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LITERATURA / CANTO DO CONTO

E SEREI MULHER
publicado em: 21/08/2018 por: Lou Micaldas

Disse saber que lhe restavam um milhão duzentas e cinquenta mil pulsações e dispôs-se àquela espera com a inclinação mais suave.

Tomou a precaução de entrar no caixão que ela mesma havia desenhado e no qual decidira, quase brincando, familiarizar-se com sua última permanência e com sua última viagem. Vestiu toda a parafernália branca a que se habituara em suas longas estadias no hospital, durante os delicados jogos com suas mãos, seu cabelo e sua pele. Neles conseguira evadir-se ou processar todos os desnecessários acontecimentos dos últimos meses. Era uma terça-feira de céu cinza alto pela manhã.

Apenas a adolescência debruçando-se sobre um corpo que ainda emanava uma vida irrepetível, uma sensualidade contida e prestes a explodir.

Um milhão e poucas pulsações me restam, disse sorridente a sua irmã caçula, e entrou naquele ataúde improvisado no chão com elementos do quarto e meticulosamente forrado com um tecido bem suave que haviam encontrado entre as coisas da avó. Andréa começou a contar regressivamente, pulando números ou voltando a uma cifra maior, enquanto sua irmãzinha a observava em pé, em um canto da cena, com o pescoço dobrado e a roupa toda vermelha até os sapatos. De braços cruzados sobre o peito, sem cabelos nem sobrancelhas, com o olhar clareado por um raio de sol difuso e oblíquo, Andréa ensaiou uma expressão irreconhecível até para ela mesma.

Tão por um fio da adolescência se encontrava, tão nessa variedade vertiginosa, tão cheia de engendros. Esta mesma impressão teve sua mãe quando entrou no quarto e só pela expressão da irmãzinha, que ainda observava atônita aquilo que via pela primeira vez, intuiu que algo muito importante estava acontecendo.

Segundo os médicos, o prognóstico da doença de Andréa era reservado, mas existiam esperanças de que se recuperasse. Assim tinha dito a mãe à filha, ante sua insistência em não ser tratada como criança, que sabia o que ia acontecer, que deixasse de tolices... que contasse a verdade. Desde que assim se decidiu, Daniela tomou extremo cuidado com suas colocações em relação não só à possível morte da filha, mas ao fato de que ela o soubesse. De certa forma, a melhora que Andréa apresentava - inquestionável para os médicos - havia deixado um pouco para trás a dor daquela possibilidade e havia deslocado a ênfase para o fato de que uma mulherzinha de quatorze anos enfrentava, da manhã para a noite, uma circunstância tão rotunda que influenciaria decisivamente não só sua vida futura, mas também as muito intensas pulsações que haviam se instalado na sua consciência e em seu coração. Este era um dos tantos indicadores da intensidade com que estava vivendo cada unidade de tempo, cada respiração e cada uma de suas fantasias.

Quando Daniela entrou no quarto, a intensidade da sua intuição fez com que refletisse, em uma fração de segundo, sobre que atitude tomaria.

Aproximou-se com a aparência mais lúcida possível e deu um apertão carinhoso em Camila que não desgrudava os olhos da sua irmã nem daquilo que não sabia que via através dela. Foi nesse momento que Daniela viu a expressão de Andréa e, já sem pensar, seguiu a corrente de milhares de decisões e de cuidados.

- Você está encenando sua morte, disse, de pé sobre o chão de madeira, ao lado do sofá cuja parte anterior demarcava uma das margens da cena, junto com as almofadas e as caixas cheias de brinquedos e bonecas.

- Estou encenando minha morte, mas antes a estou sonhando.

Daniela deitou no sofá com a cabeça no mesmo sentido que a da filha, e da sua altura relativa, pediu a ela que encenasse essa morte, que gostaria muito de ver essa obra. Fazia alguns meses que Daniela começara a parecer uma mulher madura. Seu rosto denotava um cansaço dissimulado por uma pele ainda jovem, por um olhar ingênuo e vivido e por um sorriso de uma paz irrevogável.

Andréa começou especificando que lhe restavam um milhão de pulsações. Os braços no peito branco, Camila acomodada no sofá aos pés de sua mãe, a mãe deitada de lado, apoiando a cabeça, a contagem regressiva.

- Em primeiro lugar, disse, sonho morrer perto de Roberto. Você já sabe quem é ele, bem, mais ou menos. Eu te disse que era um colega de escola e que nos tornamos muito amigos.

Não é que tenha escondido nada, só não te disse que gosto muito dele, que antes de começar meu tratamento não podia deixar de pensar nele cada vez que escutava uma dessas músicas românticas que falam de amor ou cada vez que algo me emocionasse ou me desse vontade de chorar de sentimento ou de rir muito. Em cada um desses momentos eu imaginava Roberto escondido em algum lugar perto ou aparecendo por acaso e vendo aquela parte de mim, aquela que ninguém mais vê e que eu quero que ele conheça. Depois comecei a imaginar que talvez morresse perto dele e também que poderia ser perto dele e não na frente dele. Imagino um passeio pelas quadras de esportes da escola, um dia em que ninguém foi e nós nos encontramos lá por engano. Nós dois pensamos que a feira programada para sábado fosse naquele dia e não no sábado seguinte. Caminhamos pela grama verde, verde e muito lisa, com esse cheiro de recém-cortada que não é forte mas que nunca nos deixa.

Sonhei com nossa timidez e nossa dificuldade de saber o que sentíamos, essa correnteza estranha de quando você não sabe e que sentimos ao balbuciar certas coisas ou num roçar inesperado de mãos e que me faz caminhar serena e tensa ao mesmo tempo. E então se produz um momento de reconhecimento de algo, como se ele e eu soubéssemos que nos gostamos e mesmo sem dizê-lo vem essa correnteza e não sabemos falar nem olhar nem nos mover e ficamos assim, entorpecidamente parados um do lado do outro, nervosos. Sonhei que começava a desfalecer nesse momento e que ele me tomava em seus braços e perguntava o que estava acontecendo comigo e eu dizia que estava nervosa que não se preocupasse e ele me dizia que então ficasse tranqüila porque ele estava comigo e cuidaria de mim. E eu dizia que sim, que ficaria tranqüila e que me sentiria melhor.

Tão grande era o meu sentimento por ele que não queria ver nenhum sinal de preocupação, não queria que ele sentisse nem a sombra da tristeza que eu estava sentindo por ter que morrer nesse momento tão lindo. Então ele, de uma profundeza desconhecida até para si mesmo, insistia em que não me preocupasse, que ele estava comigo, que cuidaria de mim.

"Eu estarei onde você estiver". E eu imaginava que por um desígnio ou por algum tipo de sabedoria, Roberto sabia que poderia acompanhar-me para além da vida. Você acha isso tudo muito romântico mãe, muito bobo?

Daniela tinha deixado de olhar para Andréa no momento em que caminhava pela grama, talvez como uma maneira de sonhar paralelamente, talvez como uma nova companhia diante de uma filha que crescia rápido. Tinha olhado as costuras do sofá, observado como Camila entregava-se morna e terna ao sono. Mudara de posição olhando para o teto e surpreendeu-se com a pergunta de Andréa, que continuava com os braços cruzados.

- Não Andréa, não, de forma alguma... a verdade... é que não sei o que dizer. Esse sonho eu mesma poderia ter hoje se me sentisse muito perto da morte... Poderia ser caminhando com seu pai na casa dos seus avós, onde cresci, talvez conversando entorpecida e nervosa sobre tantas situações compartilhadas na vida, de vocês, do prazer de ver os filhos crescer e de como essa maravilha ecoa com as estrelas ou com um gesto bonito de um colega de trabalho em dias difíceis ou com as confissões dolorosas que em algum momento devemos fazer às pessoas que mais amamos. Com certeza, seu pai saberia que estou morrendo e se, por exemplo, eu desmaiasse na varandinha em que ele disse para meus pais que estava completamente apaixonado por mim e pediu minha mão, se eu desmaiasse ali, tenha a certeza de que embora seu pai e eu pudéssemos saber o que sentíamos e ter certezas infinitamente maiores, viveríamos algo disso que você descreve, essa espécie de confusão segura, viva, nervosa do desconhecido, essa companhia potente e impotente ao mesmo tempo... Mas não era eu que ia falar, Andréa, me desculpe se estou falando de coisas muito complicadas ou que possam parecer esquisitas...

- Você sabe que eu entendo, mãe, e sabe que esse entendimento é uma das minhas tragédias.

Você sabe que os meus colegas riem da minha maneira complicada de falar, riem porque às vezes saem palavras que ninguém conhece e não me ajudou dizer-lhes que já sei ler grego e latim, que você e papai têm me ensinado, que vocês escrevem e lêem e escrevem e é isso o que eu mais tenho feito na minha vida, vendo vocês. Não adiantou nada dizer uma coisa assim para uma colega porque depois me chamaram de sabe-tudo. Você sabe que às vezes não tenho quatorze anos, mas às vezes sim. Como quando me vem à mente a estória daquele menino que desde pequenininho apaixonou-se por uma prima. Encontrou-a muito poucas vezes, mas sofreu de saudade, de amor e de desamor muito. Tem uma imagem nesse livro que nunca esqueci. Em um momento de muita falta dela, o menino escuta sua mãe despejar água de uma jarra em um copo, na hora do almoço, e ele acredita escutar o riso inconfundível de sua amada. Pode ser que se trate disso que você e meu pai e seus amigos dizem algumas vezes, que na literatura podemos encontrar os sentimentos mais comuns, os que de uma ou outra maneira todos experimentamos...

... Outra possibilidade que me veio à mente, uma das mais persistentes ainda em me visitar, foi a de um cartaz debaixo de um dos galpões de entrada da escola. Já lhe disse que me sinto um pouco feia... não, não, por favor, não diga nada, minhas colegas têm confirmado isso, têm rido de meus seios quase inexistentes e de quanto sou peluda. Já sonhei começar a morrer tirando minha roupa sob esse teto que cobre a entrada da escola, na frente de todo mundo, mostrando meu corpo tal qual é, na intempérie, à luz e à sombra, no calor e no frio, para colegas, professores, diretores, como se tirasse minha pele para que pudessem pegá-la, vê-la de perto, esmiuçá-la, com a vaga esperança de que se dessem conta que o anúncio da morte dá outra dimensão aos momentos da vida, ao menos àqueles que vão ficando. Não sei porque digo todas essas coisas, mãe, às vezes parece tão bobo, mas assim é como meus sentimentos se transformam em imaginação e há tantas versões intermediárias que atraio e logo me escapam...

- Se adianta escutar isto, creio ter tido esta sensação de radical nudez e de total entrega depois de muitos anos casada com seu pai. Há uma canção que escutei tantas e tantas vezes quando jovem e que me chamou muito a atenção, particularmente por esta estrofe:

Te quiero salvar
de tu desnudez
en pleno centro 
de la soledad
- E mais adiante dizia:
Desnudémonos pues 
como viejos amantes
que se apague la luz
y que el sol se levante

- Depois de muitos anos descobri que quando me despia na frente do seu pai se abria sempre uma possibilidade nova, era o sinal dissimulado da riqueza que havíamos construído em nossa relação. Poderia acontecer que eu acendesse a luz e no seu lugar saísse o sol, ou poderia acontecer uma mudança interior que passasse absolutamente despercebida para mim, mas que depois notaria, lá, bem dentro, em algum momento da noite ou quando acordasse. Falo de ficar nua para fazer amor ou para dormir, para discutir ou para ler, para estar em silêncio, de ficar nua mesmo na ausência física de seu pai, mas na sua presença interior. O que quero dizer é que não posso evitar associar esse gesto seu de nudez e morte com outro profundamente parecido e, ao mesmo tempo, fatalmente oposto: o da nudez e a vida.

Daniela, sem querer, havia umedecido seus olhos e sua voz, havia quebrado um pouco o ritmo de sua respiração. Sabia que falava de coisas que Andréa não poderia entender e sabia que Andréa pensava o mesmo em relação a ela.

Contudo, ambas também sabiam que todo ato de nudez sincera tem tanta vitalidade, que estabelece seus próprios sistemas de comunicação.

Camila dormia aos pés de sua mãe e, esparramada, esquentara-lhe uma perna. Algo parecido sentia Daniela do rosto até o peito.

Continuava olhando para cima, como Andréa.

De repente Daniela, no esforço para conseguir uma voz sem tremor, uma voz que saiu oca do fundo do abdômen e com uma leve intensidade delatora, disse em meio ao silêncio da tarde:

- Você falou dos seus sonhos de morte, mas ainda não a encenou para mim.

Andréa virou a cabeça para a direita e, pela primeira vez durante a conversa, encontrou os olhos de sua mãe que a fitavam com uma ternura e uma admiração imensas:

- É verdade, tinha esquecido...

Quase fazendo um esforço, colocou novamente os braços sobre o peito, olhou reto na direção do céu e foi fechando suas pálpebras lentamente enquanto expirava o que lhe parecia sua última molécula de ar. Ficou assim uns cinco segundos e, virando o corpo na direção do sofá, não pôde conter o riso. Daniela, que não havia deixado de olhar para ela nem um só momento, devolveu um sorriso sobreposto a um sentimento triste e nostálgico, muito alegre e muito cheio de alívio.

Autor(a): Rodrigo Garcia Loyer
Fonte: Livro: Antes do Riso

 

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