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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO I
publicado em: 16/08/2017 por: Lou Micaldas

"As desgraças na vida não se medem pelo que realmente são, mas pela sensibilidade das pessoas que as sofrem."

Àquela hora da tarde, o cemitério estava vazio.

Só eu e a minha saudade...

Arranjo amorosamente, na jardineira, as rosas que levei comigo.

Rosas brancas, das que ela gostava.

Um grande anjo de bronze, asas abertas sobre a sepultura dela, e, no mármore rosado, um nome apenas: Lúcia.

Lá estão as datas: 1913-1940.

Como pôde viver tão pouco, ela que era tão feliz? Fiquei eu, que nada sou e nada tenho...

Contemplo, por alguns instantes, o rosto do anjo da guarda e, sem querer, penso que, apesar de tudo, fui assim como esse anjo, a cobri-la com as minhas asas.

Olho o céu, nuvens cinzentas esgarçam-se com o vento, uma chuva miúda a cair, fininha e fria.

Saio. E comigo toda uma procissão de lembranças. Venho pela Rua da Passagem até a Praia de Botafogo. O trânsito é intenso, e o barulho de motores e buzinas, ensurdecedor. Está frio e a chuvinha não pára. Levanto a gola do casaco até o queixo e vou por ali defendendo, como posso, o meu guarda-chuva de tantos guarda-chuvas apressados.

Mas caminho alheia a tudo, olhos voltados para o passado.

São tão nítidas em mim todas as recordações... principalmente o colégio, aquele colégio onde fomos internas, eu e Lúcia.

Há tantos anos... e é como se eu estivesse vendo, no severo salão de móveis escuros, aquelas duas meninas, tímidas e assustadas, aguardando que a avó terminasse a longa conversa com a diretora.

Eu tinha a pequena mão de Lúcia presa à minha e, de vez em quando, sorria como a lhe dar coragem. Vovó falava, com voz chorosa, sobre a necessidade de nos internar. Era já velha e não podia olhar crianças, ainda mais meninas... além disso, havia o estudo para orientar em casa... ela não podia, o pai estava sempre viajando e a mãe morrera ao nascer a pequenina... mas eram muito boazinhas, crianças dóceis. E não pensasse que era gosto dela interná-las; se soubesse o que lhe custaria a separação!...

Disfarçadamente eu olhava os quadros e os móveis da sala. Pesados reposteiros de veludo cor de vinho envolviam-nos em meia obscuridade, e apenas o colorido vivo, dourado, azul e rosa das imagens dos santos, em quadros e estatuetas, punham uma nota clara no conjunto severo.

Meus olhos úmidos se grudavam em cada coisa, e cada coisa me ficaria indelével na memória, enquanto um punhado de emoções fazia dar saltos ao meu coração de criança: saudades de casa que, apesar de tristonha, era "nossa" casa, e o medo da freira, aquela criatura magra, feia, vestida de negro, que me fazia pensar em morte...

E ela falava depressa, com uma voz roufenha, misturando português e francês, carregando nos erres. A fisionomia, fria e dura, nada tinha de acolhedora. Eu tinha no peito um pássaro assustado que não podia conter.
Elas se puseram de pé e despediram-se. Nós abraçamos e beijamos repetidas vezes vovó que, procurando sorrir entre lágrimas, foi descendo vagarosamente a escadaria de mármore. Através de um véu de lágrimas, nós a vimos fechar sobre si o grande e negro portão de ferro.

O que foram para mim os primeiros anos de colégio não é fácil dizer. Quando, num olhar retrospectivo, procuro ver esse tempo, as cenas se desenrolam numa sequência de quadros de um colorido tão vivo e numa atmosfera de angústia tal, que pessoas e fatos são como se fizessem parte de um pesadelo. As caras vêm e vão e vão e vêm, numa visão de máscaras impassíveis, irônicas, hostis, povoando as horas todas que vivi lá, torturada, profundamente infeliz, isolada de todos, fugindo de todos, fugindo ao convívio das colegas, escondida na concha de uma timidez invencível.

Havia em mim um sentimento profundo de inferioridade em relação à Lúcia, minha irmã. Bonita menina, de olhos cor de azeitona e rosto de camélia.

E Lúcia era querida, elogiada, aclamada em toda parte, enquanto que eu me sentia humilde e só, dentro da consciência de que era feia. E isso me doía como uma ferida.

Todas aquelas caras eram como se dissessem sempre: feia! Em todos os olhos, que se multiplicavam assustadoramente diante de mim, como numa visão fantasmagórica, eu lia: feia! feia! feia! As desgraças na vida não se medem pelo que realmente são, mas pela sensibilidade das pessoas que as sofrem.

O colégio, hoje, que posso afinal esboçar um sorriso de tolerância, de aceitação, diante das coisas da vida, me causa ainda, ao recordá-lo, aquele mal-estar, aquela infeliz sensação de viver no meio de inimigos, fraca e indefesa.

Vejo-me covarde e mesquinha no meu primeiro contato com estranhos. E ali, tudo e todos eram estranhos para mim: os rostos severos das freiras vestidas de negro, sempre ralhando, que gritavam os nossos nomes como chicotadas - Martá! Luciá! - os rostos das meninas, curiosos ou indiferentes, maliciosos e até cruéis.

E vejo-me ainda num esforço heróico para me sobrepor à angústia do medo, ao sentimento de infelicidade, numa sucessão de dias e meses e anos, marchando em filas intermináveis: para a capela, para o refeitório, para a sala de aulas, para o dormitório... fila! fila! fila!

A menina, que não entendia o francês ainda, ouvia, em volta de si, uma algaravia de expressões estranhas que a atordoavam:

- Venez ici, mon enfant!

- Allez-vous en!

- Regardez!

Os olhos amedrontados passavam da freira para os colegas, num esforço supremo para entender, apinhar... sentindo-se como num país estranho, ali onde nossa língua era proibida. Recreio, jogos, cantigas de roda, tudo em francês. À noite, na cama, rezava...

O dormitório enorme, todo pidido em pequenos compartimentos por cortinas brancas. Uma luzinha roxa, pregada no teto, mergulhava-o em quase total obscuridade e fazia com que as coisas não tivessem formas definidas. Meu cérebro fervilhava das horrendas histórias de diabos e infernos que as freiras nos contavam para incutir, em corações inocentes, o pavor do pecado.

De respiração opressa, de olhos assombrados, espiava em volta de mim, procurando na sombra o vulto de algum monstro e pedia a Deus, com fervor, que me ajudasse, que tivesse piedade de mim e me fizesse aprender o francês, para ver se encurtava, um pouco que fosse, a distância que havia entre mim e aquele mundo.

E fazia promessas: "Havia de rezar cem padre-nossos, cem ave-marias..." E o sono vinha e me apanhava rezando ainda, a cabeça encostada na grade da cama: "Ave Maria... cheia de graça..." (as pálpebras pesadas desciam e eu lutava) "o Senhor é convosco... o pão nosso de cada dia..." (ah! Não! Está errado, isto é do Padre-nosso, Deus me perdoe!) Persignava-me e começava tudo de novo.

De manhã, a sineta, o tilintar estridente e o ruído metálico das argolas que se chocavam, ao correrem bruscamente as cortinas, e a voz áspera da freira do dormitório.

- Allons, allons, mes enfants, vite, vite, vite!

E era um alvoroço em vestir depressa tanta saia, tanta coisa, e ainda arrumar as camas. Agora, lá ia de véu preto na cabeça, em fila para a capela.

Era ali então que, diante do altar iluminado, toda a tristeza guardada em meu coração se derramava, inundando-me. A música, o cheiro de incenso, penetravam-me a sensibilidade, e só um esforço sobre-humano me fazia conter as lágrimas. Na concentração a que ficava obrigada, fervilhavam, em meu pensamento, lembranças tristes; e as orações todas só falavam em sofrimentos: "... perdoai as nossas dívidas... crucificado... morto e sepultado... na hora da nossa morte..."

Em volta, as outras murmuravam suas orações num leve movimento de lábios, que deixava escapar os esses. Tantos rostos, de todos os tipos, de tantas expressões, e belos, tão belos tantos. Punha-me a admirá-los, a compará-los, e então a minha fealdade me doía, doía...

Desde pequenina, amava a beleza e me extasiava diante de um rosto bonito como diante de um quadro. E de tal modo esse sentimento enchia meu coração, que não havia ali lugar para a inveja, tão humana, apesar de tão condenada. Era assim que eu amava Lúcia, aquela criança de rosto de boneca. Ninguém a admirava mais do que esta menina feia, que nunca ouvira um só dos elogios com que a prodigalizavam.

Foi então, certa vez, na capela mergulhada em profunda tristeza, que me ocorreu fazer uma promessa: "Minha Nossa Senhora, fazei que, quando eu crescer, fique bonita. Não precisa ser muito, não; basta que as pessoas possam dizer assim - bonitinha, e eu serei tão feliz! Nunca me disseram isso... Minha Nossa Senhora, eu vos prometo então que..." e aí a imaginação voou em busca de um sacrifício que fosse à altura de tamanha graça.

Uns eu achava mesquinhos, outros exagerados, que não pudesse cumprir. Angustiada, caminhei para a mesa da comunhão sem que a promessa se concretizasse. Tomei a hóstia e, num susto, pensei: "Beleza é vaidade, deve ser pecado pedir para ser bonita... meu Deus, perdoai-me! Minha Nossa Senhora, estou arrependida!"

Mas no fundo, bem no fundo da pequenina alma assustada, senti que não estava arrependida, e, se Nossa Senhora, por si mesma, quisesse me fazer bonita?...

Mais tarde, também na capela, veio-me a idéia de ser freira. Tomei, pois, a resolução de pedir a Deus o que Ele naturalmente mais apreciaria: a vocação. Era difícil, bem o sabia, mas Deus era grande, podia fazer o milagre.

Olhava as freiras e via-as rezando, sempre curvadas, com as mãos trançadas para dentro das mangas, porciadas da vida, amortalhadas naquela roupagem negra, o pensamento voltado para a morte - a libertação. Parecia que andavam depressa, rezavam depressa para chegar depressa ao fim dessa tortura - a vida.

E iria eu viver assim? Sempre assim, eu que achava tão tristes as igrejas? Mas rezava e dizia: "Deus é grande!" Media as vantagens: não precisa ser bonita, não precisava me enfeitar... e... Deus do céu! Não teria que competir com ninguém... estaria livre.
- Meu Deus! Meu Deus! Ajudai-me - rezava contrita.

Dias seguidos, meses talvez, acariciei este desejo, procurando aclimatá-lo em minha alma inquieta. E ele ia e vinha, oscilando como um pêndulo, incapaz de criar raízes. Lutava por me libertar, por vencer a timidez absurda e o sentimento de inferioridade e de culpa que me algemavam. Mas ser freira, poderia? Havia tanta vida em meu corpo, e aquilo me parecia a morte.

Já entendia aquela fala cantada e fanhosa, já podia responder quando interpelada naquela língua. Aplicava-me aos estudos e procurava cumprir rigorosamente todos os deveres, como seria digno de alguém que se destinava a ser freira. Andava sempre alheia, sempre sonhando, afastada de todos pelo meu temperamento introvertido, e de Lúcia pela rigorosa disciplina do colégio. Tinha um medo doentio de castigos e notas más. Vivia num contínuo susto, possuída de um sentimento muito vivo de culpa, que não sabia explicar, e que devia estar enraizado no fundo do meu ser, desde a sua formação.

Domingo era o dia das notas da semana. Hora trágica. Num ritual, que mais parecia um julgamento, a classe formava um semicírculo diante da mesa, onde um grande livro de capa preta pousava aberto, e em volta da qual sentavam-se, empertigadas, aquelas figuras negras que lembravam a Inquisição. A madre superiora, ao centro, em voz monótona e impessoal dizia nossos nomes e, em seguida, a sentença:

- ... très bien.

- ...bien.

-... zero-note.

E "zeronote" era a nota horrível que impedia de ir ao salão de visitas. Ao dizê-la, a madre levantava lentamente do livro um olhar azul e duro como de um olho de vidro, à procura da "criminosa". E era tal a intensidade dramática emprestada a essas palavras que, quando dizia: "Zerrô-note!", eu traduzia: está morta!

Alguns dos "crimes" eram, por exemplo, falar na capela ou no dormitório, abraçar uma colega. A alma ingênua e inocente da menina que eu era perguntava a cada instante: Por quê? Por quê? Por quê?

Em casa diziam-me: não suba aí porque pode cair, não coma muitos doces porque pode fazer mal. Havia sempre um "porquê" em todas as proibições, mas ali havia um mistério. E eu então pensava que o colégio não fazia parte do mundo. Um mundo onde iria viver mais tarde e onde todos viviam era lá, além daquele portão de ferro preto.

Depois das notas, havia o salão de visitas. Reunidas na sala de estudos, todos os rostos formavam um só quadro de ansiedade. E, em contraste com o bater acelerado de tantos corações, a voz calma e pausada da freira fazendo a chamada de nossos números:

- Douze.

- Quatre-vingt cinq.

- Dix.

- Soixante-trois.

As máscaras de angústia se desmanchavam, banhadas num sorriso feliz. E, alvoroçadas, arrancávamos os aventais de uso interno e, calçando rápido as luvas brancas, saíamos ajeitando os cabelos, acenando para as outras, as que ainda ficavam à espera da vez.

Mas eu nem sempre ia ao salão. Vinha um recado de vovó, que eu recebia num susto. Estará doente? Não. Eu me acalmava então, era apenas alguma novidade: batizados, aniversários... E, Deus do Céu! Quanta coisa pode haver num domingo!

Era sempre vovó quem vinha e trazia a desculpa dos outros: papai viajando, as tias com isso ou aquilo... Vovó punha Lúcia no colo, que se punha a tagarelar, ela sempre tinha tanta coisa para dizer... Recebíamos também as gulodices feitas pela Carola, nossa cozinheira, que era como uma pessoa da família, pois acompanhava vovó desde o seu casamento. Seus doces e biscoitos eram famosos, e já olhávamos os pacotes com a boca cheia d'água.

Súbito soava a sineta. Confusão ruidosa, de beijos e de choros, enquanto a sineta, badalada por mão vigorosa, percorria toda a área de visitas. Meus nervos eram penetrados dessas badaladas e meu coração batia, batia, como se ele também badalasse.

Mas Lúcia, que me lembre, nunca deixou de ir ao salão. Via-a sempre ir a chamado das amigas, e, à hora do lanche, depois das visitas, única hora permitida durante toda a semana para a conversação geral, ela vinha e me dizia: "Marta, foi tão bom! Fiquei conhecendo uma porção de gente, me agradaram, me acharam bonita...!" E dizia que tinha pena porque eu não ia.

Sem querer, eu a comparava comigo. Com uma natureza tão diferente da minha, ela era feliz. Dizia que gostava do colégio: "É melhor do que em casa, não é, Marta? Lá estamos sempre sozinhas e aqui temos tantas amigas... as madres são tão boas..." e falava, falava, mostrava os santinhos com dedicatória que as colegas lhe davam, "até a ma mère também me deu um..." acrescentava, a alegria brincando em seus olhos.
- E você, gosta?

Respondia que sim, que estava gostando.

Via-a sempre no recreio, afogueada, tomando parte em todos os jogos, a gritar as marcações em francês, com tanta graça.

- Lion touché!

- Quatre-point!

- Cinq-point!

E as cantigas de roda, numa toada bonita:

"Bon soir, mes voisins, bon soir..."

Sua voz dominava as outras, aguda, cheia, viva. Eu a amava porque ela era o que eu queria ser: bela e feliz. Enquanto eu me sentia como um pássaro encarcerado vendo os outros a voar.

Autor(a): Magdalena Léa

 

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