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LITERATURA / CANTO DO CONTO

O GUIA
publicado em: 17/07/2019 por: Lou Micaldas

Foi numa daquelas viagens maravilhosas, quando a gente deixa em casa os problemas, as preocupações, os aborrecimentos e tudo que possa nos tirar o prazer de apreciar novas paisagens, conhecer novos lugares, novos costumes, enfim, novas pessoas.

Como sempre, éramos muitos excursionistas, divididos em dois ônibus especiais. O sabor maior da viagem era termos um destino certo, meta diária a ser cumprida, porém sem pressa, sem aquele horário rígido dos ônibus de carreira. Onde houvesse alguma curiosidade artística, ecológica, ambiental que merecesse destaque, parávamos e tínhamos oportunidade de acrescentar algo mais à nossa cultura, e ainda documentar o fato com fotos ou filmagens.

Viajávamos o dia inteiro e parávamos em excelentes hotéis (pré-reservados), onde passávamos a noite. Pela manhã, um pequeno tour pela cidade, e... estrada novamente.

Estávamos subindo. Chegamos a uma linda Capital, onde permaneceríamos durante três dias.

Foi ali que se passou esta pequena história.

A Companhia de Turismo tinha em cada ônibus um guia, que ia dando as explicações necessárias para que os excursionistas pudessem tirar o máximo proveito da viagem. Cada trecho do trajeto, o porquê de cada construção, cada acontecimento importante ou mesmo interessante ali ocorrido, cada peculiaridade da região eram descritas com a maior fidelidade e competência.

No entanto, nas Capitais, eram contratados guias locais, profissionais que nos acompanhavam em cada passeio. Nossos guias se juntavam a nós, e passavam a ser também ouvintes, aprendizes.

Que dias inesquecíveis! As visitas à Igrejas, aos Museus, aos Fortes, os banhos de mar, naquele mar de um azul maravilhoso, as compras de artigos completamente novos para nós no Mercado da cidade, os Parques, as mansões de gente importante ao lado dos casebres dos favelados, a comida apimentada... o povo calmo, sem se importar se alguém estava com fome, levando horas para servir a refeição...

O Guia local nos levou a visitar tudo isto. Íamos em nossos ônibus, e eu procurava estar sempre perto dele, para não perder nenhuma explicação. Tudo me interessava. Tudo me encantava.

E foi então que percebi que ele volta e meia estava me fitando com mais frequência do que o necessário. Passei a ficar meio constrangida, e comecei a tomar lugar já não na primeira fila, mas a me misturar com os que ficavam lá pelo meio do grupo.

Continuava a me olhar. Parecia que falava só para mim.

Meu Deus do Céu! O que é isso?... Notei que ele era um senhor muito simpático, bonito até... cabelos já meio grisalhos, olhos verdes... alto, voz agradável, macia... e sempre me olhando!

Sabe de uma coisa? Não tem nada demais... vou olhar para ele também!
Assim pensei e assim fiz: passei a corresponder aos seus olhares, num flirt inesperado...

Último dia naquela cidade.

Programa para a noite: jantar com show, em um restaurante típico.

A recomendação que recebemos foi que nos vestíssemos bem. Coloquei um vestido de festa, penteei-me adequadamente e usei uma ligeira pintura.
Estava até elegante!

As mesas eram compridas, umas emendadas nas outras. Então, ficávamos todos juntos, uma fileira em frente à outra. O show foi inesquecível: bonito, colorido, muitas danças folclóricas, a música trouxe alegria e animação a todos.

Já chegando ao final, foram anunciados os nomes dos grupos de visitantes que ali estavam. E foram chamadas algumas pessoas de cada lugar para irem dançar lá no palco.

Nosso guia veio me convidar. Fiquei um pouco encabulada, pois por natureza sou tímida. Mas ele me tomou pela mão e me puxou. Falou ao meu ouvido: - "Vá, que irei em seguida".

Levando gentilmente minha mão direita aos lábios, beijou-a com suavidade, um beijo tão demorado, que enrubesci. Nossos olhos se encontraram, e nessa troca de olhares nos compreendemos.

Puxei a mão, ainda emocionada, e fui para o palco, entrar naquela dança maravilhosa e contagiante. Ele não foi.

Só nos encontramos na saída, ao tomarmos o ônibus de volta ao Hotel.
Perguntei-lhe apenas com os olhos.

Entendendo, respondeu-me:

"Eu não podia! Se tivesse ido dançar com você, teria perdido meu emprego..."

Autor(a): Lyne Mattos

 

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