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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

LUIZ MAIA
publicado em: 19/01/2017 por: Lou Micaldas

 

OS RIOS DA MINHA INFÂNCIA

Na minha infância e juventude eu morava em uma casa com um belo quintal. O casarão que ficava em frente era enorme, uma área de Mata Atlântica com cerca de seis hectares. Aquele espaço contemplava fruteiras e alguns animais. Mangueiras, cajueiros, ingazeiros, pitombeiras, jaqueiras, sapotiseiros, caramboleiras estavam sempre à nossa disposição. Também havia bicho para todos os lados: saguis, macacos-prego, cigarras, tanajuras, sapos, gias, cobras, grilos, rãs, tatus, passarinhos e outras espécies alegravam aqueles dias de plena convivência em harmonia com a natureza. Aquela riqueza toda em nossas mãos e a gente nem ligava. Ou melhor, não dávamos o valor que damos hoje. Muito natural que assim fosse. Afinal, não imaginávamos morar um dia em apartamento.

Os rios, em que eu e os amigos nos banhávamos na saudável infância, praticamente não existem mais. Naquela época a água que escorria dos rios era transparente e o fundo, com areia branca, só fazia nos encantar. Hoje, infelizmente, o que vemos é um filetinho d’água escorrendo por baixo de uma extensa camada de poluição. Tamanha beleza só existe em nossa memória. A curto e médio prazos a agressão aos mananciais d’água só tende a piorar. Garrafas plásticas, animais mortos, colchões e sofás velhos tomam conta daquilo onde antes corria o leito de um rio limpo e transparente. O problema com o esgotamento sanitário é comum nas grandes cidades do país. Aos poucos o fatídico progresso elimina a perspectiva de um mundo melhor, de uma vida mais saudável em comunhão com a natureza. É importante preservar os mananciais cuja riqueza é difícil de mensurar.

O cuidado com o meio ambiente deveria ser preocupação de toda a sociedade. É essencial promover e incentivar programas para desenvolver a consciência ecológica, algo que deve se iniciar em casa, com a adequada instrução de crianças e jovens. As instituições e os agentes responsáveis precisam com urgência transformar cada pessoa num agente multiplicador visando à preservação ambiental. Penso que um canal eficaz é por intermédio dos líderes religiosos, leigos e ordenados, de todas as denominações. Eu gostaria de ver um dia pastores, padres, espíritas, budistas, hinduístas abraçados à nobre causa de defender um mundo mais verde e mais respirável. É preciso associar definitivamente Deus à natureza. Foi Deus quem criou o mundo e, portanto, nos presenteou com árvores, oceanos, matas e rios. Talvez a solução esteja mesmo na ação efetiva dos gestores responsáveis pela condução do país. É necessário contar com a compreensão de todos para ajudar a difundir um assunto que está na pauta das grandes preocupações a serem discutidas e resolvidas para o bem do planeta. Quem cuida do meio ambiente, quem usa corretamente os espaços públicos, merece o aplauso daqueles que vivem em sociedade.

Fonte: Diário de Pernambuco - Recife, quarta-feira 28 de agosto de 2013

 
 
"Eu queria poder carregar um sorriso no coração nos momentos em que a vida me parecer triste."
 
O que me leva a falar de saudade, esse tema tão batido? Para mim não há como esquecer uma época em que tudo parecia mágico. Com toda franqueza eu me sinto incapaz de ignorar sua importância para mim. Na infância cheguei a ter receio do escuro, do raio, do trovão. Mas cresci tentando superar o medo. Durante o dia eu parecia forte, determinado, porém à noite era extremamente frágil, pessimista. Meus sonhos eram desfeitos ao cair da noite. Fui uma criança medrosa, mas encontrei nos braços de minha mãe um abrigo acolhedor. Hoje em dia, distante da mocidade, passei a me sentir um estranho ao caminhar por ruas, praças e shoppings da cidade. Quanto mais ando, por antigos e novos endereços, lembrando o Recife de antigamente, a cada passo que eu dou mais a cidade me parece estranha. Essa minha angústia existencial aflorou de tal sorte quando eu comecei a perceber que as pessoas passam por mim sem sequer me notar. Algo difícil de ocorrer nos anos sessenta. Mesmo morando na mesma cidade, o fato é que as pessoas hoje passam por mim sem saber quem eu sou. Do mesmo jeito como eu não conheço ninguém.
 
Hoje eu sinto falta de tudo que é simples, do que me parece vital: dos raios de sol ao cair da tarde, rompendo as folhas das mangueiras do meu quintal; do arco-íris por sobre as roupas dependuradas, que pareciam porta-estandartes coloridos nos varais.
Do cantar admirável dos pássaros nos galhos das laranjeiras, tornando mais bonito o amanhecer. O aroma de jasmim que adornava os jardins das residências nas Graças, Rosarinho e Derby, ainda está gravado em minha mente. Eu queria poder carregar um sorriso no coração nos momentos em que a vida me parecer triste. Por ora eu penso em descansar e busco sentar no banco da praça. Ao meu lado eu noto um casal de namorados. Eles discutem, brigam e viram a cara para o lado. Não sabem eles que estão a perder um precioso tempo...
 
Certamente estamos vivendo um mundo novo, bem diferente do meu. Pelo que pude notar, as pessoas já não frequentam mais festas, hoje elas dizem que vão à balada. Se passam por algum constrangimento, afirmam que é uma saia justa. Se alguma coisa aconteceu que as fez passar vergonha, pagaram um tremendo mico. As pessoas antigamente, quando reconhecidas por seu trabalho, ganhavam um bom dinheiro e passavam a ser bem sucedidas. Hoje, estão todos bombados. Namoro de hoje é ficar, conjunto musical virou banda, passear de mãos dadas deu vez aos encontros em motel. Sei não, mas essa geração precisa entender um pouco mais daquilo que é dar e receber carinho, conversar, dançar e jantar à luz de vela. Coisas simples que a cada dia vão ficando mais distante de nós. Coincidentemente, hoje fiquei sabendo que no bairro fechou a única floricultura que havia. Como presentear a pessoa amada, se ninguém sabe mais onde comprar flores? Espero que as pessoas não esqueçam de reverenciar o amor, um sentimento que permanece eterno.
 
Literatura & Opinião! (Blog pessoal)
http://literaturaeopiniao.blogspot.com.br/ 
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Autor dos livros "Veredas de uma vida", "Sem limites para amar", "Cânticos", "À flor da pele" e "Tamarineira - Natureza e Cidadania. Recife-PE.  
"É preciso entender que o sentimento de indignidade é saudável às pessoas. Aquele que pensa no bem estar coletivo se livra do egoísmo que o aprisiona. Colabore você também para que tenhamos um mundo melhor."
 
 
 
 
Na data em que se comemora o 'Dia das Crianças', venho aqui relembrar das noites estreladas em que ouvia minha mãe dizer que acreditava em sereias. Sua crença era inabalável a ponto de eu, por um bom tempo, acreditar nessa estória também. Dos quatro aos oito anos, acreditei na possibilidade de existir a figura do Papai Noel. Nos meses de dezembro, meu pai me levava pela mão e se dirigia à famosa loja Viana Leal. Já diante do 'Papai Noel', eu pedia o meu presente de Natal! Claro que eu nunca recebi nada, mas seguia acreditando. Quando eu, aos cinco anos, vi mamãe entrando em casa trazendo no colo minha primeira irmãzinha, corri para o terraço para conferir se as pegadas da 'cegonha' ainda estavam lá. Ou seja, eu acreditava piamente na estória da cegonha que trazia no bico um bebê. Havia pureza no coração das crianças da época. Estórias de trancoso, contadas por minha mãe, fortaleciam o lado lúdico e imaginativo, nos ajudando no crescimento como ser humano. Felizmente fui criado assim.

Após ter vivenciado algumas experiências amargas é que passei a lembrar com saudade da convivência que tive e tenho com os parentes e amigos. Hoje percebo com mais clareza a necessidade que temos de prestar mais atenção em cada um deles: nossos pais, irmãos, tios e avós. Precisamos saber como estão, onde moram, o que sentem e o que fazem. Eu gostaria de estar ao lado de todos, desfrutar de uma boa conversa para extrair lições de bondade e sabedoria, mas compreendo que nem sempre os nossos desejos podem ser concretizados.

Só a maturidade nos permite fazer esta reflexão. Mas fica a sugestão de que devemos ser mais presentes, estar mais vezes juntos, sermos mais generosos com o próximo. Em poucas palavras, eu traduzo a carência das conversas amigáveis, a falta de abraços, quem sabe ouvir aquela piada que somente meu tio Adalberto sabia contar. Afinal, parece que foi ontem que eu estava de calças curtas defronte de um bolo de chocolate. A sala cheia, parentes felizes a festejar mais um aniversário. Tudo ficou longe demais. Por onde andam meus tios, primas, meu pai e irmãos? E os amigos que não os vejo mais? Aos poucos vamos perdendo nossas referências, sem que nada mais possamos fazer. Por que me presenteiam com tantas ausências, se ao menos não me foi dado o poder de esquecer?

Autor: Luiz Maia
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"É preciso entender que o sentimento de indignidade é saudável às pessoas. Aquele que pensa no bem estar coletivo se livra do egoísmo que o aprisiona. Colabore você também para que tenhamos um mundo melhor."
 
 
 
Estamos desencantados com a espécie humana. Não se trata de pessimismo. O que acontece no Brasil e no mundo, objeto dos noticiários das TVs, rádios e jornais, não pode nos deixar contentes. A esperança que nos guia às vezes balança. Sentimo-nos oprimidos, sufocados e vulneráveis diante de tanta bandalheira. Como não se indignar com a corrupção, com as atitudes de pessoas arrogantes e desonestas que se encontram no centro do poder?

Que triste País é este no qual as pessoas aplaudem um ato de justiça? Um procedimento que deveria ser a regra, no Brasil é exceção. Saibam os senhores que atrás do juiz Sérgio Moro há milhões de brasileiros honrados que o apoiam em sua decisão de investigar a fundo os vários crimes cometidos por  políticos e empresários contra uma Nação desprotegida. Falta ao eterno “País do Futuro” um “presente” digno, que se mostre capaz de alcançar o futuro sonhado.

Mas é na amizade que eu encontro o calmante que alivia. Às vezes nos gestos amenos de pessoas que sequer conheço. De alguma forma temos em comum a esperança por um mundo melhor. Ideais que se contrapõem à onda de maldade que nos ameaça, como se nada de bom fosse nos acontecer. É preciso nos unirmos visando formar novas consciências; valores transformadores que tragam à sociedade uma perspectiva diferente de vida, algo que modifique o interior de cada um.

Eu sempre busquei na minha vida o bem comum, sinceramente falando. Imagino que seja preciso deixarmos de idealizar apenas e retirar os sonhos da prateleira para transformá-los em ações. Asseguro-lhes que esta minha consciência por um mundo mais justo é que me faz escrever coisas assim. É claro que eu gostaria muito de os ter como especiais aliados dessa nossa energia que tenta melhorar o mundo. Pessoas de boa índole mergulham em projetos mobilizadores por estarem igualmente preocupadas com o surgimento de uma sociedade melhor.

Enquanto os bons ventos não vêm, falta-me tempo para participar da vida de forma mais adequada aos meus princípios. Por mais que a vida nos empurre para a louca correria, haverá sempre em mim o desejo de viver a felicidade do meu habitual cotidiano. Nada me impedirá de ser feliz. Quanto ao conceito que cada um tem da felicidade, não me cabe analisar. Tenho diversos afazeres que me levam a outros caminhos. A vida, apesar de tudo, é maravilhosa!
 
Autor: Luiz Maia

 

Todos os dias eu me emociono e facilmente choro. Às vezes porque bate uma tristeza por aquilo que fiz errado e que poderia ter sido diferente. Mas não me lembro do dia em que chorei de dor - e eu sinto dores diariamente. Mas não choro de dor. E sim pelo que fiz de errado. Mas não me canso de pedir a Deus perdão pelos erros cometidos. Aproveito e peço perdão aos amigos que um dia se sentiram magoados por mim. Até mesmo pela palavra amiga não dita no momento certo. Chama-se a isso de omissão.

Existe em mim também um choro de agradecimento - e a Deus dou graças pelo bem que me foi concedido. E são inúmeros. Agradeço a vida e as oportunidades maravilhosas que estão diante de mim. Choro ao contemplar a beleza imensa da força natureza, a rotina de luzes e cores de um pôr de sol, o nascimento de uma criança diante do olhar sereno da mãe sorridente. Agradeço inclusive pela dor que sinto, pois tem me servido como parâmetro de como sou fraco, pequeno e limitado. Mas não choro na dor.
 
Choro com certa frequência pela amizade desfeita de forma estúpida. Pelos amigos que eu não soube fazer. Por ter tão poucos amigos - ou por aqueles que nunca os tive. Meu choro é de inconformismo diante da minha impotência em querer abarcar o mundo com as próprias mãos. Lamento pelas amizades bonitas que nunca se completaram. Pelo amigo que pensei ser e que nunca fui. Choro por tudo que um dia quis ser sem ter obtido êxito. Choro por tudo que sou.
 
Amar é bom e amar me faz chorar. Amo desmedidamente a vida. Amo sem reservas as pessoas com a mesma facilidade com que um dia terei de perdoá-las. E saber perdoar é tão difícil quanto a ingrata tarefa de aprender a ter paciência. Peço aos amigos paciência comigo já que terei de ter também com os outros. Paciência é ter que ouvir um desabafo em forma de prece. Ou uma prece em forma de desabafo.
 
Choro por aquele dia em que não fui solidário com quem precisava. Quando tantas vezes ignorei a dor alheia, fortalecendo ainda mais meu insólito egoísmo. Quantas vezes ri na minha arrogância, na minha ignorância quando pensei um dia ser forte, sábio e detentor de qualidades superiores aos demais. Justo neste momento em que eu devia mais chorar, nunca o fiz. Hoje choro as misérias e as dores do mundo por ser solidário à dor alheia, mas isso pouco importa. Gostaria de ser solidário de forma concreta, mas é quase impossível. Cansei da solidariedade teórica porquanto nada produz de fato.
 
Já perdi a conta das vezes em que chorei diante da minha amada. Nada mais maravilhoso que poder contemplá-la dormindo - e aí não tem como não chorar. Do mesmo modo como eu choro ao vê-la sorrindo seu riso maroto para mim. O choro de quem contempla a mulher amada é choro de fortes. E imaginar que um dia pensei que chorar era coisa de mulher, de gente fraca... Que absurdo!
 
Saibam que eu demorei a escrever enquanto as lágrimas caiam... Claro que muitos poderão pensar que sou feito de choro ou mesmo que faço a "declaração de um fraco". Não pense assim quem assim chegou a pensar. A verdade é que existe em mim uma criança adulta querendo aflorar. Ou aquele velho triste, cansado por nunca ter sido escutado...
 
Autor: Luiz Maia
Literatura & Opinião! (Blog pessoal)
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Autor dos livros "Veredas de uma vida", "Sem limites para amar", "Cânticos", "À flor da pele" e "Tamarineira - Natureza e Cidadania. Recife-PE.
"É preciso entender que o sentimento de indignidade é saudável às pessoas. Aquele que pensa no bem estar coletivo se livra do egoísmo que o aprisiona. Colabore você também para que tenhamos um mundo melhor."
 
 
SEM ASAS PARA VOAR
(Crônica em homenagem aos nossos pais)

Caminhar trôpego, olhar distante, voz e mãos trêmulas. Sinais da velhice, um amanhã que chega silenciosamente sem que nos apercebamos. A vida vai se despedindo daqueles que um dia nos pegaram no colo, educaram, alimentaram. É o momento em que vemos nossos pais voltando a ser crianças, dependendo do amparo e da ajuda dos filhos para as mais básicas atividades do cotidiano.

Como eu sinto saudade dos tempos de minha infância! Época feliz em que a família se reunia à mesa à hora das refeições. Meu pai à cabeceira, meus irmãos lado a lado, minha mãe servindo a todos, com carinho, doçura e um sorriso sempre presente na face. Ainda criança, não tinha consciência do quanto de sacrifício representa a árdua tarefa de ser pai, de ser mãe. Eles se desdobraram para dar o melhor aos sete filhos: boas escolas, alimentação de qualidade, disciplina, princípios, limites e, principalmente, muito amor.

Hoje só me resta aceitar que é imperativo trocarmos os papéis. Tenho que segurar as mãos e ajudar a quem tanto fez por mim. Quando a velhice chega e o cansaço bate à porta, os pais perdem a autonomia de cuidarem de si mesmos. Tirá-los da cama, dar-lhes um simples banho, mudar-lhes as roupas e, se possível, servir-lhes a comida, serão tarefas básicas de uma nova rotina para os filhos. Temos que compreender como age o fluxo natural da vida. Saber que o tempo passa e com ele se vão a vitalidade e a saúde.

Dói vê-los assim. Outrora eram nossa fortaleza. Agora são frágeis e indefesos. Restam-lhes apenas as lembranças dos momentos felizes de sua juventude e maturidade. Recordam-se do almoço aos domingos, das brincadeiras infantis, das aventuras adolescentes, dos primeiros netos. E nesse exato momento alguns deles gostariam de ter asas para voar...
 
Autor: Luiz Maia
 
 
LONGA ESCURIDÃO
De repente te abandonaram naquela sala imunda sem nenhuma explicação.

Quebraram teus jarros com flores, queimaram teus livros, pisaram teus sonhos. Mataram as lindas orquídeas da sala de estar. Tolheram a vida quando impediram teu livre caminhar. Negaram-te o direito de saber como seriam os teus dias. Fizeram-te de boba para que não compreendesses a realidade, impedindo que não soubesses das noites escuras que estavam por vir. Puseram vendas em teus olhos, jogaram-te na mais longa escuridão. Calaram tua boca, amordaçaram tua alma. Inibiram teus sonhos, roubaram os amores que buscavam a ti. Até que um dia chegaram a dizer que não mais existias. Fizeram-te ciente apenas dos acontecimentos havidos nos corredores da dor. Tentaram te transformar numa pessoa sem nome, cuja aparência amarga negaria quem verdadeiramente és. Só não supunham que pudesses descobrir no infortúnio a graça da poesia, a chama acesa do inusitado da analogia que rege os temas grandiosos.

Desiludida e cansada, mesmo assim não seguiste o caminho que as forças tenebrosas quiseram te impor. Hoje só tens a agradecer à vida. Dizer bem alto que valeu a pena não desanimar, não sendo em vão ter acreditado em um novo amanhã. Ainda que por ora oculta, palpita agora a beleza do renascer da vida em teu coração. Só peço para que não esqueças dos amigos. Nem dos teus muitos amores, aqueles a quem amas tanto! Repare em tudo à tua volta, na claridade que começa a brotar dentro de ti.
 
Mesmo no decorrer da dureza dos dias tristes, sempre aflorou em ti o desejo de enaltecer esse teu amor à vida. Hoje estás consumida pela luz das palavras, uma apaixonada pela vida que teima em existir. Há muitas verdades no mundo, todas precárias e provisórias. Aceitemos a complexidade da vida, esta que faz o homem agigantar-se no mundo e vencer os maiores obstáculos. Valeu a pena ter acalentado a esperança para que um novo tempo surgisse diante de ti.
 
Autor: Luiz Maia
Escritor
 
 

No Recife, lá pelos anos 60, um grupo de românticos, sonhadores e adolescentes passou a se reunir numa certa esquina no bairro de Água Fria, na Av. Beberibe. Mais adiante formaram o que hoje chamamos de 'amigos (quase) inseparáveis'. Nascia, portanto, a "Turma da Democracia". Passamos a ser conhecidos em vários locais, amados por uns, odiados por outros. Quem não se recorda das brigas de 'boca de loca', das sacanagens com seu Agenor, das injustiças cometidas contra 'tio' Zé?

Frequentamos campos de futebol, a zona do baixo meretrício, os cinemas Olímpia e Império, colégios e clubes da cidade. Namoramos a valer, às vezes brigamos, amamos e dançamos em centenas de 'assustados' em companhia das namoradas, ouvindo o som dos Beatles, Renato e Seus Blue Caps, Os Vips e Roberto Carlos. Cansamos de nos abraçar comemorando algum feito, uma alegria qualquer, assim como nos abraçamos em solidariedade à eventual dor do amigo! Saudoso e inigualável "Tempo do Nosso Tempo".

Nos fins de semana íamos jogar bola, à noite assistíamos ao programa Jovem Guarda, tomávamos um banho correndo para namorar. Tarde da noite a turma inteira se encontrava na churrascaria de Figueiroa, em Esmeraldino ou na Cabana, no Parque Treze de Maio. Quando alguém 'brigava' com a namorada, geralmente seu destino era o Bar de Aurora, local onde desafogava suas mágoas, curtindo a maior roedeira escutando nas vitrolas de ficha as músicas que falavam de amores desfeitos. E haja Waldick na radiola de ficha. Saudoso e inigualável "Tempo do Nosso Tempo"...

Os jovens de hoje não estão tendo o prazer de conhecer uma das mais importantes manifestações do comportamento humano de que já se ouviu falar, o cultivar das verdadeiras amizades. O que morreu não foi a amizade propriamente dita, mas sim a arte de fazer amigos, o ajuntamento de pessoas a gozar a vida de forma natural e espontânea. Deixaram de lado o ar livre, o jogo de bola na rua, a finura no trato com as mulheres, a delicadeza ao se dirigir ao outro, as brincadeiras sadias em meio à natureza dos nossos quintais. Também não podemos esquecer das sacanagens que diferenciavam o comportamento dos verdadeiros democratas. Saudoso e inigualável "Tempo do Nosso Tempo"...

Quisera poder traduzir sentimentos que são comuns a todos, mas que nem sempre sabemos como os dizê-los. Falar o quanto que fomos felizes sem sequer compreender isso àquela época. Finalmente não esquecer de dizer, sobretudo, que embora distante daquele período fértil ainda nos sobrará tempo suficiente para relembrar "os anos de ouro" e sermos felizes outra vez. Reafirmo como é maravilhoso poder estreitar este contato e matar saudade com os velhos amigos, em algum restaurante da cidade, algo que fazemos praticamente duas vezes ao ano.

Autor: Luiz Maia
Escritor
l.maia@terra.com.br
 
 

No domingo, 8 de dezembro de 2013, completo quarenta anos caminhando sobre rodas. Naquela data fui atingido na cabeça por um tiro de arma de fogo. Segundo eu soube, fora um amigo bêbado que me acertara sem querer. Mas do passado eu quero mais é recordar o tempo em que os palhaços eram a fonte límpida de minha mais pura alegria. Os de agora não me fazem rir.

Naquela sexta-feira à noite de 1973, eu fiquei entre a vida e a morte... Internado no Real Hospital Português, fui submetido a uma delicada intervenção cirúrgica que durou mais de oito horas. O pátio do RHP estava repleto de pessoas, todas querendo saber de mim. Eu, sem querer, fazia muita gente sofrer. Os meus pais estavam arrasados, inconsoláveis, tristes...

Esse acidente me fez conhecer um mundo completamente diferente. Logo eu aprendi a conviver com uma triparesia (diminuição dos movimentos no andar), sequela que carrego comigo até hoje. Após o impacto dos primeiros meses, vieram as dores da alma, as dúvidas com relação ao amanhã. A escuridão e a interrogação caminhariam comigo por um longo tempo...

Aprendi, com os meses, que a palavra "calma" seria a eterna resposta para minhas repetidas perguntas - "Doutor, quando eu voltarei a andar?" - "Calma, meu rapaz, tenha bastante calma..." É duro... mas fazer o quê?  Quando passamos por um grande problema, restam-nos poucas saídas. Entre se maldizer e reaver a vontade de viver eu fiquei com a segunda opção. Afinal de contas, a vida é uma sucessão de escolhas.

Ao sair do hospital, pela primeira vez, eu chegava em minha casa sem as minhas pernas, andando pelas mãos de irmãos e amigos. Sentado numa poltrona na sala de visitas, com todo o tempo do mundo para aproveitar, pela primeira vez percebi como era bonita a cerâmica de nossa casa. Antes eu só a pisava, grosseira e distraidamente. Agora me sobrava tempo para admirar o belo, mesmo à custa de perdas e de sofrimentos. É a recompensa às avessas, mas não deixa de ser interessante por isso.

O começo foi difícil. Passei um ano com vergonha de encarar as pessoas. Fugia de todos. Eu preferia estar em minha casa, no silêncio do terraço e ao lado da minha mãe. Assim eu me sentia protegido. Às vezes o sentimento de culpa me invadia pelo fato de causar sofrimento aos meus pais. Minha mãe já não tinha o mesmo brilho no olhar, expressava amor, em forma de angústia e compaixão.
 
O tempo passou sem que eu me acostumasse com a ausência dos amigos. Nem sempre conseguimos entender esse tipo de silêncio. Talvez seja isso. Acostumados com a presença e as palavras, quando eles silenciam nos assustam. Esquecemo-nos que também no silêncio a amizade se mantém viva. É difícil conceber que às vezes precisamos aprender a viver sozinhos, curtir a solidão que nos ensina a necessidade de ouvir mais vezes o silêncio que vem de nossas almas. Sem essa introspecção diária fica difícil resolver certas questões.
 
Eu faço esse comentário com vocês por me sentir útil e feliz! Há bastante tempo eu me sinto uma pessoa melhor, um homem de bem com a vida, em todos os aspectos. Hoje eu agradeço pelas amizades que conquistamos ao longo dos anos, muitas das quais por meio do contato virtual. Essa vontade em traduzir meus sentimentos em palavras vem e volta e eu ensaio uns versos sem a preocupação de produzir, mas de dizer tudo aquilo que eu vivi e estou vivendo. Minha inspiração vem de momentos de sonhos, de instantes de paz, de momentos de saudade, mas de pura alegria e contentamento. 
 
 
Eu levei a vida inteira me equilibrando em cima de uma navalha: de um lado a vida, do outro a morte. Uma força estranha, que eu não sabia explicar a razão, sempre soprava a meu favor, empurrando-me para a vida! Eu precisava estimular o meu lado fraco a continuar insistindo em poder um dia ser forte. Mesmo incrédulo, por instantes, eu precisava mentir para mim mesmo e assim poder fazer valer a obstinação que em mim vivia adormecida. Garanto que é realmente isso! Sem tirar nem pôr!
 
Desejo-lhes um ótimo Fim de Semana!
 
Abraço fraterno,
Luiz Maia

 

 
O Frei Aloísio Fragoso em suas palestras costuma refletir sobre os rumos da humanidade. Em uma recente palestra, ele sugere uma frase que eu assino embaixo: "a mente técnica pode desencantar a vida". O que isso significa de fato na percepção dele? Simplesmente ele quis dizer que é preciso ter tempo para contemplar a realidade, as pessoas, a natureza, os animais, as crianças, as coisas simples. Eu diria mais: é preciso não perder tempo levando uma vida aleatória, vã, sem sentido algum para só então descobrir que a vida é pródiga ao nos oferecer ensinamentos quando abraçamos a natureza e percebemos que somos parte integrante dela. O religioso aborda entre outras coisas a necessidade de transcender, sublimar e impregnar a vida de mística e de paixão por algo maior que si mesmo, buscando uma razão de viver, um ideal sublime embasado no amor.
 
Parabenizo o Frei Aloísio Fragoso por sua visão de vida, por sua preocupação em nos mostrar alguns ensinamentos que vêm da natureza. Por seu desprendimento ao caminhar mundo afora pregando uma nova maneira de se enxergar as coisas que estão à nossa volta, para que não percamos jamais o encantamento pela vida. Eu por vezes já falei sobre a necessidade que temos de transcender aos fatos menores do dia-a-dia. O homem transcende quando reconhece sua responsabilidade perante o meio ambiente e tudo faz para preservá-lo. No saber alimentar-se sem pressa ao mastigar, fazer da alimentação um prazer e agradecer a Deus pela comida diária. Precisamos comungar com o fato de que crescemos quando amamos as pessoas sem preconceitos, quando contemplamos um pôr-de-sol ou quando ouvimos uma boa música. Transcender é estar eventualmente triste e, mesmo assim, alegrar-se com a felicidade do outro.
 
Reconheço, no seu modo de ser, o amor agindo que desmantela os atos de mesquinhez, toda grosseria que possa vir das pessoas. Há momentos na vida em que eu gostaria de ler nas entrelinhas, perceber o que dizem as metáforas, imaginar os segredos de seus gestos e desvendar um pouco mais das pessoas. A cada passo eu conheceria seus gostos, seus recantos e desejos. Poder compreender o que diz esse silêncio súbito que me leva às lágrimas. É impossível deixar de levar uma palavra de conforto aos desaminados, aos que se sentem perdidos, tristes, sozinhos e afastados daqueles a quem amou um dia. Não deixe de amar, nem se preocupe se não for amado (a). Não recrimine em ninguém o imponderável. O ser humano é dócil em essência, é forte no sofrimento ao renascer novamente para o mundo. Frei Aloísio Fragoso fala de amores serenos, não os das paixões desenfreadas dos enamorados, mas dos seresteiros que eventualmente sozinhos ainda têm sonhos por realizar. É sempre bom ouvi-lo.
 
Luiz Maia
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O que aconteceria se de repente eu calasse minha voz, se eu deixasse de expressar meus sentimentos e esquecesse de enaltecer as mulheres e a beleza que há nos fenômenos da natureza? Embora eu sinta prazer de traduzir em palavras o meu amor à vida, há momentos em que eu esqueço tudo e me entrego ao silêncio sem querer falar.
Às vezes esqueço os discursos de paz que proferi, o medo que eu tive da falta de abraços, o descaso com a ecologia e a ausência no mundo de amores perfeitos. Nem sei como eu pude esquecer-me das vezes em que falei do meu amor à natureza, da falta de compreensão humana em relação à necessidade que temos de amar.
O que seria de mim se eu não mais elogiasse o belo, a vida, os amores; não mais me lembrasse das amizades distantes. Se eu me esquecesse de tudo talvez não compreendesse a dor daqueles que sofrem abraçados às paixões frustrantes, mas que reúnem forças para subir aos palcos e cantar o amor à vida.
Sem tê-la comigo ao meu lado, não saberia mais caminhar por entre os canteiros, apreciar as flores, cantar nossa música preferida. Não quero esquecer esse amor que se fez mais forte que o próprio desejo que há em mim. Como esquecer de seus gestos inaudíveis, de sua agonia contida em se fazer entender, dessa minha loucura serena ao me lembrar de você?
 
Autor:  Luiz Maia
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Você partiu sem me dizer uma palavra. O tempo passou sem que eu entendesse sua repentina viagem. A vida correu sem novidades, sem que eu me desse conta dessa imensa saudade. Até que as notícias me chegaram como por encanto, vindas de você. Só escuto palavras bonitas, às vezes indecisas, é certo, quando se referem a mim. Chego a imaginá-la diferente de quem é, e eu, de quem de fato sou. Palavras soam como versos que me embalam, expressando amor, levando-me a falar do quanto preciso de você para seguir minha alegria. Eu fico tentando expressar meu contentamento, mas confesso que pouco saberia dizer. Como falar, por exemplo, da saudade explícita que encobre desejos latentes, que chega a doer ao vê-los sucumbir nas entrelinhas? Não, dificilmente eu saberia falar...
 
Quando a leio, sinto-me criança outra vez. Aí não tem como não pensar em coisas que eu supus que não devesse nem dizer, mas é tudo balela. Querida, quão absurda e preconceituosa eram minha visão de vida, meu entendimento de mundo! Eu só sei que um dia eu a quis, mas você nunca me teve. Uma vez cheguei a dizer que a vida nos oferece tantas possibilidades e só deixamos de aproveitá-las por razões meramente culturais. Mas reconheço a força da cultura de um povo sobre os ímpetos advindos da natureza. Relembro aquele beijo não dado, a sensação de calor que percorria nossos corpos na iminência de mais um doloroso silêncio que nos envolvia. Lamento pelo abraço esquecido, pelos versos desfeitos, coisas bonitas que se perderam nos caminhos escuros que certamente não escolhemos seguir.
 
Penso em você e sou revestido de serena tranquilidade. Há tantos ruídos na noite, há tantos gritos que incomodam meu sono, que chego a imaginá-la bem perto a mim, a me envolver com sua alegria. Num instante eu recupero a consciência, mas aí vem você a dizer que nossas mentes não envelhecem, que nossos corpos se amoldam às circunstâncias da vida. Mas acontece que fui surpreendido com o passar do tempo, e já nem sei se eu a quis um dia. Hoje olho na velhice dos outros e noto que também caminho com certa dificuldade. Meus gestos já não obedecem ao meu comando, abracei o cansaço de vez e talvez nem me reconheça mais. Nesses dias em que penso em você, colho imagens distorcidas, mesmo na vã recordação do que fomos outrora. Por que não vejo mais as estrelas errantes, distantes que estão dos meus olhos.
 
Autor: Luiz Maia
Literatura & Opinião! (Blog pessoal)
http://literaturaeopiniao.blogspot.com.br/
Literatura & Opinião! (Site pessoal)
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Autor dos livros "Veredas de uma vida", "Sem limites para amar", "Cânticos", "À flor da pele" e "Tamarineira - Natureza e Cidadania. Recife-PE

 

 

 

 

 

 


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