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LITERATURA / CRÔNICAS

PIJAMA AZUL E VESTIDO VERDE
publicado em: 19/11/2018 por: Lou Micaldas

País parou para se dividir em dois, com as eleições

Andamos todos muito chatos. Temos de admitir. É que juntou muita coisa num ano só.

Primeiro, o país parou para o Lula ser preso. Depois, parou na greve de abastecimento. Parou de novo, para perder a Copa, nos tombos e penteados do Neymar. Por fim, o país parou para se dividir em dois, com as eleições.

Eu sucumbi de vez, quando os shoppings começaram a decoração de Natal em outubro. E fiquei insuportável. Posso confessar isso, agora, porque passou — enfim, tirei meu pijama azul. Literalmente e metaforicamente.

O pijama azul é um estado catatônico que visto. Aqui em casa, todos já sabem: quando passo dias de pijama azul, é que a coisa está feia. Algo que os mais mecanicistas chamariam de depressão. Mas não é — sei, porque já tive muita depressão. É um tipo de ressaca. De tanto desgaste à toa. Eu, coitada de mim, votei pela primeira vez no PT, para justo perder.

Tenho três pijamas azuis e pratico o revezamento. Tomei cerveja de pijama, no sofá da sala, lendo a biografia da Jane Fonda. Comi paçoca de pijama, pedalando na ergométrica. Fiquei horas, pela casa, de pijama, imitando personagens dos desenhos da infância, aos berros: “Wilmaaaa!!!”

Até que vi, no Instagram, um leitor que conheci numa noite de autógrafos. Ele estava num vestido verde, dentro da cabine de uma loja, e afirmava na legenda da selfie: “Ainda volto lá e compro esse vestido. Promessa que fiz para a vida.”

Printei aquela imagem e me ocupei em imaginar como poderia fazer alguma coisa a respeito. Recorri a um sobrinho, que bolou um plano. Eles fizeram amizade pelo Direct e combinaram de se encontrar no shopping. Onde Matheus ganhou seu presente surpresa. Porque há de se ter brio, para colocar um longo daquele, verde-oliva, nos dias em que vivemos.

Eu, animada com o sucesso da empreitada, tirei meu pijama para escrever este texto. Que dedico a Fernando Gabeira — desde que o vi de tanga, numa foto, aos 10 anos de idade, fiquei apaixonada e inspirada pela sua coragem.

Num país como o nosso, é preciso bravura para enfrentar o simples passar do ano.

Fonte: oglobo.globo.com/opiniao/pijama-azul-vestido-verde-1-23241897

 

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