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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO II
publicado em: 17/08/2017 por: Lou Micaldas

"E guardo ainda, nos ouvidos, o ranger do grande portão de ferro preto. Levava na mão um diploma e alguns prêmios."

No fim do ano, as férias.

Descíamos em fila para a rua. A última fila daquele ano.

E assim passávamos, uma a uma, pelo portão de ferro preto, aberto de par em par, em cujo batente a madre superiora se colocava, estendendo a mão para que a beijássemos.

Após o estalo do beijo, dizíamos, numa reverência:

- Au revoir, ma mère.

- Au revoir, mon enfant - respondia ela.

Tomávamos o bonde especial na esquina, numa algazarra de gargalhadas, gritinhos agudos e a zoada de falarem todas ao mesmo tempo.

Eu e Lúcia saltávamos do bonde mesmo na esquina e íamos correndo para casa. Vovó esperava na varanda fazendo intermináveis paninhos de crochê. Vovó e seu crochê estão gravados na minha memória, e também aquele cheirinho do gostoso lanche que preparava para nos receber.

E as férias corriam. Eram três meses que passavam voando, entre festas, cinemas, visitas, passeios. Comprávamos vestidos, sapatos, tanta coisa bonita, e andávamos sempre juntas, gozando todos os instantes, sem nos determos em pensar no longínquo dia da volta.

Ah! Esse dia!

À tarde, tomávamos o bonde especial na esquina, já cheio. As meninas tagarelavam sobre festas, passeios, presentes de Natal e fantasias de carnaval. Davam gritinhos de prazer e entusiasmo, e cada qual tinha mais para contar...

Por trás da serra, o sol descia devagarinho, escondendo-se... deixando para nós a tristeza da sombra. Era, então, como um toque mágico naqueles corações tão jovens. Silêncio. Começa uma a chorar, depois a outra e, em breve, os soluços misturavam-se ao ruído do bonde, monótono como um lamento.

Eu fazia um esforço sobre mim mesma porque Lúcia, a cabeça no meu colo, soluçava.
- Não chore, meu bem, um ano passa depressa... E tem um salão de visitas... as saídas do mês... você gosta do colégio, tem tantas amigas... - E não sei onde arranjava consolo para ela, eu que não sentia nenhum. E mais um ano corria.

Seis anos cursamos juntas esse colégio. Eu era boa aluna e recebi várias vezes a cruz de aplicação e de comportamento. Uma condecoração alta que me deixava orgulhosa. Para o fim do curso, já me fazia adulta e conseguia sepultar em meu peito a meninazinha assustada e amarga que tanto me fizera sofrer. Andava-se formando em mim aquela qualidade de aceitação, que depois me veio sendo tão necessária pela vida afora.

Quanto mais crescíamos, mais se acentuava a nossa diferença de temperamentos. Éramos, eu e Lúcia, o oposto uma da outra, sem que isso impedisse de nos estimar. Eu a amava como a uma filha, sentindo-me orgulhosa de sua graça e beleza.

Lembro-me de certo dia. Uma menina perguntou a Lúcia:

- Você tem pai?

- Tenho.

- E mãe?

Lúcia hesitou e depois, apontando-me com meiguice:

- Tenho... é ela.

Fiquei comovida. Pensei em dizer algo, mas havia um nó, e eu só fiz, disfarçadamente, num gesto natural de lhe afastar o cabelo, uma carícia no rosto corado.

Na terrível epidemia de gripe, em 1918, perdemos papai.

Do colégio ninguém saía e ninguém sabia dos horrores acontecendo na cidade. Mas as freiras rezavam e nos pediam para que rezássemos, e então podíamos apinhar que algo de muito grave acontecia.

Um dia a Superiora mandou chamar-me ao gabinete. Pressenti que não seria nada de bom. Cheia de susto, curvei a cabeça, à espera.

- Martá... - começou ela.

Fiquei parada, o coração martelando.

A cabeça tão vazia que nem podia pensar, ouvia as palavras dela como se estivessem amontoadas sem formar sentido.

Era papai, estava muito doente, dizia, e me aconselhava a ter paciência, a ter fé em Deus...

Senti subitamente que não me dizia tudo e perguntei ou afirmei, nem sei bem:

- Il est mort?!

Ela fez um movimento lento, muito lento, com a cabeça, afirmando, e nos seus olhos azuis havia piedade.

Eu não sabia o que dizer. Pensei se devia chorar, mas não sentia vontade, e murmurei tolamente:

- Merci, ma mère...

Fui embora, de olho seco, de coração pesado, procurando pôr em ordem os meus sentimentos. Morria aquele pai que mal conhecia e nem sei se estimava, mas era meu pai. E fiquei repetindo: "Papai morreu! Papai morreu!" a ver se me impregnava dessa idéia. Lembrei-me de vovó chorando alto, como uma criança, quando mamãe morreu. Lembrei-me de casa e tive saudade, uma sensação de perda indefinida, uma tristeza sem bem saber de quê. Quase alto, num desalento, falei:

- Não tenho pai nem mãe!...

A frase era triste, e meus olhos se encheram de lágrimas.

Mamãe... eu me lembrava bem dela, de sua cabeleira negro-azulada, que às vezes deixava cair pelas costas. Fascinava-me aquela massa suntuosa que atingia os joelhos.

Eu gostava de passar as mãos de leve, numa carícia, em todo o seu comprimento, e de mergulhar o rosto nas suas ondas perfumadas. Mas aquela mãezinha bonita estava tão longe de mim!

De saúde abalada desde o meu nascimento, era rodeada de cuidados: "Não se pode cansar mamãe, não podem incomodá-la" - diziam. O nascimento de Lúcia veio agravar-lhe o estado de saúde, sem que os cuidados de vovó e de papai, e a luta dos médicos, lograssem vencer.

Lembro-me da casa vazia, apesar das pessoas, triste, apesar das flores. Lembro-me dos olhares compungidos com que envolviam a minha pessoinha, de vestido preto, a esgueirar-se pelos cantos.

Lembro-me do abalo de papai que, de testa fincada nas mãos ficava horas esquecidas. Dali por diante, ele sempre viajou, e nós só o víamos de longe em longe.

Vovó, acabrunhada com a morte da filha, vivia pela casa lastimando-se e engrandecendo-a na sua saudade. Chamava a preta Carola e ficavam em longas conversas sobre a morta. Eu gostava disso, dava-me a conhecer a mãe que conheci tão pouco.

E papai... Era engenheiro, andava por aí levantando pontes, construindo estradas. Em casa, pidia seu tempo entre os carinhos e cuidados com mamãe e o seu trabalho no gabinete. Quantas vezes o espiava, cheia de curiosidade, e o via, a pala azul sobre os olhos, a riscar, de réguas e compassos, numa enorme folha de papel. Era aquilo, então, o trabalho dele, que não se podia interromper, que não se podia fazer barulho? E eu prendia as pernas inquietas, num desejo louco de correrias no comprido corredor.

Pensei no seu rosto moreno, no seu porte, nos cabelos embranquecendo nas frontes, e fiz um esforço para vê-lo morto: lábios roxos, cerrados, feições endurecidas e as mãos cruzadas no peito.

Imaginei como estaria a casa cheia.

Tínhamos muitos parentes, desses que vivem por aí espalhados, e que é preciso morte ou casamento para reunir. Vi-os todos, vi as lágrimas deles, senti o perfume das flores, vi os crepes voando nas janelas, negros, tristes, abanando, como se dissessem adeus.

As lágrimas corriam-me pelas faces e eu pensei em Lúcia. Como receberia ela a notícia?

Lembrei-me de que Lúcia, de nós duas, foi quem mais teve pai. Ao chegar das viagens, ele a tomava no colo, dava-lhe brinquedos, fazia-lhe muitos carinhos e dizia sempre: "Que linda! Como é bonita!"

Caminhei, as pernas trêmulas, ao encontro de minha irmã. Na saleta, ao lado do salão de estudos, ela me esperava, por ordem da diretora, para conversarmos. Os olhos enormes de curiosidade e de susto fixaram-se em mim.

- Que foi, Marta? Que aconteceu? Vovó...?

- Não, nada com vovó, é papai... ele... - gaguejei - está... está mal... - Seus olhos encheram-se de lágrimas e ela atirou-se nos meus braços.

- Ah! Marta, eu sei... eu sei que ele morreu, e você está me enganando - disse entre soluços, e depois, numa explosão:

- Papaizinho... meu papaizinho...

Como eu nada dissesse e só acariciasse seus cabelos, ergueu-se, tendo nos olhos embaçados um resto de esperança:

- Morreu... mesmo, Marta?

Soluçava alto, agarrada comigo. Eu estava admirada daquela dor por um pai - como direi? - tão ausente.

"Mas era pai... mas era pai"... eu me repetia.

No último ano, havia uma espécie de consideração das freiras para com as alunas que terminavam o curso. Conversavam conosco, tratavam-nos como adultas e sentíamos uma certa responsabilidade de gente grande.

Era como se o colégio fizesse por nos conquistar, agora que íamos deixá-lo. Tenho agradáveis recordações dessa época. Fazíamos projetos para nossa vida cá fora, e as freiras também tomavam parte em nossa tagarelice. Falávamos nas saudades que sentiríamos do colégio, e como eu achava infantis, agora, meus sofrimentos de outrora.

A despedida do colégio é um adeus à infância.

No limiar de uma nova vida, parávamos interditas, de coração opresso, a interrogar-nos mentalmente:

- Qual será nosso destino?

Desci pela última vez a escadaria de mármore e não pude reter as lágrimas ao contemplar a fisionomia severa do palácio antigo.

E guardo ainda, nos ouvidos, o ranger do grande portão de ferro preto. Levava na mão um diploma e alguns prêmios.

Levava no coração um susto e uma curiosidade por esse mundo tão belo, mas tão traiçoeiro, onde o pecado se esconde em cada canto.

Acrescento que nenhuma promessa logrou fazer de mim nem freira, nem bela.

Autor(a): Magdalena Léa

 

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