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LITERATURA / CANTO DO CONTO

FOLHAS DE OUTONO
publicado em: 06/12/2018 por: Lou Micaldas

A lembrança de uma época nos aterroriza ou nos leva a um saudosismo. Nossa mente dá vida a fatos e emoções residentes em nós. Cada momento é revivido e o tempo não se mostra presente. Seria possível mudar o passado? Conseguiríamos fazer momentos vividos serem revividos de forma diferente da que foram vividos? Nossa! Que confusão nossa mente é capaz de arrumar em um dia de meditação.

O sol de meio dia refletia na janela, meu pensamento perambulava distante aguardando apenas o simples toque da campainha. Sentia o cheiro de tempero vindo do prédio ao lado, que fazia o meu estômago rosnar ferozmente, alertando que já haviam passado horas sem que ele tivesse tido algo para digerir. Como alguns minutos se transformam em horas! E como..... Trimmmmmmmmmmmm! De um único salto, já tinha todos os livros guardados, corria desesperadamente como se fosse para salvar uma vida, mas afinal, eu corria para salvar a minha própria vida. Se perdesse alguns minutos, tinha certeza de que os camisetas azuis já estariam me esperando no portão de saída. E se esse fato ocorresse, deveria colocar em prática o plano B. Gelava só de pensar em todo o trabalho que isso me daria, além da bronca que receberia de minha avó por chegar tarde em casa. O portão era a reta final de uma longa corrida, transpô-lo era como subir ao pódio e receber o troféu de mérito. Na semana passada, o plano B teve que ser colocado em prática e me lembro muito bem de ter perdido a sobremesa, doce de leite com amendoim, sem falar nas longas horas ouvindo os conselhos da avó, além de alguns arranhões e explicações que me foram cobradas pelo estado em que me apresentava. Mas orgulhoso, contava uma história, não verdadeiramente o que havia ocorrido, mas uma história doce que me tornava uma indefesa vítima. Coisas de criança!

Todo esse desespero começou na última festa junina. Em cidade do interior em época de festa, não se fala em outra coisa. As turmas formadas se rivalizam procurando mostrar a sua superioridade nas disputas. Nessa época me recordo que os pensamentos estavam voltados não para as disputas, mas sim para alguma coisa mais forte que fazia as minhas pernas tremerem e o coração disparar. Era Maria do Carmo, cabelos louros e olhos 
azuis, um verdadeiro anjo na terra e motivo de verdadeiro inferno com os rapazes. Foi graças à paixão por esse ser celestial, que me tornei um verdadeiro atleta após o soar da campainha escolar. Apesar de pequeno, não levava desaforos dos rapazes maiores, e era tido como molequinho folgado. 

Não preciso nem comentar muito que brigas eram coisas rotineiras, e que às vezes as conseqüências eram graves, e por isso, vinha sendo caçado literalmente pela turma dos camisetas azuis.

Todos preparados? Um, dois, três e já! Estávamos metidos dentro de alguns sacos, disputando uma corrida, o sabor de uma derrota nunca foi o meu forte, gostava de ganhar tudo que disputava, até porque os vencedores sempre eram bem vistos pelas garotas, e garotas me lembravam a minha Deusa. Faltavam alguns passos para a sonhada vitória, quando vi o chão se aproximar graças ao encontrão recebido do China, não contive o ódio e levantando rapidamente, parti em direção ao canalha, fui subitamente agarrado pelo professor Alcides. Gargalhadas eram dadas pela turminha do invejoso. Tentava me explicar junto ao professor do fato que havia ocorrido e que ele não percebera. Inútil!   Recebi aquele sabão. Você não tem mesmo jeito! Sempre arrumando confusão! Busquei em volta por Maria do Carmo, mas não a vi. Jurei a mim mesmo que não ficaria barato o que ocorrera. 

Embora todos tivessem medo do China e seus amigos, pois diziam que ele quando brigava quebrava sempre os dentes de suas vítimas. Pouco me importava! Só sabia que iria me pagar bem caro pelo que havia feito.

Passado o momento de raiva, todo o ocorrido já tinha sido esquecido e a vida corria normalmente, até que um dia, quando jogava bola de gude com os amigos, de súbito os camisetas azuis surgiram e já foram se apossando de nossas bolinhas. Apaga luz! Diziam. Era um termo muito usado para o confisco de propriedade alheia. Cansado desse tipo de investida, passei a ter próximo a mim um pedregulho, que com certeza teria a cabeça do China como alvo naquele momento, e foi o que ocorreu. Em um único lance certeiro o sangue escorria pelo rosto do inimigo. Agora tinha em meu encalço os camisetas azuis irados, e não tinha como não estarem, a final, era um afronto o que eu havia feito e isso merecia uma punição grave. Nunca cheguei tão rápido em casa. Ouvia no portão as ameaças provindas dos bravos guerreiros. E assim começou a minha vida de fugitivo.

Passados muitos anos em uma de minhas visitas a terra natal, encontrei o Biriba, um dos membros da turma dos camisetas azuis, as feições não haviam perdido as características, só estavam bem mais velhas. E depois de um longo abraço, contou-me que era o único ainda vivo do grupo e que o China havia falecido a um ano atrás vitima de um câncer.

Falou-me que riram muito quando um dia ao visitá-lo no hospital lembraram a caçada que se fazia diariamente na saída da escola e da cicatriz que o China ainda tinha, resultado da pedrada ganha ao pegarem as bolinhas de gude. Perguntei sobre Maria do Carmo e ele mencionou que ela havia mudado para o sul do pais e que nunca mais havia voltado. Trocamos ainda algumas palavras, e com um sorriso meio pálido, nos despedimos. Senti uma grande saudade dos velhos tempos e resolvi passar na porta da antiga escola. A lembrança de um portão gigantesco, agora não parecia tão imponente. 

Meio aberto, pude observar ao longe o pátio que tantas vezes foi palco de nossas brincadeiras, a fachada meio desbotada ainda mantinha o mastro embora sem a bandeira.

Virei as costas e caminhei, deixando para trás as lembranças de um amor platônico e a saudade de amigos que não viria nunca mais. Um súbito vento fez mexer as folhas caídas no chão, folhas de outono, que me trouxeram muita emoção de um tempo que não volta e que nada pode mudar, tempo de criança na escola.

Autor(a): Marcos Barreiros

 

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