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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

FREI BETTO
publicado em: 03/10/2018 por: Lou Micaldas

UTOPIA E POLÍTICA

CIDADANIA E SOLIDARIEDADE

EDUCAÇÃO DE BALCÃO

CARTA AO MINISTRO DA JUSTIÇA

 

UTOPIA E POLÍTICA

Tudo é política, mas a política não é tudo. Participar da vida política, ainda que apenas pelo voto, é exercício de cidadania.

Porque a política tem a ver com todos os aspectos de nossas vidas, da qualidade dos serviços de saúde à segurança de nossas famílias. Quem anula o voto ou vota em branco favorece o poder vigente e fica de costas para o bem comum.

Não há como erradicar a miséria, reduzir a criminalidade e a desigualdade social sem a atividade política. A política serve para oprimir e favorecer a corrupção, como também para libertar e punir os corruptos. Tudo depende do modo como é exercida.

O Evangelho de Lucas (3, 1), ao contextualizar a missão de Jesus, a situa politicamente: “No décimo quinto ano do governo de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia; Herodes, tetrarca da Galileia; Filipe, seu irmão, tetrarca da região da Itureia e da Traconídite; e Lisânias, tetrarca de Abilene” etc. Até mesmo a Palavra de Deus tem a ver com política, embora não se deva confessionalizá-la.

Jesus foi assassinado por razões políticas. Ousou anunciar, no reino de César, outro reino possível, o de Deus! Rechaçou a opressão, a doença e a pobreza como castigos divinos. Condenou a religião como legitimadora de preconceitos e discriminações. E propôs um novo projeto civilizatório baseado nas relações pessoais, no amor e na compaixão; e nas relações sociais, na partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano.

Oito séculos antes de Cristo, o profeta Isaías já havia prefigurado a utopia de uma sociedade na qual a implantação da justiça assegurará o advento da paz: "Vejam! Vou criar novo céu e nova terra. As coisas antigas nunca mais serão lembradas, nem voltarão ao pensamento. Fiquem alegres! Exultarei com Jerusalém e me alegrarei com o meu povo. E nela nunca mais se ouvirá choro ou clamor. Aí não haverá mais crianças que vivam alguns dias apenas, nem velhos que não cheguem a completar seus dias; pois será ainda jovem quem morrer com cem anos... Quem construir casa nela habitará, e quem plantar vinhas comerá de seus frutos.

Ninguém construirá para outro morar, nem semeará para outro comer, porque a vida do meu povo será longa como a das árvores, meus escolhidos poderão gastar o que suas mãos fabricarem. Ninguém trabalhará inutilmente, nem gerará filhos para morrerem antes do tempo, porque todos serão a descendência dos abençoados de Javé, juntamente com seus filhos. Antes que me invoquem eu responderei; quando começarem a falar, já estarei atendendo. O lobo e o cordeiro pastarão juntos, o leão comerá capim junto com o boi... Em todo o meu monte santo ninguém causará danos ou estragos, diz Javé.” (65, 17-25).

Nesta próxima semana, os brasileiros escolherão seus futuros governos estadual e federal. Eis um direito democrático de substancial importância. Os eleitos haverão de fazer o país avançar ou retroceder ainda mais. Deles dependerão o combate ao desemprego e às causas da criminalidade, a universalização da educação de qualidade e o fim das intermináveis filas nos postos de saúde.

Os políticos são considerados autoridades. Ora, a rigor autoridades somos nós, o povo brasileiro, que os elegemos, pagamos seus salários e todos os gastos do exercício de seus mandatos, da conta de luz do Palácio da Alvorada ao combustível que move o avião presidencial.

Sem utopia a política se apequena. Torna-se mero jogo de poder em função de ambições pessoais e interesses corporativos. É de suma importância votar de olho no projeto Brasil. No futuro das novas gerações. Na conquista de uma sociedade que espelhe a proposta do profeta Isaías, onde o lobo e o cordeiro, que são diferentes, não façam da diferença divergência, e possam conviver em harmonia e igualdade de condições.

CIDADANIA E SOLIDARIEDADE

 Qualquer pessoa ou instituição - movimento social, denominação religiosa, ONG, escola, empresa, associação etc - pode e deve promover iniciativas que reforcem a cidadania e a solidariedade: mesas-redondas; campanhas; palestras; mutirão que beneficie, sem assistencialismo, a população mais pobre.

Não há quem não possa fazer um gesto para promover debates em salas de aula sobre as causas da pobreza e os entraves à melhor distribuição de renda; introduzir na escola educação nutricional; promover exposição sobre os direitos dos povos indígenas ou ações de combate ao trabalho e à prostituição infantis; organizar uma horta comunitária; lutar pela melhoria da educação, do acesso a medicamentos seguros e baratos ou abrir um curso de alfabetização de adultos; denunciar o preconceito contra homossexuais e o uso da mulher no estímulo ao consumismo.

É preciso mobilizar a nação em torno de ações concretas que nos permitam construir o "outro mundo possível". E priorizar, em pleno neoliberalismo que assola o Planeta, valores antagônicos ao inpidualismo e à competitividade, como o são a cidadania e a solidariedade.

Não é fácil ser cidadão brasileiro. Nascemos como nação-colônia, aprendendo que o estrangeiro é sempre melhor que o nacional. Tivemos o mais longo período de escravidão da América Latina - 350 anos!

Essa submissão atávica está entranhada em nossas veias. Basta alguém se revestir dos símbolos do poder - riqueza, autoridade e ostentação - para ser tratado como se fosse um ser naturalmente superior a seus semelhantes.

Cidadania rima com soberania. É preciso gostar de si próprio para conquistá-la.  Ocorre que a globalização detona todos os fundamentos de nossa soberania.

O neoliberalismo nos impõe o Estado mínimo e o mercado máximo, tão livre que paira acima das leis e da decência. As privatizações do patrimônio público (Siderúrgica Nacional, Vale do Rio Doce, Usiminas, sistema de telefonia etc.) são o exemplo maior de dependência de nosso país.

ao capital privado, em geral estrangeiro. E o que é mais grave: privatizam-se também nossos valores. Corroem nosso espírito cidadão. Estamos ficando cada vez menos solidários, menos cooperativos, menos participantes.

Até a fé religiosa é privatizada, destituída de sua ressonância social e política. Como se Deus fosse um balcão de atendimento de emergências e mero anabolizante de exaltações espiritualistas que não se traduzem em serviço libertador ao pobre, ao enfermo, ao excluído.

Frei Betto é escritor, autor de “Parábolas de Jesus” (Vozes), entre outros livros.

EDUCAÇÃO DE BALCÃO

Aprovação de PEC mostra retirada do Estado como provedor educacional, jogando este papel aos conteúdos padronizados da iniciativa privada

A aprovação da PEC 55 congelou por 20 anos os gastos públicos federais em educação. Eis a retirada progressiva do Estado como provedor educacional, cedendo espaço à iniciativa privada. Ensino dá lucro, sobretudo quando objetiva a massa de alunos que abre mão de seu protagonismo educativo e se torna mero recipiente para se injetar conteúdos padronizados.

Acelera-se a privatização das instituições de ensino brasileiras em mãos de grupos estrangeiros. O fundo americano Advent comprou, em março de 2016, o Centro Universitário da Serra Gaúcha, em Caxias do Sul (RS). No fim do ano passado, comprou também o Cesuca (Complexo de Ensino Superior de Cachoeirinha (RS). Reuniu os dois campi no grupo educacional FSG, com 13 mil alunos, cuja mensalidade mínima é de R$ 1 mil.

Já a fusão, em agosto de 2016, dos grupos Estácio de Sá e Kroton abrangeu 1,5 milhão de alunos. A Kroton, maior empresa educacional do Brasil, abarca 127 campi e 726 polos de ensino espalhados pelo país sob diferentes marcas: Pitágoras, Unic, Unopar, Unimed, Ceama, Unirondon, Fais, Fama e União.

Associada à monopolização da educação em mãos de poucos grupos, soma-se a ofensiva para privatizar o ensino público e elitizar ainda mais o privado. Assim, multiplicam-se “consultorias” educacionais que se apresentam como ferramentas inovadoras e empunham, como estandarte, o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), que avalia 500 mil estudantes em 70 países vinculados à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Quando se quer julgar a qualidade do ensino, apela-se aos dados do PISA. A ótica do PISA é meramente mercadológica, sem levar em conta as especificidades locais. O que importa é formar mão de obra qualificada para o mercado global. E ao enaltecer as novas tecnologias como redentoras da educação, busca estandartizá-la, esvaziando o ensino de conteúdos críticos e humanitários.

O PISA valoriza políticas educacionais de caráter empresarial e apoia transferir a responsabilidade da educação do Estado para a iniciativa privada. Elimina a autonomia pedagógica dos professores e os transforma em meros agentes forjadores de alunos bem sucedidos em avaliações externas. Em suma, empenha-se em erradicar a educação como direito universal a ser obrigatoriamente assegurado a toda a população pelo Estado, para transformá-la em mercadoria ou artigo de luxo. Quem pode pagar, tem acesso ao estudo.

Desde 1990 se expande no Brasil a educação a distância (EAD) nos cursos de licenciatura. Após o ano de 2005, esses cursos se ampliaram com a criação da Universidade Aberta do Brasil (UAB) e a maior atuação da Secretaria de Ensino à Distância (SEED) do MEC.

O Banco Mundial investe na formação de professores em países em desenvolvimento desde que se adotem as estratégias do EAD, que não considera a educação uma prática social essencialmente política. O ensino, agora em escala industrial, deve evitar a reflexão crítica e ater-se exclusivamente à qualificação profissional. Essa profilaxia ideológica está na origem da Escola Sem Partido. Nada de professores e alunos se encontrando em salas de aula, cafés, corredores da escola, biblioteca. Cada um que se prenda unicamente ao monitor de seu computador.

Hoje, 72% dos 8 milhões de alunos de ensino superior no Brasil estão matriculados em universidades particulares, muitos financiados pelo Fies, que investe quase 20 bilhões de reais de dinheiro do governo em bolsas, quando deveria aplicar na melhoria do ensino público. No estado de São Paulo, o índice de alunos de ensino superior na rede privada chega a 84% e, na capital, 91%.
Enquanto isso, a base social brasileira se afunda no poço da ignorância: 2,5 milhões de crianças sem creches; 600 mil sem pré-escola; 460 mil fora do ensino fundamental; e 1,7 milhão de jovens, de 15 a 17 anos, fora do ensino médio.

Eis o sucateamento de uma nação.

CARTA AO MINISTRO DA JUSTIÇA

A solução é polvilhar nosso território de presídios?

Excelência: fui preso comum. Sim, a ditadura, que não respeitava direitos, me transferiu da prisão política para a comum. Em dois anos, passei pela Penitenciária do Estado de São Paulo, Carandiru e Penitenciária de Presidente Venceslau (SP), a mesma que hoje abriga o comando do PCC.

É verdade, faz tempo que vivi em nosso sistema prisional. Mas de lá pra cá pouco mudou. Só piorou. E os governos do Brasil democrático tomaram uma única medida, a mesma que o presidente Temer anunciou há pouco: construir novas cadeias. Agora mesmo, frente ao massacre no Amazonas, já conhecido como “Carandiru 2”, o que fez o governo federal? Propôs a construção de mais duas penitenciárias naquele estado.

Hoje o Brasil abriga 660 mil presos. A continuar a enxugar gelo, ou seja, aliviar os efeitos da criminalidade sem combater as causas, daqui a pouco serão 1 milhão. A solução é polvilhar nosso território de presídios?

Há quem proponha entregar o sistema prisional à iniciativa privada. Aliás, a penitenciária Anísio Jobim, em Manaus, na qual foram trucidados 56 presos, funciona em parceria público-privada. Esse modelito, adotado nos EUA, vem sendo revisto pelo Tio Sam. Como a empresa recebe do Estado segundo o número de detentos que administra, quanto mais lotada a prisão, maior o lucro...

Sou a favor da parceria público-privada em outros termos. Transformar cada penitenciária em oficina-escola. Tirar os detentos da ociosidade. Em convênio com empresas, fazer funcionar ali dentro oficinas de fabricação de brinquedos, bicicletas e velocípedes, material esportivo, artesanato etc., mediante remuneração salarial. E aulas de ensinos fundamental e médio, idiomas, culinária, teatro, dança etc. E, de acordo com a lei, regressão da pena a cada etapa vencida.

Muitos ingressariam nessas atividades movidos, inicialmente, pelo interesse de encurtar o tempo entre as grades. Porém, oficinas e cursos haveriam de mudar-lhes o modo de pensar e agir, recuperando-os ao convívio social.

Utopia? Não, experiência. Basta analisar o índice de reincidência criminal daqueles que, em Presidente Venceslau, passaram pelo curso de ensino médio e as oficinas de pintura, teatro e estudos bíblicos. Todos administrados por nós, meia-dúzia de presos políticos, inseridos na massa carcerária.

Autor(a): Frei Betto é escritor, autor de Batismo de Sangue (Rocco), entre outros livros.
Fonte: Jornal O Globo / Associação dos Engenheiros da Petrobrás
Colaborador(a): Maria Cristina Abreu

 

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