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LITERATURA / CANTO DO CONTO

MÃE POSTIÇA
publicado em: 31/07/2019 por: Lou Micaldas

Minha amiga Júlia ligou para falar da cirurgia de sua irmã, e também para convidar-me para a feijoada na casa dela comemorando o aniversário de seu filho Mathias. Comentou ainda que havia convidado também a minha filha Elisabeth, mas que ela havia recusado porque não queria encontrar algumas pessoas da família, e nessas pessoas considero que eu também estava incluída. Além disso, minha filha disse para Júlia que ela era sua mãe postiça.

Saber disso muito me entristeceu e abalou, pois mais uma vez senti como sou rejeitada por minha filha, e muito refleti sobre este fato, fazendo-me indagações e buscando interpretações.

O que é uma mãe postiça? Penso que é alguém que é colocada no lugar da mãe biológica, ou seja, a verdadeira. Essa substituição pode ocorrer porque a mãe verdadeira morreu, ou quando o pai se casa novamente e então a nova mulher passa ser a mãe postiça.

Tenho plena consciência de que não morri, e sei que nem a Júlia é esposa do meu ex-marido, até porque ele não se casou de novo. Então pude concluir que mãe postiça neste caso – quando a própria filha escolha e designa uma pessoa como mãe postiça – significa uma intensa rejeição da mãe verdadeira. Muito magoada e ferida me perguntei: Por que sou tão rejeitada? Quais foram os meus erros como mãe?

Sempre fui uma pessoa muito consciente do significado da maternidade, e me preparei para desempenhar bem o papel de mãe buscando orientações de Psicologia Educacional em diversos livros e revistas. Acredito que fui uma mãe presente, sem ser repressora de forma autoritária, fazendo advertências sempre que as julguei necessárias. Eu era quem dava o “norte educacional” preocupada em transmitir valores morais e humanitários, e mostrando firmeza no meu papel educacional, ao contrário do pai que se mostrou muito omisso justificando que tinha medo de errar. A resposta do não era sempre minha.

Vale lembrar que essa rejeição foi explicitada por quatro vezes que a seguir vou relatar. Recordo que a primeira vez foi quando eu ouvi minha filha falar para a minha vizinha Maria (que considero pessoa bem superficial) que gostaria que ela fosse sua mãe. Nessa época Elisabeth tinha por volta de 15 anos, e eu apesar de magoada relevei por considerar que era uma manifestação de rebeldia adolescente.

A segunda foi no dia do próprio casamento dela (Elisabeth) quando na hora dos cumprimentos dos padrinhos, ao abraçar minha amiga Júlia minha filha a chamou de mãezinha. Ela sempre gostou muito da Júlia e a valoriza como modelo de mulher, mãe e profissional a ser imitada. Foi difícil permanecer na festa conversando com os convidados, sem deixar transparecer minha tristeza.

A terceira foi quando há uns anos atrás (6 a 8 anos...) encontrei Helena uma conhecida, no Shopping e ela me falou: como vai a Elisabeth? Tenho muita saudade dela, e ela sempre me disse que gostaria de ser minha filha. Helena tinha também uma filha muito amiga de Elisabeth, e elas frequentemente se encontravam pois morávamos na mesma rua.

E agora recentemente, numa quarta vez, chamando a Júlia de mãe postiça, conforme a própria Júlia me contou.

O que mais me surpreende é que mesmo depois que a Elisabeth também se tornou mãe, nada mudou. Seu filho e meu neto já têm 13 anos. Nessa relação tão delicada de mãe e filha, sempre esperei que a experiência dela com a maternidade a fizesse me olhar e aceitar como sua verdadeira mãe.
Ouvi dizer que pela teoria espírita os filhos escolhem os pais antes de reencarnar. Então penso, se isso for verdade porque fui escolhida para ser sua mãe, se de verdade ela não me quer como sua mãe, me rejeitando tanto, e busca diversas vezes outras mães, como sua mãe postiça.

Estou muito ofendida e magoada, pois não me considero uma mãe ausente desligada. Posso não ter tido efusivas e frequentes demonstrações de afeto com abraços e beijos, nem verbalizar constantemente “eu te amo”. Porém considero que carinho e afeto também se revelam em cuidados especiais, em estar disponível sempre que fui solicitada atendendo-a no que fosse preciso, sobretudo para cuidar do meu neto, ou até mesmo ouvindo-a em suas reclamações em relação ao filho, marido, casa, cansaço, etc, etc.

Deixar esse registro escrito serve para lavar minha alma, colocar toda essa mágoa para fora e limpar essa ferida tão doída de incompreensão e rejeição.
Desde a minha separação conjugal há meses atrás, até agora ela nunca me perguntou mãe como você está se sentindo? Está precisando de alguma coisa? Não senti em momento algum qualquer tipo de preocupação comigo.
Ao contrário parece que para ela fica subjacente que eu sou a grande culpada da separação e não a vítima dessa história.

Será que algum dia ela vai me descobrir e aceitar como sua mãe, não meramente biológica, mas no sentido pleno, quero dizer como uma mãe que é realmente reconhecida e amada. Eu tive um relacionamento difícil com minha mãe, com ausência de demonstração de afeto e verbalização do eu te amo. Contudo eu nunca desejei ter outra mãe e sempre a reconheci e amei como minha mãe no sentido pleno dessa palavra.

Lágrimas sentidas rolam pela minha face, revelando toda minha amargura. Mas tenho sempre rezado e pedido a Deus e a Nossa Senhora para nos aproximarmos de fato como mãe e filha, criando um relacionamento de amor. Rezo sempre a Salve Rainha nessa intenção. É também a graça que sempre peço quando vou à igreja, ou ao rezar em minhas caminhadas.
Mas também me pergunto: Até quando ela vai procurar uma mãe? Por que não me vê? Não me aceita? Por que tanta rejeição?

Por outro lado, também penso: mãe postiça – é mãe que de fato não é mãe!!!

Autor(a): Maria Agusta Carvalho

 

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