Logomarca Velhos Amigos
LITERATURA / CANTO DO CONTO

AS CINZAS DA TIA MARICOTA
publicado em: 30/08/2019 por: Lou Micaldas

Maria Cota Pereira, conhecida por Tia Maricota, octogenária próxima dos noventa, última remanescente de dez irmãos, viúva, sem filhos, de um português, morava com a empregada numa casa simples no andar de cima de uma padaria no subúrbio da Pavuna. Seu patrimônio, deixado pelo marido, consistia unicamente desta pobre padaria, de baixo valor comercial, e cujo aluguel era a fonte do seu sustento.

Dos irmãos falecidos, tinha cerca de 15 sobrinhos e 30 sobrinhos-netos, quase todos morando nas imediações. Estes descendentes julgavam que tia Maricota fosse dona de um imenso patrimônio legado pelo português. Ela mantinha absoluto segredo sobre o assunto, mas dizia sempre que quando morresse deixaria tudo para seus sobrinhos e que quando isso acontecesse, procurassem seu advogado, antes mesmo do enterro, para a abertura dos testamentos.

Diante desta expectativa a tia Maricota nunca deixou de ser convidada para as festas da família, especialmente os aniversários dos sobrinhos. Era tratado com toda a reverência e centro das melhores atenções. Jamais dava presentes e ninguém se ofendia por isso, pois o maior presente viria em futuro não muito distante. Em pleno verão, aos 98 anos, tia Maricota faz passagem para outra vida e seus familiares, antes mesmo de providenciar o enterro, telefonam e correm direto para o escritório do advogado.

Na presença de todos os sobrinhos, uns sentados, outros em pé, o advogado tira do cofre dois envelopes numerados com nome da tia estampado por fora. A apreensão toma conta do ambiente. Todos ansiosos para conhecer o conteúdo dos envelopes. O advogado abre o envelope de número um, onde tia Maricota exigia duas coisas antes de abrir o segundo envelope. Nele continha dois desejos póstumos: que seu corpo fosse cremado e em seguida suas cinzas jogadas nas águas da praia de Aripeba, na Ilha Grande, em Angra dos Reis, onde dizia ela foi muito feliz quando criança.

Se estes desejos não fossem cumpridos à risca, o testamento contido no segundo envelope perderia a validade e o patrimônio iria para uma casa de caridade. Diante destas exigências, os sobrinhos reunidos ali mesmo, se cotizam e tomam as ações para cumprir os desejos da tia Maricota. 
Providenciam a remoção da defunta para o cemitério do Caju e no Memorial do Carmo, realizam a cremação da Maricota. No dia seguinte recebem numa urna de plástico as cinzas da finada tia.

Cumprido o primeiro item, os sobrinhos se programam para atender ao segundo pedido. Mesmo dentro daquele clima fúnebre, vingou a ideia de se aproveitar a oportunidade para se fazer uma excursão nas praias da Ilha Grande. --“Por que não unir o útil ao agradável? Já que vamos para Angra, porque não aproveitar para passear de barco, ir a uma praia e fazer um piquenique por lá. Passaríamos o dia todo aproveitando o dia de sol em Angra.”, um dos sobrinhos falou. A ideia foi aceita por unanimidade com aplausos, gritinhos e assobios.

Por incrível que pareça, como famílias bem suburbanas, nenhum sobrinho teve até então contato com o mar e a maioria não sabia nem nadar. 
Novamente todos se cotizam. Alugam e enchem um ônibus para levar a turma para Angra dos Reis. E assim fizeram. Na bagagem de cada um não faltou o calção, biquíni, óleo de bronzear, filtro solar, farnel, barraca, raquete de frescobol, batidas de vários sabores, tamborim, pandeiro, toca-fitas, etc. É claro que a urna com as cinzas da tia Maricota também fazia parte da bagagem do sobrinho mais velho. E assim, o ônibus saiu lotado. Todos alegres como se fossem para uma patescaria.

O desejo da tia Maricota foi o motivo para planejarem o passeio a Angra. Já saíram do Rio, com seus calções e biquínis por baixo da roupa. Ao chegar em Angra com o sol a pino, junto ao cais, alugaram uma grande traineira para transportar a turma toda à Ilha Grande. Nem se deram conta de pesquisar onde ficava a praia onde iam depositar as cinzas da tia Maricota. Apenas disseram ao patrão do barco que queriam ir até a praia de Aripeba, na Ilha Grande. E lá foram todos rumo ao mar, numa farra só. Para todos era a primeira vez que entravam numa embarcação. Começaram logo a tirar suas vestimentas e quase todos ficaram de calção e biquíni. Untaram-se com os óleos de bronzear e ficaram lagarteando debaixo do sol quente do meio dia. Navegaram por mais de uma hora.

Durante a travessia caiu um sudoeste muito forte, encapelou o mar, muitos marearam, mas finalmente chegaram à praia da falecida Maricota. Antes que o barco fizesse a aproximação para abicar na praia, resolveram fazer a cerimônia de deposição das cinzas da tia Maricota. Sem perda de tempo e sob aplauso de todos, jogaram a urna de plástico fechada dentro d'água. Só que a urna ficou boiando ao sabor das ondas. Como ninguém sabia nadar, um dos tripulantes do barco teve que pular n'água para recuperara a urna e trazê-la de volta para o a traineira. Como não conheciam nada de mar, foram todos para o bordo de barlavento- de onde sopra o vento-, fazendo o barco adernar bastante, sob protestos do patrão.

Agora, abriram a urna e ao iniciar o despejo das cinzas no mar, uma rajada de vento soprou forte e as cinzas se espalharam por todo o barco. Nenhum pó chegou a cair na água. Formou-se uma enorme nuvem de cinzas que cobriu todo o barco. Os que estavam besuntados com óleo de bronzear ficaram cobertos de cinzas coladas no corpo. Foi uma grande gritaria e um pânico se espalhou no convés. Todos querendo se desfazer do abraço de despedida da tia Maricota, que parecia estar contente por ver seus desejos totalmente realizados.

Diante do caos e da mudança de tempo, com o mar bem encapelado, o patrão da embarcação determinou o regresso imediato ao porto de Angra. E assim foi feito com a traineira a toda velocidade. Mal atracou, todos foram direto para o ônibus, retornando a comitiva ao seu subúrbio, onde cada um cuidou de se desfazer das cinzas coladas em seus corpos. No dia seguinte, já refeitos da aventura vivida, voltaram todos ao escritório do advogado da tia Maricota. Em clima de ansiedade foi aberto o segundo envelope e dado conhecimento a todos da herança deixada pela tia Maricota para ser dividida igualmente por todos os sobrinhos - O VELHO SOBRADO DESVALORIZADO DA VELHA PADARIA.

Autor(a): Oscar Moreira da Silva

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA