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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

ROBERTO DAMATTA
publicado em: 17/01/2018 por: Lou Micaldas

PENSANDO ALTO
SE EU SOUBESSE...

PENSANDO ALTO

O político enganador e poderoso algemado promove empatia porque não temos como fotografar o seu crime. Ele roubou ‘do governo’

Pensar alto, exteriorizando em palavras ou gestos o que está restrito ao interior da cabeça, é muito perigoso. Corre-se risco quando se fala o que se pensa e se pensa o que se fala. Pode dar prisão e morte — destruir reputações. Você pode ser chamado de esquerdista ou, como hoje é moda, de golpista e, pior que tudo, de liberal...

Livre da consciência, o pensamento é controlado, protocolado ou proibido. Nas ditaduras não se pode pensar. As cabeças autoritárias coroadas pelo êxito assumem que tomar partido é decidir.

Falamos em fake news sem prestar atenção a que elas são atos falhos, são sussurros mentais e, como as intrigas e calúnias, são descobertas incômodas — verdades verdadeiras. Expressões de desejos e de alternativas culturais suprimidas ou reprimidas. Não falo nem morto; se ele for condenado, morremos...

Muitas anedotas que circularam em regimes despóticos revelam isso claramente. No Brasil, muitas ressaltavam e extrema feiura, ausência de inteligência e de tato de alguns dos nossos ditadores. Na Alemanha do nacional-socialismo existe um verdadeiro cânone desses eventos imaginários, expressivos de desejos aprisionados. Eis um exemplo:

“Hitler e Goering estão olhando a paisagem do alto de uma estação de rádio em Berlim. Hitler revela que ele gostaria de fazer alguma coisa que abrisse um sorriso nos rostos tristes dos berlinenses. Goering pensa um pouco e sugere: ‘Por que você não pula?’”

Ouvida por nazistas, a piada deu interrogatório e perseguição. Os politicamente corretos não podiam admitir o humor que deixa “falar alto” e revela os interstícios. A filigrana onde os desejos lutam para sair porque denunciam a mistificação.

Certas piadas, senão todas, bem como o seu inverso — as calúnias e pragas que fazem sofrer e chorar —, são censuradas porque o “pensar alto” revela o lado dissimulado de um regime ou pessoa sagrada.

Pensar alto é um meio-termo entre o peso da verdade e o seu desvendamento. No meu longo e elaborado treinamento, cujo destino era ser pesquisador e professor, eu passei por muitos exercícios de controle do pensar alto. Uma vez assisti a uma conferência singularmente presunçosa sobre “teoria do parentesco” proferida por um pós-estruturalista francês no Museu Geral, onde trabalhava. Seu ponto de partida era genial: só há parentesco porque um homem se casa com uma mulher...

Meu professor adorou. Eu, porejando pusilanimidade, concordei, mas pensei baixinho com desmedida coragem: trata-se de uma besta quadrada! A quantas conferências e seminários idiotas eu assisti? Em quantas aulas e palestras eu mesmo disse lixo? Quantas vezes eu sufoquei o meu pensar alto? Perdi a conta...

Lembro-me de alguns conselhos recebidos nesta preparação para uma apropriada cultura da hipocrisia. Quando, no seu período pré-Trump, os Estados Unidos eram a América, meu mentor exigia que eu fosse direto ao ponto (go straight to the point!) arcando com todas as consequências, inclusive a de revelar a desonestidade intelectual do conferencista ou do autor. No Brasil, porém, onde discordar é tido como falta de consideração e de humanidade (errar é humano, persistir no erro é estar no lugar certo e ser superior!), aprendi o exato oposto: “Jamais, admoestou-me um mentor, diga o que você pensa!” Encaixei as duas lições e confesso a minha total insegurança entre o pensar alto e deixar de pensar.

Quando eu observo que um operador profissional de propinas está paradoxalmente “preso” na sua fazenda porque o Estado não tem tornozeleiras eletrônicas, eu penso alto: não seria melhor acabar com julgamentos de todas as ex-autoridades que continuam a gozar de suas majestades?

Queremos justiça, mas não gostamos de suas consequências: prisões, igualdade absoluta, isolamento e algemas. O político enganador e poderoso algemado promove empatia porque não temos como fotografar o seu crime. Ele roubou “do governo”, recebeu propinas, seus companheiros mais chegados o denunciaram abertamente, ele quebrou o Brasil, mas a “crise”, embora tremenda, é impessoal e abstrata. Ela é sentida e vivida, mas não pode ser presa e ninguém vai morrer por ela.

Pensando alto, o que conta no Brasil é a personificação. Milhares, porém, foram algemados a uma vida miserável por irresponsabilidade do governante, mas, ao vê-lo prestes a ser julgado e a receber o seu fim político, o coveiro de esperanças é transformado por alguns numa pobre vítima e num herói nacional. Tudo é falso e irreal. Trata-se, inclusive, de julgar o julgamento. Eis o dogma em estado puro. O assassínio do pensamento.

SE EU SOUBESSE...

Afinal de contas, o que nos havia tornado humanos? Teria sido a alma dada por Deus essa inventora da consciência e da linguagem articulada, ou o tabu do incesto?

Bebíamos o terceiro ou quarto uísque quando surgiu no infinito horizonte dos nossos copos vazios uma questão burguesa: afinal de contas, o que nos havia tornado humanos? Teria sido a alma dada por Deus essa inventora da consciência e da linguagem articulada — ou o tabu do incesto? Teria sido a proibição de comermos a nós mesmos, como tendem a fazer a democracia igualitária e o globalismo desenfreado?

Todos falaram, mas eu fiquei com aquele que soltou o seguinte: “Somos humanos porque temos o condicionante virtual, o ‘se’ da frustração e do arrependimento. Ah! Se eu soubesse, ou pudesse...”

Eis algumas coisas que ouvi.

__________

Se eu soubesse o que hoje sei, eu não sei se estaria escrevendo estas linhas... Se eu soubesse que o “se eu soubesse” é algo recorrente — pois sempre pensamos saber mais do que sabemos —, eu não teria ficado tão magoado com meu pai... Se eu soubesse que a democracia americana ia dar em Trump, disse um tal de Alexis Charles-Henri-Maurice Clérel de Tocqueville, eu teria refeito o meu livro “Democracia na América”... Se eu soubesse que insistir em pegar na mão dela ia me custar o emprego, eu teria ficado fiel ao meu inútil voto de castidade... Se eu soubesse que tudo o que eu fiz e ainda vou fazer vai ser fatalmente esquecido, eu teria pensado mais em escrever menos... Se eu soubesse o resultado da Mega-Sena, eu (diz um lado meu) estaria longe daqui... Se eu soubesse que o tempo realmente passa, eu teria terminado o livro que jamais vou escrever... Se eu soubesse que roubar era sinônimo de “cuidar do povo”, eu teria me suicidado politicamente... Se eu soubesse que a descoberta do planeta como um todo — o planeta visto de fora para dentro — ia me dar a certeza de que estamos matando o mundo, eu não seria otimista... Se eu soubesse que ser professor seria viver numa luta decepcionante contra a indiferença do saber em toda a parte, mas sobretudo no Brasil, eu teria — mesmo assim — sido professor... Se eu soubesse que o meu medo do escuro ia estar sempre ao meu lado, eu teria acendido a luz... Se eu soubesse que ia construir uma tribo, eu jamais saberia como a leveza do papel de avô compensa amplamente o papel pesado de pai... Se eu soubesse que iria ser vítima das intrigas humanas que, por sua vez, são o resultado não previsto das intrigas que os intrigantes realizam nas suas próprias cabeças, eu teria vivido com serenidade as calúnias assacadas contra mim... Se eu soubesse que, mesmo sendo o filho mais velho, eu poderia ter mais latitude para errar, burlar, brincar e pecar, eu talvez tivesse sido um artista — medíocre, sem dúvida — um ser mais alinhado com os encontros decisivos entre a força da vida e o silêncio dos túmulos... Se eu soubesse Latim, Francês e Matemática como meus professores gostariam que eu aprendesse, eu seria engenheiro ou militar... Se eu soubesse que a ambição humana é tão ou mais poderosa que os protocolos, eu estaria menos preocupado com um mundo que exige muito menos de mim do que eu dele... Se eu soubesse de memória tudo o que ouvi dos meus professores, eu estaria num hospício... Se eu soubesse que não saber é uma condição da vida, eu não teria consultado aquela cartomante famosa que tinha como clientes diplomatas, altos funcionários, frades e materialistas... Se eu soubesse que despertava tanta inveja, meu sentimento de culpa caberia num dedal... Se eu soubesse que o mapa social do Brasil estava traçado antes do meu nascimento, eu não teria me esforçado tanto — teria me esforçado muito mais... Se soubesse tudo, eu não teria que aprender nada... E se eu não soubesse nada, como foi o caso, eu não ficaria tão decepcionado em saber tão pouco... Se eu soubesse puxar o saco dos poderosos, eu teria ido muito mais longe... Se eu soubesse que ele ia morrer subitamente, eu lhe diria o quanto eu o amava todo os dias... Se meus pais estivessem vivos, eu iria perguntar tudo sobre a vida deles... Se eu soubesse que o passado jamais volta, exceto pelos bons momentos do presente, eu não estaria firme neste pedaço de jornal...

Autor(a): Roberto DaMatta é antropólogo.
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): José Ricardo

 

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