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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

MARIA RIBEIRO
publicado em: 19/10/2016 por: Lou Micaldas

CONTRA CRIVELLA, BOB DYLAN
 
Assim como a religião, a arte também consola, só que com uma geometria um pouco diferente
Tudo bem que era sexta-feira, às sete horas da noite. E tudo bem também que era no Centro, e que esse horário pode ser totalmente gênio pra quem já está no Centro — tipo trabalhando na Rua do Rosário, onde ficava o escritório do meu pai, hashtag nostalgia —, mas é igualmente assassino pra todos os outros seres humanos da Gotham City 021, mesmo aqueles que saíram de São Conrado com uma hora e meia de antecedência pra ver uma peça no CCBB.
 
O fato é que eu perdi o teatro. Por nove minutos. 360 segundos. Não é um fato trágico. Nesse mesmo dia aconteceram coisas muito mais relevantes, como a despedida do Beltrame depois de dez anos à frente da Secretaria de Segurança do estado ou o número definitivo de mortos pelo furacão no Haiti, mas eu, cá em meu mundinho burguês, registrei na pokedesk a ausência daquela hora e meia de não matemática. De Filosofia. Artes. Educação Física. Poesia. Aquelas coisas que o ForaTemer considera menos importantes pra constituição de um indivíduo produtivo na cadeia alimentar.
 
O texto da peça perdida — que não é uma peça, mas sim um livro — eu já conhecia: “Nu, de botas”, do Antonio Prata. O que só piora a situação. Porque eu adoro o Antonio Prata, e ver sua infância ao vivo feita pela minha amiga Isabel (Guerón) poderia ter mudado tudo, ou, senão tudo, pelo menos alguma coisa, uminha. Eu, que preciso mudar tanto. Que preciso de literatura tanto quanto de chocolate. Que poderia ter evoluído algum pokémon cerebral, ganhado alguma nova e vibrante sinapse. Nunca vou saber. Mais um título pro meu já abarrotado cemitério particular de obras não vistas. Amém.
 
“Vermelho russo”, “Divinas divas”, o iraniano novo da diretora do “Separação”, “A grande beleza”, “Transsex”, o “Incêndios” da Marieta, “Justiça”, o documentário do Curumim, a peça da Guida, o Chet Baker do Paulo Miklos... Isso pra não falar das perdas históricas, tipo não ter visto “A descoberta das Américas”, do Julio Adrião, ou “O tiro que mudou a História”, do Aderbal Freire-Filho.
 
Já perdi muita coisa até aqui, e a idade tem me ensinado que c’est la vie, bora seguir na fábrica do Chaplin, não dá pra ver tudo mesmo, esse é o mal do século, a angústia do excesso, e não da influência. Excesso de informação, de dramaturgia, canais a cabo, Netflix, mostra de cinema, show do Del Rey, Museu do Amanhã, exposição no MAM, Twitter, Instagram, Porta dos Fundos, Colabora, “Piauí”, coletivos.
 
E ainda tem a natureza. Se eu morasse perto da praia, eu iria à praia, eu pensava, antes de morar perto da praia. Se eu morasse perto da praia, eu não só iria à praia como eu correria na areia, e conheceria toda a galera do posto 8, e cumprimentaria o moço do coco com aquele sorriso cúmplice de quem se vê todo dia, e nunca que precisaria de remédio pra dormir. A vida é circunstância.
 
O mesmo aconteceria se eu morasse em Botafogo, trocando a praia pela sala escura. Se eu morasse em Botafogo, eu moraria nos cinemas do Estação, comeria hambúrguer na Comuna e iria ao Museu do Índio, e não perderia nenhum filme dos Dardenne, nada de poltrona VIP ou pipoca gourmet, cinema é cachoeira e não chafariz.
 
E se eu morasse no Centro eu teria chegado a tempo de ver a peça da Bel. E se eu tivesse visto a peça da Bel talvez eu estivesse sofrendo menos com a perspectiva de ter minha cidade governada pelo Crivella, porque é também pra isso que essas coisas consideradas menos importantes pelo ministro da Educação servem, pra diminuir a dor. Assim como a religião, a arte também consola, só que com uma geometria um pouco diferente, porque enquanto o bispo nos olha de cima, o artista te oferece um espelho.
 
Sei que a educação no Brasil é uma catástrofe há tempos, e, fora a curtíssima gestão do Renato Janine Ribeiro, não vibrei com quase nada no governo Dilma nesse departamento (e talvez em nenhum outro). Mas essa tsunami de gestores 2016 me assusta ainda mais, ainda mais se levarmos em conta seus gostos pessoais.
 
João Doria coleciona quadros do Romero Britto, e oro todas as noites pra que seus Di Cavalcantis não estejam nos mesmos aposentos que as pinturas do rapaz de Miami. Garotinho e Michelzão escrevem poesia, e quem já leu sabe exatamente do que estou falando. De modo que precisamos de Manuel Bandeira na mesma precisão (Alô Guimarães Rosa!) da saúde e do transporte. Occupy Drummond e João Cabral.
 
Perdi a peça no CCBB, mas ganhei civilidade. Achei bonito um espetáculo começar na hora e eu não conseguir entrar, às vezes a arte aparece de outro jeito. E pro meu filho de 13 anos que encena “Macbeth” na escola e às vezes se preocupa com o que vai ser quando crescer, eu digo que isso não importa agora, e talvez não importe nunca. Porque a gente é feito de filmes e livros e músicas e peças de teatro, e mais importante do que o resultado é a companhia, os caras que a gente escolhe pra dar a mão.

Autor(a): Maria Ribeiro
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): Carlos Moreno

 

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