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INFORMAÇÃO / DATAS ESPECIAIS

Três moradores de rua (e um cachorro) no café da manhã com o papa. No Vaticano, sob o reinado de Francisco, até isso pode acontecer: segundo o melhor exemplo do Santo de Assis, que se mistura com os pobres e os mais fracos.

Houve pontífices que, à sua mesa, acolheram reis e chefes de Estado. Outros, ao invés, que se isolaram na sua torre de marfim para não ver ninguém. Jorge Mario Bergoglio, que, em uma recente visita ao Quirinal parecia estar quase desconfortável nos ritos do cerimonial, quis à sua mesa, nessa terça-feira, três sem-teto estrangeiros, convidados pelo esmoleiro papal entre os primeiros encontrados fora da Santa Sé.

"Mas temos um cachorro conosco", disse um deles, admirado pela proposta do padre Corrado, o colaborador do pontífice. "Levamos ele também", respondeu o prelado, polonês como um dos três.

Levados, assim, todos, sem-teto e cachorro, no carro, nas primeiras luzes do amanhecer, o pequeno grupo cruzou a Porta Sant'Anna, protegida pelos Guardas Suíços, e se dirigiu à Casa Santa Marta, a residência já oficial do novo pontificado.

A iniciativa partiu naturalmente de Bergoglio, capaz mais uma vez de fazer logo o que ele diz. Outro dia, em antecipação ao dia do seu 77º aniversário, no dia 17 de dezembro, ele instruiu Dom Konrad Krajevski, conhecido por todos já como padre Corrado, que, de manhã à noite, percorresse Roma em nome do papa, distribuindo refeições quentes e enviando cheques àqueles que não conseguem chegar ao fim do mês.

O prelado polonês pôs-se à ativa. Tendo saído do Vaticano, depois de Borgo Pio, dobrou na Via della Conciliazione. E ali, sob os pórticos da Sala de Imprensa, se cruzou com três sem-teto, ainda tremendo de frio e adormecidos. Eles falavam a sua mesma língua eslava: um polonês, um tcheco e um esloveno.

"Vocês viriam à festa de aniversário do Papa Francisco?". Os três se olharam, esfregaram os olhos, perguntaram se tinham entendido bem. E então, depois de alguns segundos de confusão, começaram a rearrumar as suas camas improvisadas, caixas e cobertores dispostos da melhor forma possível para se abrigar do frio, carregaram tudo no porta-malas e se acomodaram no carro. O cachorro, que pertence ao morador de rua tcheco, foi no meio.

Na Casa Santa Marta, pouco depois das 7 horas, Francisco ainda estava rezando a missa. Ao seu lado, o cardeal decano Angelo Sodano. Também estava presente o novo secretário de Estado, Dom Pietro Parolin. Na homilia, Bergoglio fazia uma pergunta sugerida pelo Evangelho: "Qual é o sobrenome de Deus?". A resposta do papa: "É o nome de cada um de nós, e diz: 'Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, de Pedro, de Marietta, de Armony, de Marisa, de Simone, de todos", explicava nomeando assim os serventes, os garçons, os cozinheiros e os empregados de Santa Marta.

Os três esperaram que a missa acabasse. Quando o papa chegou, o padre Corrado os apresentou. Entregaram-lhe um presente especial: um buquê de girassóis. "Porque estas flores – dizia o esmoleiro, interpretando o pensamento dos seus hóspedes – sempre giram em direção ao sol, assim como a Igreja olha sempre para o seu sol, Cristo".

Bergoglio os convidou para o refeitório. E, entre um cappuccino quente e um croissant com creme, em um clima de familiaridade, contaram a sua vida. "Vale a pena ser vagabundo – disse um dos três no fim –, porque você é recebido pelo papa".

Ainda nessa terça-feira, dois sem-teto poloneses morreram em Roma e em Ferrara. Alguns dias atrás, Francisco tinha se entristecido ao saber da morte de um morador de rua atrás do Vaticano. E lamentou o silêncio diante dessas tragédias: "São mortos – disse – que não geram notícia".

A reportagem é de Marco Ansaldo, publicada no jornal La Repubblica, 18-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

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