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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO IX
publicado em: 29/08/2017 por: Lou Micaldas

"Depus na mesa a bandeja, enfiei risonha a cabeça pela porta entreaberta e vi ... duas bocas que se uniam na sombra."

Reunidos na sala de jantar, eu trocava os discos na vitrola. A voz bonita da menina Carmem Miranda cantava:

"Taí,eu fiz tudo pra você gostar de mim,

ó meu bem, não faz assim comigo não,
você tem,você tem
que me dar seu coração."

Meio inconsciente, talvez, eu repetia à meia voz:

"Você tem,
Você tem
Que me dar seu coração..."

E a marchinha-sucesso de Joubert de Carvalho parecia feita para mim.

Vovó, na sua cadeira de balanço; ao lado dela, Rui, que, algumas vezes, se levantava e vinha me ajudar na escolha. Delirava de felicidade quando ele, para impedir que eu pusesse esse ou aquele disco, de que não gostava, segurava a minha mão. Ele era pelos clássicos, eu pela música ligeira, que canta na alma do povo. E ríamos e brigávamos, e eu insistia naquela brincadeira tão doce para mim.

E Lúcia?

Lúcia lia. Enfiada numa poltrona, sem um gesto, um ruído que acusasse a sua presença.

Fora, a chuva caía insistente, com o ruído monótono do bater nas telhas.

Esta noite, Rui tinha vindo, a pedido de vovó, que não se sentia muito bem. Tomou-lhe a pressão arterial, auscultou-a e prescreveu dieta e repouso, duas coisas difíceis para ela, que andava na casa como uma baratinha tonta e adorava salgados e picantes.

Costumava dizer: "Que adianta a gente viver se é para estar numa cadeira, amarrada, e a comer essa porcaria de chuchu sem sal? Não danço, não passeio, não namoro e não posso nem comer?"

Desde a véspera que chovia assim. E o céu, pesado e cinzento, prometia chuvas por vários dias ainda. Rui esperava uma estiada para sair. O carrilhão da sala já havia anunciado as dez horas, em suas badaladas compassadas e longas.

Fui buscar um cafezinho. Quando voltei com a bandeja com as xícaras de porcelana fumegantes de um café cheiroso e alguns biscoitos, só encontrei vovó na sala, que me fez com a cabeça sinal de que estavam na varanda, Lúcia e Rui.

Depus na mesa a bandeja, enfiei risonha a cabeça pela porta entreaberta e vi ... duas bocas que se uniam na sombra.

Estirada em minha cama, pude então enfileirar meus pensamentos. Aquilo me parecia um pesadelo. Foi como que sonhando que os vi entrar depressa com um ar de que nada tivesse havido.

- Boa-noite, Marta - me disse ele, tocando de leve no meu ombro.

Ninguém viu, ninguém sentiu que eu estava morta? Como eu os via longe! Parecia que me falavam a léguas! Nem podia sofrer, a pancada fora tão violenta que me anestesiara.

Mas doía agora. E eu sentia um secreto prazer em bulir na chaga e queimá-la a ferro em brasa.

Como tinha sido idiota! Idiota a ponto de nada perceber! Como pude ser tão cega? E pensar, Deus meu, que ele me escolheria, a mim, em vez de Lúcia? Que imbecil fui! Não aguento pensar que fui tão imbecil...

Luís, sim, me quis... Por quê? Talvez porque quisesse uma caseira para cuidar dele, e, para isso, bem que a prima feia podia servir. Malditos todos. Maldita vida. Por que esconderam?

Por certo esconderam, pois Lúcia poderia me ter dito que se gostavam, e eu não estaria fazendo este papel de palhaça diante de mim mesma. Senti que a odiava.

De minha cama ouvia sua respiração compassada. Acendi a lâmpada, queria vê-la. Sentei-me à beira da cama e pus-me a contemplá-la avidamente. Tinha um braço nu, erguido acima da cabeça, as ondas dos cabelos esparsas sobre o travesseiro, os olhos cerrados, os longos cílios projetando sombra no cetim das faces. Vi os lábios polpudos que ele havia beijado.

Um leve arfar de seu busto deixava ver, na transparência da cambraia fina, os bicos rosados dos seios túmidos. Pela primeira vez senti inveja da beleza dela. Cobri o rosto com ambas as mãos para fugir àquele quadro.

E meu coração balançava entre a dor do despeito, do ciúme, e o horror de odiar a minha irmã. Seria possível, a mim, odiá-la? Mas se ela não tinha culpa! E onde estava meu sentimento materno por aquela criança? Que força teria o amor para assim matar uma afeição, uma adoração de tantos anos?

Impossível dizer o que sofri. Gemi e chorei durante horas a fio. Chorei, nessa noite, todos os meus fracassos. A morte de todas as esperanças, de todas as ilusões.

Lembrava-me do colégio, da antipatia que freiras e colegas sempre me votaram. E sentia um prazer masoquista em me ferir fundo, repetindo com estranho gozo:

- Ridícula! Ridícula! A se enfeitar, a fazer frases, a fazer bolinhos, para atraí-lo! Devia nascer morta uma criatura assim estúpida... Era de Lúcia, ouviu? Era de Lúcia que ele gostava... Lúcia que tem tudo! Beleza, inteligência, graça, juventude... tudo... tudo! Como ele... eles se ririam de você se tivessem sabido, apinhado suas pretensões ridículas! Oh! Graças a Deus, tive vergonha suficiente para esconder...

As lágrimas corriam-me pelo rosto inundando o travesseiro. Aquele mesmo travesseiro testemunha dos meus sonhos mais belos. E eu não podia afastar da lembrança a visão das duas bocas unidas.

As chuvas continuavam sem dar tréguas. Penetrava em mim a tristeza do céu cinzento.

"Se ao menos fizesse sol..." Tinha no colo uma costura; e Lúcia, um livro que não lia.

- Acho você mudada, minha irmã, que é que há? - perguntei.

- Eu é que pergunto isso... há já bastante tempo que vejo você alheia. Quase não conversa comigo... cheguei a pensar que estivesse zangada, mas como ultimamente tenho estado comportada, não podia ser...

Eu a olhava atônita. Era então notório o meu alheamento? E pensou que eu estivesse zangada com ela?

- Mas por que você não vinha a mim? Tenho andado adoentada, cansada, talvez... mas você podia vir falar comigo.

- Eu até precisava bem disso - respondeu com ar acanhado - mas fiquei sem jeito.

- Bem, agora que esclarecemos tudo, você não me dirá por que precisava tanto de mim? - perguntei sorrindo, mas com o coração dando saltos.

Ela baixou as pálpebras, virou e revirou o livro nas mãos e falou depressa:

- Eu e Rui estamos... noivos.

Antes que ela o dissesse, eu já havia apinhado a frase. Ela já me cantava nos ouvidos, como ainda me ficou cantando por toda a vida.

Não precisei esconder minha emoção.

Como mãe extremosa, era natural que a tivesse. Abracei-a. Como foi que nesse momento não senti nenhum ódio? Como foi que voltou, ao meu coração tão doído, aquele afeto pela minha irmãzinha, e que eu supunha extinto?

- Conte-me o romance - pedi, sentando-me no braço da sua poltrona e acariciando-lhe os cabelos docemente.

- Começou antes do carnaval, Marta. Ele disse que desde que me viu pela primeira vez, ficou apaixonado, imagina! Mas na festa da Escola Naval... lembra-se de que eu fui com a Lourdes? E até foi quando você me deu aquele "pito"... Rui estava lá e... ele andava sempre implicando comigo... lembra-se de que eu disse que não me interessava por ninguém? É que não podia dizer a você que estava gostando dele.

Você me tinha dito uma vez que, quando eu quisesse namorar sério, ninguém me acreditaria, lembra-se? De fato ele ridicularizava meus flertes, e eu os mantinha mais para não dar o braço a torcer.

Fez uma pausa, depois pegou minha mão e continuou:

- Nessa festa, ele ficou o tempo todo a meu lado e estava tão bonzinho, tão meigo... olhava-me dentro dos olhos. E... Marta, que olhos bonitos ele tem, não é? Fiquei tonta, mas depois... lá vinha um e outro e ele se afastava de novo...

- Mas, aqui em casa, ninguém notou?

- Notou, sim. Tia Dulce vivia mexendo comigo e vovó também viu logo...

- E fui eu só que nada vi? - perguntei tanto para ela como para mim mesma.

- Você? Ora, sabe o que pensei? Que você estivesse amando. Eu e Rui conversamos sobre isso. Víamos sempre Luís a seu lado, e Rui disse que sabia que ele gostava de você. Nunca se declarou? - Voltou o rosto para cima, à espera da minha resposta.

Acariciei com as pontas dos dedos sua face. Não queria mentir, mas não queria contar, nem sei porque. Mas, feita a pergunta, já estava distraída, mergulhada de novo em si própria, e eu desviei o assunto.

- Penso que não foi assim tão claro, pois de uma coisa estou certa, nunca os vejo juntos. Ainda a última noite, você esteve todo o tempo lendo o seu livro.

Ela riu-se, num riso claro e cascateado que me fez mal.

- Lendo? Não... É que nós estávamos arrufados e eu fingia não ligar. Marta, Rui é orgulhoso, mas eu também sou. Dizia que não tinha certeza de mim e que não queria se exibir como um dos meus namorados.

Por isso, mantinha essa distância, e não seria eu quem iria encurtá-la. Dizia que eu fazia dos outros palhaços... olhe, você se lembra da última vez que saímos? Fomos ao cinema, não? E Rui não se chegou para mim nem um minuto.

Ficou o tempo todo com você... é que o aspirante Mário estava lá e veio falar conosco.

Rui tem ódio dele. Diz que ele põe uns olhos de peixe morto em cima de mim.

- Ela falava como que para si mesma, recordando todos estes momentos, e eu lembrava-me de que, naquela tarde, no cinema, Rui não me deixara. Sentara-se a meu lado, segurara meu agasalho para que o vestisse, cheio de atenções comigo. E eu...
Bem, lá estava, de fato, o aspirante que ficou tão caído por Lúcia que quase lhe caía o queixo. Era então por isso...

Ela continuava falando. Dizia do ciúme dele e do esforço dela em provar que os outros não a interessavam. Mas, às vezes, perdia as esperanças. Cada vez que um se aproximava dela, Rui se afastava. Era um inferno! Mas agora...

Mas agora? - perguntei.

- Agora, Marta, tudo está definido. Ele já crê em mim. Você não vê que já não saio mais com as amigas? Ele não me achava capaz de me privar dos passeios e das festas...

Ela falava com uma voz sonhadora, que bem denunciava a sua emoção. Depois jogou o livro para um lado e ergueu os braços, torcendo-os, e, deixando-se escorregar na poltrona, num espreguiçamento voluptuoso com os olhos semi cerrados. Acrescentou:
- E agora... vai ser um céu, Marta!...

E o céu começou para ela...

Rui veio à noite. Tinha um sorriso feliz. Dominei os nervos e pude falar com calma. Depois de alguma conversa trivial, chegou a hora solene.

Com certo ar de brincadeira, talvez para esconder sua emoção, Rui fez vovó sentar-se numa poltrona, na sala de visitas, e chamou-me. Caminhei direto para a minha execução. Ajudada pelo rouge, não empalideci.

Falou então que eu era a irmã mais velha... era como se fosse mãe de Lúcia... o seu anjo da guarda, como ela sempre dissera, e mais, que eu era uma criatura boa, ajuizada, e talvez que tivesse também alguma simpatia por ele... Tudo isso eram qualidades que ele generosamente me atribuía, para que o pedido fosse feito a mim também.

Finalizava dizendo que fazia questão de ouvir da minha boca a aprovação ou... e ria. Eu ouvia tudo... mas tão longe! Estaria sonhando? Não, não era sonho. Eu os via ali: Lúcia, um pouco afastada, torcendo as contas do colar com nervosismo; vovó, numa atitude séria e grave, própria do momento.

E eu? E ele? Não; não era sonho... mas pareciam longe, e as vozes veladas. Precisava fazer esforço para ouvi-lo.

Aquela inércia, aquela moleza que me entorpecia e me anestesiava os nervos a ponto de nada sentir. De fato, não sentia dor. Era só moleza. Quem sabe, ficava assim a mosca diante da aranha? A pobre moscazinha sem um movimento, um gesto de defesa, que não podia avançar nem recuar, tinha só que esperar, pois seu destino era ser devorada. O seu destino... O meu destino! E ele falava, falava... se eu tinha confiança nele para fazer feliz minha irmãzinha?

Era uma pergunta, e ele repetiu-a.

Tive de responder. Com outra voz que não a minha. Estranhando cada palavra, como se alguém falasse pela minha boca.

- Decerto que sim - disse - vocês têm tudo para serem felizes. Além das belas qualidades de ambos, ainda há o amor. O amor sem o qual nada vale a pena, nada tem valor. - E menti! - Sempre desejei... sempre esperei isso... vocês formam realmente um belo par!

Sorria para ambos o melhor dos meus sorrisos e, súbito, uma excitação tomou posse de mim. Falava animada, eloquente, e sorria, sorria sempre, sentindo o fogo nas faces. Corri para Lúcia, fiz que ela viesse ao noivo e, juntando nas minhas mãos as mãos de ambos, disse brincalhona:

- Vamos aos doces... quando será isso?

Houve um rebuliço entre abraços e felicitações, entre risadas e a zoada de falarem todos ao mesmo tempo. Para que nada faltasse nessa noite, eu desejei, ardentemente, que os noivos se beijassem, boca a boca, num beijo longo como aquele da varanda.

Para que nada me faltasse e eu pudesse atingir a insensibilidade absoluta, macerando as carnes, triturando os nervos.

Mas, não. Não se beijaram, pelo menos à minha vista. E eu fiquei vigilante. Ia lá para dentro, a qualquer pretexto, ficava dois ou três minutos e, súbito, surgia para pegar o flagrante. E lá estavam eles, mãos dadas, calmos ao lado de vovó, conversando.

Toda a minha astúcia falhou lamentavelmente.

Os sentimentos recalcados no choque das perdidas ilusões, na derrocada dos mais ternos sonhos, na morte sumária de todos os ideais, foi uma avalanche de emoções que me envolveu e me arrastou em sua queda vertiginosa. Precisamente na queda é que podemos avaliar até que ponto subimos. Os nervos não resistiram. Adoeci. Após uma noite agitada, de insônia até altas horas, e seguida de pesadelos, acordei.

A aurora despontava clara e fresca depois de tantos dias de chuva. Debruçada ao peitoril da janela, quedei-me em sua contemplação, aspirando, em longos sorvos, o ar impregnado dos odores da folhagem e da terra molhada.

Pensava nos pesadelos da noite, procurando ordená-los na mente torturada. Eram monstros que me perseguiam e, para fugir-lhes, eu me atirava de alturas colossais, precipitando-me nas ondas encapeladas de um mar revolto. Havia uma estranha conexão entre o pesadelo da noite e o pesadelo do dia.

E eu pensava como quem pensa, não de si, mas de outra pessoa: Deus meu, como estou sofrendo!

A boca seca, o coração fora de ritmo... passei a mão de leve pela fronte. Escaldava. Tomada de súbita fraqueza, atirei-me no leito e esperei, com o sol já alto, o despertar dos outros.

Vovó alarmou-se, Lúcia alarmou-se. Eu nunca mais havia adoecido, desde criança, quando tive cataporas e sarampo. Quiseram chamar um médico. Protestei: não valia a pena, não tinha nada, havia de ser uma gripe, e um chá bem quente me faria bem. Lúcia começou:

- Podia dizer a Rui...

Eu atalhei:

- Que Rui, menina? Deixem Rui em paz. Não me aborreçam, não gosto de médicos... vão embora, que eu não morro, não. Sou de ferro.

Admiradas do meu mau humor, saíram cerrando a porta. Virei-me para a parede. Queria morrer. Como seria bom pôr um ponto final em tudo. Ficaria livre de todos e de mim, principalmente. E eu vi, então, o meu cadáver coberto de flores.

Vi as lágrimas a escorrer dos olhos das pessoas, que diziam: coitada, tão moça ainda, tão boa, tão trabalhadeira, tão isso, tão aquilo... E aí começavam a aparecer as minhas qualidades e virtudes, de que agora ninguém fazia caso.

E eu as via tão comovidas que seriam até capazes de dizer: tão bonita!... Mas o meu cadáver não ouviria, nem veria nada. Estaria quieto e triste, em meio às lágrimas e às flores. Triste? Não. Só quieto. As tristezas são aqui, da vida.

A morte é um sono sem sonhos, uma noite sem aurora. E eu tive pena dos que choravam a minha morte. De vovó que, curvada e velhinha, sacudia o corpo de soluços, chorando alto, como quando mamãe morreu. Não agüentei, chorei com ela, por ela, por mim...

As lágrimas me fizeram grande bem. Desoprimiram-me. Lavaram a minha dor. Dormi um sono profundo de algumas horas e, quando despertei, já não queria mais morrer. A morte me apavorava em seu mistério. Que seria depois? O nada? Mas se fosse outra vida, quem me diria que seria melhor? Essa, pelo menos, eu já conhecia...

Para o céu, por certo, não iria; tinha aquele pecadão de não me conformar com a minha figura, que o bom Deus achou por bem me dar. Tinha orgulho, tinha ódios, invejas... e que sei eu, que sabemos nós das profundezas da alma humana?

Não; não queria morrer. Tinha medo e tinha pena. Pena, apesar de tudo.

Como foi o noivado?

Como todos os noivados. Visitas à noite, os noivos no sofá, mãos nas mãos, olhos nos olhos e... boca na boca. Mas eu nunca mais vi. Se bem que apinhasse, pelo rubor, pelos disfarces, pelos afastamentos súbitos e, principalmente, pelo bater precipitado do meu coração.

"O coração apinha...", disse alguém antes de mim, desde o começo do mundo, talvez. E a compra do enxoval, e os presentes, e a inveja das amigas, e o despeito das mamães das amigas...

E o que fui eu?

A boa Marta. A prestável. A trabalhadeira, que faz bolinhos para o chá e chá para os noivos. Que borda com perfeição as peças do enxoval enquanto eles passeiam no jardim, espiando a lua, que, por sua vez, espia o beijo deles, com essa indiferença fria que os poetas dizem que a lua tem. E que emagrece e definha na sombra sem que ninguém dê por isso, voltados, como estão, todos os olhos para os noivos. Que pensa no dia do casamento deles como em uma libertação. Que vive agitada por um misto de sentimentos contraditórios, que é como um coquetel: misturam-se as bebidas e elas perdem seus próprios nomes.

Que nome daria eu a este coquetel de sentimentos? Naquele tempo não me ocorreu nenhum, e agora não vale a pena. Tantos anos são passados... que importa um nome? Importam os sentimentos.

Estes, nem os anos que vivi e os que viverei ainda apagarão jamais da minha memória. Memória? Onde estarão os sentimentos? Na memória ou no coração, este saco que se enche e esvazia, e que cresce tanto, de tanto que enche, que se me afigura ser ele sozinho um corpo autônomo com pernas e braços, como nos desenhos animados? Não há como negar sua autonomia se ele bate e deseja independente da nossa vontade.
Acabou o noivado, veio o casamento.

E, com o casamento, veio Luís. Vinte dias antes, apareceu lá em casa, explicando sua ausência por uma viagem de negócios. Talvez fosse verdade a necessidade de viajar; talvez fosse, porém, para esquecer a decepção de ser repelido por uma moça feia.

Na Igreja de São Francisco Xavier, onde a cerimônia se realizou, ao lado deles, no papel de madrinha, eu pensava que talvez pudesse remediar minha vida casando-me com Luís. Tinha ainda nos ouvidos suas palavras ao despedir-se de mim à noite passada: "Marta, eu estou às suas ordens, quando você me quiser, é só acenar". Por que então não acenava?

Ali, de pé, junto a eles que se casavam, cercados de flores e de sorrisos, da música suave do órgão, eu descia ao mais profundo do meu ser, em busca de uma solução. Via Lúcia linda como uma imagem, em seu vestido de noiva.

Um vestido de noiva!

Que mulher não sonhou um dia com ele?

Súbito, uma voz quente e melodiosa cantando a Ave Maria de Gounod me faz vibrar em toda a minha sensibilidade. Meus nervos eram como galhos de árvore sacudidos pelos ventos. A emoção subia-me à garganta, estrangulando-a, e as lágrimas, que eu sustinha num esforço heróico, multiplicavam o brilho das mil lampadazinhas que inundavam de luz o altar do Santo.

Não. Não posso. Não poderei jamais pertencer a outro homem... Meu Deus! O que é que eu estou pensando?! Como ouso pensar isto aqui? Fechei os olhos por alguns instantes e, quando os abri, vi que tudo estava consumado: Rui, muito respeitoso, muito comovido, erguia o véu que cobria o rosto de sua esposa e pousava um beijo em sua fronte. Em seguida, eu recebia nos braços a minha irmãzinha, trêmula de felicidade, e a apertei comovida.

Casaram-se e foram-se em lua-de-mel.

Fiquei eu, com minha casa, minha avó e minha dor.

Depois do ruidoso bufê para os convidados, que durou até bem tarde da noite, bufê em que eu andava, falava e ria como uma sonâmbula, a casa mergulhou na paz. Eu guardava ainda, como guardo até hoje, o quadro da despedida deles.

Felizes, emocionadíssimos, tomaram o carro na porta, numa noite cravejada de estrelas. Moças e rapazes rodeavam o carro com pilhérias e punhados de arroz. Partiram numa algazarra de latas a baterem nas pedras da rua e gargalhadas dos autores do trote, que as haviam amarrado na traseira do carro.

E ficamos ali, acenando para os seus rostos na vidraça, que se distanciavam velozmente até sumirem na curva da esquina.

Andava eu pela casa a afugentar da imaginação os quadros que compunha para minha tortura. Lá se ia meu pensamento: os noivos. Cá ficava meu corpo, e o corpo cuidava da casa, de vovó, de tudo.

Construía, na imaginação, o hotel onde estivessem, apinhava-lhes os passos na lua-de-mel em Petrópolis, e apinhava-lhes os beijos, e apinhava-lhes as intimidades... Parava arquejante. Os pensamentos são intrometidos como as crianças que metem o dedo no doce quente e... choram.

Dois dias depois, veio um telegrama. Rezava assim!

"Tudo ótimo, muito felizes, saudades."

Saudade? Saudade era uma palavra bonita, mas uma palavra apenas, e eu a associei àquele buquê tão lindo que, após o casamento, a noiva joga para as solteiras, as que ficaram sozinhas, já que dele não precisa mais.

Autor(a): Magdalena Léa

 

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