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INFORMAÇÃO / CRÔNICAS DA LOU

A JACA E O BULLING
publicado em: 19/02/2016 por: Netty Macedo

A imagem de uma jaca, na página do Jornal “O Globo”, me trouxe a lembrança do tempo de criança, na calçada da nossa rua, Praça André Rebouças, no bairro na Tijuca.

A gente brincava, brigava, ficava de mal, ficava de bem e tudo voltava ao normal, apesar dos nossos apelidose até das “lutas livres”. Isso mesmo: nós, meninas e meninos, muitas vezes, resolvíamos as nossas contendas “no braço”.

Maurício, nosso irmão mais velho, deu a nossa turma a denominação de Curriola. E, soprando num chifre de boi, ele convocava a criançada toda pra se reunir na frente do nosso prédio.
E a gente brincava de bandido e mocinho, de polícia e ladrão, de bandeira, de pular amarelinha, de implicar e botar apelido. A palavra bulling não existia. Só existiam brincadeiras, brigas, namoros, e muitos apelidos. Quase todos tinham.

Um menino que era gordo, branquelo e cheio de sardas, ganhou o de “Mingau com canela;” eu, que também era era branquela e gordinha, recebi o de “Mingau sem canela;” o outro que era multatinho era “o Canela”. A Lulu que tinha os olhos grandes e esverdeados era “Olho de boi”; a Zeca, a mais alta e magrinha, a “Olívia Palito”; Maurício também era muito magro, tinha orelha de abano, e usava óculos, o “Zozo-Caveirinha”; a Vera Lucia era filha única, muito mimada, só andava, com vestidos “de festa”, sempre perfumada, passou a ser chamada de “Vera Gambá”. Outro menino que também era gordo e meio paradão era o “Jaca Podre”.

Crianças, que usavam óculos, não tinham saída; eram apelidadas de “quatro olhos”. A Lucinha que era muito comprida e muito magra era a Girafa; o Castrinho era o único menino que já tinha barba, era o “Papai Noel”. Apelido que adotou pra toda a vida e que fez sucesso na TV.
Ainda bem que naquele tempo não se conhecia a palavra bulling.

Hoje, quando vejo na TV, este assunto em evidência e sendo tratado com tanta severidade, como crime, intitulado de “bulling”, fico pensando: será que está certo policiar o relacionamento das crianças a tal ponto de não permitir que eles se resolvam sozinhos?

A nossa personalidade era construída a partir das nossas brincadeiras, das nossas brigas, dos argumentos nas discussões… e a nossa criatividade aumentava quando inventávamos os apelidos, E tudo ficava por ali mesmo entre nós.

Será que a repressão não causa o efeito contrário, estimulando a vilolência e rebeldia naqueles que já possuem tendência mais agressiva?
E será que a superproteção não impede a criança de aprender a se defender, a conseguir vencer sozinha e conquistar seu lugar no grupo? A ser independente?
O que se pode esperar desta nova geração tão cerceada? Tão protegida pela lei e, ao mesmo tempo, tão abandonada pela falta de conversa, de esclarecimento, de sugestões?

Um dia contei pra minha mãe que um menino da minha sala, no ”jardim de Infância” tinha a mania de implicar comigo, que ficava chutando a minha cadeira, que cutucava as minhas costas e que me chamava de "branquela".
Eu estava, é claro, pedindo socorro. Ela foi a escola pra me defender? Foi dar queixa na secretaria, sugeriu que eu fizesse queixa à professora?
Ela me colocou no colo e me disse com toda a calma: “ele é da sua idade, e é do seu tamanho. Você é muito sabida e tem capacidade de resolver este problema. Se ele voltar a implicar contigo, pense em algo que o faça parar com isso. Amanhã você vem me contar.
Saí dali encorajada.

No dia seguinte, nem esperei que ele começasse a implicar. Logo na entrada, ainda no pátio, encontrei o garoto encostado na parede. Com meus dois dedinhos, fui direto na bochecha dele e dei um beliscão. Ele ficou paradão.
Rimou e como!
Obrigada, mamãe, por me incentivar a ser independente!

Autor(a): Lou Micaldas

 

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