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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO VII
publicado em: 21/08/2017 por: Lou Micaldas

"No domingo, fiquei em casa lendo o livro que Rui me dera.

Lembrava-me dele, de seu ar de carnaval que eu ainda não conhecia, e pensava em como era sedutor assim, de camisa aberta, o peito moreno, os dentes a brilhar num sorriso gostoso, uma luz irônica nos olhos cinzentos."

Desde aí Lúcia ficou esquiva. Não se mostrou zangada com a repreensão; era como se houvesse esquecido, mas eu lhe via o afastamento.

Cessaram as nossas conversas à hora de dormir, mas não cessaram as festas e os flertes. Eu não sabia o que fazer para conquistá-la. Também não queria dar o braço a torcer, porque, senão, lá iria tudo por água abaixo. Já que tinha falado, devia manter-me firme.

Tive, então, uma idéia: faria qualquer coisa para ela, um lencinho bordado, talvez... Não, lenço é separação. Quem sabe, uma blusa de cambraia fina e com bordados, como a que eu vira numa vitrina? Ah! sim, havia de ser isso. Faria, num instante, uma blusa dessas.

E meti-me ao trabalho.

Como estávamos afastadas, pude fazer tudo sem que ela percebesse. Dantes, ela teria perguntado num vivo interesse, como costumava fazê-lo, o que era, de quem era; mas agora, só me falava quando necessário, com ares indiferentes, que me mortificavam.

Em dias a blusa estava pronta. Quando lhe dei o presente, ficou comovida a balbuciar de lábios trêmulos:

- Ô, Marta, você fez isso? Você... fez isso assim bonito para mim?

E eu não menos comovida, nem olhava e quase não lhe ouvia as palavras, ocupada em esconder o meu enleio.

- Deixe medir, Lúcia - disse depressa, procurando enfiar-lhe a blusinha. - Pode ser que esteja grande, ou coisa assim... nem tirei medidas...

Eram palavras à-toa, que saíram talvez para deixar libertar o ar que me oprimia.

Graças a Deus estava acabado aquilo entre nós. Nunca mais, pensei, nunca mais, eu juro, hei de ralhar com ela! Incrível como me doeu!

E, de mãos trêmulas, compunha-lhe a blusa, ajeitando aqui e ali, e atando o lacinho que fechava o decote. Depois, afastei-a um pouco para ver o efeito e pensava: como tudo lhe assenta bem! E sentia, nesse momento, uma ternura infinita por aquele ser privilegiado, uma indulgência sem limites para com os seus defeitos.

Como não haveria de ser vaidosa e orgulhosa de si? Era desejar muito de um ser humano. Seria eu, talvez, essa moça pacata e trabalhadeira se tivesse os seus atrativos? Não; não creio que o fosse. O que me fazia assim, eu não me iludia, era a consciência de não possuí-los. Era, pois, a busca da compensação para o equilíbrio psíquico.

Que hipocrisia a minha ralhar com ela, como criatura muito ajuizada, só porque ela pertia-se e se sentia ufana de seus sucessos.

Depois, nos dias que se seguiram, vi que Lúcia já não saía tanto. Já havia convites que recusava, e algumas tardes passava em casa. Eu fingia não perceber, mas, no íntimo, exultava. Então não tinha perdido para ela a minha autoridade moral? E sua estima, que me era mais preciosa que tudo?

Era enorme a minha alegria, e eu procurava recompensá-la. Ajeitava chapéus, consertava vestidos, e vivia sempre ocupada com ela. Tinha as horas tomadas de incumbências e já não me sobrava tempo para ler.

Estava na minha cabeceira o livro que Rui me dera havia uns dias, e eu ainda nem tinha aberto as folhas; quase sempre me recolhia tarde e cansada.

Luzes apagadas, conversávamos, então, na cama, como dantes, e Lúcia fazia a descrição dos seus passeios, sempre terminando por perguntar porque eu não ia, porque eu não soltava um pouco a casa. Respondia que não gostava de ir, que era muito preguiçosa de sair, que era gênio meu e não havia remédio.

Escutava enlevada a seqüência de triunfos. Via-a rodeada, aclamada, disputada e fazia o confronto com o que me estaria reservado. Lembrava-me de uma conversinha que ouvira, sem querer, dias atrás. Eu vinha chegando à sala e ouvi as vozes de vovó e tia Dudu, que conversavam na varanda.

Tia Dudu dizia:

- Lúcia é um tipo de beleza, mamãe, não há quem não diga; não tardam a chover os pedidos... se é que já não apareceram... Esta é uma que pode escolher.

- A mim não me pediram nada - disse vovó com ingenuidade. - Mas os pretendentes estão aí mesmo, talvez que esperem a escolha dela...

- E Marta? - perguntou tia Dulce - É um contraste, nem parecem irmãs. Cruz! Credo!...

Vovó protestou:

- Dulce, Marta tem ótimas qualidades, é uma boa moça... você vê, não tem garridices, não se enfeita e leva só arrumando a irmã. Parece que ela é que é a mãe de Lúcia. Em geral, quando há duas moças, cada qual puxa a brasa para sua sardinha.

- Bem, ela é inteligente e naturalmente já viu que só tem a perder em ombrear com a irmã.

Parada no meio da sala, eu não sabia o que fazer, se fugia ou escutava até o fim.

Mas a dúvida durou pouco, eu fiquei; fiquei para ouvir suas palavras más, ditas pela falta de simpatia que sempre me testemunhou. Animosidade gratuita, pois que eu nunca lhe tinha feito nada.

"Não pode ombrear com a irmã..." Não, decerto, mas podia fazer como a filha dela, que se plantava em toda festa e ali ficava à espera de algum abnegado que a salvasse de furar cadeira. E vestiam-se iguais, as duas irmãs, e penteavam-se iguais, mas Vera dançava, tinha um namorado, enquanto a outra se fazia ridícula, arrastada pela mãe. 

E ela, a mãe, não via que a filha era feia? Precisava de mim para seus assuntos mordazes? "Ela é inteligente..." dissera de mim, ao menos me fazia essa justiça.

Meu Deus! Por que a eterna comparação de Lúcia comigo? Não poderiam me deixar em paz? Por que tia Dulce agora estava sempre aqui? Antes a mãe era como se não existisse, levava anos que não a visitava para saber se estava viva ou morta, agora não saía daqui.

Agora que a casa andava cheia de rapazes, vinha - quem sabe? - caçar algum, algum que sobrasse de Lúcia, para as suas duas biscas!

Mas... como estou com raiva! Como é possível sentir tanto isso? E eu me supunha curada... maldita coisa! Que tola sou! Que ridícula!

Mas por que havia de ter diante de mim, contra mim, a beleza de Lúcia? O destino, ou lá o que seja, por que não me fez suficientemente idiota para não ver como sou?

Tive uma colega muito feia, porém destituída de autocríticas, e que por isso era feliz.

Não passava por vidro de porta sem dar uma olhada faceira, sorrindo à própria figura.

As outras caçoavam, mas eu a invejava. Sempre pensei que a felicidade é privilégio dos estúpidos, dos imbecis.

Chegou o carnaval.

Naquele tempo, o carnaval de rua era uma apoteose. O corso, de sábado à terça-feira, ia desde a Praça Mauá, pela Avenida Rio Branco, até o Mourisco, num longo percurso pela Avenida Beira-Mar, que compreendia as praias da Glória, do Flamengo e de Botafogo.

Os automóveis formavam duas filas em cada pista. De capotas arreadas e quase totalmente escondidos pelas fantasias, numa orgia de cores, resplandecentes de prateados, dourados e pedrarias, deslizavam lentamente, ligados por um emaranhado de serpentinas.

Viam-se os rolos, que voavam alto, desenrolando-se numa cascata de fitas multicores, riscando o espaço, cruzando-se, enlaçando-se e depois tombando, indo formar montões pelas ruas. E as ruas atapetadas de confetes que incessantemente caíam numa chuva colorida. Vozes alegres cantavam, espalhando no ar sambas e marchas ao som de pandeiros e chocalhos.

O ronco dos motores e as buzinas impacientes dos automóveis afugentavam os foliões que corriam tontos, em busca de um rolo inteirinho de serpentina caído no asfalto.

Eram seis horas da tarde de sábado quando entramos no corso, sob um céu de seda azul envolto em gaze cor de rosa, que pouco a pouco se enfeitava de estrelas, como se estivesse também fantasiado. E aquele ano, durante os quatro dias, nem uma nuvenzinha suspeita veio assustar os foliões.

Foi essa a única vez em que fui a um carnaval na minha vida. Cada lembrança está nítida, porque não se mistura a outras lembranças. Os detalhes, mesmo os mais insignificantes, gravaram-se e engrandeceram pelo relembrar constante e o reviver na saudade.

Nosso carro levava seis lindas baianas, de saia enfunada, de rico tecido estampado em florões, e a bata de alva cambraia, de amplo decote quadrado no peito, enfeitada de renda. O pano da costa, de cores berrantes, franjado, listrado de fios de ouro, vai preso às cadeiras, que ondulam aos meneios, num fino requinte da maior garridice. Colares de contas de vidro de cores, argolas de ouro pendentes da orelha, ricas pulseiras de balangandãs, chocalham e cantam, e tinem e faíscam numa festa de cores e cintilações. A trunfa enrolada que envolve a cabeça é do mesmo tecido do pano da costa, e no alto se posta, em prodigioso equilíbrio, a galante cestinha de frutas de cera, flores do campo, penas e plumas de alegres matizes.

Olhava em volta. Quantos carros e quantas fantasias ricas, vistosas, de odaliscas, fadas, bailarinas, ciganas, bonecas de luxo e reis e rainhas que, democraticamente, misturam-se às camponesas em garridos costumes de estranhos países. E havia as da Rússia, da França, da Holanda e de quantas aldeias há em Portugal. Japoneses, chineses, marujos, turcos e os eternos palhaços de riso pintado. E os eternos pierrôs, arlequins, colombinas e brancos fantasmas e negros dominós...

Num carro, só de cossacos, encontramos alguns conhecidos, que saltaram aos estribos do nosso e nos puseram lança-perfume e confetes. À nossa frente, um carro só de holandeses, todos iguais, rapazes e moças que traziam um cachimbo no canto da boca; nas longas paradas pulavam do carro e faziam soar, nas calçadas, os ruidosos tamancos de ponta virada e de sola de pau, num alegre improviso de um doido bailado que enfunava os bufantes calções de cetim.

E como estão vivos na minha retina os quadros alegres de cor e de luz!

Nesse dia, pela primeira vez, eu vi Rui folgazão. No estribo do carro e no pára-lamas iam cinco rapazes com Rui e Luís. Vestiam-se iguais, todos de calças brancas e camisa amarela aberta no peito, com um casquete gaiato tombando na testa, que tiravam e botavam na animação. E eu o via, então, cantando, sambando e batendo o pandeiro. Quedava-me surpresa.

Ultimamente ele estava sempre meio distante, com ar irônico, apreciando as danças como um adulto às brincadeiras de crianças. Conversava comigo, com vovó, mas não dançava nem tomava parte nas rodinhas de Lúcia. Saía, em geral, mais cedo, pretextando estudos. Eu estava estranhando aquele seu jeito trocista, a cantar cantigas carnavalescas que nem de longe supus que soubesse.

- Você no carnaval é outro, hem? - pilheriei.

- Você não vê que isto é uma festa de loucos? Cada um de nós tem um louco dentro de si, e hoje é o dia deles. Veja essa gente por aí: o ano todo trabalha, sofre, tem problemas difíceis a resolver, mas hoje não dá confiança ao azar. É uma espécie de desforra! E garanto-lhe que é bom.

Olha essa gente toda: você pode imaginar que isto, que esta alegria seja autêntica? Que dessa gente ninguém sofre? Sofre. Mas hoje é o dia marcado na folhinha para estar alegre. Por que é que você não faz isso também?

- Não sei, Rui, mas o carnaval me entristece, nem saberia explicar por quê. Este fervilhar de gente, esta zoada, esta loucura, como você diz, me dá assim como que uma angústia... aperto...

- Ora, é porque você não mergulha! Só fica assistindo. Onde está sua fantasia? Por que não a vestiu como as outras? A fantasia ajuda. Suponhamos que a gente se veste de chinês, é um chinês nascido naquela hora, para a função de um carnaval. Não tem passado nem futuro. É a hora presente. Se a gente está vestindo um traje estranho, sente-se também estranho, e vive o estranho que representa...

- O hábito faz o monge?

- Não faz, mas dá bem uma ilusão... Seu mal é estar sempre espectadora, analisando tudo. Ora, analisar e filosofar não é para carnaval. Dê um ponta-cabeça que você vai ver como é bom.

E desceu do carro para jogar um punhado de confetes numa bonita cigana.

De pé, no automóvel, eu alonguei o olhar em torno. Que formigueiro! Nas calçadas e nas ruas, grupos e cordões dançavam, pulavam, gritavam, escorrendo suor, borrando as caras pintadas.

Pensei nos famintos, nos miseráveis. Estavam também ali. "Era a desforra" - dissera Rui. Passavam por cima das suas desgraças na cadência de um samba, eletrizados, bamboleando o corpo maltrapilho, numa dança que me parecia macabra.

Mas aquilo era a sua válvula, quase a sua vingança. O ano todo sufocavam na garganta blasfêmias e ali berravam, com a voz já enrouquecida, cantigas de prazer. Cheia de piedade, olhei os quadros vivos, como se fossem obra de um pintor maluco.

Lá está uma família: as crianças de várias idades, fantasiadas, borradas de rouge nas bochechas pálidas. O pai procurando esconder a personalidade de burro de carga atrás de um nariz de papelão. Segura pela mão calosa dois palhaços de cetim ordinário, amarrotados e choramingas.

Atrás, a mãe, o rosto cansado, prematuramente envelhecido, um riso idiota na boca sem dentes, tem no colo uma baianinha de trapos. Uma baiana que ainda mama e chora aflita, com tanta bugiganga a atrapalhar-lhe o sono. E outra, a carinha de medo de se perder na multidão, o passinho trôpego, as pequeninas mãos crispadas nas saias da mãe. E lá vão eles, por ali afora, enganando ao mundo ou a si mesmos?

Um guri chora, quer sorvete. Outro guri, outra mãe, outro quadro. E eu vejo a mulher, com uma contração de desgosto na cara enrugada, beliscar, num beliscão grosso e torcido, o bracinho fino da criança.

De vez em quando, há uma parada súbita, um segundo de silêncio, e a campainha da ambulância que passa corta o ar como um grito de dor.

- Marta, acorde, onde estão os sanduíches? - Era Lúcia que, cansada e rouca das cantorias, sentava-se ao fundo do carro e procurava no cesto as merendas.

- Em que é que você estava pensando? - perguntou curiosa.

- Eu? Nada...

- Nada, não; e aposto que não eram muito carnavalescos os seus pensamentos... tinha uma cara!

No domingo, fiquei em casa lendo o livro que Rui me dera. Lembrava-me dele, de seu ar de carnaval que eu ainda não conhecia, e pensava em como era sedutor assim, de camisa aberta, o peito moreno, os dentes a brilhar num sorriso gostoso, uma luz irônica nos olhos cinzentos. E lembrava-me da cigana, uma ciganinha loira na avenida, atrás da qual correra para jogar-lhe confetes, e, enquanto semeava com carinho um punhado na cabeça dela, pegava-lhe as tranças douradas a perguntar se eram postiças, rindo com a boca e com os olhos.

E eu, que o imaginava tão sério, pensando até que nem soubesse flertar? Queria mergulhar no livro, mas o pensamento fugia para o carnaval, andava pelas ruas vendo ainda as tristes cenas. Guardava nos ouvidos o batuque dos cordões e o surdo compasso do bumbo. Seria mesmo o bumbo ou o meu coração que fazia bum... bum... bum...?

À noite, na cama, li até muito tarde. Eram já três horas quando apaguei a luz da cabeceira, e a turma ainda não havia chegado. Na escuridão do quarto eu pensava na desordem da casa.

Tia Dulce tinha ficado com as filhas para passar o carnaval conosco. O dia inteiro era uma trabalheira, fazer varrer confetes, e a arrumadeira, sonolenta, arrastava-se no serviço.

Lúcia e as primas dormiam quase o dia todo, depois de atirar para uma cadeira as fantasias amarrotadas, que era preciso fazer passar a ferro.

A tia conservava seu arzinho de visita de cerimônia, sentada na sala, conversando com vovó pelo dia todo e pedindo por favor até um copo d'água. Eu me desdobrava e me multiplicava para dar conta de tudo e que nada faltasse a tempo e a hora. Só às cinco da tarde, quando o grupo reunido partia para a folia, é que eu ficava inteiramente livre e sozinha comigo mesma.

De mansinho, o sono vem vindo, tomando conta de mim, levando-me lá para o carnaval. Assombrada, vi que estava fantasiada. Era eu aquela cigana. Via em mim a profusão de medalhinhas que faiscavam. Arregaçando a longa saia de cetim vermelho, eu corria pelas ruas, tilintando guizos e medalhas, balançando as tranças.

Nas ruas cheias, corria aos encontrões, empurrando gente, atropelando crianças. Vi a mãe, colérica, com a cara a escorrer suor e tinta, gritar comigo, sacudindo-me o braço. Tive medo. Voltei. Corria agora pelo meio da rua, na frente dos carros, cujos holofotes, como olhos monstruosos, me tonteavam, cegando-me. Por que corria? Procurava o nosso carro e não o encontrava. Queria gritar por Lúcia, mas a voz não saía.

Senti então que alguém me agarrava, voltei-me, era Rui. Pegava-me as tranças, e o seu olhar morno, envolvente, que escapava por entre os cílios apertados, me tonteava. Queria fugir, mas não fazia um gesto. Uma moleza, uma sonolência, uma inércia me impedia de reagir. Deixei-me abraçar. Seus braços fortes me envolveram, e eu senti seus lábios em minhas faces, em meu pescoço, em minha boca.

Súbito, sabia que estava sonhando, e, nessa meia inconsciência, pensava: que bom!

Que bom! E esforçava-me para prolongar o sonho. Sentia o coração aos saltos, dentro do peito. Batia ainda desordenado quando despertei e vi, com a claridade da manhã, Lúcia entrando devagarinho. Fechei novamente os olhos e, sem analisar ou refletir, procurei emendar, continuar aquele sonho. Mas, não. Agora eu corria à sua procura, mas não o encontrava.

Olhava para mim mesma, estava de vestido velho, tinha esquecido a fantasia e, então, queria voltar para casa, para vesti-la. Mas os bondes cheios, os automóveis correndo e o povo me empurrando, aos gritos, aos berros, que se misturavam ao batuque infernal e às cantorias. Senti-me angustiada. Não podia mudar de roupa; não havia meios de voltar para casa... as ruas eram diferentes e eu não as reconhecia.

As pessoas não davam a mínima atenção aos meus apelos, eram caras estranhas e impassíveis, como máscaras... As lágrimas me corriam, e os meus soluços perdiam-se no bum bum dos tambores... Acordei. Que tarde era! Oito horas? E comecei a vestir-me febrilmente.

Lembrava-me do sonho, e sentia ainda aqueles braços em volta do meu corpo, numa sensação estranha, algo doce, que me irritava. Que tolice, pensava, sonhar uma coisa dessas! E abanava a cabeça, dobrando a roupa de cama.

O sol entrava pela vidraça clareando tudo, e eu via Lúcia mergulhada num sono de criança. Corri as cortinas, cerrei as janelas e fui embora, com o sonho me perseguindo. Vinha às vezes tão nítido que as faces me queimavam de pejo. Não, dizia enérgica, não quero pensar nisso.

À tarde, saíram todos, fantasiados, num bloco de fantasmas, para dar trotes aos conhecidos, enrolados em lençóis e com máscaras horríveis.

O carnaval daquele tempo tinha desses aspectos, mas eu sempre tive horror às máscaras. Era incapaz de encará-las. E eles caçoavam de mim, da minha infantilidade. Era um medo enraizado na infância, quando me arrepiava toda ao ouvir, ao longe, as vozes de falsete, e o carnaval para mim era um suplício.

Era a segunda-feira o dia dos blocos e dos ranchos, e eles passavam à nossa porta, pelo dia todo. Havia desde o bloquinho de "sujos", da molecada em travesti e máscaras de pé-de-meia, até os grandes ranchos, que desciam do morro, das favelas, e enchiam a rua num desfile de um luxo paradoxal.

Gostava de vê-los. Pois até em meio dos trapos, dos blocos mais humildes, não faltava a cadência tirada por mão hábil no pandeiro, no chocalho ou num fundo de frigideira.

Gostava de vê-los.

A negrinha que é quase um bebê, mas tem no sangue o ritmo do batuque, no atavismo da raça, e bamboleia as cadeiras, com arte instintiva na batida perfeita de um samba gostoso, ora trêfego, ora dolente. E eles vinham, e passavam, e sumiam na esquina, deixando no ar a toada bonita que conta, cantando, misérias da vida e mágoas de amor.

Já se tinham ido os fantasmas, há muito tempo, e eu me deixava ficar à sacada repetindo com eles, na voz em surdina:

"Na Pavuna - (tum, dum, dum)
Na Pavuna - (tum, dum, dum)..."

Faz muito tempo... Lúcia ainda nem era nascida. Remexo no fundo da memória, afasto algumas teias de aranha, e vejo-me debruçada nessa mesma sacada, a menininha que eu era, que espetava os olhos tristes para além das coisas, roendo as unhas.

"A mão direita tem uma roseira..."

Como me lembro! A rua cheia de crianças, que brincavam de roda. Meninas dos vestidos engomados que trazem nos cabelos grandes laços como borboletas. Assim, embonecadas, vão surgindo, todas as tardes, para brincadeiras na calçada.
"Ciranda, cirandinha,
vamos todos cirandar,
vamos dar a meia volta,
volta e meia vamos dar..."

A toada se estende em altas vozes infantis até ouvidos distantes. É uma festa a rua.

- De que é que você vai se fantasiar? - perguntam-me.

- De nada.

Era nas vésperas de um carnaval, e todo carnaval era isso. Um desejo enorme de vestir uma fantasia. Via-me de cigana, ou talvez de baiana, as saias enfunadas, colares, pulseiras, brincos...

Mas me diziam: "Bobagem fantasiar, tolice gastar dinheiro à toa." E me prometiam um vestido novo que, diziam, era mais útil.

Útil? Palavra inútil para meus verdes anos. E era um azar que o útil não pudesse ser agradável.

- A minha vai ser de borboleta - contava a menina da vizinha - tem asas e tudo, até uma luzinha na cabeça.

Punha-me a pensar em como seria lindo vestir-me assim, de borboleta azul, toda cintilante, as asas abertas, bordadas de lantejoulas, e a tal luzinha acende-apaga como um vagalume. Fecho os olhos e sonho. É fácil sonhar. Difícil é acordar depois.

E todos os anos era a mesma coisa. A mesma ansiedade. A mesma esperança teimosa, teimando... Quem sabe alguém me daria uma fantasia? A avó... era tão boa a avó... Impossível que não vissem aquele desejo imenso, latejante, que era como um ser vivo.

Mas o carnaval vinha, e a esperança se ia. Sábado, à tarde, já começavam a surgir os pequenos carnavalescos, pierrôs, colombinas, ciganas, baianas... E eu me encantava com a festa de cores e de brilhos. A luz a brincar de tirar faíscas nas lantejoulas, nas medalhinhas, nas contas de vidro, coloridas.

- Você não se fantasia?

- Não - respondia depressa. - Mas ganhei um vestido novo. Vestido novo? Útil? Procurava tirar felicidade dessas palavras, mas elas soavam falso e eram como certas pomadas em feridas, que ou não fazem nada ou fazem doer mais.

Ninguém pensava em como era útil uma alegria?

E era preciso procurar achar bonito o vestido. E era preciso preparar-me para a comiseração das outras meninas:

- Que pena!

- Coitada!

Aquele ano...

- Queres uma fantasia de papel?

Era a moça arrumadeira, Amélia - uma portuguesa gorda, simpática. Claríssimo. Tudo, menos o tal vestido útil.

- A menina pede aí alguns tostões a avó e é comprar o papel fino, o papel de seda, ao armarinho...

E começou a faina. A moça cortava, colava, cosia cuidadosamente as tiras coloridas de vários tons. O corpete justo, mangas bufantes, saiote curto e bem franzido... E o nome? Amélia disse que se chamaria Folia. Que importa que fosse de papel? Estava ficando linda. E eu passava o dia na copa, com Amélia, tentando ajudar, as mãos desajeitadas, de unhas roídas.

Havia já dois dias que a fantasia estava pronta, dobrada em cima do piano na sala.

No sábado de carnaval acordei cedinho. Mas que era aquilo? Tudo confuso. A casa a ferver de parentes e amigos, que iam e vinham. Gente chorando. A família rodeando e consolando a avó...

Era o tio. Havia tido uma congestão - disseram.

E o burburinho cresceu e se estendeu pelo dia todo. No domingo, começaram a passar os blocos, e o batuque entrando pela casa adentro, numa irreverência de chocalhos e pandeiros. E o vozerio, como um escárnio, gritava cantando a marchinha alegre:
"Viva o Zé Pereira!...
Viva o Zé Pereira!..."

Autor(a): Magdalena Léa

 

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