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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

FERNANDO GABEIRA
publicado em: 26/12/2016 por: Lou Micaldas

PARA ALÉM DA MONTANHA
Ao lado da mudança política e da reconstrução econômica, o Brasil terá de redefinir suas prioridades
“Tendemos a nos lembrar da última vez que estivemos pra baixo, a memória de por que ficamos naquela merda. É quando decidimos fazer aquela coisa de andar em círculos.” Esta frase de um personagem de Samuel Beckett às vezes me vem à cabeça quando me debruço nas notícias desse ano no Brasil. Sem dúvida, a desmontagem de um imenso esquema de corrupção sistêmico é o grande fato dos últimos tempos. Mas hoje lemos as notícias de uma forma diferente. No passado, as víamos na televisão à noite e nos jornais da manhã. Agora, consultamos o computador de tempos em tempos. E a mesma notícia está lá.

Para quem segue com atenção o processo, a mesma notícia reaparece muitas vezes. Não só porque a vemos muito, mas porque tudo começa com uma suspeita, confirma-se na delação premiada, depois há o indiciamento, a denúncia, a transformação do acusado em réu, e, finalmente, o julgamento. Se somarmos a isso as audiências, intervenções da defesa, o trânsito dos acusados, Cabral pra lá, Cabral pra cá, a presença do tema ocupa todo o centro da cena. Sem contar os choques institucionais que a crise provocou.

É inevitável que seja assim, e é preciso um olhar agudo para captar o movimento, a longa agonia de um sistema partidário em vigor desde a redemocratização. Um dos problemas da onipresença dessa novela de crime e castigo é que a sociedade, exceto por sua intervenção na própria crise, fica em segundo plano.

O Brasil das pessoas que trabalham, inventam e se debatem no cotidiano torna-se muito distante. E temos uma falsa impressão de termos sido jogados num eterno enredo policial. Isso não significa que a sociedade seja pura, que andando por aí não se encontrem sujeira, sacanagem e cinismo. Mas há muitas experiências interessantes, muito mais potencial visível do que no horizonte de Brasília.

Um exemplo disso é o fracasso do Brasil no ranking internacional de educação. Era importante trombeteá-lo. Mas em Sobral, onde foram conquistados avanços, e mesmo nas cidades que visitei, Dores do Turvo e Conceição dos Ouros, há histórias de progresso. Exceções que confirmam a regra, posso admitir. No entanto, são exemplos de que é possível dar grandes passos, alcançar uma educação de melhor qualidade mesmo num panorama desolador.

Não compartilho o otimismo de Darcy Ribeiro, que imaginava para o Brasil a trajetória de uma esplêndida civilização tropical. Minha aspiração é mais modesta. Apenas vejo no cotidiano brasileiro inúmeros estímulos para acreditar na vitalidade do Brasil, apesar da decadência de algumas instituições.

O esquema sistêmico de corrupção foi revelado em grande parte. Os Estados Unidos contribuíram como uma grande síntese, diante do passo de tartaruga do STF. Faltam 800 documentos dos 77 diretores da Odebrecht que fizeram delação premiada. Alguns analistas costumam perguntar: se um diretor apenas delatou quase 200 políticos, quantos não serão delatados? O cálculo não é adequado. O diretor que delatou os políticos é precisamente quem tinha a missão de se relacionar com eles.

Mas as primeiras surpresas que surgiram da delação, na verdade, vieram dos EUA, que descreveram o processo e apontaram a extensão mundial do esquema. Imagino que as novidades, exceto pelas prisões rumorosas, decorrentes do próprio documento americano, devem ser, lentamente, substituídas pelo ritmo arrastado dos processos legais.

As necessárias transformações políticas vão acontecer, mas elas são apenas um fator necessário para a construção do futuro. Nas conversas de rua, observo que as pessoas contam com mudanças na esfera política. Muitas, no entanto, afirmam que na sociedade a mudança mais desejada é um investimento na educação.

Esse termo não é usado apenas como sinônimo de mais dinheiro. Ele significa também atenção, energia. Os escândalos e a crise econômica consolidaram aquela antiga intuição popular de que, a longo prazo, o grande instrumento de mudança está na educação.
Ao lado da mudança política e da reconstrução econômica, o Brasil terá de redefinir suas prioridades. Os problemas da educação se destacam não porque são um imperativo econômico num mundo que se move rapidamente. Eles são vistos hoje como uma espécie de item necessário na lição que o país tira não só dos escândalos que o abalaram, mas também da falência do sistema político que implantamos nesta etapa da democratização. Uma reconstrução econômica inteligente não se apoia apenas no reconhecimento da educação como fator dinâmico, mas também da sustentabilidade.

Hoje sabemos por que davam tantos incentivos fiscais à indústria de automóveis: grana. Mas os incentivos eram o símbolo de um momento em que dilapidávamos não só os recursos fiscais, mas promovíamos as “maiores festas do mundo”.

Esse tempo acabou e nos obriga, ainda que delirando, a enxergar um pouco além da montanha de processos penais que cobre o horizonte.
Feliz Natal.
 
FIM DO MUNDO NÃO É O FIM DE TUDO
Fim de ano, fim do mundo com a delação da Odebrecht, estradas remotas, poucas conexões
Fim de ano, fim do mundo com a delação da Odebrecht, estradas remotas, poucas conexões. Os cientistas estão trabalhando para pesquisar a região do cérebro onde se depositam as memórias recentes. Não sei que lugar ocupará 2016 em nosso escaninho, sei apenas que o cérebro é elástico, e viver no Brasil é educar-se para a complexidade.

A guerra na Síria, a crise de emigração na Europa, o caricato gabinete de Trump — tudo isso indica que as coisas no mundo também não foram bem em 2016. E o que é pior: são problemas que se desdobram no ano que entra.

Nesse carrossel da transição para 2018 é bom pelo menos ter em mente os objetivos principais: recuperar a economia e restabelecer, através de uma renovação, ainda que modesta, os vínculos da política com a sociedade.

Isso de estabelecer prioridades é muito pessoal. Existem milhares de outras visões. É apenas um exercício no caos.

Na verdade, a delação do fim do mundo marca talvez o período final do processo que se iniciou com o movimento pelas Diretas. Os próprios apelidos dos políticos nas planilhas da Odebrecht mostram como a empresa, de uma certa forma, os condenava. Todo Feio, Gripado, Caranguejo — parecem nomes das páginas policiais de antigamente.

É toda uma época que se encerra com o fim da aliança entre empreiteiras e o sistema político. Uma das vantagens é que o Brasil poderá chegar a um planejamento mais adequado às nossas necessidades, porque, na verdade, ele foi também sequestrado pelo esquema de corrupção. A outra vantagem seria julgar e punir os culpados para que as eleições de 2018 se fizessem sem eles. Um atraso poderá torná-las mais distantes da sociedade.

As ruas mostraram o que querem. Elas apoiam a Lava-Jato. O próprio governo admite que a operação deve ir até onde os fatos a levem. Como fazer com que a Lava-Jato não seja um obstáculo para a recuperação econômica? Temer deu a pista: celeridade. O importante é definir como a celeridade vai surgir, depois de tanta lentidão. O nó é o Supremo. Se não se convencer da singularidade da situação, vai tratá-la como todas as outras. E continuaremos aos solavancos.

Um ano como o de 2016 num ritmo de roda-gigante nos traz uma nostalgia da estabilidade. Não apenas por motivos econômicos, mas também no nível individual, imersão em projetos de longo alcance, meditação para puxar o fio da meada, desde quando o atual processo democrático começou.

A tarefa de recuperar a economia sob os ventos da Lava-Jato, jogando gente no mar para não se afogar também, não é fácil. É uma transição em que se entrelaçam a maior operação da História com a crise econômica mais profunda. A única forma de alcançá-las é manter os dois polos. Um deles sozinho não consegue fazer a passagem.

A celeridade, que depende do STF, atenua os possíveis atritos da Lava-Jato com o esforço de recuperação econômica. Estrategicamente, os dois polos são aliados. A desmontagem do esquema de corrupção no governo aumenta a credibilidade do país, torna-o mais atraente para investimentos sérios. O simples estancamento da sangria na Petrobras deu à empresa uma chance de soerguimento. E até trouxe de volta uma boa parte do dinheiro roubado.

Quando digo que o fim do mundo não é o fim de tudo, penso na própria contribuição que a Lava-Jato vai trazer. A delação do fim do mundo não é o fim de tudo. Deixará mortos, feridos, escoriações, fraturas expostas. Mas é também nos escombros que vai sobreviver uma parte do Congresso vital para o segundo momento.

A História não começa do zero. A renovação que surgir da sociedade contará com uma experiência acumulada até dominar os complicados ritos do Congresso.

A esta altura, eu mesmo me pergunto se combinei com os russos ao traçar esse cenário. Um quadro de economia funcionando, um Congresso mais próximo da sociedade, no entanto, não são um sonho. São uma possibilidade real que vislumbro nesse caleidoscópio visto das estradas de Minas, das margens do Solimões na fronteira com a Colômbia.

Não posso acreditar que um país tão rico e diverso não consiga sair dessa situação pantanosa em que a elite política o colocou. Se for um delírio, que valha apenas como desejo de Ano Novo.

O que me conforta é que para mim a experiência democrática iniciada com as Diretas se esgotou. Tudo o que acontece pode ser visto não só como escombros de um período, mas também como os primeiros passos de transição. Algo se move, nem sempre no ritmo de minha visão otimista, mas se move no meio de muita fumaça.

Autor(a): Fernando Gabeira
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): Antônio Carlos

 

 

 

 

 

 


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