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LITERATURA / AUTORES CÉLEBRES

ZUENIR VENTURA
publicado em: 05/12/2016 por: Lou Micaldas

 
Temer é um dos presidentes mais rejeitados da História e, investigado por organização criminosa e obstrução à Justiça, está a caminho de melancólico fim de governo
Os dias eram assim quando Itamar Franco assumiu o governo após o impeachment de Collor em 1992: desemprego, inflação, recessão, descrença, baixa autoestima. Parecia hoje. Por isso, muita gente achava que Michel Temer seria o novo Itamar, aquele que ninguém dava nada por ele e que implantou o mais bem-sucedido plano econômico da Nova República.
O “presidente do Real” saiu com tanta popularidade do governo que ajudou a eleger Fernando Henrique Cardoso, seu ex-ministro.
Com o sucessor de Dilma esperava-se que acontecesse o mesmo. Até que acertou na escolha da equipe econômica, que tomou medidas efetivas na tentativa do reequilíbrio das contas públicas, mas na área política, em seis meses, perdeu seis ministros abatidos por denúncias em delações premiadas.
Hoje, ele é um dos presidentes mais rejeitados da História e, investigado por corrupção, organização criminosa e obstrução à Justiça, está a caminho de um melancólico fim de governo. Entre as razões está também o apego ao poder, que o fez mandar às favas escrúpulos ao optar pela permanência no cargo a qualquer custo.
“Não renunciarei, repito, não renunciarei”, garantiu em um pronunciamento depois da visita clandestina no Jaburu do polêmico empresário Joesley Batista, que gravou escondido a comprometedora conversa entre os dois.
A partir da revelação desse escândalo, o presidente passou a desenvolver intenso movimento para evitar a queda: conspira com aliados, promove troca-troca de ministros, tenta adiar o julgamento de sua chapa com Dilma no TSE, procura atrair indecisos oferecendo vantagens, enfim, utiliza vários expedientes, nem sempre legítimos, para dizer ao povo que fica.
O mais recente foi a transferência para a Justiça de Torquato Jardim, tido mais como um advogado de defesa do que como ministro.
Crítico declarado da Lava-Jato, sua nomeação preocupa as entidades de classe, que temem interferência política na PF com o propósito de dificultar o trabalho de combate à corrupção, em especial o da operação comandada pelo juiz Sergio Moro.
Como se sabe, desde que passou a ser alvo de investigações, Temer não esconde sua insatisfação com a PF, acusada por ele de praticar excessos que precisam ser corrigidos.
Por enquanto, o presidente está tendo um refresco das ruas, mais ocupadas com as “diretas já” do que com o “Fora Temer” — pelo menos até se darem conta de que as possibilidades de realização daquelas são remotas e de que a saída para a crise seria a “saída já” de quem insiste na indevida permanência.
 

Saída (Foto: Pixabay)

 
Neste Sábado de Aleluia, não faltam candidatos a Judas, o pioneiro, o que se corrompeu e traiu por dinheiro. Os do Rio foram incrivelmente impiedosos e perversos
Não me lembro de um Sábado de Aleluia como o de hoje, com tantos candidatos de uma só vez a Judas, o pioneiro, o que se corrompeu e traiu por dinheiro e, como punição, passou a ser linchado e queimado até a morte.

É uma tradição considerada politicamente incorreta, mas que persiste em várias cidades do mundo, usando um boneco para representar personagens atuais na desforra simbólica.

Este ano, um juiz do Supremo Tribunal Federal propôs o variado elenco de uma centena de nomes sujeitos a investigação por corrupção, lavagem de dinheiro ou caixa 2, todos com chances, alguns mais outros menos, de disputar o papel do vilão bíblico. São oito ministros, 12 governadores, 24 senadores, 39 deputados e nada menos que cinco ex-presidentes da República.

A “lista de Fachin” acabou abafando a contribuição do Rio de Janeiro, que teve mais um escândalo envolvendo o ex-governador Sérgio Cabral e, como novidade, o seu ex-secretario de Saúde Sérgio Cortes. São dois fortes candidatos cuja inclusão poderia ser reivindicada por algum cínico com o argumento de que eles são únicos. Por exemplo, usar caixa dois, quem não usou? Superfaturar obras públicas e embolsar a diferença? é de praxe.

Desviar grana da merenda escolar é muito grave, mas nenhuma criança, ao que se saiba, morreu por isso.

Já os “nossos” Judas foram incrivelmente impiedosos, perversos, porque suas ações criminosas tiveram como consequência o sofrimento e até a morte das vítimas por falta de atendimento.

Segundo investigações do Ministério Público, o esquema de corrupção na secretaria estadual de Saúde desviou R$ 300 milhões nas compras de próteses, medicamentos e equipamentos médicos, assim divididos: Cabral ficava com 5% do valor dos contratos celebrados (algo como R$ 16,4 milhões) e 2% iam para Cortes (um email revela que ele recebeu U$ 3,9 milhões em propina como “presente de Natal”).

Uma das gravações que ajudaram a prendê-lo mostra o diálogo em que tenta combinar com o delator, seu ex-subsecretário, uma versão comum, que é rechaçada com desprezo: “Meu filho, não tem como. Você acha que os procuradores vão achar que você fez o que fez na Secretaria e não fez nada no Into? Você não pode ser infantil, Sérgio”.

Estranha essa dupla personalidade ao mesmo tempo “infantil” e maquiavélica, pois foi capaz de forjar a imagem de gestor eficiente, imagina, justamente por economizar dinheiro público e por combater a corrupção quando diretor do Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia, o Into.
 
SERÁ QUE SOBRA ALGUÉM?

Os adeptos mais radicais da teoria conspiratória chegavam a insinuar que o juiz de Curitiba fora escolhido a dedo para incriminar Lula e impedir sua pretendida volta
 
Os que torcem ou agem contra a Lava-Jato, aberta ou sub-repticiamente, vão ter que usar como pretexto não mais aquele que atribui ao juiz Sérgio Moro uma suposta parcialidade que o faria descobrir corruptos apenas nos arraiais petistas. “Onde estão os tucanos?”. Li e ouvi muito essa cobrança. “Só os petistas receberam dinheiro ilícito?”.
 
Não adiantava argumentar que as investigações não estavam concluídas e que era melhor aguardar, por exemplo, as delações dos 77 executivos (e ex) da Odebrecht.
 
Os adeptos mais radicais da teoria conspiratória chegavam a insinuar que o juiz de Curitiba fora escolhido a dedo para incriminar Lula e impedir sua pretendida volta. Não levavam em consideração o fato de que as decisões de Moro, em sua esmagadora maioria, tinham sido mantidas pelas cortes superiores.
 
A resposta à recorrente pergunta veio de onde se esperava — dos cerca de 900 depoimentos oferecidos em forma de um prato farto e variado ao procurador-geral Rodrigo Janot para as devidas providências. Há de tudo e de todos, inclusive tucanos.
 
Da lista que chegou a Janot, constam ministros do presidente Temer (Eliseu Padilha e Moreira Franco), os suspeitos de sempre (Romero Jucá, Renan Calheiros, Eunício Oliveira, Edison Lobão) e, representando a tão aguardada presença do PSDB, os também senadores Aécio Neves e José Serra. O primeiro é acusado de estar ligado a um esquema de propina e o segundo, de ter recebido R$ 23 milhões de caixa dois na disputa de 2010.
 
Ao TSE, Marcelo Odebrecht revelou ter repassado R$ 15 milhões à campanha de Aécio, que, segundo outro delator da empreiteira, teria pedido e conseguido mais R$ 9 milhões para o PSDB.
 
Impressionado com as revelações que estão surgindo da Lava-Jato e das investigações no TSE da chapa Dilma-Temer, o ministro do STF e presidente do TSE, Gilmar Mendes, propõe uma reforma do sistema político-partidário já para o próximo pleito.
 
Conhecendo o volume e o valor dos recursos desviados, ele calcula que o dinheiro ilegal injetado na eleição de 2014 pode ter superado as doações legais. “Talvez o caixa dois tenha sido mais forte do que o caixa um”.
De fato, quando se imagina o que a Lava-Jato ainda nos reserva, a pergunta é inevitável, mesmo que exagerada: será que vai sobrar alguém em pé?
 
 
 
A calada da noite é hora propícia para uma boa trapaça. Parece que houve quem sentisse saudade de Eduardo Cunha
A comparação é inevitável. Na Colômbia, além da comovente homenagem que milhares de torcedores prestaram às vítimas do acidente aéreo, o clube Atlético Nacional de Medellín, em gesto raro, senão inédito, solicitou oficialmente que se desse o título de campeão da Copa Sul-Americana à Chapecoense. A generosa proposta, aprovada por unanimidade pelos jogadores, pelos membros da comissão técnica e pela diretoria, emocionou até o ministro das Relações Exteriores, José Serra, que chorou ao agradecer em discurso a solidariedade dos colombianos.
 
No Brasil, entretanto, a Câmara dos Deputados aproveitou a comoção geral causada pela tragédia para uma manobra política sórdida, em que aproveitou um pacote anticorrupção para desfigurá-lo com o contrabando de emendas que o transformaram numa peça cuja intenção principal seria punir policiais, juízes e membros do Ministério Público, isto é, os que combatem a corrupção. E tudo com a cumplicidade do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, na calada da noite, que é hora propícia para uma boa trapaça. Parece que houve quem sentisse saudade de Eduardo Cunha.
 
Mutilado, o projeto chegou ao Senado, onde foi defendido por uma combinação inusitada de Renan, Gilmar Mendes e Lindbergh Farias, três estilos diferentes, mas com um alvo comum, o juiz Sérgio Moro, ali presente. Sereno diante dos ataques, sobretudo os do irascível senador petista, ele ironizou, perguntando se a intenção não era puni-lo. Quanto a Renan e Mendes, para quem estranhou a afinidade de posições, Merval Pereira deu a explicação. O juiz foi um dos três únicos do STF (os outros foram Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski) a “livrar o presidente do Senado de todos os crimes de que era acusado: peculato, falsidade ideológica, e uso de documento falso”. Renan virou réu por “apenas” receber dinheiro de uma construtora para pagar pensão de uma filha que teve com uma ex-namorada, num dos 12 processos a que responde ali, oito dos quais na Lava-Jato.
 
Por um acaso, enquanto se tentava no Senado incriminar Moro como tendo cometido abuso de autoridade, chegava aos jornais um anúncio de duas páginas com o seguinte título: “Desculpe, a Odebrecht errou”. Era a própria empreiteira reconhecendo o seu envolvimento em esquemas de corrupção, como o da Petrobras. Ela se comprometia também a pagar multa de R$ 6,8 bilhões e a citar cerca de 200 políticos (que, na verdade, é o que tira o sono de Brasília).
Será que isso seria possível se não existisse a Operação Lava-Jato?

Autor(a): Zuenir Ventura é jornalista
Fonte: Jornal O Globo

 

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