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LITERATURA / CRÔNICAS

MORO E BOLSONARO FICARAM FORA DESSA
publicado em: 29/11/2018 por: Lou Micaldas

Eu queria uma crônica que tratasse de outra coisa. Desligasse o microfone do plenário, nem aí para as questões de ordem. Falasse baixinho

Eu queria uma crônica em que não estivesse acontecendo nada. Que ajudasse a baixar a temperatura do ambiente e resistisse à tentação de explicar o projeto de Estado a partir da quantidade de leite condensado que o futuro presidente passa no pão. Eu queria uma crônica que mudasse de assunto. Que fosse ali na esquina assim como quem não quer nada, desse uma olhada nas moças que se preparam para o verão e ao voltar falasse do que viu, sobre a capacidade de elas se redesenharem a cada estação e ficarem sempre mais bonitas. Eu queria uma crônica que baixasse a poeira. Que não tivesse parágrafos assustados sobre os conflitos que o futuro ministro da Justiça revela ao coçar o queixo quando lhe perguntam sobre a democracia do patrão.

Eu queria uma crônica que tratasse de outra coisa. Desligasse o microfone do plenário, nem aí para as questões de ordem. Falasse baixinho. Que celebrasse num murmúrio de estupefação a engenharia de um casal de passarinhos, talvez uma dupla de sabiás laranjeira, que outro dia montou um ninho no alto de um balançante bambuzal aqui no jardim. Uma crônica que encontrasse no desenho dessa escultura improvável, firme apesar da ventania do outono, a pílula de vida do Dr. Ross que o rádio da infância anunciava. Assim, uma palavra puxando a outra, o dia de quem lesse essa história feliz ficaria melhor, e o texto, todo prosa, teria cumprido sua missão.

Eu queria uma crônica sem palanque, que não repercutisse as últimas notícias e se orgulhasse da sua natural falta de relevância para com o cenário político nacional. Que nada tivesse a declarar sobre o capitão e o juiz, mas sobre uma padaria de fermentação natural que abriu no outro quarteirão, em direção à praia. Ou uma casa ali mais adiante, na esquina em direção à lagoa, de onde exala, assim que o sol se põe, o perfume extravagante da dama da noite, uma flor que parecia ter desaparecido do GPS aromático da cidade e lembra uma certa namorada, muito bonita, meio vesga, da adolescência. Eu queria ficar aqui pelo quintal do bairro, confirmando o que alguém já disse — a felicidade mora perto. Nada que estivesse a mais de quilômetro da mesa e do coração do redator seria relevante aos propósitos fundamentais de um escrito desse tipo: a vontade de levar um papo, acenar com carinho e deixar a vida se levar.

Eu queria uma crônica ligeira, que olhasse para o lado de lá do lado para onde estão todos olhando. Que estivesse desinteressada das coisas pseudamente graves do cotidiano adulto e atendesse a uma menina de três anos, cabelos cacheados, que me pediu de aniversário uma estratégia para vencer as competições de dança da cadeira na creche. O ideal seria um texto que soasse como um beijo de confiança nos doces poderes do futuro dela. Os podres poderes dos políticos corruptos seriam esquecidos. Nada de recorrer ao noticiário. Ao fundo da crônica ficaria tocando "I will", a balada mais bonita do álbum branco dos Beatles, e a música só pararia no exato momento em que a menina dos cabelos cacheados estivesse estratégica e vitoriosamente bem na frente da cadeira vazia.

Autor(a): Joaquim Ferreira dos Santos
Fonte: oglobo.globo.com/cultura/moro-bolsonaro-ficaram-fora-dessa-23228229
Colaborador(a): Maria Clara Ribeiro dos Santos

 

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