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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

MARTHA MEDEIROS
publicado em: 06/02/2017 por: Lou Micaldas

 
Dizem que todo mundo tem um preço. Qual o meu, qual o seu?
Fico escutando as quantias (dois milhões, quatro, nove) e a cifra vai aumentando até que de milhões a bilhões muda apenas a consoante no início da palavra, pois parece que já não se trata de dinheiro — entramos num território mais subjetivo e intangível.
 
Que grana toda é essa que saía de uma conta corrente para entrar em outra, numa transferência que parecia uma simples jogada do Banco Imobiliário? O brinquedo da Estrela existe até hoje e é assim descrito nos sites de venda: "Você agora poderá ser um próspero proprietário de imóveis. Ter crédito em banco, títulos, terrenos, casas e hotéis nos melhores pontos da cidade. Onde o céu é o limite! Cabe a você investir tudo que possui para tornar-se um milionário e monopolizar o mercado imobiliário. Para isso, você terá que provar que tem faro para os negócios".
 
Dinheiro de papel. A gente se divertia com isso. Era fácil se sentir rico. Ter o céu como limite. Em que momento a pessoa se apega tanto a uma fantasia infantil, que não consegue mais crescer? Troca dinheiro de papel por dinheiro de verdade sem perceber que está negociando outros valores.
 
Ouço, leio: 7 milhões, 25 milhões, 300 milhões. E apenas uma palavra me vem à cabeça: pobreza. Que vida miserável. Não bastasse a total ausência de escrúpulos, a pessoa não consegue se contentar com o suficiente, nunca atinge um montante que sirva para apaziguar sua insignificância. A ganância é um sorvedouro, o muito é pouco, é nada para quem carrega dentro de si um buraco profundo no lugar onde deveria haver retidão.
 
Dizem que todo mundo tem um preço. Qual o meu, qual o seu? Que saldo deveria aparecer em nosso extrato para nos sentirmos seguros, satisfeitos e dizer: ok, já tenho o que preciso, me basta.
 
Não é aos 30 nem aos 40 anos de idade que a gente começa a acumular bens. Nosso patrimônio é constituído bem mais cedo, antes até de aprendermos a brincar com o Banco Imobiliário. É o que investiram em nós, na infância, que vai determinar para que servirá, de verdade, o nosso faro, se para correr atrás de uma vida digna ou para enfiar o nariz numa lixeira.
 
Se fizerem investimentos no nosso caráter, na nossa inteligência, na nossa segurança emocional, seremos tão ricos que não nos importaremos de parecer uma pessoa barata aos olhos dos outros — nos contentaremos com uma casa boa e não gigante, com um carro legal e não um tanque de guerra, e nos vestiremos com despojamento em vez de desfilar por aí feito uma árvore de Natal. Alguém tem medo de parecer barato aos olhos dos outros?
 
Infelizmente, a lista é longa. Bem mais longa do que a do Fachin.
 
Mas guardar-se uma horinha por dia é uma visita que se faz a si mesmo. Chá, cafezinho, um cálice de vinho? Aceito, obrigada
O WhatsApp não me regula, o Messenger também não. Nem o relógio de pulso, nem a timeline dos amigos, nem a Netflix. Ainda consigo manter certa desobediência civil, só aceito ordens de mim mesma – meu toque de recolher particular é sagrado.
Quando escuto o sinal, desligo o mundo – off.

Então acendo uma luzinha interna e sossego em meio à penumbra dos meus devaneios, com os pensamentos em volume bem baixo, um sussurrar quase libidinoso de palavras que vêm e se vão, suaves.

Nessas horas, não estou para ninguém. Não estou à venda nem comprando nada.
Se estiver deitada, nem me levanto – posso me ferir pelo caminho. O banheiro está longe demais da cama, do sofá, da rede, do meu tapete. Medito. Aberta para dentro, ausente para fora.

Também não estou para o zelador, ele não precisa entregar o jornal em mãos, que o deixe em frente à porta, no meio do corredor, que me engane e traga o jornal de ontem que também não li, e o de anteontem e o de amanhã. Quando me isolo na quietude, não faz diferença a manchete que está na capa, só quero matar a curiosidade de mim.

Feito uma Greta Garbo que espia o mundo por trás das cortinas, de óculos escuros? É menos charmoso que isso: não é cena de cinema, não há enigma, não busco um esconderijo, não fujo de nada; ao contrário, retorno satisfeita pra rua, sempre volto dando risada. Viver é muito divertido, apesar de tudo. Mas guardar-se uma horinha por dia é uma visita que se faz a si mesmo. Chá, cafezinho, um cálice de vinho? Aceito, obrigada.

E essa música tocando bem agora… bingo. Música é silêncio em movimento (Fernando Sabino).

Os automóveis continuam circulando, o sinal abre e fecha organizando o fluxo das esquinas, há filas se formando em frente aos bares, sempre alguém atrasado, sempre alguém esperando, os garçons atendendo aos pedidos, o telefone tocando e nunca é quem você gostaria que fosse, os caixas eletrônicos, os ônibus, já é quase meia-noite e você nem viu o dia passar, amanhã tem tudo de novo, tem você de novo em meio a tudo.

Mas escute o sinal. E então, onde estiver – perto da praia, longe de casa, fora do quarto, dentro do carro – se autoimponha um afastamento do desvario. Off. Obedeça à sua ordem interna. Encontre o sentido perdido entre o tanto que foi pensado. É esse o toque.

Autor(a): Martha Medeiros

 

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