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LITERATURA / CANTO DO CONTO

DOIS SONHOS...
publicado em: 09/04/2018 por: Lou Micaldas

O ambiente era festivo. Muito barulho, muita alegria, risadas sonoras ecoando pela casa, num entra e sai de colegiais animados, incontidos na sua agitação. E assim, pai, mãe, irmãos e avó nos vimos envolvidos e contagiados por essa euforia.

A razão de tudo isso?!!! É que esse grupo de jovens, entre os quais estava incluída minha neta Aline, havia sido escolhida para participar do desfile de abertura dos Jogos Olímpicos Estudantís, a nível Nacional. A equipe viajaria dali a dois dias.

Para conquistar tal honra as exigências haviam sido muitas, a começar pelo desempenho do Colégio, que se havia classificado em primeiríssimo lugar. Depois, a avaliação de cada aluno, não só na parte esportiva como educacional, rigorosamente testada quanto às notas, participação nos trabalhos, lealdade, pontualidade, assiduidade, espírito de companheirismo e tantos outros ítens, que merecer esse prêmio já era a primeira vitória digna de comemoração. Aline, de quinze anos, só pensava no grande dia. E me contava:

"- Sabe, Vó? Desde que eu tinha sete anos que eu sonho com isso. Sonho muito, muito, mesmo: dormindo, acordada... Vejo-me bonita, garbosa, entusiasmada, ora marchando ou fazendo evoluções, ora cantando hinos ou fazendo graciosas reverências diante das autoridades... Em linha impecável com os companheiros, nos uniformes deles eu me vejo refletida: que lindo! Os uniformes variam, sabe, Vó? Há alguns detalhes diferentes nas cores e feitios, conforme os grupos. Os dos 'meninos' são todos iguais. Mas os nossos, das meninas, têm diferenças pequenas.

Santo Deus! Eu já te falei que as minhas botas serão brancas, Vó? Vòzinha de Deus, são as mais bonitas! E só o meu grupo é que vai de botas brancas, acredita? Sua neta vai estar entre as figuras principais do desfile... Cê vai lá ver, né? Eu e as minhas botas brancas, liiiiiiinnnndasss!!! já pensou? Vai de carro com o Pai e a Mãe! A viagem não é longa, e aí cê leva sua máquina pra bater umas fotos bem bonitas, viu?

Eu ria e me alegrava com o entusiasmo tão merecido da garota.

Tinha mais um motivo especial para estar feliz, porque um antigo sonho meu também seria realizado. Três amigas e eu havíamos comprado mesa para o show do cantor Carlos José, que aconteceria no dia seguinte.

Há uns trinta anos, em Guarapari, fui vê-lo e ouvi-lo, em companhia de meu marido e de duas cunhadas. Após o show, tivemos o prazer de conversar com ele, pessoa simpaticíssima, de quem já na época éramos admiradores.

Prometemos a nós mesmos que na primeira oportunidade voltaríamos a vê-lo.
O tempo passou, e nunca essa oportunidade havia surgido, a não ser agora. Vou cumprir, apesar de meu marido já não estar mais aqui, aquela antiga promessa, um sonho de trinta anos! Vou ver e ouvir o Carlos José, finalmente.

Suas músicas me encantam, seu jeito suave de cantar me emociona, e a lembrança do tempo de casada me traz boas recordações.

Minha neta entrou em casa preocupada.

Teve uma conversa rápida com a mãe, que saía para o trabalho, e dirigiu-se em seguida para o quarto.

Estranhei, sentindo falta daquela animação dos últimos dias. Passei discretamente pela porta do quarto, que estava aberta. Deitada, com as mãos cruzadas na nuca, balançando nervosamente os pés descalços, olhava para o teto.

"- Oi, meu bem. Quer conversar?"

"- Entre, Vó."

Sentei-me na cama.

"-Que carinha triste é essa? Quê que foi? Conte-me..."

Sentou-se ao meu colo e encostou a cabeça no meu ombro, calada. Assim ficamos algum tempo. Eu acariciava seus cabelos, respeitando seu silêncio. Até que ela, suspirando, falou:

"-Poxa, o preço das botas não está incluído no custo do uniforme. A gente pensava que fosse tudo junto. Tem que pagar por fora, e se não levar o dinheiro até amanhã, não tem jeito de desfilar, porque a gente embarca depois de amanhã... Tem uma porção de meninas na fila, com dinheiro na mão, querendo uma vaga. O Colégio não pode fazer nada. É pagamento à vista...

Papai está apertado: já pagou a roupa, coitado, e Mamãe está no limite do cheque especial. O pagamento dela está atrazado...

Será que cê tem dinheiro pra emprestar, Vó? Quando o pagamento da Mamãe sair, ela te devolve."

Tudo isto foi dito de uma vez, num desabafo.

Fiquei em silêncio, pensando. Eu não tinha tanto dinheiro assim. As botas custavam caro, muito caro. O que ainda me restava, era para fazer mãos e cabelo no dia seguinte, pidir o taxi com as amigas e tomar algum refrigerante durante o show. Mesmo que eu dispensasse tudo isso, não iria adiantar nada... não seria nem a metade.

Como fazer então? Como deixar um sonho de adolescente ser arrancado assim de repente, às vésperas de sua concretização?

Ela estava aninhada nos meus braços, e eu a ninava como a uma criança pequenina, cantarolando a "Cantiga de Ninar" de Brahms.

Adormeceu. Coloquei-a suavemente na cama e dei, do meu quarto, alguns telefonemas.

À hora do almoço, duas horas depois, Aline continuava adormecida. Fiz questão de chamá-la, eu mesma. Desejava entregar a ela a quantia necessária para o pagamento das "botas brancas".

Que reboliço! Quanta alegria! Gritinhos e pulos de contentamento e de felicidade, intercalados por beijos estalados.

"Viva a Vovó! Eu posso viajar! Eu posso desfilar! Graças a Deus!"

De repente ficou séria.

"-Gostaria de saber de onde saiu esse dinheiro"... Hein, Vó?

"-Ora, lembrei-me daquela conta de Poupança e fui ver... estava lá!"

A explicação convenceu-a, e a alegria voltou a reinar na casa. Só se falava no Desfile.

A vida familiar girava em torno do acontecimento. Reuniões da equipe dos estudantes, reuniões dos pais, planejamento de condução para quem iria apenas assistir à Cerimônia de Abertura, crachás...

Dia da partida. São 7:00h.. Aline vem me procurar.

"-Vó, cê vai com o Pai e a Mãe, né? Tá levando a máquina??"

"-Vou, sim, querida. A máquina está aqui, com filme de 36 chapas. Vamos fotografar você de todo jeito, viu?"

"-Ótimo, ótimo! Ah, vem cá, Vó! Ainda tem tempo de me contar como foi o show ontem... e aí? Gostou da surpresa?"

"-Surpresa? Qual delas, minha querida?"

-"A música que eu pedi ao Carlos José para dedicar à mais querida avó do mundo"...
Sentei-me e meus olhos encheram-se de lágrimas.

"Ah, Vovó! Você não foi ao seu show... vendeu seu ingresso... Foi assim que o dinheiro apareceu! Ah, Vovó!!!!!!!!!!!!!"

Abraçamo-nos em silêncio, e as lágrimas de tristeza de Aline se misturaram às minhas lágrimas de felicidade...

Autor(a): Lyne Mattos

 

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