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LITERATURA / CRÔNICAS

A SEMANA EM QUE VIREI SUECA
publicado em: 24/05/2019 por: Lou Micaldas

Nunca vi tantos homens empurrando, sozinhos, carrinhos de bebê. E sem babá na praça. Isso diz muito de uma sociedade

Imagine uma cidade feita para humanos. Cordiais. Onde não há sobressaltos a cada minuto e tudo funciona, sem animosidade, numa semana ensolarada de maio. Não se escuta uma única buzina. Carros e bicicletas param bem antes das faixas de pedestres, para não assustar quem caminha. Motoristas e ciclistas sorriem.

Ruas, ônibus e metrôs são imaculadamente limpos. Áreas de piquenique e jardins de tulipas estão lotados para aproveitar a luz, pois anoitece só após as 21h. Nenhum papel ou lata no chão. Só cigarros, poucos. Os ônibus baixam a suspensão para facilitar o ingresso dos passageiros. Nas ladeiras, há corrimão. Nas escadarias, há estreitas passarelas para rolar os carrinhos de criança ou de compras.

Não existe banheiro separado para homem e mulher, menino e menina. Isso diz muito de uma sociedade. Sinal de mais respeito. Mais igualdade. A moda cultua a simplicidade, como o design sueco de interiores. Cores são discretas e acompanham os tons pastéis das casas, ocre, óxido de ferro, bege. Prédios não têm garagem nem porteiros. Não há taxas de condomínio. Moradores dividem gastos com manutenção. Não há empregadas domésticas.

Nunca vi tantos homens empurrando, sozinhos, carrinhos de bebê durante a semana. E sem babá na praça. Isso também diz muito de uma sociedade. A licença parental — que inclui pais e mães e, claro, homossexuais, porque não há diferença perante a lei — é de 480 dias. São 90 dias de licença para a mãe e 90 dias para o pai. Os restantes 300 dias, o casal divide como preferir. Licença simultânea, só 30 dias.

Comem cedo. Às 11h30, restaurantes já enchem para o almoço. Jantar, 18h. Estocolmo é “a Veneza do norte”. Um arquipélago de 14 ilhas unidas por 53 pontes e banhadas pelo limpo Lago Mälar e o Mar Báltico. Um terço da cidade é coberto de canais, outro terço por zonas verdes. São 18 horas diárias de luz no verão e 6 horas no inverno.

Mitos cercam a Suécia. Primeiro, foi o amor livre, quase promíscuo. Depois, uma propensão ao suicídio nunca confirmada. O país tem o nono maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). O custo de vida é alto mas os salários também são. O imposto é salgado, mas o retorno compensa.

Há o medo do avanço da extrema-direita, os Democratas da Suécia, partido xenófobo. A Suécia tem 10 milhões de habitantes, dos quais 1,7 milhão imigrantes. Nos últimos anos, recebeu 163 mil refugiados. A tradicional solidariedade com os povos está ameaçada pelo nacionalismo anti-imigração. Críticos citam o uso inédito e isolado de granadas por gangues em “zonas vulneráveis”.

A Suécia é um dos países mais seguros do mundo: 1,1 homicídio por 100 mil habitantes. O maior crime é o pickpocket (furto). A edição dominical do Svenska Dagbladet tinha 30 páginas de Política, 44 páginas de Cultura, 24 páginas de Turismo e Gastronomia. Os jornais espelham a sociedade.

Só a Suécia, com sua consciência ambiental, produziria uma Greta Thunberg. Aos 15 anos, ela fez uma greve escolar pelo clima. Num país que obriga a estudar, matou aula contra o aquecimento global. Suas tranças e articulação são agora famosas em conferências mundiais.

Não existem paraísos, em nenhuma latitude. Seria o cúmulo da ingenuidade comparar Suécia e Brasil. Ou Estocolmo ao Rio. Mas podemos fazer tudo para reduzir a falta de escolaridade, a violência armada e a miséria. Vamos barrar delírios indefensáveis e tornar nossas cidades espaços civilizados, que valorizem a vida e o convívio social. É preciso.

Autor(a): Ruth de Aquino
Fonte: oglobo.globo.com/cultura/a-semana-em-que-virei-sueca-23690122
Colaborador(a): Raimunda Muniz

 

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