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LITERATURA / CANTO DO CONTO

O CÃO MISTERIOSO
publicado em: 05/07/2018 por: Lou Micaldas

No ano de 1999, meu pai comprou uma casa com um quintal enorme, com muitas árvores frutíferas. Mangueiras, abacateiros, amoreiras e outras, faziam sombras muito agradáveis no quintal. Sendo viúvo e aposentado, meu pai chamou-me para morar com ele, já que eu pagava aluguel e tinha um filho para criar. Meu marido era caminhoneiro, estava sempre viajando e assim, aceitamos construir uma casa nos fundos do quintal do meu pai, respeitando as árvores que embelezavam o quintal.

Como o terreno era todo murado, eu resolvi fazer a casa dos meus sonhos. Fiz uma casa pequena, pintei de azul e coloquei jardineiras sob as janelas. Eu era apaixonada por plantas.

Em vez de um muro delimitando a minha casa, eu resolvi fazer uma cerca baixa, de madeira, que pintei da cor branca e deixava a mostra o meu maravilhoso jardim. Ficou linda!

Durante muitos anos eu sonhara em ter uma casa bem aconchegante, com muitas flores e agora, eu exibia toda orgulhosa, a minha casa para a família.

Meu jardim era o meu passatempo preferido. Eu conversava com as plantinhas, animava carinhosamente as que estavam murchando e parecia que elas me entendiam. As roseiras anãs, que eu plantei junto à cerca, davam rosas enormes! As "Onze horas" derramavam seus ramos repletos de flores. Cravos, Antúrios, Hortênsias, Dálias, Jasmins e outras flores, cresciam de forma incrível, perfumando o meu jardim maravilhoso! Orquídeas exibiam-se em xaxins presos nas árvores, embelezando enormemente o quintal. Violetas cresciam nas jardineiras das janelas. Eu estava radiante! Eu ficava horas no jardim mexendo, adubando a terra e arrancando as ervas daninhas. O meu jardim tornou-se o meu lugar preferido.

Certo dia, meu pai chegou da rua com um cão. Era um cão de porte médio, todo preto e com um olho azul e outro verde. Meu pai o recolheu muito doente, deitado em uma encruzilhada. Levou-o ao veterinário, deu-lhe o nome de Titã e o adotou.

Não sei por que, eu não gostei da forma com que aquele cão me olhou...

Nunca fui apegada a animais, embora não permita que ninguém os maltrate. Sempre compreendi que quem tem um animal tem que cuidar dele. Dar banho, catar pulgas e carrapatos, levar ao veterinário, vacinar e dar amor e carinho. Sinceramente, eu não teria paciência. Eu gostava mesmo, das minhas plantas!

Meu filho Beto tinha dez anos e apaixonou-se pelo cão. Dava banho, levava-o para passear na rua e brincava com ele quando não estava na escola. Meu pai providenciou uma casa de madeira, colocou em uma área coberta e ele se adaptou muito bem.

Titã só não gostava de mim. Eu sentia que ele me observava de um modo que me causava medo. Talvez porque eu tivesse medo, ele implicava comigo, deitando-se no portão todas as vezes que eu queria sair. Se eu tentasse tirá-lo, ele rosnava com os dentes à mostra. Só o Beto conseguia tirá-lo dali.

Meu pai adoeceu e não pode mais ficar com Titã. Eu queria arranjar uma nova família para ele, mas, não podia separá-lo do meu filho. Ele amava muito aquele cão e sofreria muito se o perdesse. Concordei em que ele ficasse com Titã, com a condição de que cuidasse dele e o mantivesse longe das minhas plantas. Condição aceita.

Os meses passaram e Titã crescia com a velocidade do vento em noites de tempestade.

Tornou-se um cão enorme, com mais de 50 quilos, maior que um Labrador. Ele era o dono do quintal! Corria, brincava de esconder com o Beto e rolavam juntos pelo chão.

Era um cão inteligente, entendia tudo o que o meu filho falava e era lindo!

Beto ordenava e Titã sentava, deitava, rolava, fingia-se de morto e corria atrás das folhas das árvores que se espalhavam pelo quintal. Era lindo vê-los, juntos!

Quando as noites ficavam frias, eu permitia que Titã dormisse no tapete junto à cama do meu filho. Mas, seu espírito vigilante, andava pela casa tomando conta de tudo, nos protegendo.

Aos poucos, comecei a gostar daquele cão. Mas, ele continuava a me olhar estranhamente.

E sempre que ele me via cuidando do meu jardim, ficava sentado no quintal, olhando-me fixamente. Quando ele percebia que eu ia sair, deitava-se no portão, impedindo-me de passar. Isso acontecia sempre. No portão da minha casa ou no portão da frente da casa do meu pai, que dava para a rua. Eu não conseguia que ele me obedecesse! Ele gostava de implicar comigo e eu tinha respeito por ele. Só o meu filho conseguia tirá-lo do portão.

Certa tarde, eu estava enfeitando o meu jardim com muitas lâmpadas pequeninas e coloridas, pois o Natal se aproximava, quando notei Titã me observando.

Olhei para ele e disse:

- Você não gosta de mim, não é moleque? Por quê? Que mal eu lhe fiz?

Não faz mal, eu tenho as minhas plantinhas. E você, já sabe: longe delas!

Eu sabia que se ele quisesse entrar no meu quintal, ele o faria com a maior facilidade, dado o seu tamanho. Seria muito fácil para ele pular a cerca.

Ele ficou ali parado, me olhando fixamente, só se afastando quando eu entrei em casa.

No dia seguinte, eu precisei sair para comprar os presentes de Natal, e ao sair, aconteceu o mesmo de sempre. Titã deitou-se no portão impedindo-me de sair. Quando eu mandava que saísse, ele rosnava mostrando-me os enormes dentes. Beto assoviou e ele obedeceu imediatamente. Eu dei ordens expressas para que meu filho prendesse o cachorro na corrente quando fosse para a escola. Se ele estivesse no portão quando eu voltasse, eu não poderia entrar em casa.

Ao regressar, com as mãos carregadas de sacolas, levei um susto! Titã estava solto, junto ao portão do meu pai, que dava para a rua. Incrivelmente, não impediu a minha entrada. Parecia estar me esperando. Não percebendo nenhum traço de agressividade, resolvi entrar. Ele acompanhou-me andando calmamente ao meu lado. Estranhamente dócil! Sei que é loucura, mas, Titã parecia sorrir com os olhos.

A primeira coisa que notei foi a grossa corrente arrebentada, presa ao chão com cimento. Não sei como ele conseguiu arrebentá-la.

Quando cheguei junto ao meu portão... Quase tive um ataque!

- MEU JARDIM! MINHAS PLANTINHAS! TUDO DESTRUÍDO! ARRASADO!
Titã havia destruído todo o meu jardim. Pisoteou as flores, arrancou as plantas pelas raízes e esburacou todo o meu quintal. Eu chorava copiosamente, olhando com tristeza a destruição de todo o meu trabalho de meses. Fiquei louca de raiva! Titã me olhava como se estivesse se divertindo muito, abanando a cauda rapidamente e dando pulinhos. Parecia rir de mim!

Quando o Beto chegou, avisei que daria o Titã para alguma outra pessoa. Doía-me o coração ver a tristeza do meu filho e também a do seu cachorro, mas, eu estava com muita raiva.

Um mecânico, nosso conhecido, que morava em uma comunidade longe da minha casa, mas que sempre admirou o porte magnífico do cão, quis ficar com ele. Levou-o, apesar das lágrimas do meu filho e das minhas lágrimas, escondidas.

Dois meses se passaram e a tristeza tomou conta da nossa casa. Eu sofria pelo meu jardim que se fora. Meu filho sofria com a saudade do Titã. Meu pai sofria com a ausência das visitas que Titã lhe fazia e até o meu marido estava sentindo falta da acolhida do Titã quando ele regressava das suas viagens. E para falar a verdade, eu também estava sentindo muita falta daquele cão. Eu só percebi o quanto o amava, depois que ele se foi. Eu não conseguia dormir, pensando se ele estaria sofrendo, com fome, com frio e com saudades.

Prometi a mim mesma que o traria de volta. Não podia continuar a ver a nossa casa tão triste. Peguei meu filho pela mão e disse:

- Vamos procurar o Titã! Vamos trazê-lo de volta. Também estou morrendo de saudades.

Nos abraçamos rindo e chorando ao mesmo tempo.

Chegamos à comunidade e perguntando aqui e ali, encontramos a oficina do rapaz que o levara. Quando ele nos atendeu, contou-nos o seguinte:

- O cão estava acorrentado na oficina, quando o chefe do tráfico do morro passou, olhou o cão e disse:

- Esse cão é meu. Solte-o e você verá.

Quando o mecânico o soltou, Titã correu para o traficante pulando de alegria e lambendo o homem todo. Não havia nenhuma dúvida: Titã era mesmo do homem.

Assim, o chefe do tráfico no morro o levou, chamando-o pelo nome de "Bandido". E ele era sempre visto passeando com o dono pelo morro. Eram inseparáveis!

Meu filho começou a chorar, acusando-me de deixar o seu cachorro na vida do crime.

Perguntei ao mecânico como poderia fazer para falar com o traficante. Ele me disse que o nome do homem era Tobias, mas, que eu não devia nem pensar em ir lá em cima do morro. Podia ser muito perigoso.

Dona: - Esqueça isso e volte para sua casa. Se subir o morro, estará correndo um grande risco.

Eu peguei o meu filho pela mão, fiz uma breve oração pedindo a proteção de Deus e que

Ele amansasse o coração do Tobias. Subi o morro com meu filho pela mão.

Os moradores do morro olhavam-me com curiosidade e a uma certa altura, um homem armado barrou a nossa passagem, perguntando: - O que você quer?

Falei que precisava muito falar com o Tobias, que era caso de "vida ou morte". Ele levou-me à presença do Tobias, que era um homem alto e moreno, de olhos verdes assustadores. Perguntou o que eu queria e eu, armando-me de toda a coragem, contei toda a verdade, desde o início, quando meu pai levou o Titã quase morto, para casa.

Falei do meu jardim destruído, da dor do meu filho e do meu arrependimento em dá-lo a outra pessoa.

Ele olhou-me muito sério, depois abaixou-se olhando diretamente nos olhos do meu filho que chorava sem parar. Levantou-se, andou dois passos para trás e sempre nos encarando muito fixamente deu um longo assovio. Titã surgiu de repente, e quando nos viu, correu ao encontro do meu filho, pulou em cima dele jogando o ao chão, e rolaram pelo barro, na maior felicidade. Meu filho ria e chorava ao mesmo tempo! Tobias assistia a tudo calado, mas, seus olhos brilhavam, contendo as lágrimas que queriam cair.

Quando Titã e o meu filho se acalmaram, Tobias abaixou-se, fez um carinho na cabeça do cachorro e disse para o meu filho:

- Cuide bem dele! Ele é um ótimo amigo! Agora vá de uma vez.

Já havíamos iniciado a descida, quando eu olhei para trás e vi Tobias limpando as lágrimas. Num ímpeto, sem pensar, eu voltei e enfrentando o olhar de surpresa de Tobias, dei um forte abraço naquele homem que apesar da vida criminosa que levava, demonstrava tanto amor a um animal.

Titã voltou à nossa casa e a alegria retornou. Tornou-se meu amigo também.

Nunca mais refiz o meu jardim... Já não era tão importante. De vez em quando compro alguma plantinha em vasinhos, cultivo e elas embelezam a jardineira das minhas janelas.

Mas o quintal pertence ao Titã! Hoje ele é um cão amoroso, mas muito independente.

Está conosco há 11 anos! Beto está com 21 anos e Titã é o seu fiel escudeiro, levando-o até o portão quando Beto vai para a Faculdade e esperando-o até que chegue.

Há alguns anos, perdi meu pai e meu marido em um acidente. A presença amiga de Titã nos livrou do desespero. Não sei o que seria de nossas vidas, se Titã não estivesse aqui.

Com certeza, sofreríamos muito mais e teríamos muito menos amor.

Autor(a): Nilda Dias Tavares

 

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