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LITERATURA / CRÔNICAS

ELES SABEM TUDO SOBRE VOCÊ
publicado em: 26/05/2017 por: Lou Micaldas

Todos os seus dados digitais são captados por uma grande rede. Fazemos o papel de peixinhos
“– Alô, de onde falam?
– Googles’s Pizzaria.

– Esse telefone não era da pizzaria do gordo?

– Sim, senhor. O Google comprou.

– Ok. Anote meu pedido.

– O senhor vai querer a de sempre?i

– A de sempre? Você me conhece?

– Segundo nossa planilha de dados do identificador de chamadas, nas últimas 12 vezes o senhor pediu meia quatro queijos, meia calabresa, massa grossa.

– Tá. Vai essa mesmo.

– Posso sugerir, desta vez, meia ricota, meia rúcula?

– O quê? Odeio verduras.

– É que seu colesterol não anda muito bom...

– Como você sabe?

– Cruzamos o número de sua linha fixa com seu nome. Temos seus exames de sangue dos últimos sete anos. E, segundo dados da seguradora, o senhor tem consultado um cardiologista.

– Mas não quero rúcula! Já tomo remédio.

– Não o suficiente. Pelo nosso banco de dados comerciais, já faz quatro meses que o senhor adquiriu uma caixa com 30 comprimidos. Parcelou em três vezes, segundo a administradora de seu cartão de crédito.

– Posso ter comprado mais remédio depois disso, em cheque ou dinheiro...

– Só se foi em dólares não declarados. O senhor emitiu apenas dois cheques nos últimos três meses. Suas retiradas em dinheiro costumam ser de R$ 700, possivelmente para pagar o salário de sua empregada, que recebe esse salário desde maio.

– Até o salário da empregada! Como você sabe?

– Pelo valor do INSS que o senhor recolhe mensalmente por meio do banco on-line...

– Vá se danar, intrometido!

– Desculpe-me. Usamos as informações para ajudá-lo...

– Chega! Estou cheio de Google, Facebook, Twitter, Whats-
App, falta de privacidade. Vou para alguma ilha deserta sem internet, celular e TV a cabo, sem ninguém para me vigiar!

– Entendo, senhor. Só uma última coisinha...

– O que foi agora?

– Seu passaporte está vencido.”

Esse texto não é meu. Recebi de minha amiga Renata (instagram @lifeselfcoaching).
Ela não soube dizer a origem. Pode ser de um autor famoso ou de um gênio a ser descoberto. Se ele se identificar, darei os créditos com prazer. Poucas vezes vi alguém descrever o que acontece hoje de maneira tão divertida e realista. Já não suporto ir à loja. Compro. Quero pagar.

– O senhor é cadastrado?

– Prefiro não fazer cadastro. Só quero pagar.

– É uma exigência da empresa.

– Querida, sei que é. Mais tarde meu nome entrará numa lista de dados, que será vendida. Daqui a pouco, receberei e-mails de lugares onde nunca pretendo comprar.

– Nós não vendemos dados.

– Sei que você não vende. Mas a direção da empresa vende. Cadastro, não faço.

Ela vai falar com a gerente, que se aproxima.

– A vantagem de o senhor ter cadastro é que vai ficar sabendo de nossas promoções.

– Sabe quantos e-mails recebo por dia? Duzentos! A maior parte de promoções, vendas especiais. Não dá mais.

Vendedora e gerente amuadas. Entrego o cartão.

Próxima loja:
– Tem cadastro?
– Grrrrrrr!!!!!!

Nunca minha intimidade esteve tão exposta. A sua também. Pelo cruzamento de dados, cria-se um perfil  do comportamento do consumidor. Você pode  acreditar que só deixou dados em empresas que jamais venderão cadastros. Aguarde. Um dia abrirá seu e-mail. Lá estará, por exemplo, um lançamento imobiliário de uma construtora da qual você nunca ouviu falar. As contas que você paga on-line, os papos que bate, os sites de relacionamento em que entra, o que publica no Instagram e no Facebook, tudo é captado por uma grande rede, onde somos uns peixinhos. Pior. Existem também tubarões, os hackers. Outro dia, o Instagram de meu sobrinho foi “roubado”. Ficou povoado por textos em russo e beldades seminuas. Teve de criar outra conta.

Nunca mais teremos a privacidade de antes, eis tudo.

Ou teremos? Bastaria preservar a vida pessoal nas redes sociais. Evitar preencher cadastros. Alguém consegue? Abro meu Instagram. Um amigo está no apartamento, no Rio de Janeiro, fazendo um selfie de camiseta e bermuda. No texto, diz que está saindo naquele momento. Quem quer saber disso, meu Deus? Ninguém. Como tantos de nós, ele apenas ficou viciado em se expor. E virou mais um peixinho na rede.

Autor(a): Walcyr Carrasco
Fonte: http://epoca.globo.com/sociedade/walcyr-carrasco/noticia/2017/05/eles-sabem-tudo-sobre-voce.html

 

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