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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

MALCOLM MONTGOMERY
publicado em: 30/05/2018 por: Lou Micaldas

ENVELHECER BEM

O PODER FEMININO E SUAS FACES MAIS SOMBRIAS

FALTA DE DELICADEZA MASCULINA

ENVELHECER BEM

Toda a mulher viveu uma história que pode ter sido gratificante ou repleta de dificuldades. A capacidade de lidar com essa história é o que conta pontos na saúde geral dessa menopausa e nos recursos internos que ela possui para enfrentar a pós-menopausa, que hoje é um tempo bem longo (praticamente um terço da vida).

Há, normalmente, uma frase de profunda reflexão que antecede qualquer providência no sentido de protelar a inexorável velhice. Dessa reflexão surgem decisões de acomodação definitiva ou mudança radical.

Uma mulher que tem como projeto progredir decola de seu passado. Já quem se prende às regras dessa sociedade que cultua a juventude recusa o passar do tempo.

Gosto de definir o envelhecimento como uma continuação do nosso desenvolvimento como ser social. "Uma envelhecência." O envelhecimento é natural a todos nós, mas ficar velho é privilégio dos passivos e conformados. Pode-se ficar velho em qualquer idade.

Poucas mulheres envelhecem naturalmente. Muitas tornam-se velhas devido à sua auto-imagem, seu comportamento e sua inatividade.

Os avanços da ginecologia moderna e as conquistas pessoais dessa nova matriz social definirão a mulher do próximo milênio. A busca da felicidade nunca deve parar, porque saúde e felicidade são sinônimos.

Saúde física, mental e social até os 90 anos (ou mais!).

A prática de esportes não impede o desgaste dos órgãos, mas contribui para o seu bom funcionamento.

A leitura e o estudo também não retardam o envelhecimento, mas acendem e mantêm o tônus do raciocínio e da memória. Reduzir demais as atividades conduz a um enfraquecimento da pessoa inteira.

Podemos dizer, hoje, que o envelhecimento se faz com muita energia, com desenvolvimento e muito amor à vida. Ao contrário da velha medicina cega que focalizava os problemas de coração e o colesterol.

Sabemos hoje que o colesterol da mulher feliz age diferentemente do colesterol da mulher infeliz e frustrada.

Valorizamos mais a saúde física, emocional e sexual das pessoas idosas.

Trocou-se o sedativo pelo hormônio. Dupla vantagem. Temos os benefícios da ação hormonal, sem os inconvenientes do ciclo, da tensão pré-menstrual, das cólicas e das hemorragias.

Podemos dizer que nesse fim de século a mulher ganhou autonomia e equilíbrio para entrar no próximo século vivendo o período pós-menopausa com dignidade e feminilidade.

Agora, só não sabemos o que farão os homens após os 50 anos com essas mulheres inteiras, sexualizadas, atraentes e decididas.

Talvez um bom começo seja humildemente aceitar e respeitar a nova mulher e cuidar da cabeça e da próstata, pelo menos!

O PODER FEMININO E SUAS FACES MAIS SOMBRIAS

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas 
Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam 
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas 
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas
("Mulheres de Atenas", Chico Buarque e Augusto Boal)

Será mesmo que essa mulher passiva, submissa, sofrida e sacrificada, retratada na música "Mulheres de Atenas", não exerce, de fato, nenhum poder? Nem sequer nos "bastidores"?

Como já afirmei anteriormente, não consigo ver um mundo de opressão masculina "pura".

Vejo um mundo de opressão de homens criados, organizados e preparados por essas mulheres, que continuam buscando um patrocinador para sobreviver.

A força manipuladora e ardilosa dessa mulher sedutora é incomensurável.

O PODER SEXUAL

Joãozinho e Mariazinha conversavam quando ele disse para ela:

- Você não tem o que eu tenho aqui - e apontou o pintinho.

Mariazinha respondeu rapidamente, apontando a xoxotinha:

- Com o que eu tenho aqui, consigo quantos eu quiser desse aí e na hora em que eu quiser.

Essa inocente historinha popular aborda uma realidade milenar.

A história da humanidade, na minha opinião, foi sempre uma eterna e cotidiana luta entre a força de sedução da mulher e a tentativa do homem para dominar esse poder. Insegurança, desamparo, fragilidade e medo acompanham o homem desde as cavernas.

O machismo nada mais é do que a expressão da insegurança masculina.

O temor ao poder sexual da mulher foi sempre tão intenso que o homem desviou sua adoração da deusa Terra para os deuses do Olimpo. Atenas foi a sua sede. A última cultura ocidental a adorar os poderes femininos foi a Creta Minóica.

O judaísmo, matriz do cristianismo, é o mais poderoso protesto contra a natureza feminina.

O culto ao céu, ao racial e ao autoritário Deus cristão relegou o culto à terra, à natureza, ao amor e à mulher ao reino inferior.

O ventre da mulher e a magia da reprodução, o fluxo menstrual e a amamentação, o enigmático canal vaginal e sua força de atração. Aquele buraco que expulsou o homem do Paraíso e volta e meia quer devorá-lo. Tudo isso foi rebaixado.

O homem cultuava e temia esse ser estranho.

Como já disse Rita Lee, "mulher é um bicho esquisito, todo mês sangra".

Não havia outra forma de lidar com essa angústia masculina a não ser fugir da natureza, enfrentá-la e dominá-la. Do genital ao intelectual, da terra ao céu, da natureza à cultura.

E os deuses gregos passaram a subjugar a força e o poder sexual de suas "deusas inferiores".

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos, poder e força de Atenas
Quando eles embarcam, soldados 
Elas tercem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos 
Querem arrancar violentos
Carícias plenas
Obscenas.

ENTRE O PRAZER E A DOR

A ciência está muito longe de desenredar o intrincado sistema hormonal feminino, que, por sua vez, permanece entrelaçado a sexualidade e às emoções femininas.

As mulheres convivem com a imprevisibilidade em muitos setores devido às oscilações hormonais. A reprodução e o sexo continuam sendo um desafio à nossa compreensão.

Às vezes surpreendo-me refletindo, em pleno atendimento ambulatorial na Faculdade de Medicina, por que ainda hoje tantas mulheres se submetem a tantos horrores.

- Doutor, eu tenho relação sexual mesmo sem vontade, senão ele arruma outra.

- Quero um filho homem para agradá-lo, Já tive quatro meninas, mas ainda vou tentar um menino.

- Odeio sexo anal, mas faço, apesar da dor, por que ele gosta.

- Quase morri durante um aborto. Até hoje sonho com aquele bebê. Mas ele me obrigou a tirar.

- Ele vive fora de casa, viajando. Desconfio que tem outra. Mas, quando ele volta, eu aceito.

- Fui violentada pelo meu namorado.

- Sofro assédio sexual do meu diretor. Não sei o que fazer. Não posso perder o emprego.

Que alimento nutre essas mulheres em suas queixas ginecológicas e sexuais? Será que para liberar o prazer é preciso, antes, liberar o sofrimento? Será o tão falado masoquismo feminino?

Mas quando convido os companheiros, esses "autoritários" machões, a virem ao consultório junto com elas, encontro outro cenário.

Vejo homens assustados diante de suas mulheres. 
A insegurança masculina reina num terreno sexual. 
A maioria dos maridos é péssimo amante e sofre de ansiedade sexual durante toda a vida.

FALTA DE DELICADEZA MASCULINA

Perguntou-me, certa vez, uma paciente:

- Doutor, dói muito quando uma mulher morde o saco de um homem?

Não pude controlar o riso e respondi:
- É terrível!
- Então, por que certos homens machucam tanto os seios das mulheres? Será que eles não sabem que essa é a nossa parte mais delicada? Muitos pensam que o mamilo é botão de rádio ou controle remoto: torcem ou apertam-no como se quisessem mudar de estação. Quanta insensibilidade!
- Mas muitas mulheres adoram que se faça isso - argumentei.

Tem gosto pra tudo, doutor. Quando meu marido morde os meus seios, tenho vontade de esbofeteá-lo. Aí, já não quero mais fazer amor.

Auto-estima abalada

Essa é a causa mais usual de bloqueio da sexualidade feminina.

Qualquer pensamento alheio à relação sexual pode atrapalhar o processo de excitação que conduz ao êxtase. Insisto: o sexo é sensorial, não intelectual.

Quando há problemas de auto-estima, o elemento inibidor deixa de ser eventual e se instala de forma perigosa em meio ao relacionamento que se quer preservar.

Eis alguns motivos comuns que abalam a auto-estima, prejudicando o relacionamento sexual, segundo as mulheres:

Traição do companheiro - Poucas mulheres são capazes de entender a traição como exercício de liberdade que todo ser humano deve preservar. Ficam algum tempo com a auto-estima em baixa, sentindo-se culpadas porque o marido teve necessidade de manter relações extraconjugais.

Palavras ofensivas - A mágoa é sempre maior do que o prazer. Enquanto este se esgota no próprio ato sexual, a mágoa permanece e pode destruir os sentimentos mais puros. Reunir os dois na cama é um desastre. Para a mulher, então, o orgasmo é impossível. Havendo companheirismo, uma explicação carinhosa ou um pedido de perdão serão capazes de restabelecer o entendimento e a vida íntima do casal.

Indiferença pelas suas realizações - Partindo-se do pressuposto de que só se ama quem se admira, como se sente uma mulher que não recebe nenhum aplauso, mesmo que silencioso, do homem que ama? Das duas, uma: conclui que não tem nenhuma qualidade significativa ou reconhece o complexo de inferioridade escondido no peito dele.

Na primeira hipótese, não há auto-estima que resista. Frágil e insegura, ela não leva para a cama o charme e a disposição das mulheres que se sentem admiradas. O sexo "papai e mamãe" cheira a obrigação conjugal. A fantasia, quando ainda tem disposição para isso, é o único meio de a mulher não sair "chupando o dedo". Mas, se ela se cansar desse papel e der a volta por cima, poderá restabelecer a autoconfiança e recuperar a espontaneidade para fazer amor.

Perda de status profissional, estresse e falta de privacidade - A influência desses fatores na perda da motivação sexual e da concentração para o orgasmo é tão duradoura quanto o problema. Depende da capacidade de equacioná-lo. Porém, quando o fato se perpetua, a atividade sexual vai se tornando cada vez mais esporádica. As chances do casal desfrutar o relaxamento físico e mental que o sexo proporciona são menores. Eles se tornam nervosos e irritadiços e cada um necessita de muita compreensão e solidariedade daquele que escolheu para partilhar seus bons e maus momentos.

Menopausa - Não é, sem dúvida, o fim do período fértil que ofusca os festejos dos cinquenta anos de uma mulher. É a certeza de que, dali para a frente, ela não irá mais dispor de um exército biológico capaz de defendê-la dos estragos causados pelo tempo. Sentindo-se indefesa, busca no companheiro a admiração incondicional inerente ao verdadeiro amor. Mas nem sempre a encontra. A menopausa ocorre, muitas vezes no momento mais crítico da relação. As briguinhas tolas no início do relacionamento que terminavam sempre num excitado "segure o tchan" deram lugar ao rotineiro entendimento do "dois pra lá, dois pra cá" do bolero familiar. O Sexo parece ter perdido o seu brilho natural e alguma coisa deve ser feita para revigorá-lo.

Motivos psicopatológicos

Às vezes, porém, o buraco é mais embaixo, como se diz popularmente. Ou melhor, mais em cima, no coração.

Uma garota de 22 anos veio me procurar. Não conseguia, de modo algum, ter orgasmo com o marido. Contou sobre sua vida, a infância, a adolescência.

Tinha outras duas irmãs, tão bonitas quanto ela: uma de 18, a outra de 20. Foi a primeira a se casar.

Na terceira sessão, confessou que já havia sentido orgasmo, sim, quando transava com seu pai. "Eu ainda transo com ele e sinto orgasmo. Mas, com meu marido, não."

As três filhas transavam com o pai. A mais velha chegou a engravidar dele. A mãe descobriu e a fez abortar. Depois saiu de casa, abandonando o pai e as filhas. Foi morar no interior e se fechou. Não contou a ninguém o motivo da separação.

Cito esse caso, tão frequente nas classes sociais baixas, para tentar mostrar até onde vai a crueldade humana.

Olhando para elas, pareciam meninas saudáveis, mas a agressividade do sexo é muitas vezes desconhecida.

A violência sexual contra a mulher na infância e na adolescência é devastadora na estrutura da sua sexualidade.

Fantasias femininas

Num grupo de mulheres com disfunções orgásmicas pude observar a busca compulsiva pelo orgasmo e a coincidência de certas fantasias.

Uma dona de casa extremamente dedicada à família e o marido, um arquiteto bem-sucedido e bastante presente na vida dos filhos, vieram me procurar no consultório. Ela debulhando-se em lágrimas; ele, com a cabeça baixa e expressão de moleque pego fazendo arte. Casados há dezessete anos, tinham três filhos e três propriedades, uma na cidade de São Paulo, outra na praia e a terceira no campo.

Haviam se dado bem durante todos esses anos até ela fazer uma incrível descoberta. Nas três casas, projetadas por ele, existiam pequenas aberturas estratégicas nos quartos de hóspedes que permitiam observar, de dentro de um armário, as pessoas se vestindo e tendo relações sexuais. Durante anos, sem que ninguém soubesse, este voyeur foi preparando as aberturas.

"Já imaginou, ele olhou todas as mulheres da minha família, minhas irmãs, todas as primas e cunhadas que se hospedaram em casa", dizia a mulher com a voz embargada, revelando qual era a sua maior dor. Ele não abria a boca. Limitava-se a me olhar com cara de moleque travesso.

Ela não sabia o que fazer. Não trabalhava, fora sustentada por ele a vida toda.

Depois de quatro sessões, ela se acalmou. Encaminhados a uma terapeuta de casal, continuam juntos até hoje. E, pasmem! Agora exercitam o voyeurismo juntos.

Eu me pergunto: o sentimento de traição que ela trouxe ao consultório não seria de exclusão? Ou foi o susto? Pactos inconscientes que provavelmente já existiam e se ajustaram ao casal.

O desejo por variedade sexual domina a maioria dos homens durante toda a vida, ainda que sua realização permaneça no âmbito da fantasia.

Impulsionado pela testosterona, o homem é um ansioso sexual crônico. A natureza agregou seu orgasmo à ejaculação. Ele tem prazer em lançar seu sêmen nas vaginas espalhadas pelo mundo afora. É um reprodutor.

Parece que o adultério masculino é apoiado pela biologia e pela psicologia.
Os desejos exclusivistas do amor opõem-se aos anseios múltiplos do sexo.

Os desejos de estabilidade e de permanência opõem-se ao gosto pela novidade e pela variedade própria do anseio sexual.

O amor é sedento de paz e serenidade, ao passo que o sexo é agitado e irrequieto.

Parece que o vínculo dramático entre amor e sexo que nossa cultura cristã estabeleceu é mais direcionada às mulheres e têm objetivos claramente repressores, inibidores do pleno existir das pessoas.

Mas no consultório esse desejo de mulher por outros homens aparece (e como!). As que mais têm a fantasia de fazer sexo com outros parceiros são aquelas que só tiveram um homem em sua vida. Quase em 100% dos casos essas mulheres têm maridos machistas e inseguros.

Autor(a): Malcolm Montgomery
Fonte: Texto extraído do livro: MULHER: O negro do mundo

 

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