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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

MARTHA MEDEIROS
publicado em: 06/02/2017 por: Lou Micaldas

 

VOVÓ É UMA UVA

A palavra avó nos remete à infância, quando passávamos o domingo numa casa cheirando à comida, com toalhinhas de crochê decorando todos os ambientes e um quarto sempre na penumbra, com móveis de madeira maciça e uma enorme cadeira de balanço, onde cochilava a matriarca. Parece com a casa da sua avó também? Pois guarde esta imagem na lembrança, pois ela não se reproduzirá tão cedo. Já não se fazem mais avós como antigamente.

Os esteriótipos não são criados do nada: as avós eram assim mesmo, de cabelo branco e óculos pendurados no nariz. Toda família que se preze teve sua Dona Benta, e a imagem é tão forte que até hoje os comerciais de tevê insistem em caracterizar as vovós como senhoras idosas, rechonchudas, com aventais amarrados na cintura, cabelos presos num coque e aquele ar de quem não faz outra coisa na vida a não ser torta de amoras. E os avôs? Seja na televisão ou no rádio, todos têm voz de Papai Noel, enquanto que, na realidade, os avôs da nova era estão mais para Mick Jagger, que aliás, já tem um neto. Acorde: os avós de hoje não lembram mais das canções de ninar, mas sabem de cor a letra de Satisfaction.

Quer dizer que o lobo mau conseguiu engolir nossa vovozinha? As que usavam toquinha e tinham voz rouca foram papadas, sim, meus pêsames. Mas olhe agora, o que vemos? Avós de jeans, dirigindo jipes, cabelo pintado, óculos escuros. Avós que trabalham, que viajam, qu dão festas, que namoram. Avós que fazem lipo, aeróbica, jogam paddle e suspiram não pelo Lima Duarte, mas pelo Victor Fasano. Será que elas sabem pregar um botão? Não custa tentar, mas se a empreitada der errado, não complique. Ela terá o maior prazer em levar a netinha para comprar uma roupa nova no shopping. E o almoço de domingo? Também mudou. As avós de hoje não andam dispostas a engordar nem um grama com macarronadas familiares e muito menos a quebrar suas garras vermelhas lavando panelas. Que tal um buffet frio, muita água mineral e salada de frutas? Combinado, ela entra com a água.

Netos e netas, não se sintam desamparados. As avós de hoje são muito mais participantes. Podem não lembrar direito das histórias de Gulliver, Pele de Asno ou O Gato de Botas, mas têm históriazs pessoais tão encantadoras quanto. São mais divertidas e menos preconceituosas. Têm mais saúde e disposição para enfrentar parques, teatrinhos, zoológicos. E o fato de buscarem a eterna juventude não lhes tirou um pingo do afeto que sentem pela terceira geração. Ao contrário: nunca vi tantas avós apaixonadas por seus netos. É um amor enorme, desinteressado, sem ônus do compromisso, só do prazer. Sempre foi assim, mas agora há um fator novo: hoje as mulheres têm menos filhos, e em conseqüência, menos netos. Antigamente a família era gigantesca, e não havia memória que chegasse para lembrar o nome de toda a criançada. Hoje são só dois ou três, dá até para providenciar um mini-hotelzinho em casa para hospedá-los no final-de-semana. Tem mais: o limite de idade para engravidar foi muito ampliado, e hoje uma mulher poder ser mãe e avó quase ao mesmo tempo, encurtando as diferenças entre uma e outra. Se por um lado estamos perdendo a imagem romântica da avó que cozinha, faz tricô e tem roseiras no quintal, por outro estamos ganhando uma avó bonitona, que tem o maior orgulho ao falar de nós para as amigas e que sempre estará disposta a nos dar um colo. Desde que esteja com uma roupa de microfibra, bem entendido.

O amor, que é o que interessa, não mudou. Mas mudaram as avós. Danuza Leão, Baby Consuelo, Constanza Pascolato e tantas outras mulheres que falam gírias, bebem cerveja e estão sempre prontas para uma novidade são avós tanto quanto as nossas saudosas velhinhas de casaquinho nos ombros. Vera Fischer, Betty Lago e tantas outras gatas desta geração também já têm filhos adolescentes que não tardaram a procriar. Passarão, como toda mulher, pela menopausa, pela osteoporose e por outros distúrbios da idade, mas certamente não aceitarão o papel de uma avó caseira, bordadeira e sem outra ambição que não seja cuidar dos netos. Sempre se disse que a avó era uma segunda mãe. Pois ela nunca esteve tão parecida com a primeira.

Dizem que todo mundo tem um preço. Qual o meu, qual o seu?
Fico escutando as quantias (dois milhões, quatro, nove) e a cifra vai aumentando até que de milhões a bilhões muda apenas a consoante no início da palavra, pois parece que já não se trata de dinheiro — entramos num território mais subjetivo e intangível.
 
Que grana toda é essa que saía de uma conta corrente para entrar em outra, numa transferência que parecia uma simples jogada do Banco Imobiliário? O brinquedo da Estrela existe até hoje e é assim descrito nos sites de venda: "Você agora poderá ser um próspero proprietário de imóveis. Ter crédito em banco, títulos, terrenos, casas e hotéis nos melhores pontos da cidade. Onde o céu é o limite! Cabe a você investir tudo que possui para tornar-se um milionário e monopolizar o mercado imobiliário. Para isso, você terá que provar que tem faro para os negócios".
 
Dinheiro de papel. A gente se divertia com isso. Era fácil se sentir rico. Ter o céu como limite. Em que momento a pessoa se apega tanto a uma fantasia infantil, que não consegue mais crescer? Troca dinheiro de papel por dinheiro de verdade sem perceber que está negociando outros valores.
 
Ouço, leio: 7 milhões, 25 milhões, 300 milhões. E apenas uma palavra me vem à cabeça: pobreza. Que vida miserável. Não bastasse a total ausência de escrúpulos, a pessoa não consegue se contentar com o suficiente, nunca atinge um montante que sirva para apaziguar sua insignificância. A ganância é um sorvedouro, o muito é pouco, é nada para quem carrega dentro de si um buraco profundo no lugar onde deveria haver retidão.
 
Dizem que todo mundo tem um preço. Qual o meu, qual o seu? Que saldo deveria aparecer em nosso extrato para nos sentirmos seguros, satisfeitos e dizer: ok, já tenho o que preciso, me basta.
 
Não é aos 30 nem aos 40 anos de idade que a gente começa a acumular bens. Nosso patrimônio é constituído bem mais cedo, antes até de aprendermos a brincar com o Banco Imobiliário. É o que investiram em nós, na infância, que vai determinar para que servirá, de verdade, o nosso faro, se para correr atrás de uma vida digna ou para enfiar o nariz numa lixeira.
 
Se fizerem investimentos no nosso caráter, na nossa inteligência, na nossa segurança emocional, seremos tão ricos que não nos importaremos de parecer uma pessoa barata aos olhos dos outros — nos contentaremos com uma casa boa e não gigante, com um carro legal e não um tanque de guerra, e nos vestiremos com despojamento em vez de desfilar por aí feito uma árvore de Natal. Alguém tem medo de parecer barato aos olhos dos outros?
 
Infelizmente, a lista é longa. Bem mais longa do que a do Fachin.
 
Mas guardar-se uma horinha por dia é uma visita que se faz a si mesmo. Chá, cafezinho, um cálice de vinho? Aceito, obrigada
O WhatsApp não me regula, o Messenger também não. Nem o relógio de pulso, nem a timeline dos amigos, nem a Netflix. Ainda consigo manter certa desobediência civil, só aceito ordens de mim mesma – meu toque de recolher particular é sagrado.
Quando escuto o sinal, desligo o mundo – off.

Então acendo uma luzinha interna e sossego em meio à penumbra dos meus devaneios, com os pensamentos em volume bem baixo, um sussurrar quase libidinoso de palavras que vêm e se vão, suaves.

Nessas horas, não estou para ninguém. Não estou à venda nem comprando nada.
Se estiver deitada, nem me levanto – posso me ferir pelo caminho. O banheiro está longe demais da cama, do sofá, da rede, do meu tapete. Medito. Aberta para dentro, ausente para fora.

Também não estou para o zelador, ele não precisa entregar o jornal em mãos, que o deixe em frente à porta, no meio do corredor, que me engane e traga o jornal de ontem que também não li, e o de anteontem e o de amanhã. Quando me isolo na quietude, não faz diferença a manchete que está na capa, só quero matar a curiosidade de mim.

Feito uma Greta Garbo que espia o mundo por trás das cortinas, de óculos escuros? É menos charmoso que isso: não é cena de cinema, não há enigma, não busco um esconderijo, não fujo de nada; ao contrário, retorno satisfeita pra rua, sempre volto dando risada. Viver é muito divertido, apesar de tudo. Mas guardar-se uma horinha por dia é uma visita que se faz a si mesmo. Chá, cafezinho, um cálice de vinho? Aceito, obrigada.

E essa música tocando bem agora… bingo. Música é silêncio em movimento (Fernando Sabino).

Os automóveis continuam circulando, o sinal abre e fecha organizando o fluxo das esquinas, há filas se formando em frente aos bares, sempre alguém atrasado, sempre alguém esperando, os garçons atendendo aos pedidos, o telefone tocando e nunca é quem você gostaria que fosse, os caixas eletrônicos, os ônibus, já é quase meia-noite e você nem viu o dia passar, amanhã tem tudo de novo, tem você de novo em meio a tudo.

Mas escute o sinal. E então, onde estiver – perto da praia, longe de casa, fora do quarto, dentro do carro – se autoimponha um afastamento do desvario. Off. Obedeça à sua ordem interna. Encontre o sentido perdido entre o tanto que foi pensado. É esse o toque.

Autor(a): Martha Medeiros

 

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