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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

DANUZA LEÃO
publicado em: 21/01/2019 por: Lou Micaldas

⇒INTUIÇÃO OU SABEDORIA?

⇒DUAS BOLAS, POR FAVOR

⇒O PERIGO DE AMAR

INTUIÇÃO OU SABEDORIA?

Quando uma mulher apaixonada está numa festa, e entra um tipo de mulher que pode balançar o homem que ela ama, o coração dispara

Se você, que se pretende uma mulher intuitiva, acha que seu namorado está aprontando, pode ter certeza: ele deve estar mesmo. Mas cuidado: você pode também estar totalmente enganada.


Dizem que a intuição não falha, e que os que têm esse dom devem confiar mais nele; mas há quem diga que isso não existe, e que é a experiência de vida que nos faz captar quando algo não muito claro está acontecendo. As mulheres acham que adivinham, antes mesmo que as coisas aconteçam, e quando — e se — acontecem, acreditam, mais que nunca, que são intuitivas.


Já reparou que nunca se ouviu falar em intuição masculina? Já a delas é famosa. Quando uma mulher apaixonada está numa festa, e entra um tipo de mulher que pode balançar o homem que ela ama, o coração dispara, antes mesmo que ele a veja. Pode não acontecer nada, em nome da civilidade, dos bons costumes, sobretudo da falta de oportunidade. Mas se mesmo assim ela faz uma cena de ciúmes, é chamada de louca, e até com uma certa razão: mulheres ciumentas são mesmo um pouco loucas.


Eu conheço uma que não vai com o marido ao cinema, quando o filme é com determinada atriz, porque sabe que ele vai desejá-la — muito saudável da parte dela, aliás. Ele não verá jamais essa atriz, a não ser na tela, a possibilidade de eles se conhecerem é uma em um trilhão, mas existe alguma coisa pior do que o homem que se ama desejar outra mulher? É uma traição, e tão grave quanto uma de verdade, mas só as mulheres ciumentas entendem isso.


Dá para amar sem ter ciúmes? Não me consta. Minha gatinha, Juju, está sofrendo, desde que trouxe um gatinho novo para casa; ela não chega mais perto de mim, e vive escondida pela casa. Fui aconselhada a abraçá-la e fazer declarações de amor no seu ouvido, bem baixinho, para que seus ciúmes passem, mas estamos vivendo uma crise de relacionamento, devido à minha traição. Eu compreendo e acho que ela está coberta de razão.


Nas regiões mais remotas existem sábios, sempre pessoas muito idosas, que pelo soprar do vento sabem se vai chover, que às primeiras palavras que ouvem acreditam ou não no que estão ouvindo, e sabem, num olhar, em quem podem confiar. Alguns já viveram tantas coisas, que, num grupo desconhecido, percebem quem está interessado em quem, e até se a história vai ou não rolar. Serão elas adivinhas? Não; têm apenas experiência de vida, e mais: têm o dom da percepção. Lamentavelmente, vírus não transmissíveis.


Continua a dúvida: é intuição ou experiência olhar e sacar se uma pessoa está doente, triste, deprimida ou bem com a vida? Um bom médico que possua esse dom terá muito mais chances de curar seu paciente do que aquele que fez todos os estudos em todos os países e pede todos os exames. Tenho perguntado sobre isso a amigos inteligentes, mas cada um tem lá suas opiniões, e alguns dizem que além da intuição e da experiência, é preciso ser muito atento. Mesmo concordando com todos, ainda não cheguei a uma conclusão definitiva.


Mas sei que qualquer cachorro vira-lata percebe quem gosta dele; então, não é experiência de vida, é intuição — ou faro, se você preferir.

DUAS BOLAS, POR FAVOR

Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa,contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido. 
Uma só. 

Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa. 
Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação. 

O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano. 
A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade. 
A gente sai pra jantar, mas come pouco. 
Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons. 
conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de 'fácil'). 

Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta.

Tem vontade de ficar em casa vendo um dvd, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar. 

E por aí vai. 

Tantos deveres, tanta preocupação em 'acertar', tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação... 
Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão... 

Às vezes dá vontade de fazer tudo “errado”. 
Deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos. 
Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito. 
Recusar prazeres incompletos e meias porções. 

Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado.

Um dia a gente cria juízo. 
Um dia... 
Não tem que ser agora.

Por isso, garçom, por favor, me traga: cinco bolas de sorvete de chocolate... 
Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago.

O PERIGO DE AMAR

O amor é maravilhoso, não é? É, responde a humanidade em coro.
Mas por que será que as pessoas mudam de personalidade quando apaixonadas?

Um homem ao lado da mulher que ama é outra pessoa, alguém que nem a própria mãe seria capaz de reconhecer. Ele é capaz de dizer que não acha a menor graça em Angelina Jolie, que quem ama é sempre fiel, e que para ele só existem duas coisas que realmente importam: ela — em primeiro lugar — e o time pelo qual torce.

Se você encontrar esse mesmo homem com dois amigos num bar, vai descobrir que se trata de outra pessoa, só pelo som das gargalhadas dele — que, aliás, serão muitas. Mas quando ela chegar, fique certa de que o assunto vai mudar e vai ficar mais sério.

Quem ama se transforma em uma pessoa diferente, com outros gostos e outras opiniões, pelo menos quando o casal está junto. Aquela mulher que quando ouvia os primeiros compassos de “I will survive” começava a mexer o corpo e a cantarolar a letra, hoje em dia quando ouve o primeiro acorde fica surda, perde a memória e nem pensa nas lembranças que a música traz. E ele, que se apaixonou exatamente porque ela mexia não só o corpo, mas também o gelo do copo de uísque com o dedo, agora diz “vê se maneira na bebida”; e quando olha para aquela mulher austera, não entende por que a vida já foi tão melhor.

Eles iam muito à praia, claro. Quando o romance começou, ele brincava e atiçava ciúmes com elogios às gostosas que passavam; e ela ria, no máximo lhe dava um beliscão leve e amoroso, tão segura estava do seu amor. Agora, se encontrar uma revista de mulher pelada no carro, é capaz de ficar de tromba por uma semana.

Ela conseguiu transformá-lo num marido, e se transformou numa esposa, e por nada no mundo faria um strip para ele (como já fez); certas coisas não são para serem feitas de aliança no dedo.

Tente ir a um restaurante com um casal apaixonado:é praticamente impossível, pois o mundo deles é outro,e nele não há lugar para pessoas normais. Os assuntos são completamente diferentes, e sobretudo as opiniões. Casais costumam votar no mesmo candidato, e poucas mulheres seriam capazes de declarar que vão votar em Ciro, se o voto do marido vai para outro candidato. Raras, eu diria.

Vá com seu marido a um show em que as mulheres aparecem com os seios de fora. Nervoso ele vai ficar — todos ficam —, mas depois do primeiro momento (e do seu primeiro olhar para ele), lembrará que você virou “a patroa” e vai ficar com cara de quem está olhando uma paisagem. Mas faça uma experiência e proponha irem a uma praia de nudistas: um homem das cavernas vai surgir de dentro daquele que a encantava quando passava a mão nas suas pernas no carro, no meio do trânsito. Mas quando ela vai almoçar com duas amigas, na segunda caipirinha volta a ser a mulher divertida que era antes, e que não é mais; não quando está com ele.

Onde foi parar esse homem? Onde foi parar aquela mulher que vivia feliz e risonha, que não queria nada da vida a não ser ficar junto com ele, agarrada, apaixonada? Dizem que quem ama não mata — não com uma faca ou com um revólver; mas costuma fazer desaparecer a pessoa que conheceu e por quem se apaixonou, sem uma só gota de sangue.

Quem ama mata, sim.

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Autor(a): Danuza Leão
Colaborador(a): Damáris Couto Gomes

 

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