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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

MARIA RIBEIRO
publicado em: 14/11/2018 por: Lou Micaldas

 

CAETANO E A VONTADE DE VIVER

CONTRA CRIVELLA, BOB DYLAN

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CAETANO E A VONTADE DE VIVER

Tom, além de cantar e tocar lindamente e dançar como um rei, me deu vontade de viver. Sabe pessoa do tipo sol?

Acho que eu nunca tinha visto nada tão bonito. Podem vir Bolsonaro, Witzel, Silvio Santos, Doria, e até o rapaz de terno da segurança do shopping; podem vir uma separação, duas, a sua namorada de cabelo cacheado, o silêncio daquela gente que antes era minha, uma gravação de três minutos do Detran sobre a qual é impossível interagir, e inclusive um pinguim morto na Barra da Tijuca. Podem vir o desamor, o cimento em cima dos tacos dos prédios dos anos 1950, a extinção do Ministério do Trabalho e até a Escola sem Partido, que na verdade deveria se chamar Escola sem Alma, já que ninguém ensina sem ideologia — e esta, lamento informar ao pessoal do MBL, faz parte tanto do ar que se respira quanto do jeito como se dá bom dia ou se pede licença. Qualquer existência é política, meus caros inimigos. Mas isso aqui não importa: pode vir o que vier, e olha que tem vindo muito “leite ruim” pra nossa terra brasilis, mas um país que tem Caetano Veloso não tem como dar errado. Não tem como. Lamento informar.

Eu sei que a Islândia tem índices de violência baixíssimos, que na França oitenta por cento dos estudantes frequentam escolas públicas e que não há ar tão puro quanto o da Nova Zelândia. Estou igualmente a par da incrível rapidez no tráfego terrestre no Canadá, do sensacional sistema de saúde da Dinamarca e do fato de que na Noruega certamente o salmão é salmão mesmo, sendo a cor laranja uma coisa inerente ao peixe em questão. Sei também que geral tá indo morar em Portugal (atenção, agora não vale, ok?, mãos dadas e amor incondicional mode on mais firme do que nunca, combinado?), que no Uruguai a simplicidade é mais luxuosa que qualquer casamento inglês e que a Bélgica tem os melhores chocolates do mundo e um museu pro Tintim. Mas mesmo assim.

Zeca, Tom, Moreno, Caetano, Helio. Um pai, três filhos, duas mães, um padrasto, a Bahia, o Rio de Janeiro, Freud, o Ilê, Ipanema, o futebol, a religião, o teatro, o peso e a pena de uma filiação. Tudo isso me veio à cabeça — não, tudo isso me veio ao coração — em duas horas de prazer e orgulho que não sentia (e de cuja falta sequer me dava conta) há tempos. 
Duas horas em que acreditei em Deus, em que voltei a namorar meu país. Nesses tempos tristes, os quais talvez devamos colocar no colo e ninar como um bebê, “Ofertório” é um milagre, sendo seus quatro rapazes os santos que desde o dia 10 carrego em meu pescoço.

Primeiro, Moreno. Sou fã do Moreno não é de hoje. Seu disco “Máquina de escrever música”, em parceria com Kassin e Domenico, dominou meu som durante uma década, e ao último, “Coisa boa”, dedico amor igual. Moreno sambando, Moreno na Orquestra Imperial, Moreno criança na foto do disco, Moreno criança cantando no disco, Moreno adulto ocupando o cenário-poesia feito por seu outro pai Helio Eichbauer, morto em julho deste ano.

E Zeca? E Tom? “Todo homem precisa de uma mãe”, música composta e entoada por Zeca, é um hino de ousadia e suavidade que parece inaugurar uma era de homens gigantes e canções sentidas, onde quase é possível tocar no tempo e agradecer seu trabalho. E quando digo trabalho, não falo de esforço: Tom, além de cantar e tocar lindamente e dançar como um rei, me deu vontade de viver. Sabe pessoa do tipo sol?

Obrigada, Caetano, obrigada por sua vida inteira. Obrigada, rapazes. Obrigada, Paula. Obrigada, Dedé. Vocês me devolveram uma certeza que andava um tanto apagada: gente deve ser bom. Quem não é não sabe o que tá perdendo.

CONTRA CRIVELLA, BOB DYLAN

Assim como a religião, a arte também consola, só que com uma geometria um pouco diferente

Tudo bem que era sexta-feira, às sete horas da noite. E tudo bem também que era no Centro, e que esse horário pode ser totalmente gênio pra quem já está no Centro — tipo trabalhando na Rua do Rosário, onde ficava o escritório do meu pai, hashtag nostalgia —, mas é igualmente assassino pra todos os outros seres humanos da Gotham City 021, mesmo aqueles que saíram de São Conrado com uma hora e meia de antecedência pra ver uma peça no CCBB.

O fato é que eu perdi o teatro. Por nove minutos. 360 segundos. Não é um fato trágico. Nesse mesmo dia aconteceram coisas muito mais relevantes, como a despedida do Beltrame depois de dez anos à frente da Secretaria de Segurança do estado ou o número definitivo de mortos pelo furacão no Haiti, mas eu, cá em meu mundinho burguês, registrei na pokedesk a ausência daquela hora e meia de não matemática. De Filosofia. Artes. Educação Física. Poesia. Aquelas coisas que o ForaTemer considera menos importantes pra constituição de um inpíduo produtivo na cadeia alimentar.

O texto da peça perdida — que não é uma peça, mas sim um livro — eu já conhecia: “Nu, de botas”, do Antonio Prata. O que só piora a situação. Porque eu adoro o Antonio Prata, e ver sua infância ao vivo feita pela minha amiga Isabel (Guerón) poderia ter mudado tudo, ou, senão tudo, pelo menos alguma coisa, uminha. Eu, que preciso mudar tanto. Que preciso de literatura tanto quanto de chocolate. Que poderia ter evoluído algum pokémon cerebral, ganhado alguma nova e vibrante sinapse. Nunca vou saber. Mais um título pro meu já abarrotado cemitério particular de obras não vistas. Amém.

“Vermelho russo”, “Pinas pas”, o iraniano novo da diretora do “Separação”, “A grande beleza”, “Transsex”, o “Incêndios” da Marieta, “Justiça”, o documentário do Curumim, a peça da Guida, o Chet Baker do Paulo Miklos... Isso pra não falar das perdas históricas, tipo não ter visto “A descoberta das Américas”, do Julio Adrião, ou “O tiro que mudou a História”, do Aderbal Freire-Filho.

Já perdi muita coisa até aqui, e a idade tem me ensinado que c’est la vie, bora seguir na fábrica do Chaplin, não dá pra ver tudo mesmo, esse é o mal do século, a angústia do excesso, e não da influência. Excesso de informação, de dramaturgia, canais a cabo, Netflix, mostra de cinema, show do Del Rey, Museu do Amanhã, exposição no MAM, Twitter, Instagram, Porta dos Fundos, Colabora, “Piauí”, coletivos.

E ainda tem a natureza. Se eu morasse perto da praia, eu iria à praia, eu pensava, antes de morar perto da praia. Se eu morasse perto da praia, eu não só iria à praia como eu correria na areia, e conheceria toda a galera do posto 8, e cumprimentaria o moço do coco com aquele sorriso cúmplice de quem se vê todo dia, e nunca que precisaria de remédio pra dormir. A vida é circunstância.

O mesmo aconteceria se eu morasse em Botafogo, trocando a praia pela sala escura. Se eu morasse em Botafogo, eu moraria nos cinemas do Estação, comeria hambúrguer na Comuna e iria ao Museu do Índio, e não perderia nenhum filme dos Dardenne, nada de poltrona VIP ou pipoca gourmet, cinema é cachoeira e não chafariz.

E se eu morasse no Centro eu teria chegado a tempo de ver a peça da Bel. E se eu tivesse visto a peça da Bel talvez eu estivesse sofrendo menos com a perspectiva de ter minha cidade governada pelo Crivella, porque é também pra isso que essas coisas consideradas menos importantes pelo ministro da Educação servem, pra diminuir a dor. Assim como a religião, a arte também consola, só que com uma geometria um pouco diferente, porque enquanto o bispo nos olha de cima, o artista te oferece um espelho.

Sei que a educação no Brasil é uma catástrofe há tempos, e, fora a curtíssima gestão do Renato Janine Ribeiro, não vibrei com quase nada no governo Dilma nesse departamento (e talvez em nenhum outro). Mas essa tsunami de gestores 2016 me assusta ainda mais, ainda mais se levarmos em conta seus gostos pessoais.

João Doria coleciona quadros do Romero Britto, e oro todas as noites pra que seus Di Cavalcantis não estejam nos mesmos aposentos que as pinturas do rapaz de Miami. Garotinho e Michelzão escrevem poesia, e quem já leu sabe exatamente do que estou falando. De modo que precisamos de Manuel Bandeira na mesma precisão (Alô Guimarães Rosa!) da saúde e do transporte. Occupy Drummond e João Cabral.

Perdi a peça no CCBB, mas ganhei civilidade. Achei bonito um espetáculo começar na hora e eu não conseguir entrar, às vezes a arte aparece de outro jeito. E pro meu filho de 13 anos que encena “Macbeth” na escola e às vezes se preocupa com o que vai ser quando crescer, eu digo que isso não importa agora, e talvez não importe nunca. Porque a gente é feito de filmes e livros e músicas e peças de teatro, e mais importante do que o resultado é a companhia, os caras que a gente escolhe pra dar a mão.

Autor(a): Maria Ribeiro
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): Carlos Moreno

 

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