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LITERATURA / CRÔNICAS

‘VOCÊ QUE FINANCIA!’
publicado em: 26/12/2016 por: Lou Micaldas

Como as crianças já tinham crescido — e a crise havia chegado —, a família de Walter abriu mão do Papai Noel generoso e passou a organizar um amigo-secreto nos almoços de Natal. Era a vez de Renata dar o presente.
— Meu amigo-secreto é um cara que não larga o telefone... Tá sempre assistindo futebol... E tem mania de pedir um pedaço da sobremesa dos outros...
— É o Walter! — Afirmou Marcelo, o tio fanfarrão.
— Walter!!! — Renata e os demais ratificaram.
Walter, sorridente, levantou da cadeira, beijou a irmã e agradeceu enquanto desembrulhava.
— Poxa, obrigado! Mas esse negócio de sobremesa não é sempre, viu? Deixa eu abrir aqui... Olha só! Ganhei um uísque!
— Vou querer um golinho, hein! — Tio Marcelo brincou com fundo de verdade.
— Depois, tio... Depois! Agora é minha vez aqui. Vamos lá: minha amiga-oculta é vaidosa... Todo mundo da família gosta dela... Tá sempre perfumada... Vive dizendo: “Francamente, né?”...
— Juliana!!! — Gritaram todos.
Juliana, irmã de Walter, também agradeceu enquanto abria o pacote.
— Obrigada, Waltinho! Deixa eu abrir aqui... Olha só... Um tênis!
— Gostou?
— Amei! Muito! Mas acho que não é meu tamanho.
— Poxa, que pena. Sabia que você queria um tênis de corrida, mas não quis perguntar quanto você calça pra não dar bandeira.
— Não tem problema, não. Depois me diz onde você comprou que eu troco lá.
— Beleza. Comprei ontem no BarraShopping.
— Como é que é? — Perguntou Juliana com alguma indignação.
— Não podia ter comprado ontem?
— Não tô falando de quando, tô falando de onde. Você... Você comprou isso num shopping?
— Foi. Por quê?
— Porra, Walter...
— Aí pegou pesado — Tio Marcelo concordou diante do olhar de reprovação de todos.
— Que foi, gente? — Walter ainda parecia não entender o que tinha feito de errado.
— Como “que foi”, Walter? Eu tava crente que você tinha comprado meu presente aqui na Uruguaiana. Na barraca do Cesinha, sei lá...
— Era para eu ajudar o Cesinha? É isso?
— Caguei pro Cesinha, Walter. Qualquer barraca! Pode até ser na Praça Saens Peña, menos num shopping!
— Mas não é errado?
— Errado é comprar isso numa loja. Pagou quanto nisso?
— Gente... acho indelicado dizer...
— Pagou quanto, Walter? — Berrou Tio Marcelo.
— Uns 250...
— Jesus Cristo! — Tio Marcelo já reagia como se alguém tivesse morrido.
— Duzentos e cinquenta? — Murmurou Juliana.
Walter, que estava na defensiva, resolveu reagir:
— Gente... Desculpe. Eu prefiro pagar 250 numa loja que pagar 50, 40 ou até dez na barraca de um vagabundo qualquer e financiar o crime.
— E o que você fez não foi isso? Você financiou crime muito maior, Walter! — Juliana afirmou enquanto segurava o pé do tênis com nojo.
— Ah! Quer dizer que eu financiei crime?
— Claro, porra! Você pagou imposto. Você tem noção?
— Não sei se entendi...
— Metade desses 250... De repente até mais que a metade...
Tudo isso é imposto, Walter! E sabe pra onde vai esse imposto? Imposto vai pra propina de um empreiteiro, Walter! Imposto vai pra campanha superfaturada com caixa dois do PT, Walter! Imposto vira auxílio terno, Walter! Imposto vira brilhante no pescoço da mulher do Cabral, Walter!
— Pelo amor de Deus! Você que financia essa merda, garoto! — Tio Marcelo já estava bebendo por causa do desgosto. Walter percebeu o que tinha feito, ficou em silêncio por alguns segundos, sentou-se e, olhando para o nada, comentou consigo mesmo.
— Eu não sabia...
— Pois é. Se você tivesse comprado meu tênis por 50 na barraca do Cesinha, uns R$ 5 no máximo acabariam no bolso de um miliciano qualquer. Isso não compra nem uma bala de fuzil. Francamente, né?
Walter levantou novamente. Parecia ter encontrado uma solução para o deslize.
— Olha... Calma... Esse problema tem solução. Você vai lá no shopping e solicita a troca. Vê o que está escrito aí na etiqueta! — Aqui tá escrito “Tênis Running — Branco — Tamanho 36 — Ardidas.” Peraí... tá “Ardidas” em vez de Adidas?
— Tá! — Respondeu Walter sorrindo.
— Peraí! Você enganou a gente? Era pegadinha, Walter?!?!?
— Rá! Pegadinha, pô! Vocês acharam mesmo que eu ia quebrar o clima?
— Walter... você não tem jeito, hein! Eu já tava tendo um troço aqui! Você não presta!
Todos riam às gargalhadas da brincadeira, lembrando das reações de um ou de outro.
O clima só foi quebrado quando foram surpreendidos pelo som de um copo quebrando seguido pelo de um corpo caindo ao chão. Era tio Marcelo.
— Chama a ambulância pro tio Marcelo, gente! — Gritou Renata.
— Calma. Ele só bebeu demais, Renata.
— Eu sei! Mas foi o uísque que eu te dei, Walter!
— E o que que tem?
— Comprei num camelô do Saara.
— Liga pra ambulância, gente!

Autor(a): Antonio Tabet
Fonte: Jornal O Globo

 

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