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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO VIII
publicado em: 29/08/2017 por: Lou Micaldas

"- Que é isso, menina, olhando para ontem?
Não, não era para ontem, era para dentro de mim: este mundo infinito que desconhecemos. As surpresas que causamos aos outros não são maiores que as que causamos a nós mesmos."

E o tio agonizava.

Pobre tio! Ele se chamava Zé. Tio Zé era um irmão de vovó e, como fosse sozinho, tinha vindo para nossa casa, tratar da saúde.

Morreu na madrugada da segunda-feira gorda. O dia todo, o corpo exposto no salão, sacadas abertas de par em par para a balbúrdia carnavalesca. Alguns curiosos foliões chegavam mesmo à porta do salão, com suas caras de máscaras, para ver o morto.

Encolhida pelos cantos, sem entender direito, eu só tinha consciência da minha frustração.

- E a fantasia? - ousei perguntar.

- Você está doida? Com seu tio morto?

Meu olho comprido pousava em cima do piano: a fantasia de papel ali dobrada, tão colorida quanto esquecida.

E eu chorava... chorava...

Diziam os adultos:

- Pobrezinha! Tão pequena e tão sensível!...

E eu chorava mais. Agora, ali na sacada, ficava pensando... O tio morreu, mas a esperança, não. Teimosa, teimando vinha vindo e segredava-me: "Talvez que para o ano... quem sabe?..."

Nunca houve o ano.

Devo a este episódio a ojeriza que tenho, que até hoje carrego, a vestir uma fantasia?

É possível, mas que importa?

Vai tão longe... tão longe... perdido no tempo...

Volto ao hoje, ao aqui, ao agora.

Os "sujos" passavam pulando, batucando:

"Na Pavuna - (tum, dum, dum)
Na Pavuna - (tum, dum, dum)..."
"Vem moreninha, vem tentação..."

Não podia ler. O livro lá estava à cabeceira da cama, à minha espera, mas a estória não me despertava mais interesse algum. Havia agora aquele sonho que me perseguia e havia aquela inquietação toda nova que me intrigava.

À noitinha, voltaram os fantasmas. Iam a um baile. Quiseram saber por que eu não ia. Respondi: não gosto de carnaval. E não insistiram. Os rapazes esperavam na varanda, mas não os vi. Ajudei as moças a vestirem-se. Depois, sozinha, tomei um calmante e meti-me na cama, num sono sem sonhos.

Quando acordei, o dia ia alto. Cerrei as cortinas pensando que nem vira Lúcia entrar. Sono de pedra, o meu, nem sequer sonhara. Sentia-me repousada, e fui cuidar das minhas obrigações.

Mas, às vezes, sem o querer, parava em meio aos afazeres e, pondo o olhar em nada, aquele sonho se desenhava claro e vivo em minha mente.

Este era o terceiro e último dia de carnaval. Eles teriam pena, mas eu já suspirava pelo fim daquela confusão. Esperando pôr, na mesma ordem, a casa e a minha cabeça.

À tarde, eu arrumava a mesa para que comessem alguma coisa antes de saírem. De costas para a entrada, passava manteiga nos pãezinhos de sanduíches.

- Olá, como está? - Era Rui.

Um calafrio percorreu-me o corpo, de súbito me lembrei do sonho e corei de vergonha, como se ele pudesse apinhar meus pensamentos. Simulei um susto, para esconder a perturbação.

- Assustou-se comigo?

- Claro - falei apressada. - Você vem surgindo assim de repente, pensei que fosse alma do outro mundo.

Com estas palavras, consegui dominar-me e pude então olhá-lo de frente. Tinha no bolso um lança-perfume e ainda aquele ar gaiato. Não sei se me surpreendia ou me irritava. Bateu no pandeiro e ensaiou um passinho de dança, cantarolando com um riso na voz:

"A, e, i, o, u dabliú, dabliú
na cartilha da Juju, Juju..."

Abaixei a cabeça no meu serviço. Enquanto partia um bolo em fatias, pensava: que tenho eu com isso? Que me importa a sua personalidade de médico sério o ano todo e gaiato no carnaval? Mas me desconhecia. Foi o sonho. Foi aquele sonho absurdo que me perturbou. Mas por que sonhei aquilo? Estaria em meu subconsciente? Mas o que estaria em meu subconsciente? Mas então... então... eu...?

Não, não podia ser, não havia de ser isso... sugestionava-me.

Um palpitar constante me acompanhou desde então.

Não podia vê-lo, não podia ouvir seu nome sem um sobressalto. Alarmava-me. Que se passa comigo, meu Deus?!

Rui... Rui... Rui... repetia baixinho para ver se o dizia como antes. E dir-se-ia que o nome havia crescido dentro de mim e me tomava toda. E eu tinha vontade de fugir. Um medo pânico se apoderava de mim, por aquele estado de coisas que não compreendia... Mas não compreendia, ou não queria compreender? E me quedava em cismas.

Já andavam notando em casa. Vovó, vendo a minha falta de apetite e até de interesse pelas coisas, insistia para saber se eu estava doente. Não, não estava, pelo menos o meu corpo não estava doente. E o coração... o moleque Cupido o acertara em cheio.

Perdia horas de sono rolando na cama, perseguida por meus loucos pensamentos. Durante o dia, andava alheada, fugindo ao convívio de todos, e ficava distraída, olhando fixo e tão longe que fez vovó perguntar:

- Que é isso, menina, olhando para ontem?

Não, não era para ontem, era para dentro de mim: este mundo infinito que desconhecemos. As surpresas que causamos aos outros não são maiores que as que causamos a nós mesmos.

Já nem buscava os livros. As histórias dos demais me eram totalmente indiferentes, e as cenas de amor nos romances me irritavam a ponto de me arrancar lágrimas aos olhos.

E ele, sempre ele, com aquele riso, com aqueles olhos diante de mim, a todas as horas, numa obsessão, tão perto do meu sonho, tão longe do meu alcance.

E a vida continuava, deixando o carnaval distante no tempo. Acabaram as domingueiras, mas ficou o hábito de se reunirem lá em casa. Luís e alguns amigos e colegas de Lúcia moravam por perto.

Só Rui vinha do Flamengo, uma ou duas noites por semana. Tia Dulce espaçava agora as visitas. Vera estava quase noiva de Tônio, que se batia da Muda da Tijuca para vê-la em Niterói. Reuníamos um grupinho e, quando vinha alguém muito animado, tocava-se vitrola e dançava-se um pouco. Às tantas, eu servia um cafezinho com biscoitos e bolos.

Já não duvidava mais do meu sentimento. Amava-o conscientemente, entregando-me à loucura de alimentar, com sonhos e ilusões, este amor que seria único e me acompanharia pela vida afora. Esquecia a minha figura, para só me lembrar de que era mulher. Sonhava então pelo dia, como uma sonâmbula, a mover-me maquinalmente.
E me perguntava: por que é que ele agora vinha tantas vezes? Antes, havia a desculpa dos estudos, compromissos, clientes, mas agora sobrava tempo? E por que é que ele está sempre mais a meu lado do que ao lado de qualquer outra pessoa? E uma pretensãozinha de que talvez ele me quisesse me vinha, timidamente, alisar o amor-próprio. Algumas vezes sentia seu olhar em mim e, então, falava e ria num alvoroço, para esconder o meu enleio.

Talvez que me analisasse, ou me notasse qualquer mudança, pois estava faceira e já me pintava. Demorava no espelho arranjando os cabelos, em vez de só cuidar de Lúcia.

Já reformava e enfeitava meus próprios vestidos e chapéus, e agora, também, gostava de sair.

E quando Rui e Luís nos vinham buscar para teatros, cinemas e passeios, eu me lembro como me concentrava no desejo de que ele ficasse a meu lado. E quando, ao atravessar uma rua, ele me segurava o braço, eu sentia como que uma vertigem de prazer.

Quantas vezes, servindo à mesa, de pé, por cima de seu ombro, eu tinha de fugir ao desejo louco de acariciar os seus cabelos. E outras vezes, de propósito, eu roçava o braço em sua cabeça, ou tocava de leve a sua mão, num gesto todo natural, do qual só eu sentia a profundeza. E neste gesto disfarçado, quanta ternura escondida!

E o mistério de Deus? Fugia de conversar com Luís, e quando ele me perseguia com perguntas, só tinha para lhe dizer:

- Não sei nada, Luís. Estou confusa. Não creio nem descreio.

- Duvido, é isso que me dói.

- Dói por quê?

- Dói, como dói não ter pai. Deus me seria um pai... A quem hei de pedir minhas coisas? - acrescentava sorrindo - E eu estou tão precisado de ajuda... se você soubesse!... Ele dizia que qualquer coisa havia comigo, que ele não atinava. Que eu havia mudado. E seus olhos pequenos e vivos me fitavam insistentes.

Eu fugia desse olhar com uma risada, e mudava de assunto.

Às noites, em minha cama, mergulhada na sombra, eu me entregava totalmente à loucura de sonhar.

Se ficasse doente... pensava, muito doente, ele viria tratar-me. E quem sabe? Gostaria então de mim, depois de me ter arrancado à morte? Imaginava as cenas. Via o seu carinho, ao tocar-me. E eu já sentia o seu olhar a me envolver acariciante, sentia suas mãos morenas e quentes sobre a minha pele, arrepiada de gozo.

E pensava qual devia ser a doença. Nada que me desfigurasse. E os nomes das enfermidades desfilavam na minha imaginação. Uma simples gripe não servia, davam-me aí qualquer comprimido ou injeção, e estaria boa, mas eu queria ficar em perigo. Que temessem pela minha morte. Pneumonia? Quem sabe? Queria, acima de tudo, uma doença estética, nem muito dolorosa, nem repugnante.

Mas, às vezes, eu pensava que talvez fosse melhor Lúcia adoecer.

Eu estaria à cabeceira dela, o meu carinho, a minha dedicação, a minha inteligência, de tal forma que ele, encantado, me pediria para ser sua mulher. E, pensava ainda, como seria melhor assim, porque então eu não estaria pálida, desfigurada e... seria Lúcia quem... havia de estar... Nessa altura eu parava, o peito arfando, e olhava minha irmã, que dormia inocente como um bebê.

Sentia remorsos. Mas acalmava-os em seguida, dizendo de mim para mim que não havia de ser um pensamento besta meu que fosse adoecer ninguém. E me firmava em Platão, que dizia: "O homem virtuoso se contenta em sonhar aquilo que o perverso executa na realidade."

- Marta, você quer casar comigo?

Todo o sangue me subiu ao rosto. Fitei Luís sem entender a pergunta. Gaguejei qualquer coisa e fiquei tão atrapalhada que ele riu.

Vi que não estava comovido, nem nada; seria então brinquedo?

- Não entendi - disse eu.

- Bem vejo que não; tomou foi um susto, não foi? - e acrescentou - Não pensei que você fosse tão...

- Deixe de brincadeira...

- Mas não estou brincando! Estou falando sério, nunca falei mais sério em minha vida.

E você vai responder já a minha pergunta.

De relance, vi Rui muito atento, conversando com vovó. Deviam estar falando de doenças, era o assunto predileto dela. Procurei ver se os ouvia e procurei também os olhos de Rui. Meu coração deu um salto. E se fosse ele que me estivesse fazendo esse pedido? Embora frio, muito embora irônico?

- Ficou calada... aborreceu-se?

- Não; como havia de me aborrecer? Só posso estar lisonjeada. Você é um bom partido, Luís, e eu estou refletindo - respondi, retribuindo-lhe o tom de ironia - e acrescentei - Você disse que quer a resposta já, então tenho de pensar já.

Ele riu, e continuou:

- Olhe, Marta, nós não somos iguais aos outros. Eu, pelo menos, não sei nem flertar.

Não vamos representar "casinhos" de amor. Não creio nisso, e, se não me engano, você também não crê. - Fez uma pausa, e eu pensei em como se enganava, meu Deus do céu!

- O que há - continuou ele - é que você é a mulher que eu procuro: inteligente e boa. Teríamos uma vida quieta, calma, alguns filhinhos e... seríamos muito amigos... você faria doces só para mim. Eu gosto imenso de seus doces, Marta...

Falava calmo, risonho, como se tivesse estudado o plano de todos os lados e não esperasse encontrar objeção. Eu lutava entre a cerimônia de um não e a impossibilidade de um sim.

Olhava-o de relance e via seu corpo um tanto curvo, seus olhos, pequenos e brilhantes como os de um mico, e os lábios grossos que se entreabriam num sorriso inexpressivo.

Não. Não casaria sem amor. E não poderia amá-lo, menos ainda agora, com o coração tomado de outra imagem. Luís não despertava em mim um mínimo de desejo. Sei mesmo que não me agradariam suas mãos sobre o meu corpo. Não via nele homem, e sim o amigo. Estava certa de que daria um bom marido, um bom companheiro... Antes, talvez o aceitasse, mas agora...

Como um raio de luz, essa idéia atravessou-me o espírito: se Luís me queria, por que não Rui? Eu nunca havia pensado que Luís me fizesse esse pedido, e não o fez? Eu não via Rui interessado em ninguém, e até... não era comigo que conversava mais?

Falava-me da família, dos tios que o haviam criado, de sua infância. Contava-me as suas travessuras... Tal como Luís, ele me acharia boa e inteligente... Não seria isso mais necessário à mulher de um médico do que a beleza? Um sorriso bom, um sorriso de dentro iluminava minha fisionomia, creio, porque Luís perguntou:

- Está sorrindo?... Então consente?

- Não... não é isso, é que estou achando graça de você querer casar comigo... havendo pequenas novinhas e bonitas... e que podiam aprender a fazer seus doces...

- Você se convenceu de que é feia? Eu sempre desconfiei disso. Pois você é uma tola se tem o complexo. Você é diferente das outras. Você não se pinta, não se enfeita, não tem garridices, enfim. Mas o que você tem e falta a muitas delas é personalidade, é expressão, e eu prezo mais isso do que tudo. Marta, você é como se tivesse luz. Luz interior, que os seus olhos acusam. Para mim você é mais bonita do que todas essas bonecas...

Fez um gesto largo abrangendo a sala.

- Luís, não se veja obrigado a me dizer estas coisas só porque me pede em casamento. Não sou nenhuma criança. Já estou bem convencida da minha "fachada" e, creia, não me desgosto com isso.

Mentia. Mentia também no tom indiferente e superior com que lhe falava, pois tinha a alma em festa. Como agradecia a ele, em meu coração, estas boas, estas caridosas palavras, que ouvia pela primeira vez. Tinha ímpetos de gritar a minha alegria, a minha esperança, que cresciam como as bolas de ar sopradas pelas crianças. E pensava: se Rui também achasse assim? E desejei neste momento, mais do que nunca, crer em Deus. Crer em Deus para poder pedir e fazer promessas como quando era criança.

- Como é, Marta?

Luís estava ali, era a realidade. Falei com calma.

- Não, Luís; sinto muito, mas não quero casar-me. Sei que isso não vai ferir muito seu coração, porque você não está apaixonado. Por isso falo-lhe com esta franqueza. Não quero... não pretendo mesmo casar... de qualquer forma agradeço sua distinção e... não lhe faltarão noivas... serei sempre sua amiga e você pode vir, quando quiser, comer os doces que faço... Combinado?

Disse tudo com um sorriso de simpatia, observando-o, e vi a decepção estampar-se em seus olhos, e a palidez que lhe invadia o rosto. Fiquei admirada. Se não me tinha amor?! Mas os homens não gostam que ninguém lhes desfaça os planos. Devia ser por isso. Ademais, eu não julgava possível alguém me amar de amor.

Ninguém soube, em casa, desse pedido. Tampouco estranharam a ausência de Luís. Somente vovó nos perguntava, às vezes, se ele não vinha. Pediu que telefonássemos para a pensão, e Lúcia o fez, e de lá disseram que estava viajando, tinha ido a São Paulo.

E fiquei esperando o pedido de Rui. Todos os dias pensava: "Quem sabe será hoje?" Enfeitava-me e já observava com indulgência meu rosto no espelho. Teria melhorado? Havia em mim um certo brilho, qualquer coisa nova que não estaria nisso nem naquilo, mas que existia como uma auréola. Havia força vital nos meus gestos, em toda a minha pessoa, e aquela consciência de viver em toda a plenitude.

Era como se dissesse: sei que existo porque amo.

Procurava nos meus olhos o "brilho de luz interior" que Luís dissera possuir. E lá, no fundo do espelho, eu via que esta luz era feita de esperança.

A expectativa de felicidade é já um pouco de felicidade, assim como desejar é já metade de um prazer. Mas...

Algumas vezes era tomada de sustos. Meu Deus, aonde me levará esta loucura? Mas o raciocínio era fugaz, e eu prosseguia arrastada na onda dos sentimentos e dos impulsos instintivos.

Nem via, nem sentia os outros. Era como se não existissem. De Lúcia mesma, como estava afastada, como estava longe dela!

De noite, na cama, fugia de conversar como antigamente. Virava-me de costas, dava depressa o "boa noite", para ficar sozinha com meus sonhos doidos. Não sabia o que ela poderia pensar disso, nem notei que havia mudança também nela. Era egoísta.

Estava toda voltada para dentro de mim. Pode-se perguntar: a luz ofusca e cega a gente para tudo o mais?

E me lembro de que, algumas vezes, via Lúcia pensativa, e... que era feito dos seus flertes?

 

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