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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO IV
publicado em: 18/08/2017 por: Lou Micaldas

As minhas horas alegres eram pela manhã. Sentia a vida quando ao abrir a janela do meu quarto deixava entrar o sol e o chilrear dos passarinhos pousados no abieiro, cujos galhos se debruçavam no peitoril da janela.

Terminavam as férias de Lúcia. À proporção que se aproximava o fim, ela entristecia. Mocinha já, sentia ter de voltar para o colégio, principalmente sem mim. Uma vez, eu a vi chorando.

- Que é, Lúcia?

- Nada...

- Nada, não; você não quer voltar, não é?

- Olhe, Marta, se você voltasse comigo, juro que não me importava, mas sozinha...

E desatou num pranto.

- Não é tanto assim. Você precisa terminar o curso como eu o fiz, já não é mais nenhum bebê e sabe o que deve fazer. Não vai, portanto, parar no caminho, minha filha, e... onde está a sua coragem?

- Não quero saber de coragem, nem de nada. Não vou, não vou e não vou, já disse!

Mas foi. Nem vovó, com sua mansidão, consentiu que ela ficasse. Falava ora firme, ora lastimosa, apelando para os bons sentimentos de Lúcia, "que era a vontade de papai, que sempre disse e repetiu que nós havíamos de acabar o curso naquele colégio, e ela, vovó, não haveria de respeitar a vontade de um morto?"

Casa grande, vazia, sem vida. Vovó e eu, com exceção dos empregados, éramos os o únicos habitantes daquele museu.

Enterrei-me nos livros e li tudo quanto tinha a biblioteca da família. Travei íntimas relações com os grandes da nossa literatura em prosa e verso. Nas saídas mensais, Lúcia vinha e espalhava alegria pela casa toda. Depois voltava ao colégio, levando com ela a vida do casarão.

Eu não me sentia jovem. Moralmente estava envelhecida.

Sozinha, ali, entre duas velhas, lendo e pensando, tornei-me um ser ausente da época.

Talvez eu não tenha dito ainda quem era vovó.

Uma velhinha gorda e rosada, com a cabeça coberta de bandós branquinhos. Era o tipo da velha de que a gente gosta. De fala e gestos macios, não sabia ser severa além de: "Se você fizer isso, vai ver comigo..." E nunca se ia ver nada com ela.

Católica até o mais recôndito de seu ser, cumpria todas as regras e, a tudo que dizia, ajuntava o "bom Deus". As lágrimas lhe eram tão fáceis que qualquer historiazinha fazia vertê-las. Ria e chorava com a mesma facilidade das crianças. Não tinha muito que dizer do passado.

Nascida e criada numa fazenda, em Jacarepaguá, a sua vida quase que começou com o casamento. Teve três filhas: Tia Clara, a mais velha; tia Dulce, a segunda, e mamãe, a caçula. As duas primeiras casaram-se e foram saindo.

Tia Clara, para a Bahia, casara-se com um baiano negociante, e lá nasceu Luís, seu único filho, que era dois anos mais velho do que eu. Depois, tia Dulce, que foi morar em Niterói. Lá comprou casa, lá nasceram-lhe as filhas, Lali e Vera, e lá mora até hoje.

Por fim, casou-se mamãe, que, com o meu nascimento, ficou sempre doente e precisando de seus cuidados. Nada sei de vovô. Apenas deduzo que, se não foi bom, também pouco incomodou.

Era comandante de navio; viajava sempre e, numa longa viagem, morreu e teve por sepultura o mar.

Deixou as filhas ainda pequenas.

Eu puxava por ela para ver se encontrava um romance ao vivo. Já vinha devorando todos os das estantes e agora queria um de verdade. Mas, de pouca imaginação, ela se limitava aos fatos.

Falava, sempre lacrimosa, em mamãe, que era a caçula e sua predileta, mas persignava-se e dizia: "O bom Deus sabe o que faz". Temia, creio, desagradá-lo com a dor e a saudade que sentia. Morta mamãe, costumava dizer: "Só a morte me tira de vocês."

Tinha imensa preguiça de ler, mas gostava de que eu lhe contasse as histórias que lia.

Nos momentos tristes, chorava e ria, e comentava:

- Esse Machado de Assis bem podia ter dado um jeito para Helena se casar com o Estácio, já que não eram irmãos...

Mas eles são assim mesmo, esses escritores, gostam de aborrecer a gente. Como é mesmo o nome daquele romance em que ia tudo muito bonitinho e, zás, azedou?

Começou a morrer todo mundo, a ficar pobre e... cruz!

Quanto azar!

- Não sei, vovó, há tantos livros assim... O romance é uma cópia da vida, e a vida nem sempre acaba "bonitinho". Não há mesmo tanta solteirona, e gente arruinada, e tantos que morrem cedo?

- Ah! Lá vem você com isso. Pois então acha que quando se pega num livro para distrair há de ser para encontrar desgraças? Eles deviam reunir tudo que fosse pertido e bom e escrever para a gente. Afinal, já bastam as tristezas que a vida nos dá e que não podemos evitar. Você mesma, que é prosa só, quantas vezes deixa o livro com os olhos vermelhos? E gosta?

- Gosto. Gosto mais daquilo que me comove...

- Não... não acredito que ninguém goste mais de chorar do que de rir...

Abanava a cabecinha branca e retomava o seu crochê nervosamente.

Os nossos serões, que matariam de tédio qualquer moça da minha idade, para mim eram doces. Depois do jantar, íamos as duas ouvir vitrola. A sala enorme, de móveis escuros e antigos e pesados reposteiros de veludo. O tapete espesso, que abafava o ruído de passos, envolvia-nos numa atmosfera de silêncio e solidão.

Vovó, recostada à cadeira de balanço, dormitava às vezes, enquanto eu mudava os discos e dava corda na vitrola. Ela havia freqüentado temporadas líricas no Municipal, e nós tínhamos discos de óperas inteiras, cujos enredos ela me contava.

E em meio de seu entusiasmo, erguia as mãos com crochê e agulha e ficava marcando os compassos, cantarolando os trechos que sabia. E eu, assim, fiquei conhecendo as grandes óperas famosas no mundo inteiro.

E como me apaixonei pela história triste de Madame Butterfly, a linda japonesinha desprezada, esperando doloridamente o ingrato que não vinha! E que morre. Mata-se de desespero ao vê-lo perdido para o seu amor. Toda a minha simpatia ia para essa encantadora figura de mulher que, nem com tanta doçura pôde prender o homem que amava.

Todas as outras óperas eram também trágicas, e seus intérpretes, numa voz belíssima, choravam cantando suas desgraças, para nosso deleite.

Estes serões raramente passavam das dez horas. Já à essa altura, eu tinha o braço doído de dar corda na vitrola e vovó cochilava francamente. Mas na cama, à luz da lâmpada de cabeceira, eu lia até altas horas da noite, batidas sonoramente no carrilhão da sala e que do meu quarto tão bem se ouvia.

Também estava na idade em que quase todo mundo faz versos. Foi uma febre. Os sentimentos recalcados no fundo da alma vinham à tona em turbilhão, desordenados, em versos pessimistas, amargos. Escrevia, riscava, rasgava e fazia uma infinidade de bolotas de papel. Lutava com a métrica e a rima que, como um dique, impediam o extravasamento natural dos sentimentos. E os versos, que me pareciam grandiosos na idéia, no papel saíam inexpressivos, e me desesperavam.

A hora da minha inspiração era à tardinha, ao pôr-do-sol. Da janela de meu quarto, eu via o horizonte sangrando, a quietude das árvores, o silêncio dos pássaros e os recortes dos morros, cujo verde-veludo a tarde tingia de roxo. A sombra lilás a tudo envolvia, e se estendia a meu coração numa tristeza, algo assim como uma saudade vaga, uma vaga nostalgia.

E eu escrevia febrilmente.

As minhas horas alegres eram pela manhã. Sentia a vida quando ao abrir a janela do meu quarto deixava entrar o sol e o chilrear dos passarinhos pousados no abieiro, cujos galhos se debruçavam no peitoril da janela.

Até hoje, que minhas esperanças estão mortas, eu me enterneço a cada manhã que nasce, cheia de luz na promessa de um dia todo azul - um novo dia.

Mas, por esse tempo, eu já não era dona de mim. Vovó andava me passando a direção da casa:

- Vai, minha filha, vê se precisa alguma coisa do armazém.

E eu ia.

- Vê se Carola já fez o molho do peixe, sim?

- Pois não, vovó.

Carola, que era contemporânea de vovó, andava também cansada. O serviço era demais para seus braços magros e pelancudos. Queixava-se de reumatismo, subia e descia as escadas cheia de ais e uis, mas implicava com a ajudante de cozinha e a arrumadeira, cujos serviços criticava sempre.

Fui me interessando pela cozinha e, em breve, de receita na mão, fazia uma variedade de doces e salgadinhos.

Agora só se ouvia dona Marta para cá, dona Marta para lá.

Ninguém arredava palha sem que eu desse ordem.

E eu me sentia orgulhosa da minha eficiência.

E cinco anos se passaram.

Lúcia terminara o curso. Vovó e eu preparávamos tudo para recebê-la festivamente na última saída do colégio.

Fazíamos programas, organizávamos menus.

- Lúcia adora uma canja - dizia vovó. - Vou matar a carijó, está gorda que faz gosto. Quase que a bicha nem pode mais andar. Há de dar uma canja!...

- É preciso mudar as cortinas do quarto dela, já estão desbotadas.

- É claro; e também algumas roupinhas...

De lápis em punho, eu anotava o que tinha de fazer e pensava que estava quase da idade de vovó.

Lúcia veio nos primeiros dias de dezembro.

Em pleno desabrochar dos seus dezoito anos, era uma soberba mulher. Em toda a sua beleza, eram os olhos que mais se destacavam: enormes, amendoados. Tinham agora um brilho mais intenso e um reflexo de ouro. A luz incidindo sobre eles, ou quando marejados de lágrimas, tornavam-se esverdeados e pareciam duas azeitonas.

O Natal e o Ano-Bom foram de festas e passeios, e Lúcia me arrastava com ela para toda parte. Eu, mais madura, tinha conseguido sufocar o complexo de inferioridade. Já não sentia revoltas. Estava em paz comigo e com o mundo.

Pidia meu tempo entre a casa e Lúcia. Ora arrumava, dava ordens, fazia doces, ora saía com minha irmã para seus passeios, visitas, compras. Os dias eram todos tomados de atividade, e só à noite que lia um pouco. Lúcia não me compreendia, nem fazia por isso. Se eu era fechada, paciência!

Ela era inconsciente e egoísta como as crianças, que muito inocentemente supõem que o mundo existe para seu prazer, e as pessoas aí estão para servi-las. A vida para ela se resumia em pertir-se. À noite, estendidas em nossas camas paralelas, algumas vezes conversávamos:

- Você está muito vaidosa, Lúcia. Só fala em vestidos, festas, futilidades...

- E que tem isso? Acho que devo aproveitar. Sou moça, ora... Não quero ficar como essas velhotas que dizem num suspiro: "No meu tempo... ai, no meu tempo...", cheias de uma saudade esquisita daquilo que não fizeram. Eu admiro você. Você é moça, Marta, e que é que espera?

- Decerto vemos a vida de modo diferente, mas o que quero dizer é que você se pirta, brinque, se enfeite, mas não fique a tudo isso tão atada. Há coisas, afinal, mais dignas de interesse e dedicação.

- Acho que nada vale a pena, a não ser a gente se pertir. Outro dia mesmo eu era criança e agora sou moça; amanhã estarei velha. Quero fazer tudo de que gosto. Quero viver bem intensamente a minha mocidade. Quero, finalmente, ser feliz agora, à minha moda, depois envelheço calmamente e satisfeita, que é o principal.

- Você fala de ser velha como de uma calamidade; pois eu penso até que deve ser bom. Não vê vovó? Não tem mais esperanças, mas em compensação não tem mais desilusões. Quem sabe se vovó não é mais feliz do que eu?

- Você se faz velha antes do tempo. Não sei que graça pode achar em arrumar casarões como esse, fora da moda e cheirando a bolor. E cozinhar... meu Deus do Céu! Creio que morro sem entrar numa cozinha.

Ri-me.

- De que está rindo? Eu falo sério. Quando me casar, vou logo avisando: detesto cozinhar, detesto arrumar a casa, detesto coser...

- E detesta filhos?

- Não; isso não. Não que vá ter dez, mas unzinho ou dois... com uma boa babá, bem entendido. Está certo, eu até gosto de crianças...

- Lúcia - interrompi - vou lhe dar um conselho: case-se com um homem bem rico. Não... espere, não é bem isso. Digo que procure gostar de um rapaz rico.

Sem amor, acho eu, o casamento é um desastre. Imagine, você morar, viver com uma pessoa pela vida toda, por quem você só sinta, quando muito, indiferença. Sem amor, você achará muito mais defeitos nele, e acabará por odiá-lo só pela obrigação que terá de amá-lo. Segure o seu coração firme nas rédeas e, quando vir que está conforme, solte-o.

- E você acha isso fácil?

- A que se refere? À questão de guiar o coração ou à questão de encontrar o moço rico?
- Às duas... seja.

- Bem, eu não tenho experiência, mas pela observação que faço das coisas, acho que será fácil para você.

- Para mim? E para você?

- Não estou tratando da minha pessoa agora, mesmo porque poderia me casar com um homem pobre que não me faria diferença.

- E por que acha fácil para mim?

- Naturalmente porque você é atraente e por isso poderá escolher; aí está a questão do rico. Quanto à questão do coração, não creio que você seja muito apaixonável, a ponto de amar apesar de tudo.

- Não sei se sou "muito apaixonável", como você diz - respondeu pensativa; e continuou - por enquanto, não me interesso por ninguém, só tenho flertes. E quase que só me deixo flertar, sem tomar parte...

- É, eu vejo como você os faz dançar à sua volta. Por que não namora? Não gosta?

- Do namoro, namoro mesmo, não gosto. Creio, Marta, que sou orgulhosa, pois não gostaria que eles dissessem que são ou foram meus namorados. Acho que me sentiria diminuída.

- E... namorada de um perde os outros, não é?

- É, não nego. Em todo caso, prefiro que eles me queiram e eu não queira nenhum.

Eu ria.

- Mas isso pode ser perigoso para você, um dia.

- Por que perigoso?

- Porque você pode gostar de alguém que não tenha coragem para romper o cerco, já que você vive rodeada...

- Isso não acontece, pois quando eu quiser, saberei muito bem manobrar.

- Bravos! Mas prometa-me uma coisa.

- Já está prometido. O que é?

- Quando você sentir que está gostando mesmo, conte-me. Eu sou mais velha, sinto-me como se fosse sua mãe. E, decerto, poderei ajudá-la.

- Você é um anjo, Marta. Você é meu anjo da guarda - disse com ternura e jogou-me um beijo.

Fiquei pensando. Já havia notado esse orgulho nela. Nas festas, na sociedade, era altiva e eu ficava contente.

Detestava essas namoradeiras, sempre de mão em mão.

Sentia-me orgulhosa dela.

Autor(a): Magdalena Léa

 

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