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LITERATURA / CRÔNICAS

QUANTO VALE A SUA VIDA?
publicado em: 26/07/2018 por: Lou Micaldas

Adriana Ferreira Capitão Pinto, 41 anos. Mayara Silva dos Santos, 24 anos. Lilian Calixto, 46 anos. Michelle de Souza Pires, 30 anos. Alessandra Matos, 30 anos. Ivane Fretta Moreira, 60 anos. Raquel Santos, 28 anos. Maria de Fátima machado, 53 anos.

Essa lista foi elaborada numa busca rápida de cinco minutos no Google. Todas mulheres. Mortas por cirurgias plásticas ou procedimentos estéticos. Fora as outras muitas que padecem com sequelas graves e dolorosas por aí.

- Foi uma fatalidade

Disseram as clínicas. Foi uma fatalidade, disseram os médicos acusados. Vidas interrompidas. Famílias amputadas.

Foi uma fatalidade? Será? Por que tantas? Por que tão novas? O que isso pode nos contar? Qual o real significado de tantas intervenções estéticas em mulheres cada vez mais novas?

Para mim é um sintoma. Uma espécie de febre quando inicia o sarampo. De pintinhas numa catapora. Um aviso de que alguma coisa não vai bem. E precisa ser cuidada para que não piore.

Não foi fatalidade. É uma armadilha safada que a sociedade faz com todos nós. Principalmente com as mulheres. Uma exigência louca de perfeição que ignora a beleza que cada corpo, do seu jeito, sabe ter.

Tenho uma clientinha negra linda que sonha em ser loura e ter cabelo liso. Por que? Porque, mesmo novinha, ela já percebeu que há um padrão que a uns inclui. E a outros exclui sem cerimônia. Ai de quem não for magra, branca, loura, peitos firmes e bunda roliça. Até as crianças já sabem.

A busca das cirurgias e procedimentos invasivos é, sim, um sintoma gritante. Estamos vivendo numa sociedade doente, cruel e assassina, que nos empurra a buscar uma perfeição corporal que não existe.

Por isso uma intervenção puxa outra. Conserto o nariz. Depois turbino os peitos. Aumento a bunda. Busco a perfeição. Não vou parar nunca porque nunca serei perfeita.

Essa padronização de beleza é uma tentativa de controle social. Corpos e pensamentos devem funcionar no mesmo padrão. Para facilitar o controle do opressor que governa. Como toda lavagem cerebral bem feita, fica parecendo que é a gente que quer.

E, como bons imbecis satisfeitos, a gente acha que quer e muito. A gente se compara às mulheres maravilhosas das fotos do Instagram, dos filmes e vídeos, das novelas da tv. Como se isso não pudesse piorar, agora a gente se compara com a própria selfie.

A gente fica se consertando como um cachorro correndo atrás do próprio rabo, a gente procura plásticas. Cada vez mais novos. Cada vez mais cedo. Como se o corpo fosse um triste e amassado rascunho que precisa ser passado a limpo.

Sempre menos feliz , sortudo e interessante do que os amiguinhos de redes sociais. Sempre pior do que os outros. Mergulhada em infelicidade, a pessoa fecha seu diagnóstico:

- É o peito que é meio caído.

Ou a bunda que não é grande o suficiente. O nariz batatudo. As olheiras que não me largam. A barriga que nunca chega a tanquinho. Por isso minha vida não está tão legal. Mas se operasse...

Não é nada disso. O diagnóstico está errado. O que causa esse desgosto por pedaços do seu corpo é fruto de uma insatisfação interna. Muitas vezes uma depressão disfarçada. Uma autoestima baixa. Uma sensação de inadequação consigo mesmo. Sua frustração com a vida.

Entrar num procedimento é um gasto. Implica em risco. Risco de dor, de inflamação, de erro, de vida. Multiplicado por várias vezes, já que há procedimentos que precisam ser retocados a cada seis meses. Quanto vale a sua vida? Vale a pena correr o risco de viver tão pouco por quase nada?

Querer fazer uma plástica pode ser uma necessidade verdadeira. Há problemas reais. Mas também pode ser um sinal de alerta. Um sintoma de que alguma coisa não vai bem.

O correto seria que os procedimentos passassem por avaliações psicológicas também. Mas em tempos de Doutor Bumbum, nem exame de sangue se exige mais, imagine a ida a um psicólogo. Besteira.

Acredite, o que deixa a pessoa infeliz não é o nariz batatudo ou a bunda pouco redonda, mas a alma sofrida. E alma não há bisturi, nem botox que ajeite. A plástica que ajeita a alma se chama terapia. É trabalhosa. Exige dedicação, investimento e coragem. Muita coragem.

A coragem de se abrir. Se expor. Sentir. Relembrar. Repensar. E tentar de novo, mais uma vez. De uma nova forma. De um novo jeito. Porque vida é, sim, um série de intervenções constantes. Não de botox ou bisturis, mas de afetos e atitudes.

Exige a valentia de pegar sua própria vida pela mão e seguir. De parar de botar a culpa nos outros e assumir suas responsabilidades. Perceber que reclamar não resolve. Mas que agir, faz acontecer. Essa é a plástica que faz a diferença.

O preenchimento que traz seu amor de volta em três dias é o da alma. A escultura que te faz ser mais bonito, sexy e irresistível é o seu sorriso, se tiver todos os dentes, claro. Sua ética. Sua moral. Seu brilho no olhar. Sua capacidade de ser parceiro. Sua honestidade.

O que te faz sensual não é uma bunda cheia de silicone, mas a sua pegada. Sua performance afetiva. Sua capacidade de ter empatia pela dor do outro. Sua autoconfiança. Sua certeza de que tem sonhos a conquistar.

Segundo Vinicius,

“As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental.”

O que enfeia um corpo não são os quilos extras, os pneus de caminhão ou de Fusca, as estrias, as rugas. Nem as cicatrizes, marcas de luta pela vida. As pelancas, prova de que não morreu nova. O que enfeia é a alma cinza. Desbotada pelas mágoas velhas que não foram jogadas fora no tempo certo.

As feias são as murchas de sorrisos. As desencantadas da vida. As pessoas beges, sem graça. As que já não sonham. Nem riem de piada boba. As que não cantam, nem dançam. As que não mergulham no mar.

Um corpo bonito é o que me serve. Me acompanha. Me arrepia de prazer. Com tudo de defeito que ele possa dar. E corpos dão é defeito, viu? Cuide, mas não se importe tanto com isso. Defeito de corpo é teste da vida. É a vida botando a gente à prova.

Se seu corpo é saudável, não opere. Não se arrisque. Agradeça. Desfrute. Aproveite. A maior beleza da vida é a capacidade de ser feliz não no que é perfeito. Nada é. Mas no que é possível. Essa capacidade é o que nos faz mais lindos. Mais belos. Quem é feliz nunca é feio.

Mônica é carioca, professora e psicóloga clínica. Especialista em atendimento a crianças, adolescentes, adultos, casais e famílias.

Autor(a): Mônica Raouf El Bayeh 
Fonte: Facebook
Colaborador(a): Eliane Dutra

 

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