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LITERATURA / CRÔNICAS

COM AÇÚCAR, SEM AFETO
publicado em: 15/03/2018 por: Lou Micaldas

Cocaína, álcool, anfetaminas: tudo isso é moleza. Quero ver você manter a linha perto de um sorvete ou de uma pizza

Acabei de almoçar e tenho a tarde para escrever a coluna. Antes de começar, vou ao mercado da esquina com a desculpa de que está faltando algo na despensa, mas, na verdade, vou mesmo é para comprar um picolé. Tem gente que é alcoólatra, tem os viciados em drogas e tem até os dependentes de candidatos de extrema-direita. A minha queda é por sorvete e pizza, vícios que me fazem levar broncas homéricas dos médicos e ainda piores da minha mãe, que ainda por cima me obriga a frequentar uma câmara de tortura horrível chamada academia de ginástica.

Vida de viciado é sempre triste.

No mercado só tem uns picolés metidos a besta, nada de Chicabon ou picolé de limão. Maldito século XXl. Além de bestas, os picolés são caros.

É aí que aparece a voz do meu pragmatismo calórico, uma entidade que junta a lógica com a vontade de comer. O picolé custa R$ 8 e não tem nem cem gramas. Por R$ 20 você leva um pote enorme de sorvete. O mais lógico e sensato é comprar o pote, me diz a voz, basta fazer a conta, qualquer imbecil percebe.

O autoengano também é um vício terrível.

Quando chego em casa e sento em frente ao computador para escrever, nada de ideias, o que é um problema. E o que resolve qualquer problema? Sorvete.

Lá se vai um terço do pote.

O texto engrena, já cheguei quase na metade da coluna. Hora de um merecido intervalo, para refrescar as ideias. Refrescar? Bem lembrado. Mais sorvete.

Para o computador outra vez. Dou uma passada pelas redes sociais. Para variar tem treta rolando no Facebook. Isso merece ser saboreado. Assistir a um bate-boca virtual com uma tigela de sorvete na mão é como assistir a filme de super-herói no cinema com balde de pipoca no colo. Os malucos se matando, e você ali se divertindo. Ou melhor, engordando. O que é bem parecido.

Metade do pote já se foi.

Preciso retornar ao texto senão não vai dar tempo. Não consigo manter o foco, o que é estranho, já que eu li que doces ajudam na concentração. E recebi isso pelo WhatsApp, então só pode ser verdade. Vamos dar uma passada nas notícias on-line...Crivella, Temer, Pezão.... só assunto deprimente... deprimente? O que é um santo remédio para a depressão?

Misteriosamente o sorvete vai chegando no final. Sobrou um restinho.

As vozes do pragmatismo me dão mais uma dica: melhor comer tudo logo de uma vez, um restinho de sorvete não vai fazer diferença.

O problema é que já está na hora do Martín voltar da escola. Preciso sumir com o pote, afinal, se não há provas, não há crime. Vou jogar na lixeira do prédio, para não deixar rastro. Quando saio no corredor, a porta bate atrás de mim. Estou sem a chave. Todo castigo pro glutão é pouco. Escuto o elevador abrir. É o Martín, claro. Tenho um pote de sorvete vazio na mão. É pior que batom no colarinho.

— Papai! Você comeu um pote inteiro de sorvete! Vovó tem razão, você é um animal!

Um momento ruim sempre pode piorar.

Dizem que um tubarão pode sentir uma gota de sangue a quilômetros de distância. Minha mãe é igual, sente meus vacilos no ar mesmo morando em outro bairro. Ela liga e se junta com gosto ao Martín no linchamento moral.

Sou consumido pela vergonha e pela culpa.

Só há uma coisa que pode aliviar tanto sofrimento e angústia: uma pizza.

Pede tamanho giga, aconselha a voz.

Autor(a): Leo Aversa
Fonte: oglobo.globo.com/rio/com-acucar-sem-afeto-22486401

 

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