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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO
publicado em: 30/05/2019 por: Lou Micaldas

⇒"SEMPRE QUE OUÇO FALAR EM CULTURA, PEGO O MEU REVÓLVER"

⇒NÃO É JUSTO QUE PAÍS SE SUBMETA AOS FATOS

⇒ELEFANTINHOS

⇒MATEMÁTICA

⇒SENTENÇAS

DESABAFOS DE UM MARIDO

⇒DAR-SE CONTA

NOLA

⇒64

SANGRIA

OUTRA CARTA DA DORINHA

VIAGENS FANTASMAS

"SEMPRE QUE OUÇO FALAR EM CULTURA, PEGO O MEU REVÓLVER"

A frase que sobrevive ao autor

Goebbels nunca reivindicou autoria

Há frases que sobrevivem aos seus autores — em muitos casos porque são atribuídas a autores errados. Nem o Humphrey Bogart nem a Ingrid Bergman pediram ao pianista Sam que tocasse “As time goes by” outra vez, no “Casablanca”, o que não impediu que fosse a música mais lembrada do filme. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, deixou uma penca de frases para a posteridade. Estranhamente, a autenticidade das suas citações está só agora sendo debatida. O verdadeiro autor da tirada “sempre que ouço falar em cultura, pego o meu revólver” seria não o magro Goebbels, mas o gordo Hermann Goering, que disputava com Goebbels um lugar no coração do Führer. E agora surge outra revelação: a frase faria parte de uma peça intitulada “Schlageter”, lançada em Berlim em 1933. Enfim, o autor.

Goebbels nunca reivindicou a autoria da frase famosa porque, decerto, achava que merecia todas as glórias de uma boa sacada, mesmo as emprestadas. Também, como intelectual do regime e atento a tudo que desmoronava à sua volta, inclusive o sacrifício dos seus próprios filhos e o seu suicídio no bunker de Hitler, Goebbels deve ter visto seu final como um misto de castigo pelos seus crimes e triunfalismo trágico pela sua fidelidade. Se todas as vezes em que ouvisse falar em cultura tivesse sido mais rápido no gatilho, talvez o delírio nazista tivesse durado mais um pouco, ou menos. Para as crianças no bunker, não faria diferença.

A frase de Goebbels que não era de Goebbels teve várias versões. Groucho Marx: “Sempre que ouço alguém falar em cultura, pego a minha carteira.” Possível outra versão da frase do Groucho: “Sempre que ouço falar em cultura, escondo minha carteira”. No Brasil do governo Bolsonaro, a escolha cultura/revólver já foi feita.

NÃO É JUSTO QUE PAÍS SE SUBMETA AOS FATOS

Aqui a história não se repete, se corrige

A máxima do Marx, segundo a qual a história só se repete como farsa, tem uma versão brasileira: aqui a história não se repete, se corrige. Discute-se se o que houve em 64 foi um golpe ou uma revolução redentora, e o que veio depois foi ou não foi uma ditadura de 20 anos. Uma facção sustenta que houve, sim, um golpe e uma ditadura e que os fatos confirmam isso, outra facção sustenta que nunca houve golpe, e os 20 anos de ditadura foram um mal-entendido, uma terceira facção aceita que houve um golpe e uma ditadura, e os fatos confirmam isto, mas que não se deve dar importância demais aos fatos. Os fatos são volúveis, os fatos são tiranos, não é justo que a memória de uma nação se submeta aos fatos sem poder reagir.

Por exemplo: por que devemos conviver com a lembrança cruel dos 7 a 1 na Copa de 2014 só por respeito aos fatos, que não tiveram nenhum respeito por nós e nosso futebol pentacampeão? Poderíamos eliminar os fatos da memória um por um, sem escrúpulos, pois se trataria da nossa paz de espírito, da autoestima nacional. Com a derrota dos fatos, mandaríamos os alemães pra casa, humilhados. Não precisaríamos nem ganhar a Copa, bastaria nos livrarmos do 7 a 1.

Quem acredita que podemos corrigir o passado pode se aproveitar do fato de termos um presidente que também acredita, e já anunciou isso várias vezes. Bolsonaro é da linha “Fatos? Que fatos?”, como a maioria dos militares, que prefere exorcizar um passado incômodo ou insistir que salvaram a pátria, e só divergem na quantidade de truculência justificável para cumprir a missão. Não se sabe se Bolsonaro vai endossar a linha oficial de que a história se corrige ou vai deixar pra lá. De qualquer maneira, continuar negando que houve um golpe e 20 anos de um regime discricionário é continuar vivendo uma farsa.

“Marxismo cultural” é uma frase ominosa, aproxima-se demais de “macartismo cultural”, e é um pretexto para os estragos que pode fazer na educação e na produção intelectual brasileiras, se o obscurantismo se impuser.

ELEFANTINHOS

Pense nos candidatos definidos para a próxima eleição presidencial. Há exceções, claro, e torçamos por elas, mas a mediocridade predomina, certo?

Uma das mais de 17 mil ilhas da Indonésia se chama Flores e vem intrigando arqueólogos e pesquisadores desde que descobriram que seus habitantes eram pequenos. Não pigmeus: pequenos, menores do que outros nativos da região, baixinhos. Especula-se sobre a origem do homo floresiensis. Como ele está extinto, os cientistas valem-se de métodos modernos, como o estudo do DNA dos esqueletos encontrados, para ligá-los a outras etnias do arquipélago indonésio e classificá-los. Mas o DNA não está ajudando. De onde vieram e como acabaram os nativos de Flores? Por acaso, um casal de pouca estatura teria inaugurado a linhagem que, com o tempo, ocuparia a ilha, enchendo-a de baixinhos como eles? A explicação seria puramente genética? Quem sabe uma origem extraterrena? A investigação continua.

Um complicador que desafia os cientistas é o seguinte: Flores também tem elefantes, que sobreviveram à extinção do homo floresiensis. E os elefantes também são baixinhos! Os animais que no resto da Indonésia são símbolos imponentes de tamanho e vigor, em Flores são pouco maiores do que cachorros grandes. Como chegaram à ilha? Já eram pequenos quando chegaram ou foram ficando menores com o passar do tempo? Por quê? Algo no ar, na alimentação? Uma deferência dos elefantinhos aos nativos, diminuindo progressivamente para não humilhá-los com seu tamanho?

Achei que havia uma metáfora em algum lugar nessa história da ilha de Flores. Proponho esta: pense nos candidatos definidos para a próxima eleição presidencial brasileira. Há exceções, claro, e torçamos por elas, mas a mediocridade predomina, certo? Você procura em vão por cima da cabeça deles por algo maior, algo que represente mudança, algo que nos empolgue — enfim, um elefante — e só enxerga gente pequena e elefantinhos. As exceções são as que têm menos chances de ganhar, o que só acrescenta melancolia a este sentimento nacional de absoluta falta de elefantes.

MATEMÁTICA

Sonho pangermânico de Hitler só virou coisa de louco porque ele perdeu. 

A aritmética dos campos de extermínio nazistas era justificada pela purificação da raça ariana

O presidente Abraham Lincoln escolheu o general Ulysses S. Grant para liderar as forças do Norte na Guerra Civil Americana porque Grant, segundo Lincoln, não tinha medo da matemática.

Além de ser um reconhecido estrategista, Grant não hesitava em ordenar ataques frontais ao inimigo sabendo que a contagem de baixas seria horrorosa. A tétrica aritmética da Guerra Civil Americana só seria superada pela da Grande Guerra de 1914, quando milhares de vidas podiam ser sacrificadas num só dia por nada — como na Batalha do Somme, em que 50 mil soldados ingleses morreram avançando contra fogo alemão sem que um metro de terreno fosse conquistado. Na verdade, mais de três milhões de seres humanos foram sacrificados nos três anos da Primeira Guerra Mundial sem que a frente de batalha se movesse, para um lado ou para o outro, mais de algumas milhas. Nos dois lados havia generais dispostos a enfrentar a aritmética. Durante três anos, generais, governantes, políticos, intelectuais, imprensa e povo dos dois lados conviveram, patrioticamente, com a aritmética. Justificando-a ou — o mais cômodo, pelo menos para quem não estava numa trincheira — ignorando-a.

A Guerra de 1914 foi um exemplo extremo de estupidez militar e civil, e até hoje historiadores discutem as causas reais de tamanha insensatez coletiva. Mas ela teve seus justificadores. Era a Europa liberal resistindo ao militarismo alemão. A Guerra Civil americana também tinha tido, pelo menos na superfície, a justificativa nobre da abolição da escravatura. A aritmética do terror aéreo que a Alemanha lançou na outra grande guerra, a Segundona, depois de ensaiá-lo na Espanha, teve por trás o sonho pangermânico de Hitler, que só virou coisa de louco porque ele perdeu. A aritmética dos campos de extermínio nazistas era justificada pela purificação da raça ariana. A aritmética dos bombardeios gratuitos de Dresden e de Hiroshima e Nagasaki se justificava como castigo para quem tinha começado a guerra. A aritmética dos gulags e dos expurgos stalinistas se justificava pelo ideal comunista. A aritmética do terrorista suicida palestino se justifica por uma causa, a aritmética da represália israelense se justifica por outra. E há tantas maneiras de ignorar a aritmética como há de defendê-la, ou exaltá-la como uma virtude militar, como Lincoln fez com Grant.

No Brasil, convivemos com a desigualdade e com um exército de excluídos que não são menos vítimas de um descaso histórico por serem um genocídio distraído, com o qual nos acostumamos. Mas a matemática do descaso histórico nos bate na cara todos os dias.

SENTENÇAS

Há hipótese de que exista um certo ciúme do Sergio Moro entre os juízes, que querem aparecer mais do que ele dando sentenças maiores

Deixa ver se entendi. O Moro condenou Lula a nove anos e pouco de reclusão. Os juízes da segunda instância concluíram que nove e pouco era pouco e aumentaram a pena para 12 anos e um mês. A razão de nove e pouco e a razão de 12 e um são desconhecidas. Imagina-se que exista uma tabela que determine a duração da pena de acordo com o crime. Neste caso, Moro e os juízes de Porto Alegre tinham tabelas diferentes. Ou a tabela mais branda do Moro estava vencida. Ou então a segunda instância quis provar que era mais dura do que o Moro e acrescentou três anos à condenação, por sua conta. Três anos, dirá você, não é muito. Isso porque não é você, desalmado, o preso, obrigado a tomar o sopão da Polícia Federal todos os dias. Outra hipótese é que exista um certo ciúme do Moro entre os juízes, que querem aparecer mais do que ele dando sentenças maiores. O fato é que os critérios para escolher quem pega nove anos e um pouco e 12 anos e um mês (esse um mês é sádico) ninguém sabe quais são. São aleatórios. (Ainda se usa “aleatório”?).

O Supremo teve o destino do Lula nas suas mãos, quando decidiu aceitar ou não o habeas corpus que o deixaria livre. Um só voto definiria seu futuro — a liberdade ou 12 anos e um mês na prisão. A votação estava empatada, cinco a cinco, o que significa que metade dos ministros aceitava o habeas corpus. Um escore tão apertado, levado em consideração o que estava sendo votado, justificaria pelo menos uma segunda rodada, para que todos examinassem suas consciências e repensassem seus votos — ou não. Eu sei, eu sei. Não pode. Mas também um só voto não deveria ter tal poder sobre a vida de um homem.

A Polícia Federal de Curitiba está com um problema hoteleiro. Com Lula ocupando a suíte presidencial, ou coisa parecida, onde colocarão os figurões que começarão — para não serem chamados de hipócritas — a prender? E as sentenças dos figurões? Quais serão as sentenças? Nove anos e um pouco, 12 anos e um mês? O que dirá a tabela?


Minha esposa e eu temos o segredo pra fazer um casamento durar:
duas vezes por semana, vamos a um ótimo restaurante, com uma comida gostosa, uma boa bebida, e um bom companheirismo: ela vai às terças-feiras e eu, às quintas.
Nós também dormimos em camas separadas. A dela é em Fortaleza e a minha, em São Paulo.
Eu levo minha esposa a todos os lugares, mas ela sempre acha o caminho de volta.
Perguntei a ela onde ela gostaria de ir no nosso aniversário de casamento.
- 'Em algum lugar que eu não tenha ido há muito tempo!' ela disse.
Então eu sugeri a cozinha.
Nós sempre andamos de mãos dadas. Se eu soltar, ela vai às compras.
Ela tem um liquidificador elétrico, uma torradeira elétrica e uma máquina de fazer pão elétrica.
Então, ela disse: 'Nós temos muito aparelhos, mas não temos lugar pra sentar'.
Daí, comprei pra ela uma cadeira elétrica.
Lembrem-se... O casamento é a causa número 1 para o divórcio:
Estatisticamente, 100 % dos divórcios começam com o casamento.
Eu me casei com a 'Sra Certa'. Só não sabia que o primeiro nome dela era 'Sempre'.
Já faz 18 meses que não falo com minha esposa. É que não gosto de interrompê-la.
Mas tenho que admitir, a nossa última briga foi culpa minha. Ela perguntou: 'O que tem na TV?'
E eu disse, 'Poeira'.
No começo Deus criou o mundo e descansou. Então, Ele criou o homem e descansou.
Depois, criou a mulher.
Desde então, nem Deus, nem o homem, nem o Mundo, tiveram mais descanso.

DAR-SE CONTA

Assistimos à tomada da economia por uma ortodoxia neoliberal quase caricata na sua falta de pudor, incluindo cortes nos direitos de trabalhadores e programas sociais

Tem um personagem do Voltaire que um dia descobre, encantado, que falou prosa toda a sua vida. Pertencemos, simultaneamente, a várias categorias das quais não nos damos conta. Inclusive a dos prosadores.

Qualquer pessoa sensata que parar para pensar na origem e na expansão do Universo e no que nos espera quando nosso Sol se extinguir ou explodir terá a mesma reação do personagem do Voltaire — só que, em vez de se encantar, pensará: “Isso não vai acabar bem...”.

Não podemos pedir dispensa do Universo e suas convulsões por uma questão de consciência, alegando ser contra a violência. Nem fazer como aquela moça do interior que lia nos livros de Física sobre as leis da termodinâmica e da gravidade e suspirava porque nenhuma daquelas coisas excitantes acontecia com ela.

Aconteciam, ela só não se dava conta.

Não tem sentido dizer “não entendo nada de economia”, como se a economia não tivesse nada a ver conosco, e ficássemos imunes às suas leis. Você está dentro da economia do seu país, queira ou não, entenda-a ou não. É um ser econômico até dormindo.

A diferença entre a economia e o Universo é que, até agora, ninguém conseguiu alterar os processos cósmicos e as leis naturais, enquanto a economia de um país é uma questão de escolha.

Você não pode viver socialisticamente num país capitalista, mas deve ter sempre em mente que existem alternativas, não importa o que dizem os economistas neoliberais. Estes prevalecem na falta de uma oposição consequente.

Agora mesmo assistimos a uma tomada da economia nacional por uma ortodoxia neoliberal que é quase caricata na sua falta de pudor, incluindo cortes nos direitos de trabalhadores, cortes em programas sociais, em nome de uma austeridade letal para os mais pobres, privatizações sem justificativa a não ser a do entreguismo puro, leilão de grandes áreas do patrimônio nacional para espoliadores estrangeiros etc., etc.

Tudo isso é conosco, estamos metidos nessa violência como estamos metidos no Universo. Falta nos darmos conta de que outro Universo não é possível, mas outro mundo é.

Papo vovô

Nossa neta Lucinda, de 9 anos, estava brigando com os pais. Já tinha esgotado seu repertorio de queixas, não tinha mais o que dizer para ganhar a discussão. Então, acabou com um grito: “Fica Temer!”

Merecemos

E surge, no horizonte da pátria, o Fufuquinha, filho do Fufuca, que vai comandar a Câmara na ausência do Rodrigo Maia. Não vamos prejulgar o homem, que pode se sair bem. Mas você não acha que do que o Brasil decididamente não precisava, numa hora destas, era de um Fufuquinha?

NOLA

A influência negra foi importantíssima na identidade de Nova Orleans, o que não impediu que os negros continuassem a ser uma classe discriminada

Um evento familial (o casamento de um sobrinho) nos levou a passar alguns dias em Nova Orleans, recentemente. “Nola”, como dizem os nativos, é uma cidade peculiar, nada a ver com qualquer outra cidade americana. A começar pela sua origem francesa, antes de o Estado da Louisiana ser comprado pelos Estados Unidos, quando se chamava “Nouvelle-Orleans” e já era uma sociedade multicultural, com a predominância de franceses e espanhóis. A principal característica deixada pelos colonizadores europeus na cara da cidade foi a quantidade de sacadas de ferro moldado do bairro velho, o French Quarter. E a principal herança deixada na cidade pela escravatura foi a quantidade de afrodescendentes na sua população atual. A influência negra foi importantíssima na identidade cultural de Nova Orleans, o que não impediu que os negros continuassem a ser uma classe discriminada. Quando o furacão Katrina atingiu a cidade há alguns anos, atingiu com mais força regiões pobres, e a demora em providenciar ajuda à sua maioria afro ficou como uma das manchas do governo Bush, cobrada até hoje.

Um passeio de bonde por uma das avenidas residenciais de Nova Orleans passa por mansões da época em que grandes fortunas eram construídas em cima do trabalho escravo. Você pode imaginar seus donos sentados na sacada colunada bebendo drinks de menta com uma escrava lhes abanando os pés. Não, não vi nenhum bonde cujo destino era Desejo, para lembrar o filme de Elia Kazan com o Marlon Brando de camiseta suada e gritando “Stella!”. O suor do Marlon Brando no filme é compreensível: a cidade, construída em cima de pântanos, é quente o ano todo.

Nova Orleans foi o berço do jazz, e a cidade, eminentemente racista, deu ao fato o reconhecimento devido. A começar pelo aeroporto, chamado Louis Armstrong, com uma imensa estátua do trompetista recebendo os visitantes. Nas ruas do Quarteirão Francês, os bares ficam com as portas generosamente abertas para você ouvir o que se passa lá dentro. No famoso Preservation Hall, um grupo de senhores toca o autêntico “New Orleans Jazz”. Ou não tão autêntico assim. Como era tocado em desfiles, o jazz original não podia ter contrabaixo, substituído pela tuba, nem piano. E no Preservation Hall havia contrabaixo, e uma incongruente mocinha oriental tocando piano.

64

A notícia de que as tropas estão na rua outra vez me enche de revolta, mas também de nostalgia. Saudade não do golpe e do que viria depois, mas de nós, naqueles dias

Lucia e eu nos casamos em março de 1964. Fomos morar num quarto-e-sala da Rua Figueiredo Magalhães, em Copacabana. Eu, sem emprego, tentava começar um negócio que só provaria minha total inabilidade para negócios. Vivíamos do dinheiro mandado de casa, o bastante para pagar o aluguel e pouca coisa mais. E éramos felizes.

Quando marcamos a data do casamento, me ocupei em saber o que o ano de 64 nos reservava. Não tinha nenhuma crença em desígnios ocultos, mas nunca se sabe. Encontrei uma lista num livro chamado “Símbolos”.

Descobri que 64 são os caminhos da Cabala para o conhecimento.
Que a mãe do Buda era de uma família com 64 tipos de virtude.

Que 64 gerações separavam Confúcio do começo da dinastia Hoang Ti.

Que Jesus Cristo era o sexagésimo-quarto na linha de descendentes diretos de Adão, segundo São Lucas.

Que 64 mulas puxaram a carruagem fúnebre de Alexandre Magno.
Que 64 pessoas carregavam os restos mortais dos imperadores da China.
Que 64 são as casas num tabuleiro de xadrez.

E que 64, oito vezes oito, é o numero da plenitude humana.

Deduzi que 64 era um bom ano para começar um casamento. Mal sabia eu…
A lista não dizia nada sobre o general Mourão.

A notícia de que as tropas estão na rua outra vez me enche, portanto, de revolta, mas também de nostalgia. Saudade não do golpe e do que viria depois, mas de nós, naqueles dias.

Minha única atividade antigolpe, além de comprar o “Correio da Manhã” para ler o Cony, era preparar a fuga de uma tia que estava sendo hostilizada no trabalho, caso fosse necessário.

Mas quando penso em 64, penso no nosso pequeno apartamento na Figueiredo Magalhães, na festa que era quando sobrava algum dinheiro para jantar no “Rondinela”.

Não sei se teremos 64 de novo. Nem sei se a tropa já não foi, sensatamente, recolhida aos quartéis. Nossa juventude é que certamente não volta mais.

SANGRIA

Não entendo por que o próprio Tribunal Eleitoral não pode esclarecer quanto da dinheirama foi declarada e aprovada por ele e de quanto ele nem sentiu o cheiro

A Operação Lava-Jato foi descrita por um dos seus alvos como uma “sangria” a ser estancada antes que causasse mais estragos.

Se está em andamento, nos corredores sombrios do poder, um processo de abafa da Lava-Jato sem dar muito na vista, só sabe quem frequenta os corredores sombrios.

O recém-empossado ministro da Justiça declarou que não tocará na Polícia Federal e não intervirá na Lava-Jato. Em outras palavras, que vai deixar sangrar.

Quando eu era guri, na Idade Média, cruzava-se dedos para dizer uma mentira, o que absolvia o mentiroso.
Ninguém observou os dedos do novo ministro enquanto ele falava. Mas dizem que ele é um cara legal e fará o que falou, ou não fará o que se teme.

O “Jornal Nacional” dá os nomes dos investigados pela Lava-Jato e por outras operações, mas nunca deixa, corretamente, de procurar representantes dos citados ou os próprios citados para ouvir suas defesas.

Com a enxurrada de novos denunciados aparecendo todos os dias e com as delações se multiplicando, pode-se prever que em breve todo o “Jornal Nacional” será tomado pelos nomes dos acusados e pelas suas explicações, não sobrando tempo nem para a meteorologia com a Maju.

As explicações se repetem, sem muita variação. Todos são inocentes. Nada do que receberam foi para o caixa dois ou para seus bolsos, tudo foi para o caixa um, devidamente registrado pelo Tribunal Eleitoral.

Não entendo por que o próprio Tribunal Eleitoral não pode esclarecer quanto da dinheirama foi declarada e aprovada por ele e de quanto ele nem sentiu o cheiro, ou se tem competência para fazer isso, ou não quer se envolver.

A esquerda, ainda ressentida com a condução coercitiva do Lula e a gravação e o vazamento ilegais de conversa da Dilma, então na Presidência, pode se consolar com a ideia de que Moro e seus justiceiros desencadeiam um ataque sem precedentes ao capitalismo de compadres brasileiro.

Não se pode nem dizer que a Odebrecht, as empreiteiras e outras empresas flagradas comprando favores de políticos sejam anomalias, e o propinato, uma perversão a ser exorcizada para que os negócios voltem à normalidade.

A normalidade, no capitalismo de compadres brasileiro, é a promiscuidade do capital predador com o poder à venda, e assim tem sido há décadas.

O que vem depois da Lava-Jato? A que normalidade se volta, uma nova ou a de sempre? E até que ponto a sangria será tolerada?

No passado se recorria à sangria para fins terapêuticos. No nosso caso, talvez o paciente não aguente.

OUTRA CARTA DA DORINHA

‘Caríssimo! Beijos secos, para poupar saliva. Sim, estamos todas empenhadas na campanha contra o desperdício de água’

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, não revela sua idade para ninguém, mas nega que já viu o Cometa Halley passar duas vezes. Só o Pitanguy e Deus sabem a sua verdadeira idade, e um está aposentado e o outro está quase. Dorinha tem se reunido com o seu grupo de carteado e pressão política, as Socialaites Socialistas, que lutam pela implantação no Brasil do socialismo soviético na sua fase terminal, que é a volta ao feudalismo (mas esclarecido desta vez, segundo elas). As reuniões das Socialaites Socialistas também tratam do trabalho social do grupo. Por exemplo: todas se comprometeram a doar seus botox para transplante, caso venham a morrer. O assunto predominante nas reuniões, claro, tem sido os escândalos das empreiteiras. Três do grupo estão com maridos presos, o que acham ótimo. “Assim pelo menos a gente sabe onde eles estão dormindo", diz Suzana (“Su”) Cata, para inveja das que têm maridos soltos. Mas a preocupação maior de todas é... Deixemos que a própria Dorinha nos conte. Sua carta veio escrita com tinta púrpura em papel magenta cheirando a “Mange Moi", um perfume proibido pelo Vaticano, mas que, dizem, o Papa Francisco está prestes a liberar.

“Caríssimo! Beijos secos, para poupar saliva. Sim, estamos todas empenhadas na campanha contra o desperdício de água. Senti como o problema é grave quando fiz uma enquete no grupo e se revelou que todas — todas! — estão dando banhos nos seus cachorros com água mineral S. Pellegrino. Menos eu, que lavo a ‘Desirée de Goumont’, meu poodle (o nome é maior do que ela), com champanhe rosê. A Tatiana (‘Tati’) Bitati, vice-líder do grupo, abaixo de mim, acha que devemos começar a pensar num plano D, de dar o fora, se a crise hídrica piorar muito. Ela propõe o exílio e já se informou sobre um condomínio em Miami que só recebe brasileiros fugitivos da crise e tem o nome sugestivo de ‘Bye, bye Brazil’. Nos mudaríamos para lá até que os reservatórios enchessem de novo ou o país virasse um imenso Piauí e não houvesse mais razão para voltar. Mas assez de misère! Como o próximo carnaval periga ser o ultimo antes do Juízo Final, decidi voltar a desfilar. Sim, estarei de novo na avenida! Só preciso encontrar meu agogô e meu tapa-sexo. O tapa-sexo foi visto pela última vez na boca da ‘Desirée de Goumont’, que brincava com ele distraída, sem se dar conta do simbolismo da cena. Meu único sentimento é que o Pitanguy não poderá estar ao meu lado, para ouvir o povo aplaudir meu corpo e pedir ‘O autor! O autor!’”.

VIAGENS FANTASMAS

O bar pertence a um grupo chamado “The usual suspects”, uma das frases memoráveis do filme, dita pelo capitão Renault

Li que o Encouraçado Potemkin é visitado por turistas, atraídos pelo seu significado histórico. A rebelião dos seus marinheiros em 1905 foi precursora da revolução comunista que tomaria o poder em 1917, na Rússia. Mas também li que o encouraçado foi capturado e destruído pelos alemães em 1922 e que o exército branco, que se opunha à revolução, acabou de desmantelálo.

O que, então, é visitado, exatamente? Seria uma reprodução do navio?
Muitos dos turistas que percorrem as famosas caves de Lescaux, na França, não sabem que estão dentro de réplicas das caves verdadeiras, cujas pinturas nas paredes não resistiriam ao trânsito de visitantes. Teriam construído um falso Encouraçado Potemkin para evocar a rebelião?

Romeu e Julieta nunca existiram. Shakespeare se inspirou num poema chamado “A trágica história de Romeu e Julieta”, de um tal Arthur Brooke, para criar seu desafortunado casal. A peça se passa em Verona mas poderia se passar em qualquer outra cidade, italiana ou não, inventada ou não. O que não impediu que a imaginação popular a localizasse numa Verona real e até identificasse o balcão do quarto de Julieta na casa dos Capuletos.

Vinha tanta gente olhar o balcão escalado por Romeu para os braços de Julieta que a prefeitura de Verona resolveu oficializá-lo e garantir sua autenticidade. Afinal, um balcão por qualquer outro nome é um balcão, e que não falta na bela Verona são balcões.

Quem chega em Casablanca, no Marrocos, esperando encontrar o Ric’s Cafe Americain — encontra! Existe um bar chamado Ric’s Cafe Casablanca que é uma copia perfeita do café do filme, incluindo um piano da época e um pianista que passa o tempo todo atendendo a pedidos para tocar “As time goes by”.

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman não aparecem — o tempo passou para eles — mas o bar pertence a um grupo chamado “The usual suspects”, uma das frases memoráveis do filme, dita pelo capitão Renault, que em caso de atentados manda prender os suspeitos de sempre.

Uma sugestão para agências de turismo: oferecer viagens fantasmas para lugares que nunca existiram ou não existem mais, ou ainda existem, mas falsificados

Autor(a): Luis Fernando Veríssimo é escritor
Fonte: oglobo.globo.com/
Colaborador(a): José Carlos Lima

 

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