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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

ZUENIR VENTURA
publicado em: 21/11/2018 por: Lou Micaldas

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BOLSONARO E A PEC 77

Presidente parecia não viver num país onde metade da população recebe menos que o mínimo

Falou-se até em crise social. A situação era de fato preocupante. Refiro-me às consequências do choque entre Bolsonaro e o Programa Mais Médicos (PMM), que provocou a iminente saída de 8.332 cubanos de um total de 16.150. Segundo o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde, das 3.228 cidades atendidas exclusivamente pelo PMM, 611 poderiam ficar sem alguma cobertura da rede pública após o desligamento dos profissionais da Ilha. O presidente eleito continuava dizendo que a decisão de impor novas exigências aos contratados não tinha motivação ideológica, mas “razões humanitárias”, para protegê-los do que considera “trabalho escravo”. Manifestava-se tão indignado com a exploração da ditadura dos Castro que parecia não viver num país onde metade da população recebe menos que o salário mínimo. Também não se mostrava sensibilizado com a sorte dos 28 milhões de brasileiros ameaçados de não ter mais assistência médica.

Mas antes que o governo Temer lançasse um edital para preencher as vagas de médicos cubanos, o que foi feito ontem, e quando todos perguntavam como evitar um apagão no sistema de saúde pública, o prefeito Marcelo Crivella assinava na “Folha de S.Paulo” um artigo em que garantia: “Solução já existe”. Era a PEC 77, de sua autoria, chamada de “Muito Mais Médicos”. O artigo revelava que a emenda constitucional permitiria “a profissionais de saúde das Forças Armadas, bombeiros e policiais militares, além de enfermeiros, veterinários, radiologistas, fisioterapeutas e militares aposentados ou da reserva acumular outro cargo público na saúde na esfera municipal, estadual ou federal”. Faltava o principal: “um dia, o então deputado Jair Bolsonaro procurou-me e expôs essa ideia inédita que, (...) por ser simples, era transformadora”.

Quando recentemente foi perguntado sobre a crise, Bolsonaro não pareceu preocupado: “no primeiro dia de governo”, respondeu, “vamos apresentar uma solução para a saída dos médicos cubanos”. E mais não disse. Será a PEC 77 a solução?

RUÍDO NUM DIA DE PAZ

A entrevista dos dois ao JN fez crer que o 2° turno começava em clima de paz. Ambos garantiam respeito à democracia

Já que o segundo turno é outra eleição, como se cansam de dizer os analistas, é inevitável que os dois finalistas ajustem suas estratégias e mexam com suas imagens.

Alguns sinais de mudança já vinham sendo percebidos para essa nova etapa como, por exemplo, um movimento dos extremos em direção ao centro e à pacificação, feito com cuidado.

“Eu não posso virar o ‘Jairzinho paz e amor’ e me violentar”, disse Bolsonaro, advertindo que tem que “continuar a mesma pessoa”. Ou seja, não pode abandonar bruscamente a figura que o consagrou. “Lógico que a gente usa sinônimos e de vez em quando falava palavrões. Eu não falo mais”, prometeu.

Outro sinal dessa inflexão era a atitude de quem antes propunha “metralhar a petralhada” e agora diz do ex-presidente: “Tinha tudo para ser um grande presidente, um homem que ia deixar marca na História, mas resolveu enveredar por outro caminho. Eu lamento o Lula estar nessa situação, preso, mas ele está colhendo o que plantou.”

Pouco depois, vi a entrevista dos dois ao Jornal Nacional, fazendo crer que tudo começava em clima de paz. Ambos se respeitavam e garantiam respeito à Constituição de 1988 e à democracia. E mais: desautorizavam os excessos de aliados — Bolsonaro discordando de seu vice sobre a proposta do autogolpe (“ele deu uma canelada”), e Haddad rechaçando José Dirceu. “O ex-ministro não participa da minha campanha, não participará de meu governo (...) A democracia está em primeiro lugar.”

Por isso, soou estranho quando li a seguinte postagem no Twitter do deputado: “O pau-mandado de corrupto me propôs assinar ‘carta de compromisso contra mentiras na internet’. O mesmo que está inventando que vou aumentar Imposto de Renda pra pobre. É um canalha! Desde o início, propomos isenção a quem ganha até R$ 5.000. O PT quer roubar até essa proposta.”

É pena que os dois, que estavam ensinando como divergir, não tenham evitado que o dia terminasse com um ruído tão desagradável. Não vale repassar seja o mérito, seja a culpa. Cabem aos dois.

CRIME E CASTIGO

Os brasileiros que proporcionaram aquele vexame na Rússia procuram passar a imagem de que são o protótipo de pessoas normais. A questão é que normal é quem segue a norma

Com quem você acha que o brasileiro realmente se identifica — com aqueles torcedores machistas e cafajestes que assediaram e humilharam uma jovem russa que, sem entender português, foi levada a repetir termos chulos e ofensivos, como se tratasse de uma inocente brincadeira, ou com os que, em número muito maior, se indignaram com o revoltante comportamento?

O vergonhoso episódio abre um debate sobre identidade nacional. Qual seria o caráter do brasileiro? Não é fácil estabelecer nosso traço característico. Importantes ensaístas e ficcionistas já tentaram em geniais sínteses: o historiador Sérgio Buarque de Holanda criou o “Homem cordial”, o romancista Mário de Andrade inventou “Macunaíma, o herói sem caráter”, Nelson Rodrigues descobriu o “complexo de vira-lata”, como marca de um povo que vive se depreciando.

No caso aqui tratado, até que ponto se pode generalizar a conduta de um pequeno grupo? A tentativa de atribuir o desprezível comportamento na Copa da Rússia a causas históricas e culturais está sendo usada pelos acusados como atenuante e justificativa. Se eles representam a nossa sociedade, então a culpa seria de uma cultura da qual somos herdeiros. Portanto, em situação idêntica, agiríamos do mesmo modo: “o brasileiro no estrangeiro é assim, basta beber um pouco”. Na verdade, mais do que uma simples desculpa, é também um álibi.

O advogado de um dos envolvidos, o tenente da PM, por exemplo, alegou que o ato praticado por seu cliente “não condiz com a personalidade dele”. Condiz, sim; não condiz provavelmente é com a personalidade dos demais tenentes da PM. O mesmo se pode dizer dos outros, como o ex-secretário de Saúde e de Educação do Piauí que pediu desculpas “a todas as mulheres” e apresentou a seguinte alegação: “todos nós somos seres humanos e erramos”. É a gasta desculpa de que “errar é humano”, como se acertar não fosse.

Os brasileiros que proporcionaram aquele vexaminoso espetáculo na Rússia estão procurando passar a imagem de que são o protótipo de pessoas normais, “chefes de família”, como alegou um deles. A questão é que normal é quem segue a norma, quando eles preferiram o desvio.

O melhor antídoto contra os que seguem esse caminho ainda é a educação, mas, na falta desta, não há outro remédio que não seja a punição. É o que decidiu o Ministério Público Federal, ao considerar que não foi uma “brincadeira” o que eles cometeram, mas um “crime de injúria contra a mulher".

PARECE QUE FOI HOJE

O que faz com que tantos jovens se interessem hoje por um tempo que eles não viveram? Será que, meio século depois, 1968 ainda tem o que dizer a eles? Dá para confiar numa geração que dizia não confiar em ninguém com mais de 30 anos? Que balanço se pode fazer de um tempo tão carregado de sonhos e de ambições?

Não tem sido fácil responder a essas questões em palestras que venho fazendo em várias cidades para um público cuja média de idade é de cerca de 20 anos. Na hora da indefectível pergunta — “1968 terminou ou não terminou?” — eu respondo que a única certeza é de que vou terminar antes.

Curiosamente, essa nostalgia do não vivido não tem o cheiro de homenagem póstuma, não é a comemoração previsível de uma efeméride; parece mais tentativa de renascimento. Nessa viagem virtual ao passado há um fascínio pelos filmes, músicas, comportamento, mentalidade, personagens, feitos e às vezes até defeitos da época.

O sociólogo francês Edgar Morin classificou então aquele momento como um “êxtase da História” e previu que seriam precisos anos e mais anos para se entender o que aconteceu. Pelo visto, 50 anos não são suficientes. Por ocasião dos 40, em 2008, numa pesquisa de campo para detectar diferenças e semelhanças entre aquela geração e a de 2000 ou do “ecstasy”, cheguei a viver duas experiências radicais: uma rave e uma batida policial.

Na festa no Riocentro, com cerca de 20 mil pessoas e que terminou às 7h da manhã, aprendi que o individualismo das tribos contemporâneas é tanto que uma dupla insólita como a nossa — um senhor de idade avançada e uma garota que podia ser minha neta — passava despercebida. (Só um engraçadinho fez piada: “parabéns, coroa”).

Me ensinaram também que o pirulito na boca de quase todos não era modismo, como acreditei, mas um recurso para não trincar os dentes, efeito causado pelo ecstasy. E os óculos escuros? Essa eu sabia. Como a droga dilata as pupilas, os olhos ficam muito sensíveis à luz. No mais, o colorido das roupas, dos rostos e dos cabelos, as brincadeiras ingênuas lembravam uma festa hippie.

A outra experiência consistiu em participar de uma batida para prender traficantes de drogas sintéticas — uma operação “enxuga gelo” da inútil “guerra contra as drogas” inventada por Richard Nixon.

Quando, de madrugada, me vi ao lado de policiais a caminho do “nosso” objetivo, aliás, alcançado, me lembrei de uma cena de 1968, quando fui levado por policiais não para prender, mas para ser preso como subversivo.
Sinais dos tempos.

PRA TUDO COMEÇAR NA QUARTA-FEIRA

Se 2018 só tivesse o ‘caso Lula’ como desfecho indefinido, já daria dor de cabeça suficiente. Mas há outras incógnitas. O que vai acontecer com a reforma da Previdência?

Segundo a nossa tradição carnavalesca, o ano só começa nesta Quarta-Feira de Cinzas e, segundo a astrologia, ele será regido por Júpiter, o que soa até como uma boa notícia, pois o planeta é o senhor da abundância e do crescimento, enquanto 2017 foi dominado por Saturno, senhor da paciência e das restrições.

Mas não sei se Júpiter, com todo o otimismo que o cerca, vai dar conta das questões pendentes. São tantos problemas herdados que 2018 já é conhecido como “o ano das incertezas”, principalmente na política, cujo evento mais importante, as eleições, ainda não sabe quais serão os candidatos à Presidência. Nem sobre o mais bem colocado em todas as pesquisas hoje se tem certeza de que participará da disputa. “O que será de Lula?” É a pergunta que mais se faz. Há várias hipóteses, inclusive a de que será enquadrado na Lei da Ficha Limpa, que ele próprio sancionou em 2010. Neste caso, muito provável, veremos repetir como paródia, evidentemente, a lenda de que a guilhotina não teria poupado seu inventor, guilhotinando-o.

Mas a equipe de advogados do ex-presidente não desiste de reverter o jogo, principalmente depois que contratou no segundo tempo um reforço de ninguém menos que Sepúlveda Pertence.

Por meio de incessantes recursos em todas as instâncias, além de pedidos de liminares e habeas corpus, a defesa pretende percorrer todos os caminhos, diretos ou tortuosos, do nosso nem sempre previsível Judiciário, e questionar decisões e atos que supostamente teriam violado dispositivos constitucionais. A meta imediata é evitar a eventual prisão de Lula, que, com sua habitual modéstia (“ninguém na história deste país” é mais honesto do que ele), já disse que a nação está diante do seguinte impasse: preso, vira um mártir; solto, será presidente.

Se 2018 só tivesse o “caso Lula” como desfecho indefinido, já daria dor de cabeça suficiente. Mas existem outras preocupantes incógnitas. O que vai acontecer com a reforma da Previdência, por exemplo? Será que o governo conseguirá comprar todos os votos de que precisa para aprovar o projeto, que, com tantas mexidas e deformações, tem tudo para vir a ser um Frankenstein?

Há ainda as incertezas no campo da economia, da segurança, da cultura, da Lava-jato e até no futebol neste ano de Copa do Mundo. Para pôr fim à dúvida de um leitor: quantos presos Gilmar Mendes vai soltar este ano? Como sou um profeta do passado, só sei quantos ele já soltou em 2017: mais de 20, sendo que o empresário Jacob Barata Filho, o rei dos ônibus, recebeu o benefício três vezes. O ano promete.

Tomara que a gente não venha a sentir saudades de 2017.

O MEIO-TERMO SEM VEZ

Segundo o filósofo grego, no centro está a virtude, representada pelo equilíbrio, a equidistância e a sensatez. Nada a ver com a posição encarnada por um PSDB sem rumo

A julgar pelo último Datafolha, se as eleições fossem hoje, o Brasil teria que decidir entre dois extremos — um à esquerda, com Lula, e outro à direita, com Bolsonaro.

Eles disputariam o segundo turno da corrida presidencial de 2018, com vantagem para o petista.

Não haveria lugar para candidatos de centro.

Aliás, não seria preciso pesquisa de instituto para constatar a polarização que domina a nossa política; bastaria tomar conhecimento do que se passa nas redes sociais, onde a doutrina do meio-termo de Aristóteles, recomendada por ele como ideal para a vida em sociedade, não tem vez nem voz. Ao contrário, está mais para a “era dos extremos”, de Eric Hobsbawm.

Apenas alguns exemplos do que dizem internautas sobre a base ética do sistema aristotélico: “Odeio o meio-termo”. “Me ame ou me odeie. Não me venha com meio-termo”. “Insista ou desista.” “O amor e o ódio andam lado a lado. Ou você ama ou você odeia. Não existe meio-termo quando se trata de sentimento”.

De acordo com o antigo filósofo grego, é no centro que reside a virtude, representada pelo equilíbrio, a equidistância e a sensatez.

Nada a ver, bem entendido, com a posição encarnada por um PSDB sem rumo e líderes efetivos, dividido por disputas internas, sem saber se sai ou se fica, vivendo de hesitações, incertezas, dúvidas e inação. Perdida a capacidade de formulação, de pensar e influenciar o país, o partido não conseguiu contribuir para neutralizar a marcha em direção aos extremos.

O problema é que, se confirmadas as previsões e mantido esse clima de radicalismo, o país continuará dividido depois das eleições: nós contra eles e vice-versa, e os dois lados reivindicando para si a posse exclusiva da razão.

Lendo o resultado de um monitoramento de vários tipos de manifestações de intolerância nas redes sociais, chega-se à assustadora conclusão de que elas são majoritárias.

Mas a internet, embora seja o território preferencial desse baixo nível de debates, não é o único.

O próprio Congresso já foi palco, por exemplo, da homenagem a um torturador da ditadura militar feita por um deputado, o mesmo que declarou também da tribuna que não estupraria uma colega porque ela não merecia por ser “muito feia”. Ele foi condenado a pagar uma indenização de R$ 10 mil à vítima, mostrando como custa barato uma ofensa como essa desde que praticada por um parlamentar que, apesar de tudo, ainda é o preferido de muita gente.

Convenhamos que não é mesmo terra para Aristóteles.

MAIS PASTOR QUE PREFEITO

Vejam a presteza com que Crivella vetou a ‘Queermuseu’, no Museu de Arte do Rio, e comparem com a demora em se manifestar sobre a guerra da Rocinha

Um dos problemas do Rio é que não adianta se queixar ao bispo. Como queixar-se dele a ele mesmo, que cada vez mais se apropria de atribuições que são do prefeito. E prefeito de uma cidade que é laboratório de diversidade religiosa, onde convivem doutrinas e confissões variadas, e que tem, como padroeiro, São Sebastião e adeptos de quase todas as denominações: católicos, evangélicos tradicionais, pentecostais, neopentecostais e devoções de matriz africana. Graças a Deus, não tenho crença, sou a favor de todas; só sou contra a intolerância do tipo que chuta imagens de santa e ataca centros espíritas e terreiros de umbanda e candomblé — como, aliás, fizeram membros da igreja da qual o nosso bispo está licenciado. Vejam a presteza com que Crivella vetou a “Queermuseu”, no Museu de Arte do Rio, e comparem com a demora em se manifestar sobre a guerra da Rocinha. No caso da exposição, ele a censurou — alegando que era vontade do povo — antes mesmo de acontecer (“se vier para o MAR, vai ser para o fundo do mar”, disse, num trocadilho que não deixava dúvidas quanto ao destino que ele gostaria de dar à mostra). Desse modo, o pastor conseguiu trazer de volta a censura prévia, que tanto mal fez à arte brasileira durante a ditadura militar.

No segundo caso, o prefeito levou uma semana para se dar conta de um conflito armado que abalou a cidade e sensibilizou autoridades federais e estaduais. Só deu o ar de sua graça depois de muita cobrança da imprensa. Assim mesmo, para produzir uma frase que soava como deboche em meio ao tiroteio: “Vamos aproveitar para dar um banho de loja na Rocinha”. Na visita que fez à comunidade para compensar a sua omissão, ouviu muitos gritos de “sumido” e a lição de uma moradora, que reclamou: “A gente precisa é de saúde e educação”.

Além de não saber quais eram as necessidades básicas de uma das maiores favelas da cidade, o prefeito também viu desmentida a afirmação de que não era ele, mas o “povo” que não queria a exposição aqui. Em vez de apoio popular à proibição, o que se está vendo é a mobilização de artistas em uma campanha de arrecadação de fundos para instalar a exposição em outro espaço. A Escola de Artes Visuais do Parque Laje, que já recebeu nomes da importância de Beatriz Milhazes, Adriana Varejão e Ernesto Neto, quer expor a “Queermuseu”. Seu diretor, Fábio Szwarcwald, já entrou em contato com o secretário estadual de Cultura, André Lazaroni, para juntos buscarem parceiros privados que possam ajudar nos custos logísticos de instalação e seguro.

Como a EAV é uma instituição do estado, a mostra estaria livre da censura de Crivella como pastor e como prefeito.

 
Temer é um dos presidentes mais rejeitados da História e, investigado por organização criminosa e obstrução à Justiça, está a caminho de melancólico fim de governo
Os dias eram assim quando Itamar Franco assumiu o governo após o impeachment de Collor em 1992: desemprego, inflação, recessão, descrença, baixa autoestima. Parecia hoje. Por isso, muita gente achava que Michel Temer seria o novo Itamar, aquele que ninguém dava nada por ele e que implantou o mais bem-sucedido plano econômico da Nova República.
O “presidente do Real” saiu com tanta popularidade do governo que ajudou a eleger Fernando Henrique Cardoso, seu ex-ministro.
Com o sucessor de Dilma esperava-se que acontecesse o mesmo. Até que acertou na escolha da equipe econômica, que tomou medidas efetivas na tentativa do reequilíbrio das contas públicas, mas na área política, em seis meses, perdeu seis ministros abatidos por denúncias em delações premiadas.
Hoje, ele é um dos presidentes mais rejeitados da História e, investigado por corrupção, organização criminosa e obstrução à Justiça, está a caminho de um melancólico fim de governo. Entre as razões está também o apego ao poder, que o fez mandar às favas escrúpulos ao optar pela permanência no cargo a qualquer custo.
“Não renunciarei, repito, não renunciarei”, garantiu em um pronunciamento depois da visita clandestina no Jaburu do polêmico empresário Joesley Batista, que gravou escondido a comprometedora conversa entre os dois.
A partir da revelação desse escândalo, o presidente passou a desenvolver intenso movimento para evitar a queda: conspira com aliados, promove troca-troca de ministros, tenta adiar o julgamento de sua chapa com Dilma no TSE, procura atrair indecisos oferecendo vantagens, enfim, utiliza vários expedientes, nem sempre legítimos, para dizer ao povo que fica.
O mais recente foi a transferência para a Justiça de Torquato Jardim, tido mais como um advogado de defesa do que como ministro.
Crítico declarado da Lava-Jato, sua nomeação preocupa as entidades de classe, que temem interferência política na PF com o propósito de dificultar o trabalho de combate à corrupção, em especial o da operação comandada pelo juiz Sergio Moro.
Como se sabe, desde que passou a ser alvo de investigações, Temer não esconde sua insatisfação com a PF, acusada por ele de praticar excessos que precisam ser corrigidos.
Por enquanto, o presidente está tendo um refresco das ruas, mais ocupadas com as “diretas já” do que com o “Fora Temer” — pelo menos até se darem conta de que as possibilidades de realização daquelas são remotas e de que a saída para a crise seria a “saída já” de quem insiste na indevida permanência.
 

Saída (Foto: Pixabay)

 
Neste Sábado de Aleluia, não faltam candidatos a Judas, o pioneiro, o que se corrompeu e traiu por dinheiro. Os do Rio foram incrivelmente impiedosos e perversos
Não me lembro de um Sábado de Aleluia como o de hoje, com tantos candidatos de uma só vez a Judas, o pioneiro, o que se corrompeu e traiu por dinheiro e, como punição, passou a ser linchado e queimado até a morte.

É uma tradição considerada politicamente incorreta, mas que persiste em várias cidades do mundo, usando um boneco para representar personagens atuais na desforra simbólica.

Este ano, um juiz do Supremo Tribunal Federal propôs o variado elenco de uma centena de nomes sujeitos a investigação por corrupção, lavagem de dinheiro ou caixa 2, todos com chances, alguns mais outros menos, de disputar o papel do vilão bíblico. São oito ministros, 12 governadores, 24 senadores, 39 deputados e nada menos que cinco ex-presidentes da República.

A “lista de Fachin” acabou abafando a contribuição do Rio de Janeiro, que teve mais um escândalo envolvendo o ex-governador Sérgio Cabral e, como novidade, o seu ex-secretario de Saúde Sérgio Cortes. São dois fortes candidatos cuja inclusão poderia ser reivindicada por algum cínico com o argumento de que eles são únicos. Por exemplo, usar caixa dois, quem não usou? Superfaturar obras públicas e embolsar a diferença? é de praxe.

Desviar grana da merenda escolar é muito grave, mas nenhuma criança, ao que se saiba, morreu por isso.

Já os “nossos” Judas foram incrivelmente impiedosos, perversos, porque suas ações criminosas tiveram como consequência o sofrimento e até a morte das vítimas por falta de atendimento.

Segundo investigações do Ministério Público, o esquema de corrupção na secretaria estadual de Saúde desviou R$ 300 milhões nas compras de próteses, medicamentos e equipamentos médicos, assim divididos: Cabral ficava com 5% do valor dos contratos celebrados (algo como R$ 16,4 milhões) e 2% iam para Cortes (um email revela que ele recebeu U$ 3,9 milhões em propina como “presente de Natal”).

Uma das gravações que ajudaram a prendê-lo mostra o diálogo em que tenta combinar com o delator, seu ex-subsecretário, uma versão comum, que é rechaçada com desprezo: “Meu filho, não tem como. Você acha que os procuradores vão achar que você fez o que fez na Secretaria e não fez nada no Into? Você não pode ser infantil, Sérgio”.

Estranha essa dupla personalidade ao mesmo tempo “infantil” e maquiavélica, pois foi capaz de forjar a imagem de gestor eficiente, imagina, justamente por economizar dinheiro público e por combater a corrupção quando diretor do Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia, o Into.
 
SERÁ QUE SOBRA ALGUÉM?

Os adeptos mais radicais da teoria conspiratória chegavam a insinuar que o juiz de Curitiba fora escolhido a dedo para incriminar Lula e impedir sua pretendida volta
 
Os que torcem ou agem contra a Lava-Jato, aberta ou sub-repticiamente, vão ter que usar como pretexto não mais aquele que atribui ao juiz Sérgio Moro uma suposta parcialidade que o faria descobrir corruptos apenas nos arraiais petistas. “Onde estão os tucanos?”. Li e ouvi muito essa cobrança. “Só os petistas receberam dinheiro ilícito?”.
 
Não adiantava argumentar que as investigações não estavam concluídas e que era melhor aguardar, por exemplo, as delações dos 77 executivos (e ex) da Odebrecht.
 
Os adeptos mais radicais da teoria conspiratória chegavam a insinuar que o juiz de Curitiba fora escolhido a dedo para incriminar Lula e impedir sua pretendida volta. Não levavam em consideração o fato de que as decisões de Moro, em sua esmagadora maioria, tinham sido mantidas pelas cortes superiores.
 
A resposta à recorrente pergunta veio de onde se esperava — dos cerca de 900 depoimentos oferecidos em forma de um prato farto e variado ao procurador-geral Rodrigo Janot para as devidas providências. Há de tudo e de todos, inclusive tucanos.
 
Da lista que chegou a Janot, constam ministros do presidente Temer (Eliseu Padilha e Moreira Franco), os suspeitos de sempre (Romero Jucá, Renan Calheiros, Eunício Oliveira, Edison Lobão) e, representando a tão aguardada presença do PSDB, os também senadores Aécio Neves e José Serra. O primeiro é acusado de estar ligado a um esquema de propina e o segundo, de ter recebido R$ 23 milhões de caixa dois na disputa de 2010.
 
Ao TSE, Marcelo Odebrecht revelou ter repassado R$ 15 milhões à campanha de Aécio, que, segundo outro delator da empreiteira, teria pedido e conseguido mais R$ 9 milhões para o PSDB.
 
Impressionado com as revelações que estão surgindo da Lava-Jato e das investigações no TSE da chapa Dilma-Temer, o ministro do STF e presidente do TSE, Gilmar Mendes, propõe uma reforma do sistema político-partidário já para o próximo pleito.
 
Conhecendo o volume e o valor dos recursos desviados, ele calcula que o dinheiro ilegal injetado na eleição de 2014 pode ter superado as doações legais. “Talvez o caixa dois tenha sido mais forte do que o caixa um”.
De fato, quando se imagina o que a Lava-Jato ainda nos reserva, a pergunta é inevitável, mesmo que exagerada: será que vai sobrar alguém em pé?
 
 
 
A calada da noite é hora propícia para uma boa trapaça. Parece que houve quem sentisse saudade de Eduardo Cunha
A comparação é inevitável. Na Colômbia, além da comovente homenagem que milhares de torcedores prestaram às vítimas do acidente aéreo, o clube Atlético Nacional de Medellín, em gesto raro, senão inédito, solicitou oficialmente que se desse o título de campeão da Copa Sul-Americana à Chapecoense. A generosa proposta, aprovada por unanimidade pelos jogadores, pelos membros da comissão técnica e pela diretoria, emocionou até o ministro das Relações Exteriores, José Serra, que chorou ao agradecer em discurso a solidariedade dos colombianos.
 
No Brasil, entretanto, a Câmara dos Deputados aproveitou a comoção geral causada pela tragédia para uma manobra política sórdida, em que aproveitou um pacote anticorrupção para desfigurá-lo com o contrabando de emendas que o transformaram numa peça cuja intenção principal seria punir policiais, juízes e membros do Ministério Público, isto é, os que combatem a corrupção. E tudo com a cumplicidade do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, na calada da noite, que é hora propícia para uma boa trapaça. Parece que houve quem sentisse saudade de Eduardo Cunha.
 
Mutilado, o projeto chegou ao Senado, onde foi defendido por uma combinação inusitada de Renan, Gilmar Mendes e Lindbergh Farias, três estilos diferentes, mas com um alvo comum, o juiz Sérgio Moro, ali presente. Sereno diante dos ataques, sobretudo os do irascível senador petista, ele ironizou, perguntando se a intenção não era puni-lo. Quanto a Renan e Mendes, para quem estranhou a afinidade de posições, Merval Pereira deu a explicação. O juiz foi um dos três únicos do STF (os outros foram Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski) a “livrar o presidente do Senado de todos os crimes de que era acusado: peculato, falsidade ideológica, e uso de documento falso”. Renan virou réu por “apenas” receber dinheiro de uma construtora para pagar pensão de uma filha que teve com uma ex-namorada, num dos 12 processos a que responde ali, oito dos quais na Lava-Jato.
 
Por um acaso, enquanto se tentava no Senado incriminar Moro como tendo cometido abuso de autoridade, chegava aos jornais um anúncio de duas páginas com o seguinte título: “Desculpe, a Odebrecht errou”. Era a própria empreiteira reconhecendo o seu envolvimento em esquemas de corrupção, como o da Petrobras. Ela se comprometia também a pagar multa de R$ 6,8 bilhões e a citar cerca de 200 políticos (que, na verdade, é o que tira o sono de Brasília).
Será que isso seria possível se não existisse a Operação Lava-Jato?

Autor(a): Zuenir Ventura é jornalista
Fonte: Jornal O Globo
Colaborador(a): Mara Aguiar

 

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