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LITERATURA / CRÔNICAS

LER PRA ENTENDER
publicado em: 05/07/2017 por: Lou Micaldas

A internet mostra que o ser humano é muito mais falante e dono da verdade do que podíamos supor
Pode parecer mentira pra quem nasceu nos braços da internet, mas, até pouco tempo atrás, quase todos nós gostávamos ou pelo menos tínhamos o hábito de ler jornal de papel. Assinava dois e esperava ansiosamente pelos suplementos de sábado e pela revista de domingo. Eu sei que ainda existe, mas a informação digital é um fato irreversível. Particularmente, ainda gosto de abrir o jornal, sentir o cheiro, me dedicar ao ritual de virar e dobrar as páginas, mas também sou da geração que ainda ama os encartes de discos e prefácios de livro! Estou descobrindo agora que também me interesso por placas em exposições, aquelas que nos apresentam os trabalhos e seus autores.

Mas, voltando aos jornais de papel, é interessante lembrar que já se dizia, antes das redes: o jornal de hoje embrulha o peixe de amanhã! Querendo significar que as notícias passam rápido e perdem a importância numa manhã de feira. O peixe que a internet embrulha fede e se decompõe enquanto a notícia está sendo enunciada, é a impressão que tenho. De noitinha, o que saiu de manhãzinha já está tão surrado que causa bocejos, seja que notícia for. Pois a pressa da informação seguinte já mostra as primeiras sílabas. Acho que mais da metade importa mais pela velocidade do que pela consistência.

Mesmo aqui, nesta simples coluna, algumas tantas vezes mudei a escrita da semana por conta de algum assunto que nem eu, que em princípio não tenho obrigação com nenhum tema especificamente, consegui deixar pra falar depois.

O ideal seria escrever uma hora antes de enviar, pra que não ficasse tão defasada, porque, para os parâmetros atuais, sempre estará!

Vamos ter que falar da internet sempre, pois ela expõe o ser humano de uma maneira irreversível. Apesar de avatares, pseudônimos, seja lá que nome tenham aqueles que escondem as identidades, também estão se mostrando ou, no mínimo, nos deixando ver que o ser humano é muito mais falante e dono da verdade do que podíamos supor. E, ainda, o quanto não devíamos nunca ter matado as aulas de interpretação de texto! Pois nelas aprendemos o valor do significado das palavras dentro de um contexto e da sequência dos fatos. Nesta semana rolou um vídeo de alguém achando o discurso de Michel Temer razoável. Não me desesperei, é direito de cada um ter opinião. Porém, o que de cara estragou e me deixou, aí sim, em pânico, foi a criatura dizer que pretende “estagnar a economia”, como se isso fosse algo muito bom pra todos nós. Pois ele disse vários absurdos a meu ver e até usou o nome de Deus em vão, mas, isso, nem o rei das gafes e das mãos leves falou. Aí a pessoa, muito autoconfiante, grava um vídeo e, pior que isso, envia pro mundo digital... Não foi problema de timing, como se diz, foi problema de interpretação de texto.

Às vezes é inofensivo, como um papo de camarim: você, cansada depois de um show de duas horas, recebe todo mundo, e uns três ou quatro disparam: “Eu sou muito seu ídolo!”. Lembro a conversa no trajeto de um carro até um teatro. O sujeito soube que eu tinha o nome da minha avó e que eu sou muito orgulhosa disso e que sinto uma falta enorme dela até hoje. Então, começou a falar da vozinha dele: minha avó era uma mulher incrível também, forte, trabalhadora, morreu com 107 anos, completamente nítida! Respirei, engoli e disse: “Ainda bem, né? Imagina, tão velhinha e ainda embaçada!”. Ele riu comigo. Pra quem perdeu a piada, ele quis dizer lúcida e não nítida, nesse caso, foi uma graça, um lapso. O problema é quando a falta de discernimento descamba pros assuntos delicados e ninguém se entende.

Mas estou aqui escrevendo numa semana monotemática, em que Michel Temer foi denunciado por Janot, e o que estava um Deus nos acuda virou salve-se quem puder. Pelo que entendi, pra denúncia vingar, os deputados precisam votar. Pois é, você pensou o que eu pensei? Com aqueles deputados... Não dá um desânimo louco?

Existe um que está preso na Papuda, em Brasília, mas comparece à Câmara de dia. Dorme no domicílio fixo, que é o presídio. Porque não pode ficar ausente do emprego e ainda recebe seu salário. Da série nada faz sentido no Brasil! E os outros? Péssimas influências para esse que passa o dia com eles e dorme encarcerado, não? Aí, o (des)governo quer recolocar na situação os que dão sinais de que votarão a favor do futuro indiciado. Que loucas leis permitiriam que isso acontecesse? As nossas. Feitas por quem tem a má-fé como oração. Leis que protegem as práticas velhas de manipulação e corrupção. Mas é incrível que tudo esteja vindo à tona, não podemos ser os mesmos depois disso. "Estamos botando o país nos trilhos”, disse Temer, cinicamente.

Precisamos é frear bruscamente esses vagões desembestados, sem locomotiva e sem rumo há tempo demais!

Autor(a): Zélia Duncan
Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/ler-pra-entender-21535624
Colaborador(a): Maria Clara

 

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