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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

FERNANDO GABEIRA
publicado em: 26/12/2016 por: Lou Micaldas

PARA ONDE, BRASIL?

A LUTA CONTRA FANTASMAS

PARA ALÉM DA MONTANHA

FIM DO MUNDO NÃO É O FIM DE TUDO

 

PARA ONDE, BRASIL?

Ao contrário de um debate sobre uma eleição que se aproxima, as emoções dominam, estamos às voltas com ídolos

Como diz o coelho branco em Alice no País das Maravilhas: “Ai, ai! Vou chegar atrasado.” No país real, estamos atrasados em relação aos rumos do país. As eleições estão próximas. Normalmente, começam mesmo depois da Copa. Mas, antes, deveria ser iniciada uma temporada de debates não só entre os candidatos.

Num contexto mais favorável, a discussão em torno dos rumos do país deveria ser feita com o máximo de cordialidade possível.

Como se nesse campo pudéssemos adotar a visão de Diderot. Segundo ele, cada um tem a sua verdade, mas não importa quem vença ou ganhe, mas sim que após a discussão reine a paz entre os interlocutores. Traduzindo para a linguagem mineira: um debate onde as ideias briguem, mas as pessoas não.

O episódio da prisão de Lula foi muito dramático. Um amigo lembra que, na mesma semana, foi presa a ex-presidente da Coreia do Sul Park Geun-hye. Houve manifestações, mas ela não fez discurso, dispensou visitas e falou apenas com os advogados.

A Coreia do Sul, com bons índices de crescimento, talvez seja mais tranquila, porque com a prisão de Geun-hye já é o terceiro ex-presidente a ir para a cadeia.

Tive contato com a sabedoria hebraica lendo, para prefaciá-lo, um livro de Nilton Bonder em que ele tenta aplicar esses ensinamentos para se entender os atores políticos.

O ensinamento mais amplo da sabedoria hebraica, preservado segundo os estudiosos em várias Bíblias, é o fato de que não se deve curvar para os ídolos, pois isso nos faz perder o que há de melhor em nossa natureza.

Essa ideia é tão forte que teria até influenciado o marxismo na sua crítica cultural ao capitalismo. Só que a perda de si no outro, nessa visão marxista, não se dá necessariamente diante de ícones religiosos, mas diante do mundo cintiliante das mercadorias, o império dos objetos. Seus conceitos são mais complicados: alienação, reificação.

No momento em que deputados e senadores do PT querem fundir seu nome com o de Lula, pergunto-me se com isso não estão perdendo o melhor de si, que é a possibilidade de debater o mundo real, as dificuldades que o país atravessa.

Todos têm direito de dosar sua energia como quiserem, mas confundir o destino do país com o seu líder abre um abismo com todos nós que precisamos olhar para frente.

Necessariamente, as ideias de esquerda não são melhores. Meu ponto é outro: com todas as correntes dando o que há de melhor para acharmos o caminho, as chances de acerto são maiores.

Existe também um grande campo em que, para além das lutas identitárias, podemos elaborar políticas nacionais urgentes. O de saneamento básico é um deles. A escassez hídrica, outro.

Divergências devem surgir em alguns campos também vitais, como educação e segurança pública.

Ao contrário de um debate sobre uma eleição que se aproxima, as emoções dominam, estamos às voltas com ídolos. Se o processo continua nesse tom ditado pelos extremos o desfecho é perigoso. Pessoas que se perdem costumam ser levadas para o pior dos caminhos.

Compreendo o fascínio do momento. Todas as noites alguém entrando ou saindo da cadeia, imagens do coronel Lima em cadeira de rodas, lá vai o Rodrigo Loures correndo de novo com sua mala, os milhões do Geddel, o locutor de rádio anunciando que Sérgio Cabral também tomou café com pão e manteiga pela manhã.

Mas, como diz o coelho branco: “É tarde, é tarde.”

A LUTA CONTRA FANTASMAS

Existem várias comissões para fiscalizar a intervenção e poucas articulações para cooperar com o Exército

Outro dia, chamaram-me de general num desses blogs. Não me importo: são os mesmos de sempre, como diria um personagem de Beckett, depois de apanhar. O ponto de partida é minha visão positiva sobre o papel do Exército no Haiti. O que fazer? Estive lá duas vezes, vi com os meus olhos e ainda assim sempre consulto o maior conhecedor brasileiro do tema, Ricardo Seitenfus.

Não estive com o Exército apenas no Haiti. Visitei postos avançados de fronteira da Venezuela, junto aos yanomamis, em plena selva perto da Colômbia. Vi seu trabalho na Cabeça do Cachorro, no Rio Negro, cobri o sistema de distribuição de água para milhões de pessoas no sertão do Nordeste.

Não tenho o direito de encarar o Exército com os olhos do passado, fixado no espelho retrovisor. Além de seu trabalho, conheci também as pessoas que o realizam.

Nesse momento de intervenção federal, pergunto-me se o Exército, para algumas pessoas da esquerda e mesmo alguns liberais na imprensa, ainda não é uma espécie de fantasma que marchou dos anos de chumbo até aqui, como se nada tivesse acontecido no caminho.

Alguns o identificam com o Bolsonaro. Outro engano. Certamente existem eleitores de Bolsonaro nas Forças Armadas como existem na igreja, nos bancos e universidades. Mas Bolsonaro e o Exército não são a mesma coisa.

Existem várias comissões para fiscalizar o intervenção. Ótimo. Isso é democracia. Mas existem poucas articulações para cooperar com o Exército: isso é miopia.

Houve um certo drama porque os pobres foram fotografados por soldados. Quem dramatiza são pessoas da classe média que vivem sendo fotografadas, na portaria de prédios, na entrada de empresas. Por toda a parte alguém nos filma.

Há uma lei específica sobre identificação. É razoável discutir com base nela. Mas é inegável também que os tempos mudaram. Na Europa e nos EUA por causa do terrorismo, aqui por causa da violência urbana.

Não se trata de dizer sorria, você está sendo filmado. É desagradável e representa uma perda de liberdade em relação ao passado. Mas expressa um novo momento.

O Ministro Raul Jungman tomou posse afirmando que a sociedade do Rio pede segurança durante o dia e à noite consome drogas. É uma frase muito eficaz em debates e artigos. Creio que apareceu até no filme "Tropa de Elite".

Na boca de um ministro, que considero competente, merece uma pequena análise.

Parisienses, londrinos, paulistas e novairorquinos também consomem droga, suponho. No entanto não existem grupos armados dominando o território urbano.

Se isso é verdade não é propriamente a abstinência que tem um peso decisivo, mas sim a presença do Estado que garante uma relativa paz, apesar do consumo de drogas.

Núcleos de traficantes deslocaram-se para o roubo de cargas porque o acham mais rentável. É impossível culpar os consumidores de geladeiras e eletrodomésticos não só porque é uma prática legal.

As milícias pouco se dedicam ao tráfico de drogas. Vendem segurança, butijões de gás e controlam o transporte alternativo. São forças de ocupação.

Campanhas contra o consumo de drogas, nessa emergência, têm uma eficácia limitada, apesar de suas boas intenções.

Mas assim como há gente que vê um exército fantasma, perdido nas brumas do século passado, pode ser um erro mirar no consumo de drogas e perder de vista a ocupação armada do território.

Uma das frases mais interessantes no "Terra em Transe", de Glauber Rocha, é quando o personagem diz que não sabe mais quem é o inimigo.

Há tantos combatendo exércitos fantasmas ou investindo contra moinhos que é sempre bom perguntar: afinal, qual é o foco?

PARA ALÉM DA MONTANHA

Ao lado da mudança política e da reconstrução econômica, o Brasil terá de redefinir suas prioridades

“Tendemos a nos lembrar da última vez que estivemos pra baixo, a memória de por que ficamos naquela merda. É quando decidimos fazer aquela coisa de andar em círculos.” Esta frase de um personagem de Samuel Beckett às vezes me vem à cabeça quando me debruço nas notícias desse ano no Brasil. Sem dúvida, a desmontagem de um imenso esquema de corrupção sistêmico é o grande fato dos últimos tempos. Mas hoje lemos as notícias de uma forma diferente. No passado, as víamos na televisão à noite e nos jornais da manhã. Agora, consultamos o computador de tempos em tempos. E a mesma notícia está lá.

Para quem segue com atenção o processo, a mesma notícia reaparece muitas vezes. Não só porque a vemos muito, mas porque tudo começa com uma suspeita, confirma-se na delação premiada, depois há o indiciamento, a denúncia, a transformação do acusado em réu, e, finalmente, o julgamento. Se somarmos a isso as audiências, intervenções da defesa, o trânsito dos acusados, Cabral pra lá, Cabral pra cá, a presença do tema ocupa todo o centro da cena. Sem contar os choques institucionais que a crise provocou.

É inevitável que seja assim, e é preciso um olhar agudo para captar o movimento, a longa agonia de um sistema partidário em vigor desde a redemocratização. Um dos problemas da onipresença dessa novela de crime e castigo é que a sociedade, exceto por sua intervenção na própria crise, fica em segundo plano.

O Brasil das pessoas que trabalham, inventam e se debatem no cotidiano torna-se muito distante. E temos uma falsa impressão de termos sido jogados num eterno enredo policial. Isso não significa que a sociedade seja pura, que andando por aí não se encontrem sujeira, sacanagem e cinismo. Mas há muitas experiências interessantes, muito mais potencial visível do que no horizonte de Brasília.

Um exemplo disso é o fracasso do Brasil no ranking internacional de educação. Era importante trombeteá-lo. Mas em Sobral, onde foram conquistados avanços, e mesmo nas cidades que visitei, Dores do Turvo e Conceição dos Ouros, há histórias de progresso. Exceções que confirmam a regra, posso admitir. No entanto, são exemplos de que é possível dar grandes passos, alcançar uma educação de melhor qualidade mesmo num panorama desolador.

Não compartilho o otimismo de Darcy Ribeiro, que imaginava para o Brasil a trajetória de uma esplêndida civilização tropical. Minha aspiração é mais modesta. Apenas vejo no cotidiano brasileiro inúmeros estímulos para acreditar na vitalidade do Brasil, apesar da decadência de algumas instituições.

O esquema sistêmico de corrupção foi revelado em grande parte. Os Estados Unidos contribuíram como uma grande síntese, diante do passo de tartaruga do STF. Faltam 800 documentos dos 77 diretores da Odebrecht que fizeram delação premiada. Alguns analistas costumam perguntar: se um diretor apenas delatou quase 200 políticos, quantos não serão delatados? O cálculo não é adequado. O diretor que delatou os políticos é precisamente quem tinha a missão de se relacionar com eles.

Mas as primeiras surpresas que surgiram da delação, na verdade, vieram dos EUA, que descreveram o processo e apontaram a extensão mundial do esquema. Imagino que as novidades, exceto pelas prisões rumorosas, decorrentes do próprio documento americano, devem ser, lentamente, substituídas pelo ritmo arrastado dos processos legais.

As necessárias transformações políticas vão acontecer, mas elas são apenas um fator necessário para a construção do futuro. Nas conversas de rua, observo que as pessoas contam com mudanças na esfera política. Muitas, no entanto, afirmam que na sociedade a mudança mais desejada é um investimento na educação.

Esse termo não é usado apenas como sinônimo de mais dinheiro. Ele significa também atenção, energia. Os escândalos e a crise econômica consolidaram aquela antiga intuição popular de que, a longo prazo, o grande instrumento de mudança está na educação.
Ao lado da mudança política e da reconstrução econômica, o Brasil terá de redefinir suas prioridades. Os problemas da educação se destacam não porque são um imperativo econômico num mundo que se move rapidamente. Eles são vistos hoje como uma espécie de item necessário na lição que o país tira não só dos escândalos que o abalaram, mas também da falência do sistema político que implantamos nesta etapa da democratização. Uma reconstrução econômica inteligente não se apoia apenas no reconhecimento da educação como fator dinâmico, mas também da sustentabilidade.

Hoje sabemos por que davam tantos incentivos fiscais à indústria de automóveis: grana. Mas os incentivos eram o símbolo de um momento em que dilapidávamos não só os recursos fiscais, mas promovíamos as “maiores festas do mundo”.

Esse tempo acabou e nos obriga, ainda que delirando, a enxergar um pouco além da montanha de processos penais que cobre o horizonte.
Feliz Natal.

FIM DO MUNDO NÃO É O FIM DE TUDO

Fim de ano, fim do mundo com a delação da Odebrecht, estradas remotas, poucas conexões

Fim de ano, fim do mundo com a delação da Odebrecht, estradas remotas, poucas conexões. Os cientistas estão trabalhando para pesquisar a região do cérebro onde se depositam as memórias recentes. Não sei que lugar ocupará 2016 em nosso escaninho, sei apenas que o cérebro é elástico, e viver no Brasil é educar-se para a complexidade.

A guerra na Síria, a crise de emigração na Europa, o caricato gabinete de Trump — tudo isso indica que as coisas no mundo também não foram bem em 2016. E o que é pior: são problemas que se desdobram no ano que entra.

Nesse carrossel da transição para 2018 é bom pelo menos ter em mente os objetivos principais: recuperar a economia e restabelecer, através de uma renovação, ainda que modesta, os vínculos da política com a sociedade.

Isso de estabelecer prioridades é muito pessoal. Existem milhares de outras visões. É apenas um exercício no caos.

Na verdade, a delação do fim do mundo marca talvez o período final do processo que se iniciou com o movimento pelas Diretas. Os próprios apelidos dos políticos nas planilhas da Odebrecht mostram como a empresa, de uma certa forma, os condenava. Todo Feio, Gripado, Caranguejo — parecem nomes das páginas policiais de antigamente.

É toda uma época que se encerra com o fim da aliança entre empreiteiras e o sistema político. Uma das vantagens é que o Brasil poderá chegar a um planejamento mais adequado às nossas necessidades, porque, na verdade, ele foi também sequestrado pelo esquema de corrupção. A outra vantagem seria julgar e punir os culpados para que as eleições de 2018 se fizessem sem eles. Um atraso poderá torná-las mais distantes da sociedade.

As ruas mostraram o que querem. Elas apoiam a Lava-Jato. O próprio governo admite que a operação deve ir até onde os fatos a levem. Como fazer com que a Lava-Jato não seja um obstáculo para a recuperação econômica? Temer deu a pista: celeridade. O importante é definir como a celeridade vai surgir, depois de tanta lentidão. O nó é o Supremo. Se não se convencer da singularidade da situação, vai tratá-la como todas as outras. E continuaremos aos solavancos.

Um ano como o de 2016 num ritmo de roda-gigante nos traz uma nostalgia da estabilidade. Não apenas por motivos econômicos, mas também no nível inpidual, imersão em projetos de longo alcance, meditação para puxar o fio da meada, desde quando o atual processo democrático começou.

A tarefa de recuperar a economia sob os ventos da Lava-Jato, jogando gente no mar para não se afogar também, não é fácil. É uma transição em que se entrelaçam a maior operação da História com a crise econômica mais profunda. A única forma de alcançá-las é manter os dois polos. Um deles sozinho não consegue fazer a passagem.

A celeridade, que depende do STF, atenua os possíveis atritos da Lava-Jato com o esforço de recuperação econômica. Estrategicamente, os dois polos são aliados. A desmontagem do esquema de corrupção no governo aumenta a credibilidade do país, torna-o mais atraente para investimentos sérios. O simples estancamento da sangria na Petrobras deu à empresa uma chance de soerguimento. E até trouxe de volta uma boa parte do dinheiro roubado.

Quando digo que o fim do mundo não é o fim de tudo, penso na própria contribuição que a Lava-Jato vai trazer. A delação do fim do mundo não é o fim de tudo. Deixará mortos, feridos, escoriações, fraturas expostas. Mas é também nos escombros que vai sobreviver uma parte do Congresso vital para o segundo momento.

A História não começa do zero. A renovação que surgir da sociedade contará com uma experiência acumulada até dominar os complicados ritos do Congresso.

A esta altura, eu mesmo me pergunto se combinei com os russos ao traçar esse cenário. Um quadro de economia funcionando, um Congresso mais próximo da sociedade, no entanto, não são um sonho. São uma possibilidade real que vislumbro nesse caleidoscópio visto das estradas de Minas, das margens do Solimões na fronteira com a Colômbia.

Não posso acreditar que um país tão rico e perso não consiga sair dessa situação pantanosa em que a elite política o colocou. Se for um delírio, que valha apenas como desejo de Ano Novo.

O que me conforta é que para mim a experiência democrática iniciada com as Diretas se esgotou. Tudo o que acontece pode ser visto não só como escombros de um período, mas também como os primeiros passos de transição. Algo se move, nem sempre no ritmo de minha visão otimista, mas se move no meio de muita fumaça.

Autor(a): Fernando Gabeira é jornalista e ex-deputado federal
Fonte: oglobo.globo.com/rio/artigo-luta-contra-fantasmas-22447567
Colaborador(a): Antônio Carlos Medeiros

 

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