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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

DANUZA LEÃO
publicado em: 18/05/2018 por: Lou Micaldas

O PERIGO DE AMAR

O amor é maravilhoso, não é? É, responde a humanidade em coro.
Mas por que será que as pessoas mudam de personalidade quando apaixonadas?

Um homem ao lado da mulher que ama é outra pessoa, alguém que nem a própria mãe seria capaz de reconhecer. Ele é capaz de dizer que não acha a menor graça em Angelina Jolie, que quem ama é sempre fiel, e que para ele só existem duas coisas que realmente importam: ela — em primeiro lugar — e o time pelo qual torce.

Se você encontrar esse mesmo homem com dois amigos num bar, vai descobrir que se trata de outra pessoa, só pelo som das gargalhadas dele — que, aliás, serão muitas. Mas quando ela chegar, fique certa de que o assunto vai mudar e vai ficar mais sério.

Quem ama se transforma em uma pessoa diferente, com outros gostos e outras opiniões, pelo menos quando o casal está junto. Aquela mulher que quando ouvia os primeiros compassos de “I will survive” começava a mexer o corpo e a cantarolar a letra, hoje em dia quando ouve o primeiro acorde fica surda, perde a memória e nem pensa nas lembranças que a música traz. E ele, que se apaixonou exatamente porque ela mexia não só o corpo, mas também o gelo do copo de uísque com o dedo, agora diz “vê se maneira na bebida”; e quando olha para aquela mulher austera, não entende por que a vida já foi tão melhor.

Eles iam muito à praia, claro. Quando o romance começou, ele brincava e atiçava ciúmes com elogios às gostosas que passavam; e ela ria, no máximo lhe dava um beliscão leve e amoroso, tão segura estava do seu amor. Agora, se encontrar uma revista de mulher pelada no carro, é capaz de ficar de tromba por uma semana.

Ela conseguiu transformá-lo num marido, e se transformou numa esposa, e por nada no mundo faria um strip para ele (como já fez); certas coisas não são para serem feitas de aliança no dedo.

Tente ir a um restaurante com um casal apaixonado:é praticamente impossível, pois o mundo deles é outro,e nele não há lugar para pessoas normais. Os assuntos são completamente diferentes, e sobretudo as opiniões. Casais costumam votar no mesmo candidato, e poucas mulheres seriam capazes de declarar que vão votar em Ciro, se o voto do marido vai para outro candidato. Raras, eu diria.

Vá com seu marido a um show em que as mulheres aparecem com os seios de fora. Nervoso ele vai ficar — todos ficam —, mas depois do primeiro momento (e do seu primeiro olhar para ele), lembrará que você virou “a patroa” e vai ficar com cara de quem está olhando uma paisagem. Mas faça uma experiência e proponha irem a uma praia de nudistas: um homem das cavernas vai surgir de dentro daquele que a encantava quando passava a mão nas suas pernas no carro, no meio do trânsito. Mas quando ela vai almoçar com duas amigas, na segunda caipirinha volta a ser a mulher divertida que era antes, e que não é mais; não quando está com ele.

Onde foi parar esse homem? Onde foi parar aquela mulher que vivia feliz e risonha, que não queria nada da vida a não ser ficar junto com ele, agarrada, apaixonada? Dizem que quem ama não mata — não com uma faca ou com um revólver; mas costuma fazer desaparecer a pessoa que conheceu e por quem se apaixonou, sem uma só gota de sangue.

Quem ama mata, sim.

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Autor(a): Danuza Leão
Fonte: oglobo.globo.com/ela/gente/comportamento/o-perigo-de-amar-22671270
Colaborador(a): Angela Lopes de Freitas

 

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