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LITERATURA / CRÔNICAS

POR QUE SIMPATIZO COM BEBEL GILBERTO
publicado em: 17/05/2019 por: Lou Micaldas

Quem acompanha o envelhecimento e o sumiço de João Gilberto, às vésperas de seus 88 anos, se entristece com o barraco público entre os filhos João Marcelo e Bebel Gilberto. Um drama quase ordinário, na vida de um gênio da bossa nova. Muitas famílias se desfazem quando o pai ou a mãe se tornam dependentes. Ressentimentos da infância vêm à tona. Diferenças de personalidade se tornam intransponíveis.

Colocamos cuidadoras? Melhor adaptar a casa, da cama ao banheiro, para evitar acidentes domésticos? Ou levar para um lar de idosos, com profissionais treinados para ouvir, dar banho, remédios e refeições balanceadas na hora certa? Mesmo nessa hipótese – uma opção difícil, por ser cara ou ruim –, a regra nas famílias é que só um cuida mesmo dos velhos. Às vezes, resolve morar com o pai ou a mãe. E dá de cara com um pesadelo: seu possível futuro. Tem gente que enlouquece.

Sem contar felizes exceções, os velhos caem e se machucam, não escutam direito, reclamam, esquecem quais remédios tomaram, fogem da fisioterapia. Os que têm dinheiro querem ir todo dia ao banco, aquela fila é uma diversão, o saldo é afirmação e o gerente vira parente. Alguns se afundam em dívidas, passam cheques exorbitantes a qualquer ser que dê atenção ou carinho. E há os velhos deserdados de recursos e amor.

Ninguém sabe o que acontece nas quatro paredes de cada família. O quanto existe de generosidade e ganância. Há versões e versões. Por vezes, processos. João Marcelo, 58 anos, o filho de João Gilberto que acompanha o cotidiano do pai pela internet, dos EUA, processa a irmã, a cantora Bebel Gilberto, 53 anos, por dar ao pai “só R$ 1 mil por semana” e “viver que nem uma rainha”. Acusa Bebel de sonegar informações sobre a saúde física e financeira do pai e torná-lo um prisioneiro. João Marcelo e Bebel são filhos de mães diferentes. Ela se mudou de Nova York para o Rio de Janeiro e passou a ser curadora do pai sob duas alegações: “confusão mental” e “absoluta penúria financeira”.

Por que simpatizo com Bebel? Porque eu também fui curadora provisória de meu pai. E sei o que significa. Em preocupação, agonia e tempo. Quem fica no hospital a noite inteira, quem cuida das cuidadoras, quem ensina a mesma coisa todo dia, quem mostra como usar o computador e o celular, quem troca as lentes dos óculos quando quebram, quem obriga a fazer exercício, quem busca seriados novos para entreter, quem veta o desperdício de um dinheiro que pode ser essencial em uma cirurgia, quem é o interlocutor dos médicos. Quem sente a falta depois.

João Gilberto não aceitou que o filho o ajudasse nas finanças. Deve ter tido suas razões. Bebel assumiu. João Gilberto é turrão, diz o filho. A teimosia exacerbada combina com a idade avançada e os achaques. Raro alguém aceitar com docilidade as limitações. Meu pai só aceitava – e muitas vezes mal – conselhos meus. Era como se dissesse com os olhos ou palavras, com resignação ou rebeldia: minha vida hoje depende de você.

Quem vive longe tem uma mania: criticar. Chega botando banca. Falta isso. Falta aquilo. Esse casaco está puído, não? Tem de trocar a cuidadora! Não existem fórmulas prontas nem uma só verdade. Nem sei se estou certa em me solidarizar com Bebel, que não conheço, nunca encontrei. Mas me parece que, mesmo em confusão mental, o idoso sabe discernir quem se responsabiliza por ele e quem é coadjuvante. Desejo que o maior intérprete de "Chega de Saudade" esteja consciente para não deixar machucar seu coração.

Autor(a): Ruth de Aquino
Fonte: https://blogs.oglobo.globo.com/ruth-de-aquino/post/por-que-simpatizo-com-bebel-gilberto.html
Colaborador(a): Denise Carvalho

 

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