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INFORMAÇÃO / DICAS DE SAÚDE

COMO FUGIR DA CRISE NUMA BOA
publicado em: 16/01/2017 por: Lou Micaldas

Dissociar o escapismo do consumismo e fazer uma pausa na tecnologia ajudam a abrir as janelas do prazer acessível
Crise local, crise mundial, universo em desencanto, 2016 ruim, 2017 começando mal. Muitas vezes, a sensação é de, simplesmente, estar encurralado e não ter para onde fugir. Um refrão essencial de Raul Seixas volta à memória: “Pare o mundo que eu quero descer.” O escapismo assalta os desejos com alarmes de urgência. Mas... como escapar, numa cultura em que predomina a noção de que tudo que é bom custa dinheiro? Em parte, é verdade. Haja meditação, haja Ravi Shankar para segurar o rojão. Se não for a Mega-Sena, ou um amor redentor à primeira vista, refugiar-se no consumismo de alto ou baixo custo, por exemplo, tende a produzir um alívio imediato mas... e depois? Banho de shopping, viagem, restaurante, cinema não combinam com recessão e, mesmo para quem pode, será que resolve?

Democratizada, a tecnologia digital é outra opção de fuga, mas será que alguém relaxa, de fato, depois de passar o dia “causando”, sendo assaltado por pop-ups ou brigando nas redes sociais? Alguém é capaz de ficar numa boa ligado a um dispositivo que apita a cada dez segundo com notificações de mensagens, zaps, e-mails e curtidas? Ou será que o problema está, perdido no tempo veloz, no critério para se escolher como “bom” justamente aquilo que é a fonte do estresse fútil (no caso, o mal, além da crise em si), desviando-se do que é universalmente bom, não custa dinheiro e está ao alcance de todos, independentemente de renda, classe, crença, ocupação ou grau de instrução? Aqui, algumas “janelas” para quem está de olhos abertos espiar.
 
BOIAR AO LUAR.
O mergulho, também conhecido como tchibum, é livre e, em período de menor incidência de chuva, as águas ficam claras, transparentes até, com peixes exóticos, cardumes de várias espécies, tartarugas e até golfinhos, oferecidos ao banhista noite e dia, unindo todos os espectros de qualquer cidade partida. O banho, não é de hoje, revigora. Cura ressaca e outros males. Refresca a cabeça. Cicatriza machucado. À noite, traz outros panoramas. Se as águas estão calmas, é possível boiar ao luar. De graça.

FALOU, BICHO.
A relação com animais, para quem gosta, é capaz de substituir quase todas as necessidades existenciais de um indivíduo. No Brasil, então, onde a a população de pets em domicílios é de 52 milhões (considerando só cães e gatos, deixando de lado aves, macacos...), podemos contar quase dois bichos por lar, ou na carona de tudo que se move. Ou seja, do carregador de burro sem rabo (puxador de carretos) com um vira-latas a bordo, à madame que serve ossobuco de carneiro ao seu shitsu, o bicho é todo ouvidos e tem a vantagem de ser o confidente mais discreto de todos.

PLANTAS E ERVAS.
Há quem, não suportando bichos, ame plantas e, de repente, desde que haja um canteiro, mesmo na janela, começam a surgir flores, ervas, botões e, numa segunda fase, tomatinhos, manjericão, tomilho e sabe-se lá o que mais. Quando se vai ver, já rola um tagliatele ao pesto só com ingredientes da varanda e, depois, um chá de hortelã caseiro. As plantas são também ótimas ouvintes, mais quietas ainda que os bichos, pois não latem, não miam, não arranham e perfumam o lar.

ENDORFINA NA VEIA.
Nada contra uma birita ou demais prazeres moderados da noite aditiva, sempre sedenta de adrenalina ou de relaxantes. Mas há drogas e drogas. Essa só vale para quem não é partidário da preguiça (que é, também, fruto de prazeres) e não se acaba completamente na noite. Ao contrário do álcool, a endorfina é uma droga gratuita e poderosíssima, que pode até viciar. O dispositivo de administração é o próprio corpo em movimento, de preferência numa atividade física que não aborreça o praticante. Quem se exercita ou pratica esportes numa boa conhece exatamente o momento em que a droga “bate”: um prazer inexplicável invade os sentidos, a razão clareia, o “estar no mundo” de repente como que entra em foco e a crise fica para outra hora.

SEXO É SIMPLES.
Dizem que é complicado, que é amor, que não é amor, que é tudo, que não é nada, e é este discurso que complica as coisas. Visto como algo normal, da vida, e sem medos que não os relacionados aos cuidados mais básicos, o sexo, independentemente da modalidade (desde que o desejo de cada um seja satisfeito consentidamente), é remédio vital para todos os males, regulador do sono e do humor, repositor de energia vital. Quando não há com quem praticá-lo, o onanismo é direito individual garantido pela constituição e, dizem os especialistas, relaxa e esvazia a cabeça de terríveis males de carência.

BICICLETA.
A bicicleta, da qual tanta gente passa décadas esquecido, é, todos os dias, redescoberta como um atalho mágico para fugir às nuvens do estresse ou da apatia. Para quem não tem uma, não custa tão caro arrumar, alugar, pedir emprestada, guaribar. Uma vez a bordo, volta, quase de imediato, o sentido lúdico mais recôndito da vida, constantemente negligenciado por personalidades ensimesmadas. Quem pedala está sempre a sorrir ou a cantar, munido deum fone no ouvido ou de ouvidos atentos à cidade,. variando caminhos, inventando percursos e fazendo desvios imprevisíveis na viagem dos sentidos.

O SONO.
Mas, para muitos, por natureza ou circunstância, disposição física não é um bem em abundância. O sono, se bem aproveitado, e quando sobra tempo para ele, é (sobretudo para quem não sofre de insônia...) uma das maiores diversões que a condição humana proporciona. Para quem aprende a curtir os próprios sonhos, então, abre-se uma fonte de prazeres (ou até de escrita e criação artística) que, acordado, seriam impossíveis, sem falar nas experiências de reflexão que tornam a vigília bem mais esperta após as provações oníricas...

NOMADISMO.
Dentro da cultura cada vez mais propagada do desapego, deixar de ter uma casa e sair pelo mundo, trocando saberes, artes, ofícios, por hospedagem e comida, é uma opção, desde que se guarde um obstinado espírito de mochileiro e a mente (e o corpo) abertos para alguns desconfortos. Ir simplesmente morar no mato, ou com os índios, está nas variadas possibilidades desta geografia improvisada.

DANÇAR.
Mesmo sem saber dançar, sem grandes preocupações com exibição ou performance,é um potente instrumento de catarse. Soltar o corpo e coreografar emoções parece levar corpo e alma a um mergulho significativo que desativa os mecanismos ruins da vaidade e faz baixar um sentido de comunhão e de “deixar rolar” que até os mais desajeitados, tímidos, tristes, oprimidos, podem experimentar.

LER.
Notícias, tudo bem, são fundamentais, mas não necessariamente a cada dez minutos ou de hora em hora. Ler o que é atemporal, da literatura de ficção aos muros, da poesia escrita ou declamada aos cordéis dos ditos populares — e até em sentido figurado: “ler” o bom diálogo no bom cinema ou no teatro, “ler” o sentido oculto das canções ou do instrumental, “ler” o que dizem os olhos do outro, “ler” uma frase perdida numa folha de papel, recolher, os próprios pensamentos sob outras óticas — é sair, por um tempo, do tempo, e entrar na eternidade.

DAR BANANA.
Estar só. Isolar-se por algumas horas. Ou dias, se possível. Dar banana ao celular, sobretudo ao celular, dar banana aos chatos, e, como ainda se diz, sair para catar conchinhas na areia e olhar o horizonte, lá vai um navio, longe... Hora de voltar a si. Ligar o foda-se (uma expressão chula mas de alta precisão), e depois, revigorado, desligá-lo, e voltar. Largar a família um instantinho, ou largar a galera, ou largar sei lá o quê, e pegar um cinema a sós. Ou ver aquela série, dez episódios, comprada, baixada, emprestada, deixando baixo todo volume que possa significar mundo externo.

O IMPROVÁVEL.
Descobrir o improvável. Fazer aquilo que não se quer, ir a um lugar, a um encontro, a uma festa, contra a vontade, e depois refletir: imagina se não tivesse vindo, se tivesse ficado a me lamentar em casa...

OLHAR.
A contemplação. O olhar. Mesmo quando não pode ter. Se o lugar está florido de beldades, extrair prazer com o que se acha belo sem tanta cobiça, montar a trama da espécie e cultivar o mero pertencimento sem posse imediata de nada.

O PAPO.
Com alguém. No bar. No balcão. Com a mãe ao telefone. Com um confidente na rede. Com o porteiro. Na padaria, de manhã, com o desconhecido. Ou com as paredes: falar. Ser ouvido. Ouvir-se.
 
SERENDIPIDADE.
Palavra da moda para muitos, significa a capacidade de atrair para si o acaso, circunstâncias positivas, sincronicidades. Deixar o acaso tomar conta dos eventos através da renúncia a um excessivo impulso de controle sobre as coisas, ou à ilusão de que se pode controlá-las. Ao agir assim, coisas que estavam ocultas pela onipotência começam a se revelar em cascata, como uma bela aragem.

O VELHO PASSATEMPO.
Jamais se poderá esquecer o valor das palavras cruzadas, dos jogos de tabuleiro, das damas com tampinha de garrafa nas praças ou do xadrez de cimento; da porrinha, do baralho, do proverbial dominó, ou dos eletrônicos, dos Ataris e outros vintages aos modernos games acessíveis na solidão ou em grupo, em casa, nas lans ou nas vans. Tem espaço.

Autor(a): Arnaldo Bloch
Fonte: Jornal O Globo

 

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