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LITERATURA / CANTO DO CONTO

BILHETE DE SAUDADE
publicado em: 02/02/2018 por: Lou Micaldas

"O velho não sente saudade do passado, a saudade do velho é da juventude."

Quem só ama o semelhante de longe, não sabe o quanto é bom ter o amor por perto. Principalmente, gente como eu, que embarcou na "Terceira Idade". Eu sei que os Freudianos vão dizer: No fundo, isso é mania de velho carente! Mania de velho que não soube aproveitar a mocidade! Poderia até ser, se sentimento pudesse ser etiquetado, com prazo de validade... Porém, não é este o caso. O caso é a minha adrenalina: ela metabolizou-se e transformou-se em um poço de sensibilidade. O meu "ego", coitado, ficou muito sensível. E, para acalmá-lo, de vez em quando eu preciso fazer uma pausa. E foi o que fiz, aproveitei o calor de um dia de verão e fui ao Centro de Diadema. Fui apenas por ir, despreocupado, e sem matutar em nada. Ao chegar à Praça Castelo Branco, encontrei o Dr. Pedro, da Clínica Santa Maria, a falar no celular.

Assim que desligou, entre uma coisa e outra, cobrei as mangas, que havia me prometido trazer de "Taquaritinga", uma cidade localizada no interior do Estado de São Paulo. Ele desconversou e desandou a falar de uma pescaria que tinha feito no "Rio Turvo", onde comeu peixe frito e bebeu cachaça da boa. Nisso, o celular dele tocou novamente, e ele saiu às pressas, enquanto eu fiquei falando sozinho a mastigar a água da boca. Quando olhei para um canto da praça, como quem olha de frente o posto telefônico, vi uma equipe de paramédicos com alunos de enfermagem, medindo a pressão arterial das pessoas em trabalho voluntário. Como a minha pressão andava um pouco mambembe, entrei na fila para medi-la. Não demorou muito e chegou a minha vez. Enquanto um anjo de vestes brancas anotava os meus dados, outro anjo sorridente media a minha pressão.

Quando terminou, ainda sorridente, disse: 9 por 14. Fiquei contente, afinal, os movimentos de dilatação e de contração das artérias e fibras musculares do meu coração estavam de acordo com a minha idade. Da Praça Castelo Branco fui para a Praça da Moça, que ficava pouco distante dali. Ou seja, logo no começo da Avenida Alda e começo da Rua Graciosa. Assim que cheguei, procurei logo um banco de jardim e nele me esparramei. Depois de sentado, espichei os braços sobre o espaldar do banco em alongamento. Já minhas pernas, estiquei-as ao máximo até levar um susto com os crecs saídos dos joelhos.

Com as solas dos sapatos pesando no cimentado da praça, fui dominado por uma preguiça, que me pegou como se fosse "um pau-mandado". As minhas pálpebras ficaram semicerradas, turvando-me a visão. Contudo, eu via tudo o que se passava ao meu redor, mesmo sabendo que não tinha o mínimo compromisso de ver... Mas eu via... Vi que dava para contar as pessoas, que circulavam na praça, naquela hora da tarde. Inclusive os quatro ambulantes e três cachorros magros perambulando na praça.

Vi na parte mais baixa da praça que havia, separadas uma da outra, duas pequenas quadras forradas com areia, para recreio de crianças. O conjunto lúdico dos brinquedos era: uma gangorra, um balanço e um escorregador. Naquele momento, as quadras estavam vazias. Não tinha nenhuma criança vadiando nelas. Perto do início da Rua Graciosa com a sua calçada, que fica no lado da Praça da Moça, havia uma Banca de Revistas. Seguindo na mesma direção, para embarque e desembarque de passageiros, havia uma área de recuo de parada de ônibus.

E nas proximidades do Teatro Clara Nunes, na mesma calçada, mais duas bancas de revistas. No lado da Avenida Alda com a sua calçada, também tinha uma Banca de Revistas e uma parada de ônibus. Dessa forma, a delimitação da Praça da Moça tinha de um lado a Avenida Alda e, no outro lado, a Rua Graciosa. O cenário interno da praça compunha-se de dezenas e dezenas de árvores nativas, mescladas com palmeiras.

De construção havia somente as duas quadras com areia e os bancos de jardim. O gramado verde que forrava a praça era recortado, aqui e ali, por áreas de convívio urbano e pelas passarelas, ambas, de piso cimentado, por onde caminhavam os pedestres: ora, apressados; ora, modorrentos! Em uma parte do gramado, ao lado de uma passarela que saía do meio da praça, quatro minipôneis, empalhados e dispersos sobre a grama, faziam um chamariz. As crianças que passavam com as suas mães, pediam para montar no pônei.

Nessa ocasião apareciam os lambe-lambes, que ofereciam o retrato de recordação da criança montada no pônei. Saudosismo ou não, o fato é que tudo indica que essa tradição, muito em breve, será apenas mais uma curiosidade de página de internet. Do meu banco icei as pálpebras para olhar na copada das árvores, as folhas, que brincavam de balanço com o vento. O sol, com os seus raios solares, penetrava a sua luz no verde da clorofila. E naquela simbiose de amor metabolizava e purificava o ar no processo da fotossíntese. Por um momento, fiquei hipnotizado a olhar o vai-e-vem das folhas agarradas nos galhos das árvores, a refletir a luz solar, como se fossem um espelho de águas-vivas.

Tive que reconhecer: aquelas folhas balançantes nas árvores purificavam o ar e tornavam possível o milagre da vida... Pena que eu não sabia sequer o nome de uma delas. Que me perdoe a "Mãe Natureza", eu não conhecer a exuberância da "Flora" e ser ignorante na ciência "Botânica". No entanto, mesmo momentaneamente hipnotizado, eu não estava surdo e ouvia o barulho do tráfego da Rua Graciosa e da Avenida Alda. Porém, o barulho que mais gostei, veio de cima de uma frondosa árvore. Um bando de pardais, na sua linguagem de passarinho, chilreavaem algazarra.

E, como não entendo trilar de passarinho, voltei a olhar na praça. Foi quando, em outro banco defronte ao meu, eu vi sentar um sossegado velhinho. E pelo alheamento que aparentou, convenceu-me de que queria estar só. Ao me ver fez um aceno com a mão, sorriu e depois, como se não me tivesse visto, ignorou-me completamente. Não tive dúvida, retribui a gentileza e, em sinal de respeito, não o incomodei. Deixei que ficasse solitário e tranqüilo, mergulhado no seu mar de solidão. Com o passar das horas, o movimento aumentou na praça. Entre as pessoas que passavam, algumas traziam o cenho carregado.

E mostravam que, para elas, o dia tinha sido perdido. Gastaram solas de sapatos e energia e não acharam, pelo menos, um mísero emprego, mesmo que fosse temporário! A tarde continuava morna, e eu, tomado de inércia, caí nos braços de "Morfeu". E, num gostoso devaneio, viajei em outra dimensão. Não sei ainda qual foi o ensejo. O fato é que fechei os olhos e, de repente, voltei no tempo. Sem mais nem menos, lá estava eu, jovem e com os meus amigos, vivendo no meu distante passado. A emoção foi desmedida. Eu abraçava as pessoas queridas, que há muito tempo eu não via, e que agora me libertavam dos elos que me prendiam na cadeia da saudade...

Quando despertei do devaneio, vi o quão longe eu havia saído da realidade. Mas, o que eu posso fazer com o tempo? O que eu posso fazer com a saudade? Absolutamente nada! O tempo não tem medida, como medir a eternidade? A saudade também não tem medida, como medir a afetividade? E a falta das pessoas queridas, que nos deixaram sós para seguirmos o caminho da nossa jornada... O que eu posso fazer? . Absolutamente nada! Então eu me pergunto: Como é que estarão as pessoas queridas, que ainda resistem ao tempo, agora na terceira idade? Mais velhas é claro, e certamente mais solitárias. Porém, eu não posso falar por elas. O que eu posso é falar por mim, que, além de ficar mais velho, fiquei absurdamente nostálgico. E é por isso, que o velho não sente saudade do passado.

A saudade do velho é da sua juventude.... O que eu posso fazer? Absolutamente nada! Ainda mais quando mexo no baú das lembranças, que me traz à tona a juventude. Ela foi minha companheira que, ao passar dos anos, também foi ficando velha. E, hoje, a coitada ficou perdida no tempo e, como eu, faz parte de um mesmo passado... O que eu posso fazer? Absolutamente nada! A não ser, fazer uma pausa para me consolar e escrever para os meus amigos distantes este "Bilhete de Saudade".

Prezados amigos distantes, 
Recebam a minha saudade. 
Nesta pequenina pausa, 
que faço no meio da tarde. 
Nela ponho todo meu carinho, 
Que sinto, na "Terceira Idade" ... 
Um abraço, do Amoréluz Avlis

Autor(a): João Batista da Silva

 

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