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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

SÉRGIO CLOS
publicado em: 22/05/2017 por: Lou Micaldas

 
Era uma tarde de outono, o friozinho chegando e eu ali, sentado à beira do Guaíba lá na praia de Belém Novo( um bairro afastado de Porto Alegre). Lugar bonito. Entra uma sorvida e outra de chimarrão, estava ali matutando, pensativo nas coisas da vida.
 
A idade chegou, nem tinha me dado conta, passei dos sessenta. Quem diria, depois de tantas peripécias vivenciais, Estou eu firme e forte. Mais forte do que “firme”. Firmeza só de caráter, pois a outra, deixa pra lá. Olhei uma pedra estranha e por curiosidade a peguei, nunca tinha visto igual.
 
Quando eu toco na mesma, deu uma rebordosa na minha cabeça e passei a ver algo estranho. O lugar se tornou um matagal fechado. Levei um baita susto que  cuia do chimarrão voou longe e a garrafa térmica virou, derramando água quente nas minhas botas. Foi uma fiasqueira que só vendo. De repente ouvi uns gritos. Vinha em minha direção um monte de cara pelado de flecha e lança na mão. Meu instinto me fez correr. Acreditem, aquela era uma pedra mágica e eu havia atravessado o portal do tempo! Voltei lá no tempo dos Charruas. Só pode ser! Por essas bandas há muito séculos eram os habitantes da área. Não teve jeito, eu, velho, não fui muito longe. Eles me alcançaram e me amarraram. Fui levado para a tribo.
 
Vocês não vão acreditar! Meu trouxeram uma ÍNDIA, que dá licença, era bonita demais! Em pelo com os  cabelos longos toda sorridente, olhos grandes e amendoados. Aguarde um pouquinho... Tô emocionado... Lembrou-me a morena de olhos esbugalhados. Deixa-me quieto um pouco, deixa eu me recuperar... Pois então, continuando. Desamarraram-me e me ofereceram pra aquela beleza de índia. Achei que queriam que eu casasse com ela. Aceitei de pronto. Não entendi bem a causa. Pensei comigo, e agora? O que é que eu vou dizer lá em casa? Mas, se eu voltei no tempo, o eu de hoje nem nasceu ainda! Já tô velho mesmo, o  que me resta vou aproveitar ao máximo.
 
E foi feito o casório. A indiada matou uma meia dúzia de antas só pro aperitivo. E cantavam, pulavam. E eu louco pra ir pra oca com a beldade. Não é sempre que alguém atravessa o portal do tempo só pra dar uma, (vocês sabem). O tempo passava e nada. Aí então apareceram dois índios, fortes, com tacapes, dando gritos de guerra. A coisa começou a ficar feia. Não era casamento! Pelo que eu entendi, eu seria sacrificado e a ÍNDIA era a madrinha do sacrifício. Comecei a tremer igual vara verde. Fixei olhar na saída da taba e saí em disparada à procura da pedra mágica. Sei que era branca e estava na beira do rio.  Na minha idade nunca pensei que eu correria tanto! E antes que eles me alcançassem eu vi uma pedra meio esbranquiçada e a agarrei com as duas mãos, e gritei: - Eu quero voltar! Eu quero voltar!

- Me larga, velho demente! Tá chacoalhando minha cabeça por quê? Que te deu criatura? Tu queres voltar pra onde? E esse bafo de cachaça? Quantas vezes o teu médico te falou pra não beber junto com teus remédios de tarja preta. Depois tu ficas louco das ideias! Vais dormir na sala hoje! Velho teimoso!
 
FIM DE UMA SAGA

Desculpe o mau jeito.
De falar novamente na morena.
Mas é pra dar um fim nesta história.
Sei que vai ficar na memória.
Deste gaúcho contrariado.
Tô com o peito dilacerado.
Por ela ter me posto de lado.
Ela sonha com a Carlão
Eu lhe digo que sou o Serjão.
Mas é coisa do coração.
Fiquei meio desacorçoado.
E aceitei a situação.
Vou sair pelo mundo pampeano.
Eu e o meu baio de estimação.
Levarei só a mala de garupa, uns pelegos e o meu cusco.
Este sim é companheiro.
Sairei pampa a fora.
Colhendo mel de camotim.
Acampando na beira da sanga.
Pra tomar um chimarrão.
Pra ver se esqueço de vez
A morena de olhos esbugalhados e sorriso largo.
Só te falar me aperta o coração.
Sei que já tô velho pra lida.
Quem sabe o Patrão Velho ponha no meu caminho.
Uma linda prenda com uma flor de maracujá no cabelo.
Não tô fazendo nenhum apelo.
É que gaúcho solito enche as ventas de canha.
E já não serve nem pra peleia!
Autor: Sérgio Clos

Dialeto gaúcho:
Mundo pampeano- pampa gaúcho
Baio – cavalo acastanhado
Pelego -  pele com a lã da ovelha.
Mala de garupa – mala de pano ou couro pra colocar no lombo do cavalo, pra viajar.
Cusco - cachorro
Camotim – abelha silvestre
Sanga - riacho
Prenda – Mulher gaúcha.
Ventas – cara, focinho.
Canha - cachaça
Serjão  - Eu grandão
Carlão – A mulher que roubou a morena.
(Velhos Amigos é Cultura.).

 
Essa frase ecoa na minha cabeça há décadas. Foi dita por uma senhora, já fenecida, quando me olhou lá na Casa Espírita há quarenta anos. Ela era a diretora espiritual da Casa. É uma destas pessoas que veem com outros olhos, que eu sinceramente não consigo. Talvez eu sinta algo muitas vezes pouco compreensível para mim, ainda.

Independente do lugar onde vamos amenizar nossos perrengues espirituais, nós sempre nos comportamos de igual maneira, pois somos os eternos “pedintes” nestas questões. Não encontrei ainda um termo adequado para estas situações. Somos os mesmos com igual valor de humildade quando acendemos uma vela para Nossa Senhora, quando ressoamos o salve e o aleluia. Somos os mesmos quando oferecemos um “amalá” para Xangô ou fazemos reverências no altar budista. Somos os mesmos que levantamos as mãos para o céu invocando os deuses ou o nosso Deus interior. Certamente um deles nos atenderá.

Os pedidos cheios de fé serão sempre atendidos. Tudo é uma questão de tempo. A senhora da Casa Espírita, lá no passado, estava fazendo alusão às cargas espirituais e emocionais que eu carregava. Trocando em miúdos, é provável que a mesma estivesse ”vendo” ao meu redor criaturas de outros mundos a fazerem pressão ou obsedando.

Deixemos assim. Na verdade o espiritualismo tem uma cartilha que fala sobre estas “coisas” com muito mais conhecimento do que eu próprio. Uma oração num ambiente religioso ou no próprio lar colocaria as coisas no seu devido lugar. Tudo é fé individual. Somos as mesmas pessoas e, o ambiente espiritual para onde vão os nossos pedidos, é igual para todos.

Olhando o mundo físico com os olhos que eu tenho, faço constantes indagações, assim como todos nós quando desviamos o olhar  do nosso umbigo e olhamos para o lado. Depois de ver o que vemos, nos perguntamos: - QUAL ERA MESMO O PROBLEMA QUE EU TINHA? E é assim. Conheci uma moça que cuida da mãe e do irmão, ambos com necessidades especiais. Lembrei-me de tantos outros que passaram pela minha vivência (e ainda passam) e que desempenham os mesmos papéis com paciência, carinho e perseverança. Alguns cuidam durante toda uma vida. Poucos reclamam das dores vivenciadas. São os que têm um olhar mais sereno. Muitos não professam qualquer religião e cumprem o seu destino com altivez, pois servir é uma das nobrezas do ser humano.

 Descobrimos todos os dias que problemas, muitas das vezes, são meros desconfortos e, só disto nos damos conta quando olhamos para o lado.
Quando vemos os nossos companheiros de jornada com uma carga individual tão pesada, dá vontade de pará-los e falar:
- POSSO PERGUNTAR UMA COISA? COMO TU CONSEGUES?
 
Era um momento de ócio e expectativa. Na sua velha cadeira de balanço bastante surrada, como um pêndulo a movimentar-se, ela fazia um retrospecto mental de sua longa estada naquela também velha casa. Já passava dos noventa. Olhava para o teto, pouco mofado. Os marcos das portas eram de madeira de lei, foi o seu falecido marido que havia colocado. Foi há muito tempo. Os cupins não os venceram.
Nas paredes, as inúmeras camadas de tinta das últimas décadas foram aparecendo estouradas em bolhas de diversas cores. As camadas sobrepostas descolando-se da parede pareciam flores. Ali foi feliz, seu marido o foi também, assim como os seus filhos. Seus netos gostavam da casa, era aconchegante. Agora é uma casa velha, mas antes era um bom lar.
 
Casa é fácil de montar, empilhamos um monte de tijolos ou pregamos umas madeiras, colocamos janelas e telhado e está pronta. Lar é outra coisa. Lar é a vida que a gente dá àquela construção. SOMOS ASSIM MESMO, DAMOS VIDA ÀS COISAS INANIMADAS. Por isso que chamamos o lugar onde moramos de lar. É um “ente” vivo impregnado com as nossas próprias vidas.
 
Naquela apreensividade tamanha, fixou o olhar num rabisco que surgiu por debaixo da tinta fujona. Voltou no tempo, e lembrou-se do desenho feito por ela, pois viveu grande parte da sua longa vida naquela casa. Parou imediatamente o vai e vem da cadeira e descascou a parede até o desenho aparecer por completo. Vagarosamente foi até a cozinha, apanhou uma faca e tirou parte reboco com o afresco. Enrolou num pano e voltou pra cadeira.
 
Seria uma recordação do lugar que tantas alegrias lhe proporcionaram. A casa seria demolida. Seus filhos, com a sua concordância, venderam-na para uma construtora.
Um deles já estava chegando para buscá-la. Irá para uma casa geriátrica, pois assim ela desejava. Sentir-se-á mais segura. Já havia cumprido o seu papel e passará para uma nova etapa de sua existência. Quando ela virar as costas e olhar para trás, somente verá um monte de escombros, pois a vida esvaiu-se daquele lugar. Virá uma nova construção, será um prédio de muitos andares, que abrigará novas famílias de jovens ou não, e o lugar se encherá de vida novamente.
 
E são estas as suas palavras: SE EU FUI CAPAZ DE DAR VIDA ÀS COISAS QUE TOQUEI, DURANTE A MINHA EXISTÊNCIA, JÁ TERÁ VALIDO A PENA.
Guardarei meu pedacinho de reboco com o meu desenho numa redoma, como um tesouro simbólico de uma vida feliz que tive num lugar feito de tijolos e tintas. Vou para um asilo, por que eu assim desejei e tenho a certeza que viverei feliz lá, pois TUDO QUE EU TOCO VIRA FELICIDADE. Farei novos amigos. APRENDI QUE NÃO TER AMIGOS É NÃO TER GRAÇA NA VIDA.

E assim terminarei meus dias.
Meus filhos, netos e bisnetos irão lá para visitar-me periodicamente, pois assim os preparei. Estarei bem. 
EU SÓ TENHO GRATIDÃO E FELICIDADE.
 

O café mais caro do mundo chama-se Kopi Luwak e é produzido na ilha de Bali. Custa mais de dois mil dólares o quilo. Não vou contar de que maneira ele é obtido para não estragar o romantismo da minha história. (O tio Google conta para vocês.).
 
Acredite, o café que tomei durante muito tempo, ultrapassa em muito este valor. Muitos vão achar que eu esteja zuando ou coisa parecida. Sou um envelhescente e tenho as minhas razões e contrarrazões para narrar o episódio. Tenho receio que as pessoas caçoem de mim, mas o que aprendi na vida é nunca fugir da verdade mesmo que o orgulho saia todo esgualepado. Nem tanto, é só um pequeno drama. Pois então, vão pensar que agora eu extrapolei quando eu contar que foi lá no Posto Ipiranga. Pior. Foi. Foi lá que durante três anos compareci na “lancheria” do dito posto para esperar a morena de sorriso largo e olhos brilhantes. Foram longos anos. Meu carro ficava estacionado na rua ao lado. Foi roubado uma vez e o seguro pagou.

O segundo foi roubado também, mas não estava no seguro. Olha que era zero bala e de luxo. Comprei para impressionar a morena. Até ostentei a foto, eu e o carrão na internet para fazer um grau, torcendo para que ela visse e desse um like. Ignorou. Não é só isso. Perdi dois empregos, pois chegava atrasado e a chefia não perdoava. Tudo por conta de estar esperando a morena lá no posto Ipiranga. Meus chefes eram todos sem coração, jamais entenderam a minha obsessão.
 
EU mandava Whats, Messenger, entrava no inbox dela, enchia de poesia. Dei boa noite, boa tarde, bom dia, bom sono, bons sonhos, bom isso, bom aquilo, e nada de ela dar um fiosinho de prosa sequer. Ia ao dentista toda semana clarear os dentes, pois estavam escuros de tanto cafezinho; já nem dormia mais por causa da cafeína; meus olhos pareciam dois grãos de café.  O posto já tinha trocado de gerente duas vezes, os frentistas já estavam acostumado comigo. Eles na bomba de gasolina e eu levando bomba da morena. É injusto! Ficava esperando ela chegar, ela parecia que adivinhava e não chegava nunca. Se assédio mental fosse crime, eu pegaria perpétua!  Mas agora chega!
 
Depois desses mil dias tentando, vou desistir. Tem alguma coisa de errado comigo. Será que esta criatura existe mesmo ou sempre foi fruto da minha imaginação? Mas eu reconheceria a morena se a visse neste momento, sei que ela é real. Já fui ao neurologista, fiz tomografia e está tudo bem. Nem fui ao psiquiatra, com aquele médico não quero nem papo, é um idoso muito ranzinza, está sempre querendo me enfiar um monte de remédios.  “Aqui” pra ele! Mas, ela se faz de tonta, pois sabe que é dela que estou falando. Eu sei  que ela está lendo este texto. É muita judiaria o que ela faz com este agora pobre ancião. Para mim chega! Juro que, quando eu ficar bem velhinho, irei bater com a bengala na porta dela e cobrar todos os cafezinhos que ela me fez tomar sozinho. Ingrata! Insensível! Torturadora de idosos!
 
Passaram-se alguns dias depois da minha decisão, recebi uma carta desaforada:
 
-  Meu caro Sérgio. Sou uma mulher madura e não tenho mais idade pra ser feita de boba. Emenda-te, cumpre com o teu papel, nem parece gaúcho de palavra. Toda vez que tu mandas recado pra mim, eu fico esperando lá no posto, faz tanto tempo que faço isso que o estabelecimento até já trocou de bandeira, antes era Esso agora é Petrobrás. Fiz até amizade com o pessoal de lá. Já passei até vergonha por conta de estar lá sozinha a espera de alguém. Pra mim já chega. Tu és um tratante. E não me manda mais poesia e nem flores.  Eu tenho mais o que fazer! E tem mais, meu sorriso não é largo, é amarelo de raiva e os meus olhos estão brilhando de tão brava que estou. Não sou mais morena, pintei o cabelo.
 
- E aí Sr Clos, está conseguindo ler? Não força a visão! Depois o senhor lê esta carta. Vamos lá que o médico está esperando. Vou preparar o senhor pra cirurgia. Catarata é simples, amanhã o senhor vai ver tudo como muito mais nitidez.
 
Era uma típica tarde de outono, a praça estava cheia. Mães empurrando seus carrinhos de bebê. Jovens passeando grudados em seus celulares. Outros sentados nos bancos olhando o movimento. Eu era um deles. A mente relaxada, recuperando o fôlego depois de uma breve caminhada. No mesmo banco que eu, um senhor de cabelos brancos sentou-se e me perguntou: -  Tu tens um minutinho? Eu respondi prontamente que sim. Ele começou: - Só quero que o senhor me ouça, se eu não estiver lhe importunando. (Aceitei de pronto) Fechei oitenta e cinco anos esse mês e tenho me questionado o que é a vida afinal de contas. Sou viúvo há dez anos e ainda sinto falta da minha companheira de longo tempo. Casamos muito jovens. Ela teve essas doenças de mulher, embora ela tenha se cuidado bastante. Foi tudo muito rápido. Eu me envergonho até hoje, pois quando tive uns probleminhas na próstata, depois da operação fiquei deprimido por diversos motivos, e, eu acho que o senhor sabe quais são. Achava que não era mais homem. Ela não. Lidou com o seu destino de maneira serena até o fim. Era muito religiosa, acho que isto ajudou bastante.
 
A conversa unilateral fluiu bastante naquele dia e nos outros seguintes. Eu até já tinha me acostumado a ir à praça naquele determinado horário, ele aparecia logo em seguida e continuava a sua história. Contava dos tempos de juventude, do trabalho e de seus feitos. Sempre o ouvi atentamente sem interrompê-lo. Teve dias que eu não pude ir e sentia falta da conversa daquele senhor. Só nos apresentamos formalmente lá pelo décimo dia. Depois de um mês aproximadamente, ele não apareceu mais. E toda vez que me encontrava sozinho naquele banco eu me lembrava dele, pensava na sua história e algo chamou a minha atenção: ele falou pouco em doença, embora elas tenham marcado profundamente a sua vida. Falou de tristezas e alegrias. Falou sobre o sentimento das pessoas e disse que não queria outra companheira. Que a vida, agora na velhice, trouxe-lhe outros prazeres. Depois de dias passados, estava eu absorto em meus pensamentos quando se aproximou uma linda senhora e perguntou: - O senhor é Sérgio?

- Sim.

- Sou filha daquele que conversava com o senhor aqui na praça. Meu pai escreveu uma carta que era pra ser entregue pro senhor caso algo acontecesse com ele. Foi o que me pediu antes de ir.
 
Abri a carta e estava escrito:
“ MEU CARO AMIGO, POSSO TE CHAMAR ASSIM, POIS TU OUVISTE-ME O TEMPO TODO, FOI UM PRAZER TE CONHECER.”
Indaguei sobre o pai e ela tristemente falou que ele tinha ido pra junto da mãe dela.
É isto: AMIGO é aquele que ouve o tempo todo. TODOS NÓS QUEREMOS SER OUVIDOS POR ALGUÉM, pois este é um dos capítulos mais importante de nossas existências.
 
A propósito,  tu tens um minutinho?
 
Eu queria ser um Fernando Pessoa, só para dizer coisas bonitas e que calam fundo em nossas mentes porosas.
Queria ser um Gonçalves Dias pra exaltar a beleza da terrinha com tanta excelência.
Queria ser  o Padre José de Anchieta para escrever versos na areia.
Queria ser um Suassuna ou um Jorge Amado.
Queria ser um Veríssimo, pai, ou o filho.
Não queria  ser uma Martha Medeiros, pois ela é mulher, mas queria ter o seu dom de escrever.
Queria ser um Neruda, para falar sobre metáforas.
Queria ser um Vinicius de Moraes para fazer canção sobre as garotas de todas as praias.

Ah, Mulheres! Queria exaltá-las em forma de versos, mas eu não sou Vinicius e também não sou nenhum deles. Deus condenou-me a ser EU MESMO. Talvez até nem seja uma penitência, pois admiro todos e eles não me conheceram. Mas, a minha teimosia é tanta que me recuso a vagar pelo ostracismo. Não escreverei na areia como o Anchieta, mas registrarei todos os meus lamentos e admiração pelas mulheres nos papéis recicláveis e nas mentes porosas das gentes, com a certeza de que na história, quando alguém estiver furungando nas velhas bibliotecas encontrará o meu nome e perguntará: Quem foi este?

E, como tenho a convicção de que isto irá acontecer, estou dando a resposta antecipada:
SOU UM ETERNO ADMIRADOR DAS MULHERES
 
É uma história (real) curta para uma vida longa. Começarei pelo final. Fredo nasceu em Zagreb, Croácia, tinha 84 anos quando faleceu. Faz três anos. Viveu seus últimos 20 anos no litoral norte do Rio Grande do Sul, e desses, fui seu vizinho durante dez anos. Eu era apenas veranista e ia uma vez por mês na casa. No verão permanecia mais tempo.

Fredo era conversador e simpático. Falava sobre todos os assuntos. Já aos oitenta, alguns dentes ingratos o abandonaram, mas seu sorriso continuava intacto. Sempre foi solteiro e conservava o hábito de galanteador. 
Veio para o Brasil no início da década de 50 e depois de muitas andanças instalou-se no litoral. Odiava os comunistas e verbalizava com eloquência tal sentimento, fruto de uma vivência muito próxima lá na Europa com estes malditos, segundo dizia ele.
 
Falava pouco sobre esse período. Tinha segredos. E, também tinha sonhos. Um era mandar dinheiro para sua irmã, de idade aproximada à dele. Queria voltar para a terra natal. Certa vez fomos ao banco para nos informar como seria o procedimento do envio de dinheiro para outro país, havia um monte de taxas a pagar. Lembro-me do quanto irritado fiquei, pois os nossos políticos ladrões mandam o dinheiro roubado de todos nós para o exterior sem o menor atropelo. Estava vivendo uma vida de necessidades, pois era um acumulador compulsivo, inclusive do próprio dinheiro. Mesmo aos oitenta, ainda aparava grama dos terrenos vizinhos, cortava galhos e andava de bicicleta para ir à feira ou ao banco.
 
No último ano de sua existência, sua saúde entrou declínio com muita rapidez. Era crítica a situação, pois o encontrei algumas vezes caído. Até que um dia estava com a casa aberta e encontrava-se caído na sala, sem forças e com pouca voz. A ambulância vinha buscá-lo e ele passava o dia na enfermaria. Junto com o Serviço Social da cidade procuramos uma solução. Consegui aqui em Porto Alegre um lugar para ele ficar, era um asilo. Foi um processo longo até o seu aceite.
 
Começou uma nova vida, e, em três dias faleceu de infarto. Eu, minha  esposa e minhas filhas, demos um enterro digno para ele.
 
Um dia antes de ele morrer, o serviço social solicitou alguns dos seus móveis para doação às famílias carentes da cidade. Logo após saberem do seu fenecimento, seus “amigos e conhecidos” foram a sua residência para promover o espetáculo mais triste que vi na minha vida: O saque. Havia uma quantidade enorme de objetos e coisas acumuladas durante os vinte anos.
 
O espetáculo dantesco durou três dias, até que eu isolei a casa, que era alugada, e a entreguei para o proprietário. Fredo não conseguiu realizar seu sonho em vida. E tudo que ele acumulou perdeu o sentido e criou um fato que todos nós conhecemos, guardadas as devidas proporções, a disputa pelas coisas materiais que ficaram sem dono. Havia muito dinheiro na sua conta bancária e seus irmãos, um morando no Canadá e a outra na Croácia, providenciariam a retirada através dos meios legais.
 
Aprendi duas coisas com o meu amigo Fredo: A primeira, que nunca devemos acumular bens materiais e valores, achando que somos ungidos com a eternidade. Devemos gastar com a gente para melhorar a nossa qualidade de vida.  Constatei que o meu amigo Fredo estava com câncer e o negligenciou. (encontrei uma papelada médica que falava sobre neoplasia maligna.).  Não precisaria guardar tanto dinheiro. Era muito.
 
A segunda coisa que aprendi foi com relação ao ser humano que ficou saqueando sua residência. Eram seus supostos amigos e acredito que Fredo não tenha feito amigos de verdade e, se eu não chegasse a tempo ele seria enterrado como indigente.
 
DUAS COISAS SÃO ESSENCIAIS NA JORNADA DO SER HUMANO: NÃO ACUMULAR ACHANDO QUE SOMOS ETERNOS, E FAZER UM INVESTIMENTO AFETIVO PARA QUE NA HORA CRÍTICA ALGUÉM NOS ALCANCE UM COPO D’ÁGUA.
Isto serve para todos nós!

Senhor Tempo:
Resolvi escrever, pois afinal, são mais de noventa anos juntos.
 
O senhor já está cansado de saber o meu nome, mas eu me chamo Camila.
 
Às vezes esqueço alguma coisa, mas é culpa daquela doença, “Auzai...” Depois eu lembro.
 
O que eu queria mesmo era agradecer. Somos parceiros de longa data e muitas vezes eu não dava muita atenção ao senhor.
 
Lembra quando eu era criança e corria pra lá e pra cá, tentando aproveitar ao máximo o Tempo que eu tinha pra brincar? Pois então, sempre achei que o Tempo estivesse esgotando. E no final eu só ficava cansada  mesmo achando que não poderia perder Tempo.
 
Meu pai, pobre pai, morreu dizendo que não tinha Tempo para frescuras e teve pouco Tempo aqui na Terra.
 
Quando eu me entristecia, minha mãe dizia: Dá um Tempo ao Tempo ou: O Tempo resolve tudo. Eu ficava mais brava ainda.
Quando chovia demais, a gente falava mal do senhor, mesmo o senhor não ter culpa de nada:
- Que tempo porcaria!
 
Não era o senhor que a gente estava referindo era o outro tempo que nada tem a ver com o senhor.
 
Quando eu era adolescente queria logo ser adulta, torcia para que o Tempo passasse logo.
 
Quando aparecia algum pretendente eu dizia que não tinha Tempo pra namorar. Tudo mentira, pois eu namorava todos ao mesmo Tempo.
 
Tornei-me uma mulher bonita.
 
Parece que na época, o senhor fez bem pra mim. Casei e tive uma linda filha. Aquela criaturinha mudou a minha vida, Foi um Tempo bom. E faz tanto Tempo que eu já não me lembro de tanta coisa. Por causa deste tal de “Auzai...” Sei lá.
Mas não era isto que eu queria falar, senhor Tempo. Queria agradecer pela companhia e reclamar também do preço caro que o senhor nos cobra por isso. O senhor não envelhece nunca! Quando me lembro do passado, o senhor já era celebridade, pois todos diziam que o Tempo era precioso.
 
Hoje, posso até ter “Auzai...”, mas estou valorizando mais o Senhor, pois sei que logo, logo  estará nos deixando.
Junto com o senhor percebi que a viagem no Tempo é possível.
 
Já voltei ao passado diversas vezes e extrai alguma coisa boa, e foram muitas. E, também mudei algumas coisas, que achei que estavam malfeitas. 
 
Depois disto fiquei mais tranquila.
 
Aqui, o senhor é a vedete:
Preenchemos o Tempo; passamos o Tempo; aproveitamos o Tempo; deixamos o Tempo passar; valorizamos cada pedaço de Tempo. O senhor deveria orgulhar-se de nós.
 
Ah! Agora lembrei!
 
Eu queria pedir encarecidamente para o Senhor o seguinte:
Como eu tenho bastante Tempo, eu queria que o senhor tirasse um pouco de mim e desse para a minha filha, pois ela disse que não tem Tempo pra visitar-me aqui no Asilo.
 
Era só isso.
 
Por favor!
 
E este tal de “Auzai...” esquece, não deve ser coisa boa mesmo.
 
Agradeço ao tempo pelos vincos que me proporcionou ao longo das nossas existências, a minha e a dele. Diferente de tudo que pensamos o tempo não é só um conceito, é também um concerto e um conserto.
 
É nos acordes do passar das horas, dos dias e dos anos, nós vamos consertando e estragando tudo ao nosso bel prazer. Ele também faz as deles. Vai produzindo e registrando em nossas faces o relatório da vida. Cada sulco uma história, ou várias.
São felicidades, tristezas, desilusões, frustrações, alegrias, teimosias, grandes sorrisos, boas gargalhadas, belos choros, grandes gritos e cantorias. Tudo isto entalhado cuidadosamente sobre a face belamente envelhecida como rios sulcados no chão da nossa jornada. 
 
É o inequívoco retrato do tempo e dele sempre haverá orgulho. Cada ruga foi um riacho navegado pelas dúvidas e incertezas. Sempre nasce no sopé dos olhos que vislumbra a paisagem da vivência e escorre face abaixo abrindo caminho na derme para tristeza de poucos e alegria de muitos. Felizes daqueles jovens de faces angelicais de pintura renascentista que ousarem ter uma face vincada pelo tempo. Entenderão do que se trata. 

 

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