Logomarca Velhos Amigos
LITERATURA / AUTORES DIVERSOS

ZUENIR VENTURA
publicado em: 05/12/2016 por: Lou Micaldas

Neste Sábado de Aleluia, não faltam candidatos a Judas, o pioneiro, o que se corrompeu e traiu por dinheiro. Os do Rio foram incrivelmente impiedosos e perversos
Não me lembro de um Sábado de Aleluia como o de hoje, com tantos candidatos de uma só vez a Judas, o pioneiro, o que se corrompeu e traiu por dinheiro e, como punição, passou a ser linchado e queimado até a morte.

É uma tradição considerada politicamente incorreta, mas que persiste em várias cidades do mundo, usando um boneco para representar personagens atuais na desforra simbólica.

Este ano, um juiz do Supremo Tribunal Federal propôs o variado elenco de uma centena de nomes sujeitos a investigação por corrupção, lavagem de dinheiro ou caixa 2, todos com chances, alguns mais outros menos, de disputar o papel do vilão bíblico. São oito ministros, 12 governadores, 24 senadores, 39 deputados e nada menos que cinco ex-presidentes da República.

A “lista de Fachin” acabou abafando a contribuição do Rio de Janeiro, que teve mais um escândalo envolvendo o ex-governador Sérgio Cabral e, como novidade, o seu ex-secretario de Saúde Sérgio Cortes. São dois fortes candidatos cuja inclusão poderia ser reivindicada por algum cínico com o argumento de que eles são únicos. Por exemplo, usar caixa dois, quem não usou? Superfaturar obras públicas e embolsar a diferença? é de praxe.

Desviar grana da merenda escolar é muito grave, mas nenhuma criança, ao que se saiba, morreu por isso.

Já os “nossos” Judas foram incrivelmente impiedosos, perversos, porque suas ações criminosas tiveram como consequência o sofrimento e até a morte das vítimas por falta de atendimento.

Segundo investigações do Ministério Público, o esquema de corrupção na secretaria estadual de Saúde desviou R$ 300 milhões nas compras de próteses, medicamentos e equipamentos médicos, assim divididos: Cabral ficava com 5% do valor dos contratos celebrados (algo como R$ 16,4 milhões) e 2% iam para Cortes (um email revela que ele recebeu U$ 3,9 milhões em propina como “presente de Natal”).

Uma das gravações que ajudaram a prendê-lo mostra o diálogo em que tenta combinar com o delator, seu ex-subsecretário, uma versão comum, que é rechaçada com desprezo: “Meu filho, não tem como. Você acha que os procuradores vão achar que você fez o que fez na Secretaria e não fez nada no Into? Você não pode ser infantil, Sérgio”.

Estranha essa dupla personalidade ao mesmo tempo “infantil” e maquiavélica, pois foi capaz de forjar a imagem de gestor eficiente, imagina, justamente por economizar dinheiro público e por combater a corrupção quando diretor do Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia, o Into.
 
SERÁ QUE SOBRA ALGUÉM?

Os adeptos mais radicais da teoria conspiratória chegavam a insinuar que o juiz de Curitiba fora escolhido a dedo para incriminar Lula e impedir sua pretendida volta
 
Os que torcem ou agem contra a Lava-Jato, aberta ou sub-repticiamente, vão ter que usar como pretexto não mais aquele que atribui ao juiz Sérgio Moro uma suposta parcialidade que o faria descobrir corruptos apenas nos arraiais petistas. “Onde estão os tucanos?”. Li e ouvi muito essa cobrança. “Só os petistas receberam dinheiro ilícito?”.
 
Não adiantava argumentar que as investigações não estavam concluídas e que era melhor aguardar, por exemplo, as delações dos 77 executivos (e ex) da Odebrecht.
 
Os adeptos mais radicais da teoria conspiratória chegavam a insinuar que o juiz de Curitiba fora escolhido a dedo para incriminar Lula e impedir sua pretendida volta. Não levavam em consideração o fato de que as decisões de Moro, em sua esmagadora maioria, tinham sido mantidas pelas cortes superiores.
 
A resposta à recorrente pergunta veio de onde se esperava — dos cerca de 900 depoimentos oferecidos em forma de um prato farto e variado ao procurador-geral Rodrigo Janot para as devidas providências. Há de tudo e de todos, inclusive tucanos.
 
Da lista que chegou a Janot, constam ministros do presidente Temer (Eliseu Padilha e Moreira Franco), os suspeitos de sempre (Romero Jucá, Renan Calheiros, Eunício Oliveira, Edison Lobão) e, representando a tão aguardada presença do PSDB, os também senadores Aécio Neves e José Serra. O primeiro é acusado de estar ligado a um esquema de propina e o segundo, de ter recebido R$ 23 milhões de caixa dois na disputa de 2010.
 
Ao TSE, Marcelo Odebrecht revelou ter repassado R$ 15 milhões à campanha de Aécio, que, segundo outro delator da empreiteira, teria pedido e conseguido mais R$ 9 milhões para o PSDB.
 
Impressionado com as revelações que estão surgindo da Lava-Jato e das investigações no TSE da chapa Dilma-Temer, o ministro do STF e presidente do TSE, Gilmar Mendes, propõe uma reforma do sistema político-partidário já para o próximo pleito.
 
Conhecendo o volume e o valor dos recursos desviados, ele calcula que o dinheiro ilegal injetado na eleição de 2014 pode ter superado as doações legais. “Talvez o caixa dois tenha sido mais forte do que o caixa um”.
De fato, quando se imagina o que a Lava-Jato ainda nos reserva, a pergunta é inevitável, mesmo que exagerada: será que vai sobrar alguém em pé?
 
 
 
A calada da noite é hora propícia para uma boa trapaça. Parece que houve quem sentisse saudade de Eduardo Cunha
A comparação é inevitável. Na Colômbia, além da comovente homenagem que milhares de torcedores prestaram às vítimas do acidente aéreo, o clube Atlético Nacional de Medellín, em gesto raro, senão inédito, solicitou oficialmente que se desse o título de campeão da Copa Sul-Americana à Chapecoense. A generosa proposta, aprovada por unanimidade pelos jogadores, pelos membros da comissão técnica e pela diretoria, emocionou até o ministro das Relações Exteriores, José Serra, que chorou ao agradecer em discurso a solidariedade dos colombianos.
 
No Brasil, entretanto, a Câmara dos Deputados aproveitou a comoção geral causada pela tragédia para uma manobra política sórdida, em que aproveitou um pacote anticorrupção para desfigurá-lo com o contrabando de emendas que o transformaram numa peça cuja intenção principal seria punir policiais, juízes e membros do Ministério Público, isto é, os que combatem a corrupção. E tudo com a cumplicidade do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, na calada da noite, que é hora propícia para uma boa trapaça. Parece que houve quem sentisse saudade de Eduardo Cunha.
 
Mutilado, o projeto chegou ao Senado, onde foi defendido por uma combinação inusitada de Renan, Gilmar Mendes e Lindbergh Farias, três estilos diferentes, mas com um alvo comum, o juiz Sérgio Moro, ali presente. Sereno diante dos ataques, sobretudo os do irascível senador petista, ele ironizou, perguntando se a intenção não era puni-lo. Quanto a Renan e Mendes, para quem estranhou a afinidade de posições, Merval Pereira deu a explicação. O juiz foi um dos três únicos do STF (os outros foram Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski) a “livrar o presidente do Senado de todos os crimes de que era acusado: peculato, falsidade ideológica, e uso de documento falso”. Renan virou réu por “apenas” receber dinheiro de uma construtora para pagar pensão de uma filha que teve com uma ex-namorada, num dos 12 processos a que responde ali, oito dos quais na Lava-Jato.
 
Por um acaso, enquanto se tentava no Senado incriminar Moro como tendo cometido abuso de autoridade, chegava aos jornais um anúncio de duas páginas com o seguinte título: “Desculpe, a Odebrecht errou”. Era a própria empreiteira reconhecendo o seu envolvimento em esquemas de corrupção, como o da Petrobras. Ela se comprometia também a pagar multa de R$ 6,8 bilhões e a citar cerca de 200 políticos (que, na verdade, é o que tira o sono de Brasília).
Será que isso seria possível se não existisse a Operação Lava-Jato?

Autor(a): Zuenir Ventura
Fonte: Jornal O Globo

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA