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INFORMAÇÃO / DATAS ESPECIAIS

QUANDO TUDO ACONTECEU...
publicado em: 25/11/2015 por: Netty Macedo

- 1746: Nasce em Pombal, distrito de S. José d’el Rei (hoje Tiradentes), Minas Gerais, Joaquim José da Silva Xavier. Os pais são Domingos da Silva Santos, nascido em Portugal, e Maria Antónia da Encarnação Xavier, nascida na Vila de São José d’el Rei (Brasil).

- 1755: Morre Maria Antónia; o viúvo e os órfãos mudam-se de vez para a Vila de São José.

- 1757: Órfão de pai.

- 1780: Arregimenta-se como soldado.

- 1781: É promovido a Alferes.

- 1786: A mando do governador da capitania de Vila Rica, leva brilhantemente a cabo estudos demográficos, geográficos, geológicos, mineralógicos - quer de aplicação civil, quer militar.

- 1788: Envolve-se na Inconfidência contra a Coroa portuguesa

- 1789: Como conspirador, é preso no Rio de Janeiro.

- 1792: É enforcado em praça pública e depois esquartejado.

À BEIRA DO FIM...

Tiradentes incita os Inconfidentes.

- 1789, Rio de Janeiro.

A 1º de maio aparece na cidade o coronel Joaquim Silvério. Logo trata de visitar - e com que freqüência – o conde de Resende.

No dia 2, grande azáfama. Cubículos especiais são mandados construir em algumas das piores prisões. A sua guarda pessoal passa a ser constituída exclusivamente por portugueses. Dois granadeiros são encarregados de vigilância extraordinária. Informações sobre as origens de todos os seus soldados são solicitadas com urgência – estes são portugueses, aqueles são brasileiros....

Os granadeiros vigiam Joaquim José da Silva Xavier, conhecido por Tiradentes, por causa do ofício que aprendera com o padrinho. Agora é alferes do Regimento, pago por Vila Rica, Minas Gerais. Procurava gente que o ajudasse a libertar o Brasil através duma conspiração abominável.

Sabedor de tal crime, o governador de Minas havia encarregado o Coronel, amigo do suspeito, de seguir seus movimentos e comunicar seus achados diretamente ao
Vice-Rei. Tiradentes sonha. Ao ajudante de artilharia Nunes Cardoso, proclama: - Esta terra há ser um dia maior que a Nova Inglaterra! Mas as suas riquezas só as poderemos alcançar no dia em que nos libertarmos do jugo dos portugueses, para sermos os senhores da terra que é nossa.

Nunes Cardoso empalidece. Roga-lhe que nunca mais se refira a tais assuntos… Mas Tiradentes não desiste. Pede a várias pessoas que lhe traduzam livros políticos ingleses, também a Declaração da Independência americana. Alguns dos livros têm até referências elogiosas à República…

Em Vila Rica, na casa de João Rodrigues de Macedo, chegara mesmo a exibir a lista, por ele levantada, dos habitantes da capitania e comentara: - Têm Vossas Mercês aqui todo este povo açoitado por um só homem, e nós todos a chorarmos como negros – ai, ai... E de três em três anos vem um, e leva um milhão; e os criados levam outro tanto; e como hão-de passar os pobres filhos da América? Se fosse outra nação já se tinha levantado!

Os amigos pedem-lhe que pare. "Além disso, tens estado a ser seguido por dois granadeiros", informam-no. Tiradentes primeiro pensa em liquidá-los. Depois opta por regressar mais depressa a Minas, quem sabe se na mira de precipitar o golpe...

Pede um bacamarte emprestado e inicia os preparativos para a fuga. Mas, vigiado como anda, logo percebe que é impossível fugir. Esconde-se. Em viagem anterior, havia curado a chaga cancerosa no pé da filha de uma viúva. Pede-lhe ajuda.

O decoro manda que não alberguem homem em casa. Tiradentes, por sua recomendação, vai para casa do ourives Domingos Fernandes, guiado pelo Padre Inácio Nogueira, sobrinho da viúva. Aí entra, no dia 7de maio, por volta de dez da noite.

O desaparecimento de Tiradentes provoca pânico entre os adversários. Na manhã do dia 8, pede ao padre que visite o coronel Joaquim Silvério, que continua a julgar seu amigo. O delator, que periodicamente envia relatórios escritos ao Vice-Rei sobre as atividades do amigo, finge-se preocupado. Quer saber do paradeiro de Tiradentes para poder ajudá-lo...

Mas o padre é jesuíta, contorna a inquirição, afirma não morar na Corte. Silvério não desarma e, ao encontrar na rua, no dia seguinte, outro clérigo, pergunta pelo padre Inácio. - Tenho bom negócio a propor-lhe. O outro cai na esparrela e eis o padre Inácio arrastado para o palácio do Vice-Rei.

Pessoa comum, não resiste às ameaças, inclusive de morte. A teia começa a ser tecida.

INFRA-ESTRUTURA I

Na segunda metade do século XVIII, do Rio de Janeiro para o Norte, o processo econômico dominante é a monocultura agrária sustentada pela mão-de-obra escrava, uma espécie de feudalismo tardio importado da Europa.

Já no Centro, em Minas Gerais, e também em Mato Grosso, a presença de ouro e diamantes, recentemente revelada, produz outro tipo de sistema econômico. São Paulo era a província em que mais tomara forma uma população brasileira autêntica, pronta a tomar posse de tudo a que pudesse lançar mão: mineral, vegetal, ou… humano.

Depressa irrompem por Minas e Mato Grosso e não viram a cara ao confronto com aqueles que se lhes opõem. Assim, em 1708, no Rio das Mortes, chacinam os emboabas. Este é a alcunha tupi que davam aos "reinois" (portugueses que ensacavam ouro), pois emboaba quer dizer galinha ou pinto calçudo, evocação sarcástica das botas de cano alto usadas pelos portugueses que vinham da Metrópole para sacar e enviar para Lisboa o ouro do Brasil.

A cidade principal da capitania é Vila Rica, vinte mil habitantes, luxo, esbanjamento, aventura, sangue. E a nova situação afeta os mercados do Norte, pois "isto anda tudo ligado". O preço dos negros sobe consideravelmente nos mercados de escravos.

Tanto basta para que, no Reino, os poderosos imponham as suas vontades: esse ouro pertence à Metrópole e não à Colônia de onde é extraído. Se necessário, não vão hesitar em recorrer à força. Porém, o tempo é amigo da distância e esta é irmã do desrespeito.

Os escravos são trocados por ouro, através da Baía. As trocas comerciais estimulam o aparecimento de novas necessidades e, conseqüentemente, alarga-se o leque das ofertas. A sociedade prospera.

Em Minas, e também em São Paulo, há grandes feiras. Rasgam-se caminhos para o Sul, sedimenta-se o território. O gado vem do Rio Grande, quer para o abate, quer para a produção leiteira. A repressão aumenta, ciclo vicioso. Novas leis ditando os direitos da Coroa sobre o ouro.

Igualmente visando pôr fim ao contrabando, a revolta cresce e nessa revolta começa a germinar uma idéia: nacionalidade. Como todas as idéias, tem uma história e um precursor, que por sua vez tem nome:
Filipe dos Santos.

A PRISÃO

Os vultos assomam às janelas. Os mais afoitos saem à rua, timidamente, olham de longe, falam baixinho. Uma centena de soldados comandados pelo Alferes Francisco Pereira Vidigal impede o trânsito no quarteirão onde fica a casa do ourives Domingos Fernandes, contratador e marcador de prata.

O cerco aperta. A casa parece deserta. Um soldado informa que um homem se escondeu no sótão com uma arma na mão. Vidigal, incerto, acaba por mandar forçar a entrada. Irrompe no sótão, rodeado por dezenas de soldados. O homem escondido encara todos de frente, mas não reage, não fala.

Entrega-se. Veste o dólman. Põe o chapéu. - Que pretendia fazer com o bacamarte? -Resistir, mas são tantos…

INFRA-ESTRUTURA II

As contas do Rei são fáceis: seu, é um quinto de todo o ouro brasileiro. Não admira que aumentem as confrontações entre brasileiros e portugueses. Os resultados são variáveis. Se no Rio das Mortes quem leva a melhor são os paulistas, no Caeté vira-se o feitiço.

Braz Baltazar da Silveira, governador desde 1713, passa a cobrar outros impostos além do quinto, as chamadas taxas de entrada. E, como o Rei supunha ser na mesma enganado, para garantir o quinto, cobram-se dez oitavas de ouro por bâtea. O governador tenta um acordo que o Rei reprova.

Nova tentativa resulta num compromisso. Para além de uma redução nos outros impostos e taxas, em vez do quinto, passarão as capitanias a arrecadar trinta arrobas de ouro e a enviá-las para o Reino. O governador inclui no acordo uma cláusula que virá a se tornar importante: autorizações para decretar derramas (para garantir mesmo as trinta arrobas) e para criar novos impostos quando quisesse. E isso acontece mesmo.

Antes do(s) acordo(s), surge a revolta do Rio Vermelho. Depois, as de Vila Rica, de Pitangui, do Rio das Velhas.

Instabilidade:

Entra em cena um novo governador, em 1717, o Conde de Assumar.

Agitação:

O Conde propõe reduzir a taxa para vinte e cinco arrobas, mas todos os impostos vão para a Coroa por inteiro, nada fica no Brasil. O Rei ainda não está satisfeito e manda construir quatro fundições em Minas, que devem tratar todo o ouro e mandar vinte por cento do total fundido para a Metrópole.

O quinto, o famigerado quinto...

Até hoje, em pleno século XXI, o brasileiro ainda usa a expressão, que tanto marcou negativamente a sua História: quintos do Inferno... Naquela época, para piorar as coisas, o Governador exige que não mais se use o ouro em pó, até aí a real, apesar de não ser a Real, moeda.

Revolta:

A de Vila Rica é a mais importante. O Conde de Assumar assina o acordo. O povo festeja. A mando do Governador, os soldados praticam violências e saques. Prendem também os chefes do movimento, que são enviados para Lisboa, condenados e presos. Filipe Santos é o chefe popular. Sabendo que não pode recuar, incita as massas contra o opressor: libertem os prisioneiros, rompam-se as amarras com a Metrópole! É preso, julgado e enforcado. O cadáver é preso a um cavalo que lançam a galope. Sangue e morte. E a encenação ainda virá a se repetir...

INFRA-ESTRUTURA III

Ouro e diamantes:

Destes confirma-se que valem uma fortuna pela peritagem holandesa. Logo, o monopólio pela Metrópole. A zona de Rio Frio, conhecida pelo Distrito Diamantino, vive quase em estado de guerra, tal é a repressão, o rigor no controle. Nada escapa à voracidade da Metrópole.

Conseqüência direta: o aumento do contrabando. E é no contrabando que vai ganhando forma a idéia nacional, pois não é ele, por excelência, o meio de luta contra a Coroa? Tanto quanto as armas, vale a criação de uma verdadeira economia regional. Além do mais, o fenômeno do contrabando não é tipicamente brasileiro, nem sequer latino-americano, nem apenas exclusivo da época…

ILUMINISMOS E ILUMINAÇÃO

"Está mais ou menos generalizada no Brasil a idéia de que a Inconfidência foi só um movimento de protesto contra a derrama que o governo português mandou fazer em 1789, a fim de recolher na capitania, de forma violenta, as quinhentas e vinte e oito arrobas de ouro de que se julgava credor. Isso não é verdade.

A notícia de que a derrama se aproximava contribuiu, é claro, para agravar a situação e apressar o trabalho dos conspiradores, mas a idéia da conspiração - ou da revolução, pode-se mesmo dizer - vinha de mais longe e tinha razões mais complexas. "A Inconfidência não pretendia apenas libertar Minas e o Brasil do jugo da Metrópole. Queria - e isto é o que precisa ficar bem claro - formar aqui uma grande nação republicana, com suas indústrias, com um corpo de leis moderníssimas, de acordo com os postulados revolucionários que agitavam a França, e por influência inglesa e francesa, tinham já sido vitoriosos nos Estados Unidos." (Brasil Gerson, in "História Popular de Tiradentes")

A riqueza de Vila Rica permite a formação de uma elite intelectual, homens de Letras, homens de leis. Uma certa juventude desafogada estuda na França, onde bebe o fermento revolucionário. E nesse mundo, os revolucionários dão-se as mãos. Kosciuzko, o libertador da Polônia, bem como Lafayette, Bouilé e Rochanbeau, heróis franceses, tornam-se heróis ianques e lutam ao lado dos founding fathers - Benjamin Franklin, George Wahington e Thomas Jefferson.

Miranda, o aventureiro venezuelano, torna-se general do exército francês em luta contra ingleses, austríacos e prussianos. Abreu e Lima, brasileiro e filho de padre é, nos Andes, general de Bolívar.

José Joaquim da Maia, filho de pedreiro, estuda na França às custas do pai. Pede audiência reservada a Jefferson, então embaixador na França. Apenas tem entusiasmo para oferecer. Trocam correspondência. Apesar de tudo, o amigo americano afirma que reconhecerá a independência do Brasil, tão logo ela aconteça. E trocas comerciais. E ajuda no estabelecimento de indústrias. Vandek (tal é o nom de guerre de José Joaquim), aproveita a troca de cartas para cimentar idéias. É o início ainda tímido do pan-americanismo.

Morre sem sequer ver a Inconfidência - doente, por ironia em Portugal. Influência em Tiradentes, será muito mais direta a de José Álvares Maciel, que andava pela Inglaterra enquanto José Joaquim estava na França.

INFRA-ESTRUTURA IV

Os governadores se sucedem. A turbulência social não diminui. A sangria do ouro, face às novas leis, é ainda maior. Um dos governadores decreta uma dotação extraordinária de 125 arrobas. Os impostos não param de aumentar; não apenas sobre a mineração - todas as atividades econômicas são sujeitas ao mesmo tratamento.

Apesar de tudo, única maneira de acalmar os ânimos, chegam ao fim as casas de fundição. Curvello tenta a Revolução.

Quinze conspiradores são exilados para não mais voltarem. E, a partir de 1755, são proibidas as indústrias. Os teares apenas podem fabricar tecidos para uso dos escravos. E o fisco persegue a mineração como nunca. O caos se instala. O descontentamento aumenta.

Em 1780, Rodrigo José de Menezes é o Governador que tenta rumar contra a maré. Propõe uma série de reformas que considera essenciais. O Rei apenas se propõe a contemplar a implantação do serviço postal.

TIRADENTES: "MORTE MATADA"

No dia 21 de abril de 1792, Tiradentes é enforcado no Largo do Lampadário, no Rio de Janeiro. Dos Inconfidentes, é o único executado e serve de exemplo. O seu corpo é esquartejado. Pedaços dele são espalhados pela estrada que vai para Vila Rica. Uma gaiola com a sua cabeça é alçada a um poste cravado no centro de Vila Rica.

De morte assim "matada", Tiradentes morre solteiro. Deixa, porém, dois filhos menores, Joaquina e João. Apesar de terem declarado infame o nome do pai e o da família, João é adotado por um comerciante. Seguirá a carreira militar. Joaquina vive com a mãe até a maioridade - ambas pobres, afastadas do mundo e de todos, privadas de auxílio pelo clima de terror.

Eugênia Maria de Jesus, a companheira de Tiradentes, era considerada bonita - despretensiosa, clara, de olhos azuis. Mas a pobreza tudo mata. Tiradentes será herói e lenda, elas de nada sabem.

INCONFIDÊNCIA

Alguns Inconfidentes resistem ao interrogatório, outros não. A insurreição está marcada para quando começar a derrama. É até desenhada uma bandeira, um triângulo e os dizeres em latim LIBERTAS QUAE SERA TAMEM (Liberdade ainda que tardia). Mas os Inconfidentes começam a ficar inquietos. O Governador parece mandar indiretas a Alvarenga.

O padre Carlos de Toledo percebe que se alguma coisa correu mal, só pode ser por denúncia. - Mas de quem, homem de Deus? - Só pode ter sido Joaquim Silvério, por alguma razão lhe chamam Joaquim Sallieri... (evocação de Sallieri que traíra Mozart).

E, de fato, o Coronel Joaquim Silvério, crivado de dívidas perante a Coroa, trai os seus companheiros na Inconfidência e tudo vai delatar às autoridades portuguesas.

Para suprimir o sinal para a revolta, o Governador não executa a derrama. Um vulto vestido de mulher, cabeça coberta por grande chapéu, vai de casa em casa. Todos os conspiradores são avisados que Tiradentes havia sido preso no Rio. Um a um são todos presos e enviados para o Rio, maltratados. Ficam por três anos presos, incomunicáveis.

O desembargador e poeta Tomás Antônio Gonzaga acabará desterrado em Moçambique. Em versos à sua musa Marília, escrevera premonições: "...mil inocentes / Nas cruzes pendentes, / Por falsos delitos, / Que os homens lhes dão."

O advogado e poeta Cláudio Manuel da Costa, sessenta anos, espera menos tempo. Aparece misteriosamente morto no cubículo infecto onde o encerraram e aviltantemente interrogaram. Suicídio, dizem... Presos, uns resistem e outros não. Os três anos de sofrimento e a perspectiva de morte revelam personalidades inesperadas entre os Inconfidentes. Maciel, o teórico do movimento, depõe várias vezes e em todas elas tenta passar por inocente e atribuir todas as culpas aos outros conjurados.

Que o instigador de tudo fora Tiradentes... O mesmo afirma em carta ao Governador o Tenente-Coronel Francisco de Paula. Comandante da tropa mais importante em terra brasileira, sua pena será decerto das mais severas.

Alvarenga, esse, inventa. Afirma que Tiradentes é estúpido, que as reuniões dos Inconfidentes eram cenas depravadas. Em latim, lança elogios ao Governador. Como podem fazer parte da mesma história que Tiradentes?

Museu da Inconfidência

Autor(a): João Sodré

 

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