Logomarca Velhos Amigos
INFORMAÇÃO / CRÔNICAS DA LOU

ILHA FISCAL - ÚLTIMO BAILE
publicado em: 22/09/2015 por: Netty Macedo

A corte se esbalda

Os cem contos de réis que estavam guardados nos cofres do Ministério da Viação e Obras Públicas jamais chegariam ao Ceará. Os flagelados da seca que assolava o sertão que esperassem. A Monarquia brasileira tinha compromisso mais sério. Precisava mostrar ao País e ao mundo que continuava sólida, firme como as rochas da Ilha Fiscal, não um pedrouço de 5.200 metros quadrados, situado a 15 minutos de barco da Praça 15, onde ficava o Paço Imperial.

Estamos em novembro de 1889. As barbas do Imperador D. Pedro II eram muito mais fartas que o cabelo. Também, pudera. Sua Majestade mostrava-se bastante preocupada. A população andava insatisfeita com a inflação de 3% ao ano, pasmem! E os impostos absurdos criados pelo Ministro da Fazenda, o sr. Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, não o Afonso Vintém, como o chamavam nas esquinas.

O último fora o imposto compulsório sobre as passagens do bonde, daí o apelido. O Exército conspirava na caserna. As repúblicas vizinhas achavam que já era hora do Brasil caminhar com as próprias pernas. A Argentina estava prestes a declarar guerra por questões de fronteiras. Como dormir com um barulho desses? Prático e criativo, D. Pedro II teve uma idéia: era hora de dar uma grande festa, com a presença de todo o governo e da nobreza para provar que tudo estava em seu lugar, graças a Deus!

Um grande baile? Como? Perito em desvios do orçamento, o Ministro Vintém aprontou mais uma das suas. Achou melhor fazer chover na horta do Imperador do que na aridez nordestina. Então, não seria por falta de dinheiro. Mas, onde? A situação era delicada.

Se a festa acontecesse no Paço de São Cristóvão, os militares do Exército, cujo quartel da Artilharia ficava ali ao lado, teriam a faca e o queijo nas mãos para proclamar a República. Bastava cercar o Imperador e seu ministério. O mesmo aconteceria se o baile fosse realizado em Petrópolis.

Os revoltosos precisariam apenas explodir as pontes ferroviárias para deixar o governo imperial isolado. 
A solução seria uma ilha. Monarquista, a Marinha de Guerra brasileira, a terceira do mundo na época, daria a cobertura. E ainda poderia contar com a ajuda da Marinha chilena, que enviara o encouraçado Almirante Cochrane para exercícios na Baía de Guanabara.

Seria juntar o útil ao agradável. Só faltava escolher a ilha. Não foi muito difícil.

A Ilha Fiscal estava logo ali, com seu belo palácio recém-construído, aos moldes de outros majestosos que existem na região do Alverne, na França. Agora, era escolher a data, contratar o bufê e enviar os convites. E viva a Monarquia!

A festança aconteceria em outubro, mas a morte do tio D. Luís, em Portugal, atrapalhou os planos do Imperador, que a transferiu para o dia 9 de novembro, um sábado.

Naquela semana, desabou um temporal no Rio de Janeiro. Enquanto dois mil convites eram distribuídos aos representantes das nações vizinhas, integrantes do governo e nobres da Corte.

A cidade fervilhava. Os estoques das lojas de tecidos se esgotaram em poucos dias. Costureiras e alfaiates não davam conta de tantas encomendas.

Dondocas plantaram-se nos salões de beleza 72 horas antes da festa para conseguir quem lhes emperequetasse. Muitas ficaram três dias sem tomar banho e dormiram três noites sentadas para não estragar o penteado.

O sábado amanheceu com ares de feriado nacional. 
O comércio cerrou as portas ao meio-dia. O baile estava marcado para começar às 21h, mas os convidados se anteciparam. Às 18h, o Paço Imperial que, ironicamente, ganharia o nome de Praça 15 em homenagem à Proclamação da República, já estava apinhado de gente importante e bem-vestida que ali tomaria a barca em direção à Ilha Fiscal.

O transporte, no entanto, só começaria às 20h. Houve corre-corre, empurra-empurra e muita baixaria. Madames aprontaram barracos e outras pagaram mico, caindo na água do cais. Foi um prato para os jornais.

A Família Imperial veio de São Cristóvão. Quando a carruagem atingiu o Campo de Santana, um imprevisto. Havia um engarrafamento. D. Pedro II estranhou e pôs a cabeça do lado de fora para perguntar ao cocheiro a razão da demora. O serviçal foi objetivo: - A coroa caiu. - explicou.

Escabriado com os percalços da vida nacional, Sua Majestade sentiu um frio no estômago. Mas, fora apenas a coroa de pedra de uma das torres do prédio da Câmara de Vereadores que despencara no chão.

Momentos depois, novo susto. Já na Ilha Fiscal, quando era inaugurada a iluminação elétrica do castelo e a banda executava o Hino Nacional, o Imperador tropeçou numa presilha do tapete e só não levou um tombo porque foi amparado por jornalistas. Reagiu com bom-humor: - A Monarquia escorregou mas não caiu. Mal sabia ele.

As bandas executavam músicas patrióticas e outras, de Strauss. O Imperador só se levantou para dançar uma única vez. Foi com a filha do Barão Sampaio Viana, que completava 15 anos. Já a filha do monarca, a Princesa Isabel, e o genro, o Conde D'Eu, dois pés-de-valsa, se divertiram bastante.

Um banheiro para dois mil convidados

A maioria dos convidados, no entanto, preferiu ficar do lado de fora, já que o palácio era pequeno para tanta gente. Ficou menor ainda quando descobriram que só havia um banheiro para atender as necessidades de duas mil pessoas. Os cavalheiros se ajeitavam com facilidade, à beira-mar.

Para socorrer as mulheres, apertadas com a cerveja que era servida à farta, a criadagem teve que retornar ao continente para pegar... baldes. Sim, as damas iam para o cantinho, colocavam o balde embaixo do vestido e se aliviavam. No meio da festa, o Ministro das Relações Exteriores, o Visconde de Cabo Frio, resolveu fazer diplomacia.

Ao saber que havia perus no cardápio, ficou preocupado com o que poderia pensar a comitiva do governo peruano. Mandou poupar as aves e escondê-las no porão. A notícia vazou. Um grupo de nobres decidiu aprontar e subornou o dono de uma embarção, na tentativa de seqüestrar os animais.

A polícia deteve os fanfarrões. A imprensa gozou: "A polícia não encontrou os perus no barco, mas descobriu 604 peruas no baile". À meia-noite, os arautos soaram as trombetas anunciando que a mesa estava posta. Foi o estouro da boiada. Comilança desenfreada.

O comportamento dos convidados deixava a desejar. A Família Imperial viu-se obrigada a deixar a Ilha pouco depois da sobremesa.

Aí mesmo é que o circo pegou fogo. O baile passou das 6h, quando a criadagem recolhia objetos deixados pelos cantos. Entre eles 17 pufes (almofadinhas que realçavam os contornos das madames), vários lenços de cambraia, nove dragonas de militares, oito raminhos de corpete (usados para esconder o decote dos seios), dois coletes de senhoras e uma infinidade de ligas. O único negro convidado, o engenheiro André Rebouças, sintetizou em seu diário: "Foi uma bacanal!"

Surpresa depois do baile

Metade da verba que deveria ir para os flagelados da seca foi parar na conta bancária da Confeitaria Paschoal, a preferida da Casa Imperial; 24 contos de réis serviram para pagar o pessoal que trabalhou naquela noite: três chefs, 150 garçons e um exército de cozinheiros, ajudantes e serviçais da limpeza; os 26 contos de réis restantes foram empregados na decoração, incluindo dois gigantescos candelabros de prata e 24 pavões empalhados, que adornavam os cantos das mesas.

Mas, a grande atração da noite foi o bufê. Dava para fazer uma semana de enterro-dos-ossos mas, os militares liderados por Benjamin Constant e Deodoro da Fonseca resolveram que era hora de acabar com a festa da monarquia.

No dia 15, proclamaram a República. Apesar do equívoco do marechal, que bradou: - Viva o Imperador!

Origem

A Ilha Fiscal, então Ilha dos Ratos, foi criada pelos aterros das obras da primeira Alfândega e era ocupada com fornos para a queima de cal Dorsetshire, recebido da Inglaterra.

Para explicar o nome "Ratos", existem duas versões: a primeira proviria dos roedores ali existentes em grande número, provavelmente oriundos da Ilha das Cobras, de onde fugiram escapando dos ofídios que lá haviam. A outra lembraria as muitas pedras existentes nas suas cercanias, pedras de coloração acinzentada, semelhantes a ratos nadando.

Disputada na época pelos ministérios da Marinha e da Fazenda, o primeiro querendo instalar um posto de socorro marítimo e o segundo um posto aduaneiro, a rapidez do engenheiro Adolpho José Del Vecchio, diretor de obras do ministério da Fazenda, fez pender o lado da balança para este. Rapidamente elaborou projeto de edifício sólido e funcional dedicado à fiscalização alfandegária. Em 06 de novembro de 1881, foi lançada a pedra fundamental da edificação.

Pouco depois, a ilha foi visitada pelo Imperador D. Pedro II. Conta-se que, encantado com a magnífica vista da baía, tê-la-ia considerado "delicado estojo, digno de uma brilhante jóia". Del Vecchio, então, admirador do estilo gótico, projetou um castelo como os do século XIV em Auvergne, França.

O projeto recebeu Medalha de Ouro ao ser apreciado na exposição da Escola Imperial de Belas Artes.

Em 27 de abril de 1889, o edifício foi inaugurado com a presença do Imperador, utilizando-se no transporte a famosa Galeota Imperial (em exposição no ECM).
Da construção, sobressaem o excepcional trabalho em cantaria, executado por Antônio Teixeira Ruiz e auxiliado por excelentes profissionais do ofício, os mosaicos do piso do torreão, obra de Moreira de Carvalho, onde foram utilizadas mais de uma dezena de espécies de madeira, as belas agulhas fundidas por Manuel Joaquim Moreira e Cia., a pintura decorativa das paredes de autoria de Frederico Steckel, o relógio da torre de Krussman e Cia., os aparelhos elétricos de Seon Rode, e a magnífica coleção de vitrais, importados da Inglaterra, dois deles no torreão, com os retratos de D.Pedro II e da Princesa Isabel, ladeados pelos brasões genealógicos do Imperador e da Princesa.

Em 06 de setembro de 1893, irrompia no Rio de Janeiro a chamada Revolta da Armada. Nela, parte substancial da esquadra brasileira, comandada pelo Almirante Custódio de Mello, rebelou-se contra o governo do Marechal Floriano Peixoto.

Naquela época, a Ilha Fiscal ficou em meio ao tremendo duelo de artilharia travado entre as fortalezas leais ao governo e os navios e fortalezas (Ilha das Cobras e Villegaingnon) dos revoltosos.

Múltiplos foram os danos sofridos na edificação. Suas paredes foram atingidas por projéteis, agulhas de ferro derrubadas, telhados, fiação e móveis avariados, além de sérios danos nos vitrais.

Obviamente, as despesas de restauração seriam vultosas, razão talvez para o engenheiro do Ministério da Fazenda, Miguel R. Galvão, sugerir a entrega da ilha ao Ministério da Marinha, "em troca de algum edifício que melhor se prestasse ao serviço da Alfândega". A troca só se efetuaria quase 20 anos depois, não por um edifício, mas pelo Vapor Andrada, proposta pelo Almirante Alexandrino Faria de Alencar, Ministro da Marinha, ao seu colega da Fazenda Dr. Rivaldo Correia (1913).

Visitação Pública

Visitas guiadas à Ilha Fiscal, mostrando o prédio, salões, o torreão e as três exposições permanentes: "A História da Ilha Fiscal", "A contribuição da Marinha do Brasil no desenvolvimento social do país" e "A contribuição da Marinha do Brasil no desenvolvimento científico e tecnológico". Visitas podem ser realizadas de 5ª feira a domingo, nos seguintes horários: - Quinta, sexta, sábado e domingo: 13h, 14h30 e 16h (exceto nos segundos finais de semana de cada mês).

- Vendas de ingressos: nos dias de visitação, das 12h às 16h, no ECM, de onde saem os passeios.

- Agendamentos para grupos: 2233-9165 e 3870-6992.
Eventos: Contatos pelo telefone 3870-6926

Reportagem extraida do Site: www.odia.ig.com.br
Colaboração: Nanci P. Santiago 
Correção: Anna El
iza Fürich

Fonte: http://www.odia.ig.com.br

 

CLIQUE AQUI PARA ENVIAR SUA OPINIÃO SOBRE ESTA MATÉRIA

 

 

 

 

 


VOLTAR
AO TOPO DA
PÁGINA