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LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

ZUENIR VENTURA
publicado em: 05/12/2016 por: Lou Micaldas

 
SERÁ QUE SOBRA ALGUÉM?

Os adeptos mais radicais da teoria conspiratória chegavam a insinuar que o juiz de Curitiba fora escolhido a dedo para incriminar Lula e impedir sua pretendida volta
 
Os que torcem ou agem contra a Lava-Jato, aberta ou sub-repticiamente, vão ter que usar como pretexto não mais aquele que atribui ao juiz Sérgio Moro uma suposta parcialidade que o faria descobrir corruptos apenas nos arraiais petistas. “Onde estão os tucanos?”. Li e ouvi muito essa cobrança. “Só os petistas receberam dinheiro ilícito?”.
 
Não adiantava argumentar que as investigações não estavam concluídas e que era melhor aguardar, por exemplo, as delações dos 77 executivos (e ex) da Odebrecht.
 
Os adeptos mais radicais da teoria conspiratória chegavam a insinuar que o juiz de Curitiba fora escolhido a dedo para incriminar Lula e impedir sua pretendida volta. Não levavam em consideração o fato de que as decisões de Moro, em sua esmagadora maioria, tinham sido mantidas pelas cortes superiores.
 
A resposta à recorrente pergunta veio de onde se esperava — dos cerca de 900 depoimentos oferecidos em forma de um prato farto e variado ao procurador-geral Rodrigo Janot para as devidas providências. Há de tudo e de todos, inclusive tucanos.
 
Da lista que chegou a Janot, constam ministros do presidente Temer (Eliseu Padilha e Moreira Franco), os suspeitos de sempre (Romero Jucá, Renan Calheiros, Eunício Oliveira, Edison Lobão) e, representando a tão aguardada presença do PSDB, os também senadores Aécio Neves e José Serra. O primeiro é acusado de estar ligado a um esquema de propina e o segundo, de ter recebido R$ 23 milhões de caixa dois na disputa de 2010.
 
Ao TSE, Marcelo Odebrecht revelou ter repassado R$ 15 milhões à campanha de Aécio, que, segundo outro delator da empreiteira, teria pedido e conseguido mais R$ 9 milhões para o PSDB.
 
Impressionado com as revelações que estão surgindo da Lava-Jato e das investigações no TSE da chapa Dilma-Temer, o ministro do STF e presidente do TSE, Gilmar Mendes, propõe uma reforma do sistema político-partidário já para o próximo pleito.
 
Conhecendo o volume e o valor dos recursos desviados, ele calcula que o dinheiro ilegal injetado na eleição de 2014 pode ter superado as doações legais. “Talvez o caixa dois tenha sido mais forte do que o caixa um”.
De fato, quando se imagina o que a Lava-Jato ainda nos reserva, a pergunta é inevitável, mesmo que exagerada: será que vai sobrar alguém em pé?
 
 
 
A calada da noite é hora propícia para uma boa trapaça. Parece que houve quem sentisse saudade de Eduardo Cunha
A comparação é inevitável. Na Colômbia, além da comovente homenagem que milhares de torcedores prestaram às vítimas do acidente aéreo, o clube Atlético Nacional de Medellín, em gesto raro, senão inédito, solicitou oficialmente que se desse o título de campeão da Copa Sul-Americana à Chapecoense. A generosa proposta, aprovada por unanimidade pelos jogadores, pelos membros da comissão técnica e pela diretoria, emocionou até o ministro das Relações Exteriores, José Serra, que chorou ao agradecer em discurso a solidariedade dos colombianos.
 
No Brasil, entretanto, a Câmara dos Deputados aproveitou a comoção geral causada pela tragédia para uma manobra política sórdida, em que aproveitou um pacote anticorrupção para desfigurá-lo com o contrabando de emendas que o transformaram numa peça cuja intenção principal seria punir policiais, juízes e membros do Ministério Público, isto é, os que combatem a corrupção. E tudo com a cumplicidade do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, na calada da noite, que é hora propícia para uma boa trapaça. Parece que houve quem sentisse saudade de Eduardo Cunha.
 
Mutilado, o projeto chegou ao Senado, onde foi defendido por uma combinação inusitada de Renan, Gilmar Mendes e Lindbergh Farias, três estilos diferentes, mas com um alvo comum, o juiz Sérgio Moro, ali presente. Sereno diante dos ataques, sobretudo os do irascível senador petista, ele ironizou, perguntando se a intenção não era puni-lo. Quanto a Renan e Mendes, para quem estranhou a afinidade de posições, Merval Pereira deu a explicação. O juiz foi um dos três únicos do STF (os outros foram Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski) a “livrar o presidente do Senado de todos os crimes de que era acusado: peculato, falsidade ideológica, e uso de documento falso”. Renan virou réu por “apenas” receber dinheiro de uma construtora para pagar pensão de uma filha que teve com uma ex-namorada, num dos 12 processos a que responde ali, oito dos quais na Lava-Jato.
 
Por um acaso, enquanto se tentava no Senado incriminar Moro como tendo cometido abuso de autoridade, chegava aos jornais um anúncio de duas páginas com o seguinte título: “Desculpe, a Odebrecht errou”. Era a própria empreiteira reconhecendo o seu envolvimento em esquemas de corrupção, como o da Petrobras. Ela se comprometia também a pagar multa de R$ 6,8 bilhões e a citar cerca de 200 políticos (que, na verdade, é o que tira o sono de Brasília).
Será que isso seria possível se não existisse a Operação Lava-Jato?

Autor(a): Zuenir Ventura
Fonte: Jornal O Globo

 

 

 

 

 

 


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