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INTERAÇÃO / DE AMIGOS PARA

ADALBERTO THIAGO DA SILVA
publicado em: 21/05/2019 por: Lou Micaldas

⇒COISAS DO CORAÇÃO

⇒VIDA A DOIS

⇒PRIMEIRO AMOR

⇒O ANDARILHO

⇒QUEM EU SOU

⇒O QUE ESCREVER

⇒ONDE ESTOU?

⇒A COR DE TEUS OLHOS

⇒BEBERICANDO SAUDADES

⇒TRISTEZA DE PEÃO

⇒SUBJETIVIDADE

⇒O GRANDE SUSTO

⇒SOL LEVANTE​

⇒MENINA MOÇA 

⇒CANÁRIO DA TERRA

⇒COISAS DE POETA

COISAS DO CORAÇÃO

Por que o amor é coisa do coração?

Septuagenário, sem conhecimento básico das ciências biológicas, eu, só agora acho entender por que ligam este órgão vital a um sentimento tão nobre, mas também não sei se estou certo ou errado, é uma dúvida deveras atroz.

Quem garante ou pode garantir que o coração, mesmo se levado por efêmera tradição, por desenhos fictícios e de uma forma trivial, flechado ou não, pichado em todas as partes pelos muros, monumentos, etc., é responsável por tal crendice. Há ainda os cartões com dizeres apaixonados e ou apaixonantes, emblemas de enamorados, simplesmente rabiscado no chão, com aquele trejeito feito com os dedos das duas mãos postas, onde ele é a fonte de tudo de bom que se sente (de comércio também) por pessoas, objetos, animais e tudo o mais que queremos como propriedade nossa, pelo zelo que temos ou admiramos.

O amor, no sentido sexual, macho e fêmea tanto em racionais com em irracionais nada tem a ver com o coração já que este bate aqui e o outro acolá, cada um em seu cantinho, sem tomar conhecimento com o que passa com seu portador ou portadora no ritmo normal de suas vidas.

Para início de conversa os animais, na sua maioria, se atraem pelo olfato através do feromônio, hormônio produzido pelas glândulas do animal para atração sexual. Neste caso seria de bom tom pensar que o nariz ou focinho está apaixonado por alguém.
 
E nesse raciocínio o que imaginar dos olhos? Eles veem, miram, atraem e conduzem a aproximação dos interessados, levando-os ao relacionamento final. Dizer em olhar apaixonado é uma constatação não só da participação como também da real cumplicidade dos olhos nas conquistas entre os dois, sem nenhuma interferência do coração.

O amor maternal, uma história à parte, nobre e cantado em versos e prosa por justo merecimento, nada tem a ver com o coração, pois é resultado de fatores biológicos da fêmea alheios ao mesmo, como a fecundação, gestação, parto e amamentação; resultando daí o zelo pela sobrevivência da cria e a perpetuação da espécie. E, afora isso, o que acontecer são causas diferentes à sua vontade ou até mesmo por condições factuais, temporais, ou forças estranhas à sua guarida.

Não é bom e nem necessário falar do tato aqui, mas um toque, um leve roçar das mãos, dos lábios, em um ponto estratégico qualquer já é o suficiente para resolver tudo, sem pena e nem dó.

A verdade é que no amor o coração não é causa e nem efeito, mas, tão apenas, mero coadjuvante que, assanhado, pula desesperadamente quando os personagens dão o primeiro beijo.

Tudo bem, um coração desprezado, jogado às traças, mas que tem isso a ver com os meus setenta e tantos anos?

Aí é outra história, semelhante, mas não igual, que envolve a parte responsável por essa balbúrdia, ou seja, a cabeça, pois é a morada do causador deste imbróglio todo e que se chama cérebro. O comando central de todas as ações vem daí e, para não delongar, o coração não tem nada a ver com preferências sexuais ou de relacionamentos, ele está em outra praia e não obedece a ordem de ninguém, é autônomo.

O que digo é que o “homo sapiens”, quanto ao tema, de sabido tem pouca coisa, mas de safadeza tem tudo e um tanto mais. Acredita, de um lado, nessas bobagens todas e, de outro, usa todas e quaisquer artimanhas para conquistar o “bem” interessado, um arsenal sem fim.

E isso não é coisa só dele homem não, ela, a dita cuja, então, usa assaz de seus predicados, dádivas que a natureza lhe deu, para provocação rápida e eficaz. É aí, nesse exato ponto, que não entendo ou faço-me de desentendido, e busco compreender a razão por que ela mostra tudo, mas esconde o coração.

Só que o tempo para explicações já passou, a memória envelhecida, o instinto (melhor seria dizer extinto ou, quem sabe distinto) cansou e tem seu reflexo moroso, os membros de agarrar estão frouxos e quase tudo assim, assim...
 
Porém agora, só agora no final, é que entra, no âmago da história, o tal do coração, pois na hora precisa ele é a salvação da “Pátria Amada”, pois acionado (Viagra nele) acorda como um louco, aumenta o fluxo sanguíneo, a “pressão” sobe e tudo acontece sem compreensão de qualquer babaquice e, muito menos, ter que dar explicação a ninguém.

VIDA A DOIS

Meu anelo é e sempre será o de enroscar-me em um forte abraço com você, entrar em seus sonhos e dar-lhe os meus para juntos vivermos felizes.

Você é minha vida, meu alento, o meu tudo. Sua felicidade me embevece e enleva meu ser ao ápice de um amor puro e inimaginável.

Minha felicidade é você e o sorriso que tenho no rosto retrata sua alegria de viver. Sua presença e seu carinho me animam e faz feliz. Sua amizade transborda em meu coração e o enche de amor, que não é só meu, é seu, é nosso.

A doce ardência de seus beijos desabrocham na pujança de meus ébrios desejos de tê-la em meus braços para saciar os mais puros sentimentos e as carícias de suas mãos me conduz ao real êxtase de um fantástico mundo de prazer e amor.

Sua existência é a minha própria vida, pois vivo por você e sem ela eu nada seria. Essa simbiose nos vivifica na reciprocidade do amor puro em uma entrega mútua, perene e sincera.
Obrigado meu amor, eu te amo.

PRIMEIRO AMOR

Sorriso de flor desabrochada
Alma com frescura do alvorecer
Alegria no encontro da pessoa amada
Felicidade maior no conhecer

Sentimento puro de bem querer
No peito, angustia e dor
No pensar, o medo de perder
Só, vem a saudade, é amor

De mãos dadas compreender
O acaso, matreiro, na certeza
Brincando fez tudo acontecer

Êxtase em novo caminhar
De flores, alegria e proeza
E pelo amor deixar levar

O ANDARILHO

Não se sabe de onde veio, apareceu assim sem ser chamado e muito menos querido, ninguém jamais pensou em ter algo semelhante em seu convívio, mas todos o adotaram de imediato e, assim, ali ficou.

Era um cachorrinho sem raça, pulguento e desnutrido, mas meigo, um olhar cativante e um balouçar de rabo dos mais desajeitados.

Cada um o queria para si e reivindicava a posse sem, porém, encontrar bom senso em relação às obrigações com o mesmo. O quiproquó maior se deu em relação à escolha do nome. Surgiram nomes pomposos, cômicos, espalhafatosos e de todas as origens possíveis até que foi sugerido o nome de Andarilho que, posto em consenso, foi aceito por unanimidade e assim passou a ser chamado.

Com pouco tempo já era estimado por todos; bem tratado, apresentando um bom estado nutricional, mimado e acariciado, tido como a mascote do grupo, tratado como um bibelô.

Porém, talvez enjoado dos bons tratos ou se achando pronto para seguir suas aventuras, como chegou se foi deixando desilusão e aborrecimento em cada um que não queria compreender aquela atitude canina. Um ingrato, mal-agradecido. Sua súbita partida formou um vácuo entre todos criando um ambiente de descontentamento e até de desentendimento.

Passada a decepção, um novo burburinho foi formado em relação ao mesmo, já que não havia motivo para sua debandada e procurando uma justificativa, sem acusações mútuas, a conclusão foi que a culpa era única e exclusivamente do nome que lhe fora dado.

Acreditou-se que correntes sugestivas da denominação dada ao mesmo o teria induzido a tomar uma vida errante e assim sair a peregrinar sem destino, e mesmo a falta de consulta a um numerólogo para se certificar de que o nome escolhido era apropriado a tão pequeno e, até então, acomodado animal.

A lacuna deixada pela falta de suas peripécias plantou em cada um o desejo incontido de lhe arrumar um substituto, trazendo daí a dúvida mais corriqueira existente – qual nome dar?

QUEM EU SOU

Divagando só, no espaço e no tempo
Zanza, rumo ermo, viandante
Busca a si, perdido no próprio labirinto
Ideias obtusas procura conhecer
Na lassidão, o seu ser.
Algures deve estar
Corpo, alma, pensamento, quem?
O que fez, o que fará
Retratar-se para se mostrar
Mero corpo a vaguear, sutilmente explicar;
Em conclusão, quimeras lhe restam
Do porquê de sua metábole.
Complexo parecer, se ele ou quem,
Corpo errante ou alma que aperfeiçoa
Um, outro ou ambos;
Mutante viajor sem rastro, pela vida,
Corpo sem alma, irracional ou
Espírito a caminhar pelas ilusões,
Sem de concreto um manifestar,
Algo a deixar, prova maciça,
Pela vida, de seu passar,
Congraçando, corpo e alma, simples sonhador

O QUE ESCREVER

O domínio do idioma português é dificultado pela falta de conhecimento do vasto número de palavras que o compõe e da diversidade de significado de cada uma.

São tantas as palavras, mas como aqui não posso escandi-las com a emoção d’alma ou mesmo sem qualquer sentimento, em escrita, vou procurar, apesar de meu pobre, pobre não, paupérrimo, conhecimento do rico vocabulário de nossa língua, dispô-la de maneira atabalhoada, espargidas em gotinhas minúsculas, respingos leves de uma ideia vaga, insignificantes pensamentos ou, jorradas aos borbotões, em um arroubo de audácia e, até mesmo, de loucura por tentar superar minhas faculdades, fazer o que não me é de competência,  um texto coerente.

Mas, talvez, por um lanço de sorte, dessa pequena quantidade de palavras desconexas e sem nexo, que detenho na cachola, eu consiga fazer, a princípio, uma pequena garatuja, uns rabiscos e, posteriormente vou, à guisa de um vaqueiro em seu rebanho, abstraindo uma das outras, em uma apartação meticulosa, formando uma seleção. E assim, oxalá, em escala moderada, aos poucos, possa formar uma frase, expressar uma ideia ou escrever alguma coisa nem que seja só para exercitar a memória.

Neste turbilhão de insegurança, não sei por que, lembrei-me da mulher que vi fazendo caminhada pela avenida margeando o córrego e que, por seu porte elegante, trajando uma indumentária própria para a prática de esporte, pela pressa dos passos quase em trote, destacava-se dos demais transeuntes que ali, também, fazem seus exercícios ou, simplesmente, passeiam.

Notei pelo arfar de seu peito, provocado pela fatiga da pressa, a busca de uma superação, não só contra o cronômetro, mas, principalmente, o anseio da obtenção de melhora em sua forma física, conseguindo, através dessa fisioterapia, tornar-se mais saudável e adquirir uma silhueta mais atraente.

Jovem, por certo, seu coração jorra o néctar de um sentimento que não demonstra, em sua compenetração no afazer, não por egoísmo ou para trancafiá-lo a sete chaves deixando-o cravado, como um brilhante, no fundo de seu ego, mas para se resguardar de possíveis aventureiros que possam querer aproximar e usufruir seu amor puro e jovial.

As acácias com seus cachos de flor amarela e os ipês rosados parece que se curvam e o gorjeio do sabiá ali pousado se faz mais sonoro quando ela passa transpirando felicidades e provocando admiração em todos, principalmente dos jovens mais afoitos.

Nem a rusticidade do chão onde ela pisa, ainda que mesclado de flores caídas, faz eco ao seu pisotear compassado de atleta nova, mas experiente, que não desapruma seu rumo a meta pré-estabelecida: a felicidade.

Nela tudo é encanto. Seu sorriso mostra pérolas perfiladas que irradiam a alegria que lhe invade, seus longos cabelos presos em tranças lhe dão um toque de graça e os seios, bem modelados, mostram toda a sua feminilidade.

Ela passa e fico cismando se, pelo menos, eu tivesse palavras para expressar tanta jovialidade e beleza escreveria, nem que fosse, uma pequena descrição de seu perfil, sem sonhar e com muita discrição.

ONDE ESTOU?

Saí em busca de mim
Monotonia intérmina, silêncio
Ausência de meu bem querer
Triste pensar em você
Silente a voz
N'alma saudades dolentes
O ego de mim se esconde
Foge em você
Doce embriaguez, leve demência
Ambiguidade do meu ser
Buscar-me por quê?
Se, à sorrelfa, vivo em você.

A COR DE TEUS OLHOS

Azul mar, de teus olhos
Convite a navegar, sem destino
Desvairado, ancorar em abrolhos
Deixar o amor naufragar, em desatino
Turquesa, de prisma enganador
Cúmplice no olhar
Astúcia no lampejo do amor
Enleva a alma, deixa conquistar
Céu de desejos, a inebriar
Cativa a paixão do profano
Lindos sonhos de amar
Anil de luxúria, a jogar
O viver do viajor, de amor, insano
Esquecido, em teu regaço, ficar.

BEBERICANDO SAUDADES

Na boca o paladar
Gosto puro de Vodca
No papel a palavra
Vontade de expressar
No copo buscar a ideia
Gosto alcoólico de desabafar
Sentimentos emudecidos de saudades
Não deixar esquecidos, grafar
Sobriedade, falsa aparência de viver
Volatilidade do caráter e do álcool, comparar
Cada gole uma palavra
Na memória esquecida ou retraída
Busca de uma vida, não vivida
Morte em vida, caída
Em um copo de bebida,
Com tristeza refletida

TRISTEZA DE PEÃO

A estiagem o chão castiga
O céu desnudo não alenta
Tristeza do obreiro que apascenta
Denotada nas notas lânguidas da cantiga
Afana alheio à ardência
Vibra a vergôntea com sabedoria
Tangendo o gado e a melodia
Remaneja o rebanho com paciência
O horizonte perscruta a fio, esperançoso
Uma nuvem, um sinal, um alento
A direção e a força do vento
Prenúncio de dia chuvoso
Tudo é desolação Rês trôpega, o coro da cantoria
Com o coaxar, no brejo, da saparia
Mágoa e dor no coração.

Pba.-Ms, 09/08/03

SUBJETIVIDADE

A escolha era, simplesmente, uma opção, pega ou largar, mas o rebuliço que se formava em seu cérebro o aturdia, doía-lhe a cabeça. O que fazer? Uma história das mais corriqueiras, dessas que acontecem a cada segundo em algum lugar, e ele, ali, estático, com o mais complexo dos problemas, insolúvel em sua indecisão. Falta-lhe coragem, era um frouxo.

Tudo aconteceu, num lapso, da maneira mais atabalhoada possível, e por falta de uma palavra, uma única, uma monossílaba que fosse; tudo parecendo uma eternidade.

O resultado drástico foi o mais amargo dos féis que uma criatura possa já ter provado. Estava perdido e não tinha, em sua opinião, antídoto que lhe suscitasse de sua desventura.

Sabia ser isso o que lhe restava, mas não moveu uma só palha para reverter a situação, era tarde, sentia o mais medíocre dos apaixonados, um abjeto. Fora como se o tivessem emasculado em sua vontade.

Meneava a cabeça, e os miolos chocalhados levaram seus pensamentos a um passado, não muito distante, onde essa balbúrdia toda deve ter iniciado, assim conjeturava sem, no entanto, ter muita convicção.

Procrastinara, já àquele tempo, qualquer decisão e, agora, deu no que deu, não tinha saída e mesmo assim matutava uma escapulida como já o fizera em vezes anteriores.

Enganava a todos e, muito mais, a si, pois não compreendia como aprontara tamanha enroscada e, mais difícil, resolvê-la, pois, para isso faltava boa vontade, ou melhor, desejo de extirpá-la de vez de sua existência.

A agonia se espichava sempre que surgia a necessidade de se definir, quando coagido e constrangido pelas circunstâncias. A verdade verdadeira, seu axioma, era que não tinha a menor vontade de sanar a sarna que o incomodava.

Um caso infindável, não explícito, incompreensível, incoerente e tudo o mais, um verdadeiro monólogo, sem assunto, com discussão acalorada. As tolerâncias se esgotaram, mas o impasse continuava sem que fosse solucionado, sem uma definição, ninguém tinha e nem queria ter a menor ideia de como ajudá-lo e, bem pior que isso, não sabiam do que se tratava e nem como acabaria a história, por isso mesmo não se imiscuíam no assunto.

Que se entenda por bem que coisas casuais, não premeditadas, podem ser normais ou exóticas, como algo indesejado e, como tal, só um ser dotado de tirocínio, muito arguto e desembaraçado pode solver essa pendência.

E ninguém melhor do que o leitor, que tudo entendeu, pois não é nenhum leigo, para definir o dilema do personagem e o tirar da grande enrascada ou massacrá-lo definitivamente, aconselhando que a melhor situação é assumir ou sumir e que seja feita a vontade dele e tenha bom fim está pendenga. Adalberto Thiago da Silva

O GRANDE SUSTO

Findava o dia, quando um temporal ameaçador, de um modo surpreendente, assolou a morada do retiro da fazenda. 

A chuva ameaçava cair a qualquer instante e todos se recolheram, acotovelando-se na humilde morada. 

De repente todos ficaram tensos, algo de anormal os assombrava. Eles não adreditavam no que ouviam. O vento adentrando pelas frestas da janela trazia o murmurinho vindo da encosta, que mais parecia lamentos de almas penadas, o que deixava todos de pelos arrepiados. E não havia, ali, naquela circunstância, quem tivesse a coragem de ir constatar o que realmente acontecia, ou o que produzia tão estranho sussurro, principalmente porque naquelas bandas ficava o velho e abandonado cemitério da propriedade. 

Parecia um rosnar intermitente e entremeados de gritos que mais se assemelhava com uivos de desespero abafado pelo vendaval. 

Eram seis horas e escurecia prematuramente, motivado pelo tempo chuvoso, clareado de quando em quando pelos raios fortíssimos cujas descargas com estrondosos retumbar aumentavam ainda mais o tiritar dos presentes. Todos já abobalhados e de mau agouro, pois estavam acometidos de medo pelo que de anormal acontecia. 

Aconchegavam-se uns aos outros buscando proteção onde ela não existia. Nada aliviava a tensão e, para piorar a situação, uma criança chorava desesperadamente e nem mesmo o acalento da mãe que a ninava a fazia calar, o que só aumentava a angústia reinante. 

Todos boquiabertos, mudos, receosos, pasmos diante do triste lamentar que ouviam a tempos miúdos, sempre recortados por períodos de silêncio, acompanhado pelo farfalhar dos arvoredos do pomar açoitado pela ventania. 

Na delonga daquela situação de pavor ninguém imaginara, pelo menos, acender uma vela, não como devoção a favor das almas que os amedrontavam, mas sim para iluminar o cubículo em que se apertavam. 

Seguido ao barulho horripilante, que dera uma trégua, lá fora se ouviam passos. A ansiedade era cada vez mais crescente e em cada um o esbugalhar dos olhos parecia que ia jogá-los para fora da órbita. Houve até quem acreditasse que "o ser" o vinha buscar, era chegada a sua hora, balbuciava uma oração pedindo salvação. Pancadas fortes na porta da frente. Ninguém se atrevia a concluir ou atinar o que as faziam. 

Após curto espaço de tempo, ouviu-se uma voz chamando pelo dono da casa e indagando se tinha alguém ali. Foi como se um som mavioso os arrebatasse dos escombros em que se achavam, um alivio total e todos queriam atender ao mesmo tempo, saindo do sufoco, formando um burburinho. Agitados procuravam se locomover para o pronto atendimento ao suplicante que, na realidade, era o grande salvador de uma situação constrangedora. 

Em uma situação inusitada, o visitante, um mascate que viera até ali vender suas mercadorias, tivera seu carro atolado na travessia do córrego e por mais que o funcionasse não o tirava do barro e, então, sabedor da casa próxima gritava por socorro, alguém que o ajudasse a empurrar o veículo. 

Depois de socorrida, a "alma do outro mundo" foi agraciado com um jantar que mais parecia uma oferenda ao Deus das Trevas que tanto medo causara aos pobres colonos que ainda tremiam e, apesar dos pesares, lhe eram gratos por tirá-los daquela situação aflitiva. 

Paranaíba-Ms 30/07/03

MENINA MOÇA 

Pequena flor a desabrochar 
No jardim da juventude. 
Nas batidas fortes do coração 
O amor sentir chegar. 
Flor a abrir, simples botão, 
Revoada de beija flor. 
Perfume suave de sedução 
Moça jovem, mulher 
A correr no canteiro da existência, 
Procura a vida conhecer. 
Doce esperança de um amanhã 
De repente acontecer 
Entregar ao amor, sem nada pedir, 
Mas da felicidade tudo querer. 

Paranaíba-Ms, 25/11/02  

SOL LEVANTE

Ofusca a madorna repousante
Raios cintilantes, despertador
No balouçar da cortina, penetrante
Anuncia a jornada, o labor

Da menina, letargo matinal
Na indolência silente relaxa
Bisbilhota sua nudez virginal
Na face, tépido ósculo deixa

Impiedoso crestar.
Desperta, destarte ralha
Tão cedo levantar

Inda inverna, olvide madrugar
Eclipse, atrapalha
da donzela o hibernar.

CANÁRIO DA TERRA

Canário, da terra, tenho saudades
Onde, com seu trilar alegre na cumeeira,
Fazia festa à amada, sua companheira
Transbordando, ao sertão, felicidades.

Canário da terra, ave saltitante
Ali, no cocho, fartava de quirela.
De ouro, sua plumagem amarela
Reluz em seu sibilar estridente

Parti um dia, já distante
Alquebrado pelos idos, voltar receio
Nada encontrar como dantes

Apodrecido o mourão, onde gorjeava
A tapera, tudo em ruína, muito feio.
Resquício do que eu tanto amava.

COISAS DE POETA

Esquecido na gaveta de um velho armário de madeira, deixado em um canto do sótão, todo amarelado pelo longo tempo, sem manuseio e carcomido por traças e corroído por insetos, o esboço de um poema se perdeu no tempo.
Palavras escandidas se vão ao vento e caem em esquecimento, tanto de quem as pronunciou como também de seu interlocutor, mas as que ali estavam grafadas não, jamais morreriam.

São versos que falam de um amor puro e verdadeiro, feitos com o êxtase d'alma no clímax de uma saudade, a bem da verdade, por um apaixonado.
Coisas de dois jovens que enfrentando os conceitos sociais, preconceitos raciais e intolerâncias, as mais diversas, souberam com caracteres transpassar com galhardia todas as humilhações que lhes foram impostas sem, no entanto, se humilharem ou de maneira inversa deixarem a soberba tomar conta deles, só se sucumbindo ao amor mútuo que os unia e ao respeito a seus pais que, no entanto, não compreendiam a pureza de seus sentimentos e, em nome desse carinho filial é que se afastaram.

A quem a dor calou mais profunda não há parâmetros que possam dimensioná-la, tão imensurável quanto o lamento que aquelas poucas palavras em um pedacinho de papel simbolizavam, que na verdade era um pedaço do que sobrou do pobre coração de seu subscritor, que ali se definhava delegado ao abandono.

Pelos percalços do caminho da vida nada mais profundo há de tolher uma existência como a do amante exilado de seu amor. Nada pode confortá-lo de sua angústia, nenhum perfume o inebria, não há música que o enleva, o ar puro o sufoca, a vida não lhe é vida, é como um turbilhão em espiral que o narcotiza e o leva a esquecer de tudo, faz dele um cativo de seu próprio ego roubando sua personalidade e levando a uma doce demência que o faz só lembrar da amada.

O mais céptico dos humanos, olhando para aquele manuscrito e agraciado pela beleza do sentimento puro que enriquece aquele chumaço de papel amarrotado, por certo verterá lágrimas doridas ao sentir a desolação do amor que expressa tão verdadeiras palavras que mais se assemelham a um assopro angelical.

De onde ressurgem palavras significativas de um afeto tão profundo no momento da dor crucial que dilacera e deixa cair na masmorra da solidão o dom mais belo da vida de dois jovens amantes, extirpa suas esperanças e mata suas ilusões? Nada as faz representar senão a sutileza d'alma, e não havia de ser diferente, é o âmago que se esvai da criatura que sente a grande perda do amor.

Ali naquele rascunho, escrito em sangue de dor e saudades, fica guardado o amor de um poeta que o faz imortal e a intensidade de sua mensagem perpetuada para deleite de todos.

Autor(a): Adalberto Thiago da Silva

 

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