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LITERATURA / CRÔNICAS

AVÓS
publicado em: 14/11/2017 por: Lou Micaldas

Perder minha última avó é como levar um sacolejo geral que me recorda da finitude dos corpos, de todos esses clichês que só são clichês porque são verdades

Acabo de perder minha última avó.

Desde criança, eu me sentia um sujeito privilegiado por ter três avós. Não duas, como todo mundo, mas três. Lembro-me de me gabar disso com os colegas de escola. Não bastasse, minhas três avós eram totalmente diferentes entre si, quase como personagens de um seriado de humor, em que cada uma assume uma personalidade oposta à da outra só para gerar situações cômicas. Por isso, perder minha última avó é como levar um sacolejo geral que me recorda da finitude dos corpos, da importância de aproveitar os parentes e os amigos enquanto é tempo e todos esses clichês que só são clichês porque, antes de tudo, são verdades absolutas.

Cresci muito próximo das minhas avós. Seja em intervalos à tarde, após a escola, quando meus pais ainda estavam trabalhando; seja em longos almoços de final de semana, com a casa cheia. Sem dúvida, cada uma delas ajudou a me formar de modo especial. Sobre minha tia-avó Iacy (que é quem considero a terceira avó), já escrevi muito aqui: graças a ela, virei escritor. Iacy (ou apenas Cici) era professora aposentada, dona de cabelos grisalhos, óculos fundos de garrafa e expressão severa. Nunca teve filhos. Irmã de minha avó materna, não poderia ser mais diferente desta: era responsável, organizada, apaixonada por viagens, por filmes e por livros. Devo a ela minha paixão por cultura, a descoberta de minha veia artística e minha sede de desbravar o mundo.

Emília, minha avó materna, recebeu de mim os apelidos mais imaginativos possíveis: Miloca ou Tintinta. Baixinha, macumbeira, sempre munida de mil frascos de remédio na bolsa, vítima de muitas cirurgias e dona de uma voz rouca graça aos cigarros que fumava sem parar, sua casa em uma vila do Cachambi era uma espécie de portal mágico, com um gongá cheio de imagens, moedas e incensos e, na cozinha, frigideiras velhas que faziam os melhores bifes do universo. Muito além dos bifes, ela sempre alimentou minha imaginação, seja costurando fantasias para as peças de teatro da escola, me benzendo toda vez que eu ia embora com a proteção dos orixás ou me trazendo ensinamentos no mínimo peculiares (quando eu tinha 9, ela pegou uma cenoura e uma camisinha e me deu uma aula sobre doenças transmissíveis). Herdei dela toda minha loucura, teimosia e dramaticidade — e, sem esses três elementos, todos sabemos, não há escritor que sobreviva.

Então, minha avó paterna, Teresinha, ou simplesmente vó Tetê, a mais clássica das avós e, ao mesmo tempo, a mais misteriosa. Para começo de conversa, ela era a única ainda casada. Meu avô, militar da Aeronáutica, a conheceu quando servia em Natal e ali se apaixonou. Voou ao seu encontro e começaram a namorar. Trouxe para o Rio de Janeiro a dona Teresinha, que logo se tornou mãezona de seis filhos (todos nascidos em Natal, devo dizer, já que ela voava para lá só para ter os rebentos) e avó de infinitos netos, dos quais sou o mais velho. Também baixinha (eis aí uma teoria: todas as avós são baixinhas), católica fervorosa, vó Tetê usava de complexas técnicas investigativas para saber o paradeiro diário dos membros da família, numa eficiente triangulação — ligava para mim, depois para meu pai e então para minha mãe só para ter certeza de que estávamos bem, de que tínhamos levado casaco, de que a viagem tinha sido tranquila e, sempre, sempre, uma lembrança: “não esquece de rezar o Pai Nosso antes de dormir, hein?”

Nos fins de semana, quando toda a família se reunia, mandava Necy caprichar no almoço, com frango, carne assada e peixe só para garantir que todos sairiam satisfeitos (se ela mesma cozinhasse, se queimava). Como se não fosse suficiente, quando eu chegava, ela perguntava: “quer lasanha?”. Vaidosa, adorava passear no shopping, usar sapatos de salto (eu já disse que ela era baixinha) e passar horas cuidando dos cabelos e das unhas. Justamente por isso não gostava nem um pouco da ideia de envelhecer (mesmo na terceira idade, recusava-se a não pagar transporte público ou a comprovar a meia entrada do cinema). Nesse sentido, chego a ficar aliviado que ela tenha partido cercada daqueles que amava, sem prolongar as dores da idade. Com ela, aprendi que a família vem sempre em primeiro lugar, que faz bem fechar os olhos toda noite e agradecer pelas coisas boas da vida e que não tem problema dizer por aí que você tem os melhores e mais lindos netos do mundo. Avós têm sempre razão.

É engraçado que, logo após a ligação do meu pai, que estava no hospital para visitá-la e soube da parada cardíaca, minha reação foi correr para o computador e abrir este arquivo em branco, agora completamente preenchido. Saiu num jorro, me desculpem. Depois, liguei para meu avô — “Meneeeeeeezes”, como ela gritava. “Aconteceu”, ele me disse. Mas sua voz não era fúnebre, mas firme e serena, como quem entende todos os mecanismos do mundo sem grandes dificuldades. Meu avô é mesmo um sábio sem camisa, o sujeito mais tranquilo e bem-humorado que já conheci. As avós deveriam ser eternas. Acho que alguém já escreveu isso, mas não importa. De certo modo, elas são. Em seus filhos e seus netos, as avós são eternas.

Vá em paz, vó Tetê.

Autor(a): Raphael Montes
Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/avos-22061443

 

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