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LITERATURA / AUTORES CÉLEBRES

NELSON MOTTA
publicado em: 02/12/2016 por: Lou Micaldas

SAUDADES DA LAVA-JATO

GERAIS JÁ

ALÉM DA IMAGINAÇÃO

O CARNAVAL DAS PALAVRAS

FALIDO, FEDIDO E VINGATIVO

POR UM PUNHADO DE REAIS

VIAJANDO COM RITA LEE
 

O que mais vou ter saudades é da alegria esfuziante que me invadia a cada prisão de pessoas acima da lei
Seria maravilhoso se, ao fim da Lava-Jato, nos fosse dado um Brasil livre de políticos corruptos — pelo menos até o surgimento dos novos corruptos — com os condenados presos e falidos, sob o império da lei.

Só que não. Ou alguém acredita que o Senado, com mais da metade de seus membros investigados ou réus em vários processos (alguns têm 13, como Renan Calheiros, ou nove, como Aécio Neves ), não vai votar leis que facilitem o objetivo coletivo de escapar da cadeia e não devolver o roubado?

E a Câmara, que tem um terço dos seus integrantes acusados dos mais diversos crimes, vai votar contra o seu espírito corporativista?

O bom é que os partidos podem acabar, como na Itália depois da Operação Mãos Limpas, quando tiveram que mudar de nome e fazer novas alianças. Aqui o PMDB, PSDB, PT, PP, PR, PTB não farão falta, mas o que virá depois deles? Uma remota chance de novas ideias e práticas?

Na Itália, políticos investigados dos novos partidos de esquerda, direita e centro se juntaram para aprovar leis que anistiavam ou minimizavam seus crimes. Quem conhece o Brasil sabe que aqui não vai ser muito diferente.

A Lava-Jato vai passar, mas o seu espírito vai ficar na memória nacional como um tempo em que o Ministério Público, a Polícia Federal e os juízes de primeira instância deram todo o seu esforço e competência para proteger o Estado e a democracia, perseguindo e punindo os que afrontam a lei e a Justiça, estabelecendo uma nova mentalidade em que a lei é mesmo para todos, sem exceções.

O que mais vou ter saudades é da alegria esfuziante que me invadia, e a milhões de brasileiros, ao receber a notícia, ou melhor, ver ao vivo, gente como Eduardo Cunha, Marcelo Odebrecht, Sérgio Cabral, Zé Dirceu, Palocci, Eike Batista, presos como qualquer ladrão de galinhas. Era como comemorar um gol de placa do Brasil.

Pena que a maioria vai escapar. Unidos, eles enfrentarão a opinião pública e os meios de comunicação para se proteger, pagarão os piores micos, se submeterão aos mais constrangedores vexames, mas no final escaparão e formarão novas alianças “por um país mais justo e solidário”.
Só eleições gerais, abertas a independentes, podem trazer novos políticos, com novas ideias e sem velhos vícios
Há certos momentos na vida em que não se quer dormir e nem ficar acordado. Sem vontade de lembrar, nem de esquecer. Sem querer partir e nem ficar. É como estou vivendo o momento brasileiro. Não tenho mais excitação com as prisões e revelações de grandes escândalos de corrupção de empresas e políticos.

Tento acreditar que a justiça será feita, um dia, mas, se depender da segunda turma do Supremo Tribunal Federal, esse dia será igual ao “grande amanhã” dos velhos jovens esquerdistas dos anos 1960, que ainda não chegou.

Quando a maioria do país gritava “chega Dilma”, por incompetência e irresponsabilidade, a minoria esperava que Temer fizesse um governo melhor, porque pior seria impossível.

Agora todos gritam “fora Temer”, e ele está completamente desmoralizado, como representação arquetípica, em seus métodos e sua linguagem, da velha política, que arruinou o Brasil pela esquerda e pela direita.

Diretas já? É pouco. Também é preciso renovar totalmente a Câmara e o Senado com eleições gerais.

Que sentido teria elegermos um presidente para jogá-lo nos braços desse Congresso de réus, indiciados e investigados?

Por melhor que seja, para governar, ele teria que fazer coalizões, bases aliadas, maiorias eventuais, trocando cargos por votos, protegendo ladrões, apodrecendo a política, e mantendo os mesmos vícios que nos levaram aonde estamos.

A grande bancada de corruptos que domina o Congresso não tem autoridade para eleger a Miss Bumbum 2017. Vão eleger o presidente? Vão votar uma emenda constitucional pelas diretas já? Quanto valerá, em cargos, depósitos ou malas de dinheiro, um voto?

Só eleições gerais, abertas também a candidatos independentes, podem trazer novas gerações de políticos, com novas ideias, sem os velhos vícios, gente sem experiência com a política tradicional, sindical, estudantil, que possa representar os direitos e anseios de seus eleitores.

Começar de novo. Sim, é possível que eles sejam devorados pelas velhas raposas de sempre, mas não aguento mais ver as caras e ouvir as vozes desses temers, renans, aécios, lulas, moreiras e padilhas querendo salvar o Brasil.
 

ALÉM DA IMAGINAÇÃO

Na eleição indireta pelo Congresso, quanto vai valer, em cargos e dinheiro vivo, um voto? Não tem preço
Acontecimentos políticos recentes cada vez se parecem mais com as guerras de quadrilhas e facções pelos pontos de venda de droga nos morros cariocas. Só que o ponto é a Esplanada dos Ministérios, e os quadrilheiros, pelo menos por enquanto, ainda usam o tiroteio verbal das delações, mentiras e traições, em vez dos AK-47. Mas aqui e ali já se ouvem instruções para “apagar” alguém que não queira colaborar.
 
O PT se identifica mais com o Comando Vermelho, por afinidades cromáticas e pela postura hegemonista, enquanto o PMDB se enquadra à perfeição com a Amigos dos Amigos. Amigos que nomeiam amigos, que conseguem cargos, que recebem propina, que achacam, que votam com o governo da facção, como amigos fazem favores a amigos. O PP é um ajuntamento de interesses pessoais disfarçado de quadrilha, sorry, de partido, um rebotalho sem influência ou poder de fogo, que adere à facção vencedora, seja ela qual for, para continuar mantendo seus negócios.
 
Já o Primeiro Comando da Capital atualmente parece se basear em Brasília, onde a organização criminosa opera. E a Força Nordestina, como o próprio nome diz, é uma força no Congresso, digo, no Nordeste.
 
Como desbaratar essas organizações criminosas em que os partidos se transformaram? O que fazer com essa gentalha? Como salvar os poucos decentes e eficientes para tentar uma reconstrução? Como mudar a frouxidão moral e a cultura patrimonialista que vieram com os portugueses, que vêm mudando, para pior.
 
Para que serve esse destampatório? Esse desabafo debochado? Para nada. Em que ele contribui para melhor entendimento de nossos problemas? Em nada. A raiva envenena e atrapalha o pensamento. É só um cidadão comum furioso, tentando expressar os sentimentos dos que não têm voz, que se identifiquem com essa visão da classe política brasileira, que é sustentada pelo trabalho de todos nós, mas age como se fosse nossa dona.
 
Se Temer renunciar ou for deposto, a eleição vai ser indireta. São esses deputados e senadores que escolherão o novo presidente, em voto secreto. Quanto vai valer — em cargos, vantagens e dinheiro vivo — um voto? Não tem preço.
 
 
O autor nega o racismo, e mais, quer o amor da mulata! Quem quer o amor de quem despreza?

Se a polêmica é com a palavra “mulata”, até dá para discutir. Alguns amigos negros e mestiços a consideram racista e pejorativa. Tim Maia a detestava, se orgulhava de ser negro e dizia que mulato era cor de mula quando foge. Nos Estados Unidos não existe: ou é branco ou é negro. Mas se o caso for a marchinha imortal que há 85 anos é cantada e dançada com alegria por brancos, pretos e mulatos, o papo é outro.

“O teu cabelo não nega” é, antes de tudo, uma exaltação às mulheres mestiças, começando pelo título brincando com o cabelo crespo e o liso, gozando as que o alisavam a ferro quente para disfarçar a negritude. O autor gostava do cabelo crespo, é como se dissesse “não negue a raça, fique com seu cabelo como é, é dele que eu gosto”.

Na época, eram os racistas que diziam que a cor da pele era “contagiosa”, mas o autor da marchinha nega, e mais, quer o amor da mulata! Quem quer o amor de quem despreza?

É um alegre tributo à negritude e à mestiçagem de que é feita a nacionalidade. Em um contexto histórico.

“Pancadão”, nos anos 30, era gíria para mulher bonita e gostosa, e os que a inventaram, dessa cor, com esse cabelo e esse suingue, foram os portugueses e os africanos, que no final da música a disputam em “concorrência colossal”, os lusos do Vasco da Gama e os marinheiros pretos do Batalhão Naval.

“Tens um sabor bem do Brasil/Tens a alma cor de anil/Mulata, mulatinha, meu amor/Fui nomeado teu tenente interventor.”

É um deboche com a ditadura de Getúlio Vargas, que foi levado ao poder pelo golpe militar de 1930 e se tornou ditador, nomeando tenentes golpistas como interventores estaduais em substituição a quase todos os governadores.

Finalmente, a marchinha foi criada pelos compositores pernambucanos João e Raul Valença, em 1929, e Lamartine Babo a ouviu no Recife e gostou tanto que fez algumas modificações e a lançou com espetacular sucesso no carnaval de 1932, como se fosse sua. Os Irmãos Valença chiaram e partiram para a briga, e Lamartine teve que incluí-los na parceria. Para não deixar dúvidas quanto às suas intenções, os irmãos Valença eram, com todo o respeito, mulatos.
 
O ‘AI-5 do crime organizado’ foi aprovado na Câmara para amordaçar a Justiça e salvar parlamentares da Lava-Jato
Chega a ser comovente, mas não pelos motivos que ele imagina, ver Renan Calheiros, de olho rútilo e lábio trêmulo, falando na OAB que o nosso sistema político está “falido, fedido e caquético”, como se não tivesse nada a ver com isso, como se o sistema tivesse chegado à podridão por si mesmo, sem a colaboração decisiva dos parlamentares e, principalmente, dele. Mas ele diz que a culpa é da legislação, não dos que a avacalharam: são vítimas do sistema perverso...
 
Como alguém no poder há tanto tempo, com 12 processos no STF, pode falar isso sem rir ou avermelhar? Não é só o sistema que está falido, fedido e caquético...
 
Com tantos escândalos e privilégios indecentes, sempre às custas do contribuinte, Renan deve saber como chegamos tão baixo. E como ele contribuiu para isso. São os mesmos que corromperam e aviltaram o sistema que vão reformá-lo?
 
Ensandecido com a reação da Lava-Jato, Renan tentou até votar com urgência no Senado o “AI-5 do crime organizado” aprovado na Câmara para amordaçar a Justiça e salvar os parlamentares, mas o que resta de bom senso e dignidade na Casa o impediu. No Brasil, os bandidos querem julgar os xerifes.
 
Depois de tratar os juízes e procuradores com tanto desprezo e hostilidade, esperamos que Renan seja acusado e julgado por eles com o desprezo e a hostilidade que merece. Que se faça justiça e ele apodreça na cadeia.
Já o deputado baiano Aleluia é radicalmente contra a instituição do “reportante do bem”, chamado whistleblower nos Estados Unidos, que permite a qualquer cidadão denunciar crimes e receber recompensas. O deputado diz que vamos virar uma “República de delatores” (os Estados Unidos viraram uma?), ele prefere que continuemos como uma “República de ladrões”, e se esqueça de que só existe delator se houver crimes a delatar... agora só falta propor uma lei que torne a omertà obrigatória.

Em uma de suas últimas entrevistas, Paulo Francis dizia não acreditar em reencarnação, “mas, se houver, vou levar meu ectoplasma para Brasília e infernizar essa canaille.”
Domingo, o ectoplasma de Francis vai estar gritando na rua.

POR UM PUNHADO DE REAIS

Por gostar de levar vantagem em tudo, preferia o triplex como um agrado dosamigos da Odebrecht

O tempo passa e mostra que a “Lei de Gérson”, a compulsão por levar vantagem em tudo, é um dos vícios mais arraigados e nefastos da cultura política brasileira. É a raiz da derrocada de Lula.

Se tivesse apenas comprado o triplex do Guarujá como qualquer mortal, pagando pela reforma, elevador e cozinha, não teria nenhum problema. Com certeza, tinha rendimentos que davam de sobra. Mas não, por gostar de levar vantagem em tudo, preferia receber o triplex como um agrado dos seus amigos da Odebrecht, por ter sido tão amigo deles.

Mas tão logo O GLOBO revelou o triplex, Lula consultou os advogados e resolveu “desistir” do apartamento. Mesmo depois das visitas de Marisa Letícia e Lulinha, que aprovaram as reformas e os equipamentos. E ainda escrachou o triplex como “muquifo”, e “minha casa minha vida”, como se vivesse em um palácio na fulgurante São Bernardo. O mistério é: se não fosse para ele, para quem a Odebrecht teria feito tudo aquilo?

Se, por sorte, Lula já tivesse fechado o negócio antes da revelação pública do triplex, o pior que poderia lhe acontecer seria, mesmo contrariado, ter que pagar pelas reformas, elevador e cozinha, para evitar problemas. E não teria problema algum. Mas não, mesmo tendo ganho uma pequena fortuna, digamos, legitimamente, com suas palestras de R$ 300 mil, o cara não queria gastar R$ 1,2 milhão para pagar as obras feitas pela Odebrecht. Achou mais esperto desistir para não criar problemas, e aí que criou.

Se não gostasse da vizinhança, se não tivesse privacidade na praia em frente, poderia vendê-lo algum tempo depois, valorizadíssimo como “o triplex do Lula”, e embolsaria uma boa grana para comprar uma bela casa em Maresias, que é mais privê. Zero problema.

Hoje, os Lula da Silva poderiam estar desfrutando seus fins de semana com todo o conforto e uma bela vista para o mar do Guarujá. Mas não, ele preferiu criar a fantasia do apartamento que era mas não era dele, e se enrolar em problemas judiciais que podem até levá-lo à cadeia. Por um punhado de reais.

Esperteza, quando é muita, come o esperto. Não foi a ambição, mas o orgulho que ferrou Lula.

‘Reconheço que minhas melhores músicas foram compostas em estado alterado, as piores também’
Num remoto baile de carnaval em Rio Claro, no interior de São Paulo, a italianinha Chesa era uma bela colombina, disputada pelo jovem pierrô Ulysses Guimarães, com seus olhos azuis e seu dom da palavra, e por Charles, um arlequim filho de americanos e neto de índia cherokee. No final, o gringo ganhou a italianinha. Era o futuro pai de Rita Lee, como ela conta em sua sensacional autobiografia:

“Difícil me imaginar uma Rita Guimarães, deputada do PMDB, defensora dos ‘frascos e comprimidos’, praticamente uma Neusinha Brizola coxinha.”

O humor inteligente, a irreverência e a capacidade de autoescracho que caracterizam o estilo de Rita marcam a sua narrativa. Fiel ao seu lema “brinque de ser sério, leve a sério a brincadeira”, ela conta tudo que fez, que viu, que ouviu, e de que consegue se lembrar... rsrs

Mas Rita sempre assume suas responsabilidades:

“Não faço a Madalena arrependida com discursinho antidrogas, não me culpo por ter entrado em muitas, eu me orgulho de ter saído de todas. Reconheço que minhas melhores músicas foram compostas em estado alterado, as piores também. Encontrei um barato maior: a mutante virou meditante.”

Sua história com Os Mutantes, que a expulsaram da banda e assim a levaram à fabulosa carreira solo, é narrada com ironia e sarcasmo, sempre chamando os irmãos Sérgio e Arnaldo Dias Baptista de “ozmano” e contando episódios gloriosos e patéticos dos “três patetas”. Mas elogia as qualidades guitarristísticas de Sérgio e o charme, talento e humor de Arnaldo, com quem se casou no cartório. Mas depois foram ao programa da amiga Hebe Camargo, rasgaram a certidão ao meio e deram à apresentadora.

Tempos depois, Hebe estava passando e recolheu Rita da rua completamente drogada e a levou para casa, deu banho, trocou as roupas e deu comida na boca.

Dramas e comédias se misturam com sexo, drogas e rock and roll, entre deboches hilariantes com as estrelas da MPB, como na sua prisão por uma bagana de maconha, que levou Elis Regina, sua arquirrival de “Rock X MPB”, a juntar uma multidão em frente à delegacia e virar melhor amiga...
E ainda estou na página 68.

Autor(a): Nelson Motta
Fonte: http://noblat.oglobo.globo.com/geral/noticia/2017/07/saudades-da-lava-jato.html

 

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