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LITERATURA / CRÔNICAS

SONHAR NÃO CUSTA NADA
publicado em: 29/06/2017 por: Lou Micaldas

De sonho em sonho, ela flutua. Não sabe mais que dia é hoje, que horas são, quando é a próxima dose do medicamento, já se cansou de exames e de tudo isso, e acha que envelhecer é maravilhoso, a vida poderia dispensar o remédio amargo de vez em quando.

De sonho em sonho, aparecem na moldura do tempo a sandália de couro, a pantalona estampada, o colar de riponga, os brincos e pulseiras. Descer a pé a rua Governador, para ir à faculdade no centro, era caminhar nas nuvens. Como num filme, a vida transcorria, as cenas se fechando cheias de mistério.

De sonho em sonho, remexe nos guardados, abre a caixa com as fotos amadas, outra com alguns postais, guardados zelosamente. De novo, inspeciona as gavetas onde as toalhas lindas estão perfumadas e plenas das digitais, os almoços festivos, o ruído das taças natalinas, brindes e risos.

De sonho em sonho, aparecem os rostos de uma nitidez encantadora, mas a sépia da saudade a impede de continuar. As lágrimas lhe toldam os olhos. Melhor apagar a visão do passado. Ele costumava dizer: “Sonhar não custa nada”.

E assim, de sonho em sonho, que é de graça, atravessa as paredes das casas habitadas, as filhas pequenas, a vida dando seus primeiros passos e o futuro lá na frente, acenando gentil. Ah, tempo implacável, que corrói parte de nossas vidas.
De sonho em sonho, a vistoria pela casa amada, uma oração para que Deus lhe dê o silêncio tão necessário, sem latidos de cachorros, por favor, Senhor! Prece diária, fervorosa, suplicante! É bom demais sonhar com a paz!

De sonho em sonho, ela projeta a casinha mil vezes desenhada. Já a aperfeiçoou tanto, melhorou a passagem para a parte íntima, corrigiu janelas e entradas de luz importantes e, depois de tanta correção, agora a planta lhe parece perfeita. Só falta encontrar o terreno no bairro amado e construir. Haverá tempo?

De sonho em sonho, ela pede tempo a Deus. Para conhecer parte desta felicidade terrena, o gosto de conceber a casa sonhada, no seu conceito de moradia, onde habitar um imóvel se torne algo absolutamente salutar, encantador, humano. Do ponto de vista da arquitetura e na visão benfazeja de morar com amor.

Mas o sonho não cessa jamais. Se a casa não se concretizar, restará a graça da esperança. Há de haver em algum reino celeste a morada eterna do regozijo, da paz e da alegria infinitas, no etéreo mundo onde o corpo glorioso flutuará pelas alamedas e jardins floridos.

De sonho em sonho, ela tenta esquecer um amor que, apesar de tudo, aquece seu pobre coração. Por um triz! Foi quase feliz. Mas, tem consciência de que a felicidade completa não existe nesta terra…

Autor(a): Marisa Bueloni mora em Piracicaba, SP. Formada em Pedagogia e Orientação Educacional.

 

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