades. Já tivemos uma moça linchada na internet por usar turbante. Já tivemos uma blogueira impedida de falar por militantes que por pouco não a atacaram fisicamente.

Estamos involuindo à velocidade da luz. Há estupidez para todos os gostos, em todos os quadrantes. Só na última semana, traficantes evangélicos invadiram terreiros, apontaram armas para mães e pais de santo e ordenaram que quebrassem tudo; um juiz federal concedeu uma liminar permitindo a realização de terapias de reorientação sexual; e uma comissão da Câmara dos Deputados se propôs a mudar a Constituição e proibir todos os tipos de aborto, inclusive em casos de estupro ou de fetos anencefálicos.

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Nós tivemos, durante 13 anos, um governo que se dizia de esquerda, e que se dizia muito preocupado com uma agenda supostamente progressista: o presidente mais popular de todos os tempos, o verdadeiro cara, uma presidenta coração valente guerreira do povo brasileiro mulher mulher mulher blablablá. Nenhum desses heróis teve a coragem de sequer pronunciar a palavra “aborto”. Ao contrário, ambos se aliaram sem qualquer pudor à bancada da Bíblia, frequentaram templos, fizeram discursos pseudorreligiosos que contrariavam as suas próprias crenças.

Quem tem uma esquerda assim não precisa de direita.

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Li que a Vigilância Sanitária destruiu 610 quilos de alimentos no Rock in Rio. Seiscentos e dez quilos. Há alguma coisa muito errada quando mais de meia tonelada de comida vai para o lixo num evento que, afinal, não é feito por amadores. Não dá para acreditar que tantas empresas e chefs sérios, que têm nomes a zelar, tenham levado tanta comida ruim para uma vitrine desse tamanho. Acho que fiscalização é muito importante, mas bom senso é ainda mais. Essa proporção de desperdício não fala contra os restaurantes; fala contra a fiscalização e contra a lei.

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A cozinha da Roberta Sudbrack não seria a cozinha da Roberta Sudbrack sem produtos artesanais, feitos por pequenos produtores. Ela é uma campeã dos sabores brasileiros, da comida feita com atenção e inteligência, do resgate de coisas nossas que estão se perdendo no mundo da grande indústria e da larga escala. Há outros chefs trilhando o mesmo caminho, com menor ou maior sucesso, vários até por influência dela.

E aí chegamos ao impasse. A lei exige o selo do SIF, e, enquanto a lei não mudar, o selo do SIF será necessário — mas os pequenos produtores, que trabalham em escala artesanal e que são a alma de uma gastronomia genuinamente nacional, simplesmente não conseguem o raio do selo do SIF. Vamos deixar de consumir o que fazem? Vamos deixar os muitos sabores do Brasil presos nessa roda de eterna burocracia?

Dura lex, sed lex. Mas será que já não passou da hora de se repensar a lex?

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No meio dessa semana absurda e deprimente, só faltava mesmo aparecer um general falando em golpe. O último general Mourão de que eu me lembro entrou para a História como A Vaca Fardada.

A CULPA É DA IMPRENSA

Prefiro mil vezes os erros e as falhas de uma imprensa atuante, que bota a boca no trombone, ao silêncio servil que as ditaduras e os canalhas tanto amam.

Não há “piores momentos”. Todos são piores momentos, todos revelam como e por que chegamos tão baixo, como se venderam as nossas ilusões e se desfizeram os nossos sonhos. Todos mostram como o nosso esforço foi para nada, como os nossos impostos só serviram para saciar a sede de — mas de que mesmo? de badulaques? de futilidades? de viagens em jatinhos? de hotéis de luxo? — que moveram os criminosos que mandam no país. Mas talvez o pior dos piores, o mais acintoso, o mais repulsivo, seja aquele momento em que Emílio Odebrecht abre o seu coração num lampejo de mágoa:

“O que nós temos no Brasil não é um negócio de cinco anos, dez anos atrás” — diz o dono da lama toda. “Nós estamos falando de 30 anos atrás. Tudo o que está acontecendo é um negócio institucionalizado. Era uma coisa normal. O que me surpreende é quando eu vejo todos esses poderes, a imprensa, tudo realmente como se isso fosse uma surpresa. Olhe, me incomoda isso. A imprensa toda sabia que o que acontecia era isso. Por que agora estão fazendo tudo isso? Por que não fizeram isso há dez, 15, 20 anos atrás?”

Como se vê, a culpa, mais uma vez, é da imprensa. É uma conversa bem conhecida essa, compartilhada universalmente por bandidos de todos os quadrantes do espectro político, que acham que imprensa boa é imprensa morta. Mate-se a imprensa pelo que se diz que faz, e mate-se pelo que se diz que não faz.

“Olhe, me incomoda isso.”

Pois a mim o que me incomoda é o cinismo, a cara dura, a desfaçatez. O que me incomoda é a sua risada asquerosa, Emílio Odebrecht, a sua vilania, a sua falta de humanidade; o que me incomoda é a sua alma podre.

Para além do incômodo, me revoltam os seus crimes, me revolta imaginar quantas pessoas morreram pelo hospital que não houve, pela comida que não chegou à mesa; me revolta saber quantas gerações deixaram de se educar nos 30 anos açambarcados pela sua sordidez.
“Revolta”, aliás, nem começa a definir o que eu sinto.

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A imprensa isso, a imprensa aquilo.

Não aguento mais isso.

Eu sei, a imprensa não é perfeita. Errou e erra muito, sempre, como erram todos os seres vivos. Tem falhas enormes. Imensas.

Mas eu prefiro mil vezes os erros e as falhas de uma imprensa atuante, que bota a boca no trombone, ao silêncio servil que as ditaduras e os canalhas tanto amam.

E, ao contrário de Emílio Odebrecht e dos seus miquinhos amestrados que se multiplicam pela internet, eu me lembro de centenas de editoriais, matérias e colunas denunciando a corrupção ao longo dos anos, quase uma categoria jornalística em si mesma. Também me lembro dos desmentidos veementes dos políticos e dos incontáveis processos que moveram contra jornalistas, assim como não me esqueço da intensa campanha de demonização da mídia promovida pelo PT desde que chegou ao poder, e da sua obsessão com a “regulação dos meios de comunicação”, um eufemismo “progressista” para censura.

Dito tudo isso, a verdade é que, ainda que existisse uma percepção nítida de que estávamos cercados de ladrões, ninguém tinha a mais pálida noção das dimensões que a corrupção havia tomado. E ninguém tinha a mais pálida noção porque essas dimensões não eram imagináveis. Não era possível, nem para a fantasia mais delirante, perceber a que ponto o país estava contaminado.

Quem não manifestou surpresa diante das delações ou não é humano, ou estava por dentro do esquema.

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Um leitor me mandou, por esses dias, uma coluna antiga de que já havia me esquecido, e que escrevi motivada pela declaração de rendimentos que tinha acabado de preencher. Por acaso, ela se mostrou oportuna: eu sabia, como todos nós que temos olhos para ver sabíamos, que aquele dinheiro ia para o ralo, para a composição de um cenário de crescimento que não era real, para a manutenção de mordomias tão desnecessárias quanto ofensivas em todas as instâncias do poder.

“Ao longo do ano, somos constantemente provocados pelas autoridades federais, estaduais e municipais, que tratam o nosso dinheiro como papel higiênico usado. É superfaturamento de obra, ministério inútil, hotel de luxo em Roma, merenda escolar que vai para o lixo, aparelho hospitalar que apodrece sem sair da embalagem, auxílio moradia com dez anos de retroatividade para juízes sem teto, demolição de equipamentos esportivos recém-construídos — a lista não acaba nunca e desafia a imaginação mais pervertida”, dizia a coluna, que assinaria hoje como assinei em maio de 2013, sem mudar uma vírgula.

O engraçado é que, uma semana depois, um rico colunista da “Carta Capital” usou o seu espaço para me acusar de ser uma burguesa elitista sem compromisso com o Fabuloso Brasil de Lula & Dilma. Foi aí que, para minha surpresa, descobri que reclamar do destino dado ao dinheiro público não é coisa de gente bacana — gente bacana não liga para a corrupção, desde que aquele dinheiro esteja sendo roubado do lado certo.

A gente aprende as coisas das formas mais inusitadas.

Agora só me falta mesmo entender como é que a Receita, tão atenta aos centavos dos cidadãos comuns e tão zelosa em multá-los aos menores erros, deixou de ver as montanhas de recursos ilícitos movimentadas debaixo do seu nariz.

PALAVRAS DE DESPREZO E DE AMOR

Temer acredita que tudo o que precisa fazer para agradar uma mulher é abrir a porta do carro com condescendência

Sim, eu sei — o Dia Internacional da Mulher foi na semana passada e está tão longe que dá para ver os dinossauros trotando no calendário. Mas a minha coluna já estava escrita, e provavelmente impressa, quando o presidente Temer veio a público nos cumprimentar por cuidarmos tão bem dos filhos. Extravasei no Facebook, que, como diz um amigo, é a maior UTI de todas, mas ainda estou com a indignação entalada na garganta. Uma coisa é o tiozinho idiota da família fazer observações infelizes durante o churrasco de sábado; outra é o presidente arrotar a sua mentalidade vitoriana urbi et orbi.

“Ah, não é para tanto, ele estava só fazendo um elogio à maneira dele!”, exclamou alguém por lá.

Mas esta é, justamente, a pior parte: a sua maneira. Temer é o que há de retrógrado na política e na sociedade, um homem que parou no tempo e que acredita que tudo o que precisa fazer para agradar uma mulher é abrir a porta do carro com condescendência. Ouvir ofensas de alguém que sequer se dá conta de que está ofendendo é duplamente ofensivo.

“É só uma questão geracional”, escreveu mais alguém. “Seu pai e seu avô não diriam a mesma coisa?”

Não. Nem meu pai, nascido em 1907, nem meu avô, nascido em 1891, diriam a mesma coisa. Ambos tinham plena consciência de que homens e mulheres têm o mesmo potencial e ambos criaram filhas para enfrentar o mundo, não para ir ao supermercado.

O pior é que nem posso dizer que tenha ficado surpresa com as palavras de Temer. Ele seguiu à risca o script que se apinha na sua figura anacrônica. Também não posso dizer que esperava mais inteligência ou astúcia da sua parte. Uma pessoa inteligente não aceitaria ser vice de Dilma Rousseff.

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Na internet, muitas pessoas atribuíram o desastre a uma falha na assessoria, que ou teria errado no tom, ou não teria aconselhado corretamente o presidente. Temer, dizem, foi “mal assessorado”. Desculpa clássica — e furada. Assessorias assessoram nos detalhes, não na essência.

Temer é o seu discurso: basta olhar para ele e para a maneira como se conduz.

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A única coisa positiva dessa história toda é que o discurso foi tão caricato e tão universalmente criticado que talvez tenha servido pelo exemplo inverso, mostrando aos idiotas como não se deve pensar — e muito menos falar — no ano de 2017.

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“Ah, então você quer os discursos da Dilma?”

Não, não quero.

Eu quero um presidente que consiga fazer um discurso bom, bem pensado e bem escrito, compreensível, sem demagogia, sem incitações ao ódio, sem erros de português ou de raciocínio; um presidente que saiba se comunicar e, sobretudo, que tenha o que comunicar.

A maneira como as pessoas falam denota o que elas pensam, o que elas são.

Não há um político nesse país, ou talvez haja uma meia dúzia, mas quase nenhum em cargo elevado, que eu consiga ouvir sem perceber o populismo, o pensamento tacanho, a má-fé, a falta de cultura, de patriotismo e de ideias, o desprezo mais absoluto pela inteligência dos cidadãos.

Cada vez que um político abre a boca, eu me sinto insultada.

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O Facebook é um caldeirão de confusão e de intolerância, uma terra de ninguém onde se lê muita bobagem e onde, com frequência, é fácil perder a fé na Humanidade. Às vezes, porém, a gente encontra momentos de genuína beleza, e todas as horas perdidas se justificam. Foi o que me aconteceu no domingo, quando li o que a Luciana Barreiro Bastos Arnaud escreveu:

“Anteontem eu caminhava na rua aqui perto de casa e vi meu marido do outro lado voltando do trabalho. Eu estava toda fogueteira indo encontrar amigas para um chope de happy hour. Me entristeci com o que captei da imagem dele. Ele estava com fones no ouvido, os passos largos de sempre, mas a cabeça baixa e o movimento corporal me pareceram evidência incontestável de que carregava um mundo pesado demais nas costas.

Esta rua na qual caminhávamos tem um pequeno canal no meio. Não dava pra atravessar. Gritei: ‘Juuuu, Julio Céeeesar’. Nada. Gritei mais alto, acenei gritando mais, gritei de novo, até que ele levantou a cabeça, olhou na minha direção e quando me viu abriu o sorriso lindo de sempre. Todo o corpo dele mudou. Eu vi. Naquele instante ele largou o tal peso nas costas que eu avistara antes.

‘Vou ali encontrar as meninas’, eu disse. Ele mostrou uma sacola das Lojas Americanas e falou: ‘Comprei copos’. Retruquei: ‘Os meninos estão todos em casa’. Ficamos nos olhando por breves segundos, e eu gritei um dos ‘eu te amo’ mais gostosos da minha vida.

Hoje fazemos 23 anos de casados. Um mundo feito de tanto, mas tanto bem-querer em meio aos desafios da vida que é quase impossível descrever.

Bora, meu Ju, bora pra novidade que será nossa vida daqui pra frente sem o pior do ‘peso nas costas’, e com todo nosso amor. Te amo demais, Júlio Arnaud.”

 

A CAMINHO DO BREJO

A sociedade dá de ombros, vencida pela inércia

Um país não vai para o brejo de um momento para o outro — como se viesse andando na estradinha, qual vaca, cruzasse uma cancela e, de repente, saísse do barro firme e embrenhasse pela lama. Um país vai para o brejo aos poucos, construindo a sua desgraça ponto por ponto, um tanto de corrupção aqui, um tanto de demagogia ali, safadeza e impunidade de mãos dadas. Há sinais constantes de perigo, há abundantes evidências de crime por toda a parte, mas a sociedade dá de ombros, vencida pela inércia e pela audácia dos canalhas.

Aquelas alegres viagens do então governador Sérgio Cabral, por exemplo, aquele constante ir e vir de helicópteros. Aquela paixão do Lula pelos jatinhos. Aquelas comitivas imensas da Dilma, hospedando-se em hotéis de luxo. Aquele aeroporto do Aécio, tão bem localizado. Aqueles jantares do Cunha. Aqueles planos de saúde, aqueles auxílios moradia, aqueles carros oficiais. Aquelas frotas sempre renovadas, sem que se saiba direito o que acontece com as antigas. Aqueles votos secretos. Aquelas verbas para “exercício do mandato”. Aquelas obras que não acabam nunca. Aqueles estádios da Copa. Aqueles superfaturamentos. Aquelas residências oficiais. Aquelas ajudas de custo. Aquelas aposentadorias. Aquelas vigas da perimetral. Aquelas diretorias da Petrobras.

A lista não acaba.

Um país vai para o brejo quando políticos lutam por cargos em secretarias e ministérios não porque tenham qualquer relação com a área, mas porque secretarias e ministérios têm verbas — e isso é noticiado como fato corriqueiro da vida pública.

Um país vai para o brejo quando representantes do povo deixam de ser povo assim que são eleitos, quando se criam castas intocáveis no serviço público, quando esses brâmanes acreditam que não precisam prestar contas a ninguém — e isso é aceito como normal por todo mundo.

Um país vai para o brejo quando as suas escolas e os seus hospitais públicos são igualmente ruins, e quando os seus cidadãos perdem a segurança para andar nas ruas, seja por medo de bandido, seja por medo de polícia.
Um país vai para o brejo quando não protege os seus cidadãos, não paga aos seus servidores, esfola quem tem contracheque e dá isenção fiscal a quem não precisa.

Um país vai para o brejo quando os seus poderosos têm direito a foro privilegiado.

Um país vai para o brejo quando se pide, e quando os seus habitantes passam a se odiar uns aos outros; um país vai para o brejo quando despenca nos índices de educação, mas a sua população nem repara porque está muito ocupada se ofendendo mutuamente nas redes sociais.
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O Brasil caminha firme em direção ao brejo há muitas e muitas luas, mas um passo decisivo nessa direção foi dado quando Juscelino construiu Brasília, aquela farra para as empreiteiras, e quando parlamentares e funcionários públicos em geral ganharam privilégios inéditos em troca do “sacrifício” da mudança para lá.
Brasília criou um fosso entre a nomenklatura e os cidadãos comuns. A elite mora com a elite, convive com a elite e janta com a elite, sem vista para o Brasil. Os tempos épicos do faroeste acabaram há décadas, mas os privilégios foram mantidos, ampliados e replicados pelos estados. De todas as heranças malditas que nos deixaram, essa é a pior de todas.
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Acho que está rolando uma leve incompreensão dos reais motivos de mobilização da população em alguns setores. Eles parecem acreditar que o MBL e o Vem Pra Rua falam pelos manifestantes, ou têm algum significado político, quando, na verdade, esses movimentos funcionam mais como agentes de mobilização — afinal, alguém precisa marcar uma data e um horário, ou nenhuma manifestação acontece.

A maioria das pessoas que foi às ruas está pouco se lixando para eles. Seu alvo primordial é gritar contra a corrupção, a sordidez que rege a vida política brasileira, a bagunça geral que toma conta do país. Seu principal recado é o apoio à Lava-Jato, que parece ser a única coisa que funciona num cenário em que o resto se desmancha.

Se ninguém fez muita questão de gritar #ForaTemer nos protestos de domingo passado, isso talvez se deva menos a palavras de ordem vindas de carros de som do que a dois fatos bastante simples. O primeiro é que está implícita na insatisfação popular a insatisfação com Temer, e naquele momento parecia mais urgente responder aos insultos do Congresso; o segundo é que há uma resistência natural a se usar uma palavra de ordem criada pelo “outro lado”, pela turma que acredita na narrativa do golpe.
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Gilmar Mendes disse que a decisão de Marco Aurélio Mello de afastar Renan da mesa do Senado é “indecente”. Não, ministro. Pode ser qualquer outra coisa, mas indecente não é. Indecente é um homem como Renan Calheiros ocupar a mesa do Senado. Aliás, indecente é um homem como Renan Calheiros, que já renunciou ao mandato para não ser cassado e tem mais prontuário do que biografia.
Com todo o respeito, ministro, o senhor precisa rever as suas prioridades e dar um trato nos seus adjetivos.

Autor(a): Cora Rónai
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): Lika Dutra

 

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