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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO V
publicado em: 18/08/2017 por: Lou Micaldas

"Disse-me que se chamava Rui. Bem mais alto do que eu, de largos ombros atléticos, seu corpo me dominava, fazendo-me sentir pequenina em seus braços. Dançava mal, olhando os pés fora da cadência, meio constrangido. Perguntei sem cerimônia:..."

Em janeiro, Lúcia completou 19 anos.

Um bonito dia quente, como sabe ser quente o mês de janeiro no Rio.

Dias antes, já fazíamos doces. Vovó, eu e as criadas, à volta da mesa da copa, numa desordem de latas, pacotes e utensílios, trabalhávamos o dia inteiro. De vez em quando, Lúcia espiava à porta.

- Que horror, fazer tudo isso! Por que não compram pronto?

- Ora... o doce feito em casa é outra coisa! Nem se compara, e além disso, nós gostamos de fazer; não é, vovó?

- Decerto. E não somos aleijadas. Por que se há de comprar tudo e ficar de papo pro ar?

E cruzava os braços, enfarinhados, levantando a cabeça para mostrar o papo, num jeito todo gaiato.

E continuava o serviço.

- Me dá a farinha, Carola.

- Eu quero a receita dos casadinhos, meu Deus! Que não acho - dizia vovó, procurando embaixo das coisas.

E continuava: - Que coisa, o papel não está em lugar nenhum? Estava agorinha mesmo aqui... - De óculos presos na testa, ficava procurando a receita e depois, de receita na mão, dava em procurar os óculos.

- Será possível? O diabo está me tentando! Achei a receita e agora perdi os óculos...

- Olha aí, vovó, na sua testa!

- Deus me perdoe... que pateta sou! A toda hora ela repetia.

- Agora vamos fazendo os secos e guardando nas latas. Na véspera, então, faremos os moles: pudins, papos de anjo, coisas assim... - E lia em voz alta a receita:

- Uma xícara de manteiga... duas de açúcar... e uma...

- Espere, vovó, assim a senhora atrapalha o meu.

Eu contava as colheres de açúcar para fazer balas.

Cada uma enfiava pelo seu serviço. E as latas iam-se enchendo de doces gostosos, bonitos, recobertos de confeitos prateados e coloridos.

Eu ia pensando na mesa para arrumar. Uma bonita toalha de linho branco, com entremeios de renda do

Norte, já estava engomadinha. Ficava vaidosa em pensar que diriam: "Os doces que Marta fez" e "a mesa que Marta arrumou". Elogiariam: "Que bonito arranjo!" "Que doces deliciosos!" E eu tinha um sorriso bom para mim...

Um telegrama chegou de Tia Clara. Viria para o aniversário da afilhada.

- Lúcia - gritei. - Tia Clara diz que vem!

Ela estava no quarto e correu para ver o telegrama.

- Que bom, Marta! Há tanto tempo que não a vejo! A última vez que ela esteve aqui eu ainda era menina.

Lembra-se de que ela trouxe uma bruxa preta? Que boneca engraçada! Vestida de baiana, tinha brincos, pulseiras de balangandãs, colares de conta, uma beleza... Tomara que ela me traga uma coisa de lá. Que será que tem de interessante na Bahia?

- Tem vatapá, caruru...

- Ora...

- E tem baianos também. Não quer um baiano para você?

- Até que não era nada mal... - respondeu gaiata.

- Maaaaartá! - gritou vovó. - Olha o pudim no forno e deixa de conversa fiada!

O corre-corre dos últimos dias, Santo Deus, que coisa atrapalhada! E eu à testa de tudo. Todos chamando por mim e nada fazendo sem a minha aprovação. Mas, por cima de tudo, da minha vaidade, do meu orgulho de ser tão importante, veio o cansaço. Na véspera, na cama, deitada, olhando o céu pela janela aberta, sentia doer-me o corpo.

Tudo estava pronto. De manhã só teria que dar uns retoques, dirigir o pessoal, arrumar as flores na jarras e... minha cabeça trabalha ainda. Virava e revirava o corpo doído na cama, à procura de melhor posição.

Estava tão cansada, mas não tinha sono.

Preocupava-me com a minha estréia como dona de casa, em uma festa.

"Que porção de estrelas, meu Deus, só nesse pedacinho de céu que eu estou vendo. E, na noite sem lua, o céu é quase negro e a gente vê muito mais estrelas, até as pequeninazinhas, que nem parecem nada. São uma poeirinha à toa...

Ah! Meu Deus, será que os doces vão chegar bem? Convidamos tanta gente! Mas há ainda os que vêm da confeitaria... E mais os sorvetes... há de haver muita coisa, e eu preciso é dormir..."

O relógio da sala encheu o vazio da noite com longas badaladas musicais. Eu contava. Uma, duas, três, quatro... Cruz! Meia-noite e eu aqui, feito alma penada?

Meus olhos, acostumados ao escuro, puderam distinguir bem Lúcia, que dormia a sono solto, com uma leve respiração compassada. Lembrei-me então de que ela havia passado o dia a indagar cem vezes se o seu vestido estava mesmo bonito, se viria muita gente, se eu achava tudo bem, se...

Virei-me para a parede e fechei os olhos, convidando o sono a vir. Mas, antes de perder por completo a consciência, eu ainda pensava na escolha das colchas para as camas.

Tia Clara era baixa e gordinha como vovó. Seu busto alto e cheio dava-lhe um jeito de pomba. Andava e falava apressada, sempre risonha. Estava mais grisalha, porém o rosto era liso. Uma figura simpática, formando contraste com o marido. Era tio Afonso, seco, teso e frio. Muito alto, parecia que ainda se esticava, em superioridade.

Eu não gostava lá muito dele, e pensava que não podiam ser felizes juntos, sendo tão diferentes; mas eram.

Ela vivia e ria como se não tivesse um urubu a seu lado. Desta união nasceu Luís. Bom, camarada.

Em crianças brincávamos bastante, quando vinham da Bahia em visita a vovó. Algumas vezes passavam até um mês no Rio. Mais tarde ele veio cursar a Faculdade de Direito e, durante o ano, fazia-nos algumas visitas, entre aulas e exames. Porém, depois de formado, tocou-se para lá, e havia já uns bons três anos que não o víamos.

Veio Tia Clara cheia de novidades e trouxe uma linda pulseira de ouro para Lúcia. Lúcia, radiante, sacudia o braço no ar para ver-lhe o brilho. Mas eu não pude apreciar as novidades devidamente, pois desde pela manhã que andava de cá para lá, sem descanso.

A festa estava marcada para as sete horas, e às seis fui para meu quarto cuidar de mim. Depois de vestida, corri a ajudar Lúcia. A rainha da festa teria que brilhar. Fiz-lhe um bonito penteado, todo em ondas em volta da cabeça. O corte à "demi" deixava ver, em toda a altura, um pescoço bem torneado, de uma carnadura acetinada, que morria no decote do vestido.

- Não se pinte muito - aconselhei. - Deixe isso para as feias.

- Você acha que eu estou bem? Gosta dessa cor de vestido? Vieux-rose é a cor da moda, mas não sei se me assenta...

- Deixe de fita, você sabe que é bonita e que estará bonita com qualquer cor. As claras assentam assim, as morenas assado e você Papai do Céu fez nem morena nem clara, e daí estará bem sempre.

- Ora, Marta, você diz isso porque é minha irmã e é muito boazinha; acha tudo bom e bonito em mim...

- Mas você também é minha irmã e não acha tudo bonito em mim...

Ela olhou-me como se, pela primeira vez, visse que eu também tinha um rosto. Mas fugi às palavras amáveis que, por acaso, se sentisse na obrigação de me dizer, e fui buscar na jarra uma flor para colocar no seu ombro.

Disfarçadamente eu admirava seu vulto no espelho. Era elegante o vestido e de uma linda cor. Justo, desenhando as formas e curto, mostrava desde o joelho uma bem torneada perna, o que fez vovó protestar, contando como eram os seus vestidos de festa, acrescentando que era um crime mostrar a ponta do pé.

Mas Lúcia respondeu que, se ela, vovó, vestia assim, era por ser a moda. A moda é que mandava, e se, mesmo naquele tempo, a moda mandasse andarem com as pernas de fora, andariam todas, como andavam, aliás decotadíssimas. A prova estava nos retratos antigos, cada uma tão decotada que era uma vergonha. De que servia esconderem o pé com tanto pudor se mostravam coisa pior?
Interrompi a discussão.

- Deixe-me pôr essa rosa em você. Vai haver muita comparação entre a flor e sua pessoa. Não vê que é da cor do seu vestido?

Ela perguntou:

- Tia Dulce, será que vem?

- Há de vir, sim, Niterói não é o fim do mundo. Mas eu não vou com aquela gente. Pode-se perguntar porque os nomes destoam tanto de seus donos?

- Por que diz isso?

- Tia Dulce não é azeda? A última vez que estiveram aqui, há talvez um ano, você estava no colégio, a nossa querida tia veio envolvida numa enorme raposa amarela, cheia de jóias, que parecia um mostruário, e olhando tudo por cima do ombro. Tio Carlos, coitado, todo paramentado, medindo bem as palavras, com medo, acho, de dizer asneiras. As filhas, vestidas iguais, imagine, de cor-de-rosa-papel-de-embrulho, sentadas duras na cadeira e não diziam nem uma nem duas.

- Ainda são assim, caipiras?

- Pois então! Vovó perguntava: "Não se lembra mais da avózinha?"

E elas diziam que sim, batendo com a cabeça, encabuladas.

- Mas que idade têm? Não são crianças...

- Ora... A Lali é mais velha do que eu, creio que um ano ou mais, e a Vera é mais moça que a irmã uns três anos, talvez. Não sei direito a idade dela, só sei que é mais velha do que você.

- Há tanto tempo que não as vejo... são feias?

- Espere, Lúcia, você não me deixa abotoar o colar, parece um cabrito! Se são feias? A Vera chega a ser bonitinha; você não se lembra de que ela era uma moreninha interessante? Cabelos muito pretos e olhos amendoados, com ares de japonesa. Tem boa pele, bons dentes e, se não fosse tão moleirona, seria mais atraente.

Mas a outra é feia a valer. É mole, fria, gorda. Imagine uma cara branca com um punhado de sardas mal espalhadas. Eu olho para aquilo e me lembro logo de mingau com canela.

Lúcia deu uma gargalhada.

- Mingau com canela, essa é muito boa!

Estávamos prontas e passamos à sala de jantar. Tia Clara já lá estava com tio Afonso e Luís. Elogiaram amavelmente os nossos vestidos e o assunto generalizou-se.

Logo começaram a chegar outros convidados e, em breve, o salão estava repleto. Um grupo de amigas de Lúcia irrompeu, cantando as cantigas para o próximo carnaval. É só fechar os olhos e as vejo ainda... e lhes ouço as vozes. Vozes de mocidade, cheias de alegria e vida.

E o samba cantado a plenos pulmões bulia com os nervos e fazia a gente entrar no ritmo, no bamboleio - "Com que roupa eu vou ao samba que você me convidou?..." E o "cordão" passou por mim num turbilhão e saiu pela varanda, para surgir em seguida pelo corredor. Mãos nos ombros uns dos outros e a marcha de sucesso:

"O teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor..." Aqui e ali pegavam mais um e outro e, em pouco, todo o pessoal dançante formava um cordão único. Serpenteando pela casa toda, numa algazarra louca, numa gritaria desenfreada, que nem o estouro do bumbo e o grito agudo dos instrumentos conseguiam abafar.

A rainha da festa puxava o cordão rindo-se, de olhos faiscantes. Mas eu era a "dona da casa". Recebia uns e outros, achava cadeiras para as senhoras e distribuía fartamente sorrisos e abraços com parentes e amigos.

Um punhado de palavras amáveis aqui e ali, indicava aos garçons aonde levar os sorvetes e à criada onde guardar chapéus e bolsas.

De vez em quando dava uma espiada na mesa. Perfeita! No centro, a floreira, somente rosas, enormes, cor de sangue. Prataria, cristais, porcelanas sobre a rica toalha de linho, rendas e bordados. Eram um conjunto magnífico, e era obra minha a disposição de cada coisa. Levei tempo arrumando e estava orgulhosa com o efeito. Mais uma vez dava um toque nas flores, ajeitando-as, cantarolando a meia voz: "Se você jurar que me tem amor..."

- Juro, sim... que você vai dançar comigo.

Era a voz de Luís.

- Ainda não dançou nem uma vez - disse ele, enlançando-me.

- É verdade, mas ainda não tive tempo.

- E Lúcia não pára!

- Ah! Lúcia é louca por se pertir...

- E você, não?

- Mas eu também me pirto: olho, aprecio, escuto... não acha bom?

- Não; eu prefiro dançar, eu mesmo. Mas, puxa, você dança bem um samba! É leve como uma pluma... uma piúma al vento!

- Muito obrigada...

- Ora, não agradeça. Honra ao mérito. Você não é pequena a quem se diga "coisinhas".

- Coisinhas?

- Sim, digo, estas coisas tolas, como, por exemplo: "Você dança admiravelmente!" E estão pisando os nossos pés.

"Como a senhora é leve!" E parece que carregamos a barca da Cantareira.

- Mas há necessidade de dizer estas mentiras?

- Claro. Claríssimo. Ora, Marta, se você visse como ficam derretidas!

- E eu, então, como sou? - perguntei rindo.

- Você? Olhe, você é assim como se fosse uma irmã...

- De caridade?

- Não; de caridade não é o caso, mas a palavra caridosa lhe assenta bem. Eu disse irmã porque não acho palavra para exprimir o que sinto...

- Puxa, com tanta palavra... o dicionário está cheio delas.

- Pois é isso mesmo, minha prima, há tantas palavras e a gente fica vazio delas para dizer certas coisas. Mas enfim, você é moça com quem a gente gosta de conversar a sério.

- Luís, coisas sérias não assentam bem para um baile carnavalesco. Veja quem é que está sério?

- Nós.

- Só nós mesmos. Aliás, observa bem, meu primo, como se dança e canta alegremente cantigas que falam de mágoas e tristezas de amor.

- É que o amor é triste mesmo, sabe?

- Eu não; você sabe?

Enquanto conversávamos, eu o observava.

Não havia nenhuma mudança nele. Nem estava mais velho.

Não muito alto, magro e com uma ligeira corcova. Simples como ele só. Nem ninguém diria que era um rapaz rico, filho único, bem colocado, e que se poderia dizer um "partidão"! Feio? Não. Muito simpático para ser feio. Feio é aquilo que desagrada à vista, e a gente olhava aquele rosto com prazer. Espirituoso e crítico, em seus olhos o brilho era como o de duas centelhas.

A música chegava ao fim e fomos para a varanda receber a tia Dudu, que entrava naquele momento, acompanhada das filhas. Apanhei-as todas num só olhar e permaneci na mesma impressão de desagrado.

Tomei-as pelas mãos, ambas as primas, e fui levá-las para o salão onde dançavam, a fim de caçar cavalheiros para elas, como me tinha ordenado a tia em rápido cochicho. Mas Lúcia vinha ao meu encontro, com Luís e um rapaz muito alto.

Formamos um grupo e trocamos apresentações e cumprimentos... Lúcia segurou-me o braço e murmurou:

- Marta, ele é nosso primo, e nós nem o conhecíamos... - apontou o moço alto.

Estendi-lhe a mão e encontrei dois grandes olhos sombrios num rosto moreno, de traços perfeitos. Curvou-se todo, numa exagerada reverência, e sorriu. Na fisionomia severa, o sorriso tinha a graça do contraste, e os dentes brilhavam numa alvura singular naquele rosto trigueiro.

Que bonito! - pensei. E indagando em seguida:

- É nosso primo, mesmo?

- Sim, com muita honra. Tia Clara é quem fez essa preciosa descoberta há pouco tempo, na Bahia.

- Baiano, então?

- Não; sou carioca. Meu pai é que era baiano.

Lúcia propôs:

- Vamos perguntar tudo à dindinha.

E o grupo tocou para a varanda.

Sentadas em profundas cadeiras de palha, vovó, e as tias conversavam animadamente, e Tia Clara, neste justo momento, despendurava, um por um, todos os parentes dos galhos de nossa árvore genealógica.

Falava sempre depressa, como quem teme não ter tempo para dizer tudo:

- É primo por parte de mãe. Ela era filha de uma prima de papai, chamava-se Laura... a senhora não se lembra, mamãe? Ela casou primeiro que eu, com um baiano. Foi para a Bahia depois que o menino nasceu, morou lá algum tempo e morreu deixando-o ainda pequeno. Assim, ele vem a ser primo de vocês, porque a mãe era filha de...

Luís acudiu:

- Virgem Nossa Senhora! Quando mamãe começa a explicar a parentela, a gente fica zonzo: "Fulano é primo do avô do pai de sicrano, que é neto do sobrinho da mãe de beltrano..." Não agüento! Vamos dançar que é melhor. Basta saber que o primão foi adotado.

O jazz espalhou na sala uma onda de sons estridentes e disparatados que formavam um fox moderno.
O primo dançou comigo.

Disse-me que se chamava Rui. Bem mais alto do que eu, de largos ombros atléticos, seu corpo me dominava, fazendo-me sentir pequenina em seus braços. Dançava mal, olhando os pés fora da cadência, meio constrangido. Perguntei sem cerimônia:

- Não gosta de dançar?

- Por que, danço mal? -- Respondeu-me com outra pergunta.

- Vejo pelo seu jeito que não lhe é agradável. Parece estar cumprindo uma obrigação. Olhe, o Luís desliza, sonha... e você se preocupa.

- Ah! Luís é um dançarino, mas eu não ... não é que não goste; creio que, se soubesse, havia de gostar, mas não aprendo. Tenho tentado, e é um fracasso.

Abanou a cabeça desiludido, enquanto um sorriso galhofeiro lhe brincava nos lábios.

- E você, gosta?

- Gosto, sim.

- Ah! Então deve estar sofrendo, com um par como eu...

- Não diga isso - atalhei. - Estamos conversando e, além disso, você é a novidade da festa - completei com ar de troça.

- Vamos, então, conversar sentados - propôs.

Ficamos perto da música, o fox continuava ainda, ora lento, ora macio, estridente às vezes, atrapalhando nossa conversa.

- Como se chama?

- Marta...

- E a outra?

- Lúcia.

- São só as duas?

- Sim.

- Vivem aqui sozinhas com a avó, nesta casa toda?

- Pois é...

- Não; que triste!

- Lúcia é muito alegre e passeamos bastante, temos muitas visitas...

- Lúcia é alegre, e você, não?

- Bem, eu sou um pouco diferente dela, mas me distraio, toco vitrola... leio...

- Gosta de ler?

- Muitíssimo.

- O que é que lê? Romances, poesias, penso.

- Sim. Romances, poesias, biografias, menos geografia e álgebra, que foram meus problemas na escola.

Riu-se, enquanto batia o cigarro na cigarreira de prata. Sorveu-o pensativo e depois soprou a fumaça para o alto, num gesto elegante e natural.

- Pois eu tenho muita preguiça de ler estas coisas.

- Que faz, então?

- Trabalho, estudo, e... vivo.

Levantou ambas as mãos, num gesto largo. Vi-lhe o anel. Uma esmeralda quadrada.

- Bela profissão a sua.

- Gosta?

- Muito. Se tivesse podido, teria sido médica. Tudo que diz respeito ao corpo humano me interessa.

- E a alma?

- A alma pertence ao corpo...

- Errou. A alma, menina, é a alma. Por mais que se estude e se pesquise tudo de um corpo, ela permanece fora do nosso alcance em profundo mistério.

Lúcia veio ao nosso encontro, rindo-se muito, pelo braço de Luís.

- Aí parados, vocês, e tão sérios! De que falavam?

- De almas - respondeu Rui.

- Almas do outro mundo? - perguntou ela.

- Não; das almas de dentro de nós - disse Rui.

- E o que foi que disseram da minha? - perguntou faceira.

- Você tem uma alma fácil de ver - atalhou Luís. - É a alma de uma mulher bonita - acrescentou com ênfase.

- Então a sua deve ser bem difícil - respondeu Lúcia, fazendo um beicinho galante.

Perguntei:

- De que riam vocês, hem Lúcia?

- Ora, de quê! Com Luís a gente ri de tudo.

E ele explicou:

- Não fiz nada. Eu até estava muito inocentemente observando os esforços que a nossa mui respeitável tia Dudu faz para dançar... como é mesmo o apelido dela, Lúcia?

- Mingau com canela... respondeu às gargalhadas, a que todos fizeram eco.

Eu me senti culpada, tinha sido idéia minha, e se Lali descobrisse? Coitada...

Ralhei:

- Psiu! Psiu! Não façam isso! Que maldade, Lúcia, você dizer isso a todos!

- Que maldade a sua, Lúcia - atalhou Luís. - Ela não pode ser feia assim, não; ela está é brincando.

Eu olhei para ele com um olhar repreensivo e instintivamente procurei o grupo de minha tia; lá estava ela, empurrando discretamente a filha para o ponto mais visível da sala; e a pobre, moleirona, de olhar vazio, ali estava, à espera de ser colhida como um fruto maduro.

Dançamos ainda, conversamos, criticamos e nos pertimos até a madrugada. O primo novo estava sempre a meu lado. Muito mais comigo do que com Lúcia. Talvez porque Lúcia fizesse tanta questão de dançar, pensei.

E foi aí, nesta festa, que nasceu a idéia das domingueiras. Não sei quem inventou, só sei que não fui eu. E tudo ficou combinado já para o próximo domingo. Até o carnaval, íamos brincar e dançar nas domingueiras.

Luís propôs convidarmos as primas Lali e Vera. Olhei-o de lado para ver se estava tramando alguma pilhéria.

- Não é por mal, Marta, mas a gente precisa de um estimulante.

Autor(a): Magdalena Léa

 

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