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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO X
publicado em: 29/08/2017 por: Lou Micaldas

"Rui brincava com a mulher, fazendo-lhe cócegas, a que ela fugia, torcendo-se toda e dando gritinhos e risadas. Era uma cenazinha galante, que me deixava as faces em fogo."

Desceram mais de um mês depois, quando vovó morreu.

Pobre vovó. Levou-a uma pneumonia, em cinco dias apenas. Apesar do cuidado que tinha em fechar janelas, ou talvez mesmo vítima desse cuidado; pois, logo que ventava e esfriava o tempo, lá corria ela a fechá-las, estando, assim, mais exposta do que nós, que cá ficávamos.

A casa cheia. Parentes, amigos, todos em volta a dar conselhos, a ensinar este e aquele remédio, e vovó num delírio sem descanso, em que falava em mamãe e papai como se estivessem vivos. Chamava-os constantemente, dizendo coisas incoerentes, erguendo o corpo quente de febre, até sentar-se na cama. E pela casa toda um rebuliço.

Carola, de cara inchada, chorando pelos cantos, queimando e salgando as comidas. E eu, no meio de toda essa gente, ia e vinha acalmando uns, animando outros, às voltas com sinapismos, injeções, cataplasmas. Lúcia, fora, sem saber de nada. Uns achavam que se devia chamá-la, outros achavam que não valia a pena, que o caso não era tão grave.

Iludia-nos o fato de a febre não ser muito alta. Também os médicos nada diziam de positivo. Eu balançava no meio de tantas opiniões contraditórias. Que havia de fazer? Interromper a lua-de-mel com uma notícia dessas?

Ah! Talvez vovó melhorasse e não fosse preciso chamá-los.

Vovó melhorou, realmente, aquela tarde, e à noite dormiu. Dormimos todos. Cansados, deitaram-se nos sofás e até nos tapetes. De manhã, quando o dia clareou, acordamos todos, menos ela.

Os primeiros albores da manhã penetrando no quarto pela vidraça iluminaram o rosto já sem vida de vovó. Ao lado da sua cama, numa poltrona, eu dormia ainda quando tia Dulce, entrando de mansinho, gritou aflita:

- Marta, Marta, olha mamãe... - e desatou num pranto.

Abrindo as pálpebras pesadas contra o sono, vi-lhe o queixo pendente, os olhos encovados e aquela cor de cera que não engana.

Acariciei a sua cabecinha branca, cujos bandós se encaracolavam desalinhados, e comecei a chorar. As lágrimas desciam, uma a uma, pelas minhas faces, com esta calma resignada que se sente diante do irremediável. Calada, eu contemplava a velhinha que desaparecia de minha vida para sempre. Contemplando-a, eu me dava conta de que aquela velhinha tinha sido tudo para nós.

Nela havíamos condensado o pai, a mãe, a avó... o lar, enfim. Sentia-me como um náufrago, sem saber em que direção haveria de nadar para encontrar terra onde apoiasse os pés. Ouvia lá fora o choro das filhas e das netas. Carola apareceu na porta, com o avental cobrindo o rosto. Soluçava, as palavras lhe saindo entrecortadas:

- Coitada de nhanhã... tão boa... uma santa. Nunca fez mal pruma mosca. Mas tá com Deus. O céu é que é lugá pra ela. Eu bem vi, a miora dela num era bão, não. Quando os duente miora assim, é qui tá no fim. Inté se diz qui é a visita da saúde...

- Parou, olhou vovó de perto e passou a mão negra e calosa pelo seu corpo, numa carícia desajeitada. - Parece que tá drumindo... coitada dela... ela quiria tanto vê a neta chegá...

Meu coração deu um salto. E Lúcia? Deixei Carola em suas lamentações e fui providenciar telegrama para eles. Chamei Luís e pedi-lhe que tratasse de tudo.

Ele abraçou-me e eu senti que seus lábios me tocavam a testa.

Os enterros são todos iguais.

Apenas direi da tristeza do casarão, que ria por todas as janelas, nas festas e nas domingueiras, e que, por todas as janelas, chorava agora. Quase as mesmas pessoas, as mesmas flores, só a música era outra.

Pelas quatro sacadas abertas, havia de passar o som dos soluços e lamentações. Era a música da saudade. O adeus àquela velhinha mansa que, pequenina e modesta, ocupava em nossos corações um largo espaço. Olhando as feições endurecidas da morta, eu queria penetrar à força o grande mistério.

Acabará tudo assim? Será só isso o fim de tanta coisa? Lutas, paixões, lágrimas e risos?... E essa coisa infinita que é o pensamento? A inteligência? O eu interior, núcleo dos sentimentos, da personalidade, e da sua complexidade de cunho inpidual como as impressões digitais, apodrecerá também?

Não - eu me revoltava - não pode ser. Tem de haver alguma coisa. Mas o quê? Uma alma? Com que finalidade? A de dar uma razão de ser à vida? Vivemos então para ver se somos bonzinhos: se pecamos muito, vamos para o inferno; se menos um pouco, vamos para o purgatório, e, se formos mesmo muito bem comportados, vamos para o céu.

E para quê? Ou será que ficamos flutuando no espaço e dando sustos nos outros, como "almas do outro mundo"? Ou será o Nirvana, a volta ao Nada, numa integração ao Todo?

Pode-se perguntar se essa voltinha na Terra seria um teste. Mas para quê? Para testar a nossa capacidade de pecar? Por quê? Para quê?

Não; não posso alcançar. Não valia a pena pensar nisso.

Passava a mão pela testa num desânimo. Todos aqueles que ali estavam chorando morreriam também um dia. Todos, eles e eu. Olhava as mãos de cada um e pensava: um dia estarão também cruzadas sobre o peito, duras, de unhas roxas.

Morrerão todos, morreremos todos, e, no entanto, parece que não nos damos conta disso. É como se cada um, por si, se julgasse eterno.

Via Lúcia, que chorava no ombro de Rui, e, num lencinho minúsculo de cambraia e renda, enxugava os olhos, não sem faceirice. Um dia ela também será velhinha, o corpo encarquilhado, e morrerá; e outras moças de lencinho de rendas chorarão, contemplando-lhe o corpo como se a elas não pudesse acontecer tal coisa.

Luís vem a meu encontro avisar que está na hora da partida. Começam as despedidas, o choro dobra de intensidade e é um choro só pela casa toda. Eu me debruço sobre seu rosto impassível e beijo a fronte fria, num contato desagradável... quase repugnante.

E, de repente, a casa ficou vazia.

A gente quase não percebia vovó antes; quase não a sentia presente, e agora era como se ela houvesse crescido na nossa saudade. Ela, que fora apagada, brilhava com intensa luz nalembrança da gente. Era seu vulto que víamos em cada canto, eram palavras dela que se ouviam a cada instante.

Os dias corriam à toa. A casa ficara um ermo. Com que aperto eu olhava agora a sua cadeira de balanço! E os paninhos de crochê sobre os móveis, obra sua, delicados trabalhos de suas mãos polpudas e macias. E os vasos de samambaias e begônias enfileirados na varanda. Coisas bobas, insignificantes, tinham agora outro sentido, e eu ficava lembrando todos os seus gestos, todas as suas palavras, numa intensidade que me parecia ouvi-las.

- Marta, minha filha, eu penso que a plantinha quer um pouco de sol...

Eu descia as escadas com os vasos e ia enfileirá-los no jardim.

Tinha uma delicadeza, uma cerimônia para pedir as coisas!

Algumas vezes, até, escondia o pedido, num comentário apenas:

- O sol está tão quente! Mas acho que não vai dar para queimar as plantinhas... não é?

E, outras vezes, descia toda a escadaria com os pesados vasos na mão, só para não incomodar ninguém. Aí, tinha de levar um "pito", e ficava encabulada e tímida como uma meninazinha apanhada em flagrante.

Sempre pensava na morte de vovó como coisa natural. Bastante idosa e com uma lesão cardíaca, era como um vidro. Mas agora, que estava morta, eu sentia, como se estivesse oculta em mim, a idéia de que vovó fosse eterna, que não podia morrer como toda gente.

Lúcia também sentiu muito. Sua felicidade presente impedia-a de se entregar à dor, mas vinha conversar comigo.

- Marta, você se lembra de quando vovó me deu isso? Era uma medalhinha de ouro, de Santa Terezinha, que Lúcia usava numa corrente, ao pescoço.

- Coitada dela! - completava lacrimosa.

Tinha medo de almas do outro mundo. Medo que ocultava, talvez por vergonha, talvez porque achasse falta de amizade temer a alma de vovó; mas eu bem via, quando olhava assustada para a porta do quarto dela, ora fechada.

À noite, quando o marido chegava, ficavam juntos, mas durante o dia ela se pegava comigo, sob qualquer pretexto. Conversávamos, então, sobre sua estada em Petrópolis, sobre seu casamento e o gênio de Rui.

- Já agora - dizia ela - conheço-o melhor, e apesar de ser ele muito bom e carinhoso, sabe dizer "não".

Havia um ponto entre os dois. Era a questão da sociabilidade. Ela sentia que era amiga de festas, de reuniões, camaradagens, e ele detestava tudo isso, falando sempre em sossego e paz.

Temia que fossem viver isolados, mas estava resignada, pois cada dia que passava, mais o amava e sabia que era também adorada.

Ficava horas diante da janela, no meu quarto, agora só meu, olhando a noite, com seus fantasmas de árvores negras, pensando na minha vida.

Que faria? Para onde iria?

Estava decidida que venderíamos a casa.

Era nossa, minha e de Lúcia. Pidiríamos a importância. Materialmente, eu estava bem. Tinha o dinheiro da casa, com que poderia comprar um apartamento pequeno só para mim.

Naquela época, era ainda novidade, e não me atraía muito morar em prateleiras, como pareciam aquelas casas, umas por cima de outras. Enfim, era o progresso... Também tinha rendimentos, com que poderia viver folgada.

A venda da casa e dos móveis ficou por conta de Luís, e nós teríamos que tomar um rumo. Rui falava em morar na zona sul, queria uma casa na praia, Urca, Copacabana, Ipanema. Eu não dava opiniões, não pensava acompanhá-los.

- Marta, você tem de vir morar conosco - disse-me Lúcia naquele seu jeito imperioso, à mesa, à hora do jantar. Eu bebi toda a água do meu copo para me dar tempo de formular uma resposta. Senti dois pares de olhos a me fitarem em suspenso. Aquelas duas criaturas eram as únicas no mundo a quem eu amava.

Mas um fado mau quis que eu sofresse na companhia delas. Ainda não me acostumara a vê-los unidos. Sentia-me constrangida toda vez que se acariciavam na minha presença.

Rui brincava com a mulher, fazendo-lhe cócegas, a que ela fugia, torcendo-se toda e dando gritinhos e risadas. Era uma cenazinha galante, que me deixava as faces em fogo.

Havia menos de um mês que estávamos juntos e eu já suspirava pelo dia da separação. Quando se casaram, eu pensava que tudo iria ficar bem, pois eles iam morar sozinhos e eu ficaria com minha avó. Mas vovó abandonou-me, e agora o chão me fugia debaixo dos pés.

Quando ouvia que falavam em comprar casa, eu pensava assim: "Posso visitá-los de vez em quando, sem, contudo, ficar na intimidade." Sonhava com um apartamentozinho, ou mesmo um quarto num hotel e, de imaginação, já lá me via, com meus livros, meus bordados e meus segredos.

Imaginei as cortinas leves, voando na vidraça, e ia arrumando aqui e ali as minhas coisas. Teria, talvez, uma janela para o mar. E eu, da minha cama solitária, ouviria o marulho das águas, que me embalaria o sono. E lá, naquele pequeno mundo que eu construiria só para mim, seria feliz. Esqueceria tudo que me feriu na vida.

O convite, ou melhor seria dizer, a ordem, de Lúcia, me deixara perplexa. Como não pensara antes que me forçariam a ir com eles? Respondi, de um jato, que era difícil para mim tomar um lugar de sogra, que eu iria manchar o quadro de um bangalô em Copacabana e um lindo par...

Disse mais: que não gostava de Copacabana, que não gostava de praia, que não gostava de casas modernas... que... e lancei mão de quantos argumentos achava decisivos.

Enquanto falava, via Lúcia amuada, batendo o garfo de leve no copo como a marcar o ritmo do meu discurso. Concluí, então, que para eles seria melhor viverem sem testemunhas, a sós na sua intimidade.

Acrescentei, cantando: "Dois é bom.... três é demais", é como diz a cantiga Casa de cabôco - e dei uma risadinha sem graça.

Fiz uma pausa. Os dois ficaram calados, e pensei que os tivesse convencido quando Rui, levantando-se, disse:

- Está bem, está bem, Marta, nós não queremos incomodá-la. Cada um tem suas idéias. Mas creia que você, em nossa casa, não se sentiria infeliz; nós a estimamos muito, e você não estaria em solidão, mas como prefere isso à nossa companhia... Só que tem que eu acho que Lúcia agora... ia precisar muito de você... mas não tem importância...
- Precisar de mim? Por quê?

E o meu olhar de espanto pousou no rosto todo corado de minha irmã.

Meu coração saltou. Tinha apinhado, não podia duvidar. O casal deixou a mesa e, assim, ninguém viu aquela lagrimazinha que correu depressa e morreu no guardanapo que, eu num gesto maquinal, levara à boca.

À noite, na minha cama, chorei. Deixei que, na sombra e na solidão, as lágrimas me corressem abundantes, e nem sufocava os soluços que me estrangulavam. Até hoje não sei dizer, ao certo, porque chorei tanto naquela noite. Foi o extravasamento de todas as amarguras.

Comovida que ficara com o estado de Lúcia, começara uma "chuvinha" miúda que, em seguida, se transformara em dilúvio. E a enxurrada arrecadava tudo: meus sonhos, meus projetos, minhas esperanças. Depois, cansada e tendo despejado com o pranto o veneno do coração, uma luz brilhou em mim, como um raio de sol após a tempestade, pulverizando de ouro todas as coisas: o bebê de Lúcia.

E a ideia foi crescendo, crescendo, tomando vulto e afastando as nuvens. Agora, apenas orvalhadas, as verdes folhas da minha esperança viçavam novamente.

Como seria esta criaturinha que apenas se anunciava? Passei a noite a rolar na cama, sentindo bater no peito o tique-taque da vida e sonhando acordada com um rostinho rosado de criança, e pensando no doce momento de tê-la nos braços. Seria um bebê no vazio de minha vida. O filho de Lúcia... e algo de Rui para o meu carinho.

A aurora, ao despontar, já encontrou em mim as raízes de um afeto que seria profundo pela vida toda.

Serviço exaustivo esse, de procurar casa.

Diariamente eu saía com persos recortes do Jornal do Brasil para ver as que se anunciavam. Ficou decidido que seria em Copacabana, o bairro moderno e chique.

Ambos gostavam de praia, e Rui achava que seria bom para a criança. A mim, tanto me fazia. Sentia-me tolhida na minha liberdade, mas pensar na criança era-me uma recompensa.

Também era certo que Lúcia precisava de mim, inexperiente com respeito às coisas de casa e, além disso, naquele estado. Mas via, com pena, fugir para longe, na bruma de um sonho irrealizável, o cantinho solitário do meu desejo. E, por outro lado, via com absoluta clareza a vida que levaríamos apertadas numa intimidade de todas as horas. E eu estava assustada.

Ali, no casarão, com uma porção de quartos e salas enormes, a gente podia se espalhar... Um bangalôzinho moderno, era muito galante, mas para mim representava um pequeno quadrado de paredes. E eu carecia de isolamento. Enquanto encaixotávamos os ricos presentes de casamento, Lúcia exultava, só pensando nos arranjos que faria na casa nova:

- Veja, Marta, que linda floreira, não é mesmo? Hei de pô-la no centro da mesa. Rui não quis que eu fosse ver a mobília, quer fazer surpresa. Deve ser linda, eu sei que ele tem bom gosto...

- Se tem! Não teve para escolher você? - perguntei brincalhona.

- Não sei... - respondeu modesta - tanta gente diz que sou bonita que acabo me convencendo.

E, desembrulhando um enorme jarrão de porcelana, gritou:

- Oh! Marta, isto aqui eu nem tinha visto ainda, que beleza! Quem me teria dado? Ah!

Vejamos o cartão: tia Dulce... imagina! Nunca pensei que ela me fosse dar uma coisa linda dessas... não é mesmo, Marta?

- É... também estou admirada, mas... Verinha vai casar, e presentes retribuem-se, não é verdade?

Riu-se meio incrédula.

Íamos assim, em conversa, verificando tudo e envolvendo cada peça em papel de seda, para que não se quebrasse.

Ela falava todo o tempo, numa tagarelice alegre, pulando de um assunto para outro e, de vez em quando, soltava gritinhos de surpresa ao ver algum belo objeto, e se punha a imaginar os lugares em que os colocaria.

Tudo era novo para ela. A situação de casada, o bebê que esperava, a casa em que ia morar, o mobiliário e toda a guarnição, o bairro e a vida que ia levar. Era como se ela estivesse diante de uma longa estrada por onde devesse caminhar e pudesse pisar as flores que escolheria à sua passagem.

Todos os dias arrumávamos um pouco enquanto esperávamos resolver o problema da casa. Saíamos para ver e comparar umas com as outras, e, à hora do jantar, o assunto obrigatório era esse. Rui não queria em rua que passasse bonde, era muito barulhento. Eu dizia que, muito na praia, não seria bom para a criança, por causa do ar úmido.

Lúcia corava. Ainda não se habituara, e toda vez que se falava no bebê, encabulava. Dizia que nós resolvêssemos. Desde que fosse bem moderna e em Copacabana, nada mais lhe importava.

E continuava a lida.

Uma tarde, eu havia saído e, quando voltei, ao anoitecer, encontro Lúcia pálida de susto.

- Marta, você nem apinha o que aconteceu - falou torcendo as mãos, toda aflita.

Fiquei em suspenso, sem uma pergunta, e ela acrescentou:

- Carola... Carola caiu da escada!

- Meu Deus, não!... - gritei.

- Foi um horror, Marta... sente-se aqui que eu conto o resto.

- Morreu? - perguntei tremendo.

- Não, Marta... acalme-se por favor, não se assuste tanto... ela está na cama... veio a assistência.

- Quem chamou?

- Espere, deixe-me contar tudo direito.

E nós fomos abraçadas até meu quarto, onde nos sentamos à beira da cama.

- Você tomou muito susto? Oh! Lúcia, não está sentindo nada?

- Eu estou bem, não se incomode... não sinto nada, só tenho é muita pena dela, coitada. É como se fosse nossa parenta, ela nos viu nascer... - Seus olhos encheram-se de lágrimas, e ela continuou:

- Eu estava na varanda, perto da escada, quando a vi vir subindo com um balde na mão. Ia até ralhar com ela quando percebi que a coitada fazia um gesto de querer agarrar-se à parede e caiu para trás. Nem sei como desci a escada voando, a gritar pela copeira, mas quem acudiu mais depressa foi um homem que passava à porta.

E foi ele quem a carregou para pô-la na cama. Ela estava desacordada, e eu sem saber o que fazer... ele então chamou o Pronto-Socorro. Que coisa horrível, Marta, aquela ambulância parada à nossa porta, e eu a morrer de medo que você chegasse de repente e pensasse que era eu... Depois, o medo de entrar no quarto dela, sem saber se já estaria morta... a copeira... como é mesmo o nome dela?

- Alzira - disse eu.

- Sim, Alzira estava também com medo e não queria ficar com ela, mas esperamos pouco, a ambulância logo veio, e o enfermeiro disse que era um derrame cerebral...

- É então muito grave... coitada! Se não morre, fica pelo menos paralítica...

- Que horror!

- Que é que fizeram?

- Fizeram uma sangria e deram injeção... eu vim para a sala, não aguento ver sangue... e, Marta, o médico disse que ela está inconsciente... não adiantava ficar lá...

- Não adianta mesmo. Fique na varanda esperando seu marido. Você não pode, não deve emocionar-se. Agora eu cuido dela, não se preocupe. Está muito nervosa e precisa distrair-se, isso não é bom para o seu estado. Vou chamar nosso médico ele virá ver Carola.

Fui ao telefone e fiz a ligação. Sentia uma profunda tristeza só em pensar na pobre velha caindo desamparada, estendendo a mão, em busca de apoio. Que tinha ela que carregar o balde? Ai, todas as velhas são teimosas.

Falei com o doutor, que me prometeu vir logo, e fui descendo para o quarto dela. Era no porão. Um quarto espaçoso, com duas janelas gradeadas. Numa cama de ferro, de lençóis muito brancos, jazia a pobre. A respiração difícil fazia subir o magro peito num ritmo cadenciado. Parecia dormir. Debrucei-me sobre seu rosto e chamei:

- Carola, Carola...

Ela abriu um pouco os olhos, e pareceu reconhecer-me; fez um movimento para falar e não conseguiu. Eu fiquei ali, sentada ao lado da cama, observando-lhe a respiração. E toda a sua vida passou-me diante dos olhos, como uma fita de cinema.

Sempre ligada a vovó, tinha sido um presente de casamento, a negrinha esperta de quatorze anos. Presente da minha bisavó materna, que possuía uma grande fazenda em Jacarepaguá e tinha muitos escravos, cujos filhos nasciam e cresciam pela casa.

Quando vovó veio morar conosco, trouxe Carola, e, aos poucos, ela se foi integrando na casa e na família. Era uma mulher forte e desempenada, ativa, que se distribuía pela casa toda em mil afazeres, olhando as crianças, vigiando o serviço das outras empregadas e cuidando de vovó com carinhos de mãe.

Depois, foi enfiando pela cozinha, com seus quitutes, seus bolos e doces tão gostosos. Fiquei olhando em volta, o seu quarto modesto, meticulosamente asseado e arrumado na sua simplicidade. Estores de cretone nas janelas, cuja barra em bicos de crochê ela mesma havia feito. Sobre a cômoda, os seus santos.

Uma imagem barroca de Nossa Senhora Aparecida, com seu manto azul e dourado e apenas o oval do rosto à mostra, preto, lustroso como o de Carola. Um São Jorge, de quase um palmo de altura, que ela arrematara num leilão de festa de igreja.

Lembro-me do seu orgulho ao desembrulhar o santo para nos mostrar. Ao lado da lamparina de azeite, um rosário de contas pretas que vovó lhe dera. Ao vê-lo, lembrei-me de suas palavras quando vovó morreu:

- "Tão boa, uma santa... nunca fez mal pruma mosca..."

E ela, Carola? Sempre servindo, sem querer nada para si. E trabalhou até o fim para ainda cair com um balde na mão. Nunca se casou. Nunca ouvi falar de um namorado dela.

Ouvia-a sempre resmungando contra a pouca vergonha dessas "negas" namoradeiras pelos cantos escuros da rua, que ela ia encontrando quando voltava das ladainhas.

Um ruído na porta. Era Rui que entrava com o médico. Escutei atenta o que diziam, certificando-me da gravidade do caso. Saíram e fiquei ali pensando: ela vai morrer. Fazia pouco mais de um mês que vovó morrera, e agora... Carola. Andou sempre com vovó, ia então atrás dela.

Comecei a chorar. Segurei na minha mão a sua mão calosa de tanto trabalhar para nós, aquelas humildes mãos bondosas que tanto nos serviram. Não podia despregar meus olhos de seu rosto quieto, impassível, como que em preparação para o longo sono sem fim. Passei lá a noite, recostada à mesma poltrona onde dormia quando vovó morreu.

 De vez em quando despertava em sobressalto, para vê-la na mesma posição, e a mesma expressão de paz e tranquilidade. Pela manhã, quando clareou o dia, ela abriu os olhos e fez novo esforço para falar. Mas o esforço foi vão. A língua engrolada, a boca torta, babando, negava-se a articular a palavra, e, então, ela punha nos olhos desmesuradamente abertos o tudo que queria dizer. Mas era inútil. Eu não conseguia entender essa linguagem muda.

Acariciei sua cabeça passando a mão sobre a carapinha grisalha e, sem mesmo saber se me ouviria, disse-lhe:

- Não se aflija, vai ficar boa... não se esforce para falar, descanse bem e, quando melhorar, você dirá tudo.

Ela cerrou os olhos, parecendo compreender minhas palavras. Cerrou-os e não mais os abriu. Na tarde desse dia morreu, sem um gesto, na mesma posição; estava respirando e parou. Foi só.

Lúcia andava muito nervosa. Dizia que queria mudar-se depressa porque estava com horror àquela casa, morrendo gente todo dia. Rui procurava acalmá-la, dando-lhe sedativos, e eu procurava distraí-la, voltando ao assunto da arrumação. Mas era um vazio incrível, uma tristeza pesada, naquela casa enorme, de onde, em tão curto espaço de tempo, haviam saído dois enterros.

O dia era mais duro, só eu e Lúcia pela casa toda, e o corredor comprido e escuro, e as portas fechadas dos quartos... À noite era sempre melhor. Os três reunidos, esquecíamos um pouco nossas tristezas, às voltas com os projetos para a casa nova.

Depois, começaram a vir pessoas para verem a nossa casa e os móveis que iam ser vendidos. Com essa gente entrando e saindo, melhorara muito o aspecto fúnebre da casa. Já podíamos abrir todas as janelas e deixar entrar a luz, que clareava o ambiente, pesado de tristeza dos nossos vestidos pretos.

Também saíamos, eu e Lúcia, a correr as casas que se anunciavam. E era tão engraçado vê-la arrumando a casa vazia, de imaginação...

- Aqui, Marta, botamos o bufê, ali a cristaleira, cheinha de coisas bonitas, pois quem entrar por esta porta vê logo o brilho dos cristais, não é mesmo?

Depois passava à outra sala e continuava a arrumar:

- Aqui, vou pôr as poltronas, o sofá ficará em frente à janela, boto uma cortina de babados, fica lindo... até parece que estou vendo...

- Cuidado - dizia-lhe eu - não vá pensar que vê poltronas e sentar-se no chão, hem?

Ela ria-se, e depois não se ficava com aquela casa, por qualquer razão, e toca a arrumar outra.

Finalmente, decidiu-se a escolha, e começamos os preparativos para a mudança. Os dias voavam nesse afobamento, sem deixar lacuna ou vão para outras preocupações. E só quando já estávamos com as trouxas nas costas é que descobri em mim algo que muito doía: a saudade do casarão.

Ao ver os carregadores que iam e vinham com pesados caixotes e móveis desmontados, eu sentia como se vovó e todos os meus mortos morressem outra vez. Passaria às mãos de estranhos a casa que tinha sido o nosso berço.

Os móveis, que tantos anos ocuparam os mesmos lugares, deixavam no assoalho marcas indeléveis, como as pessoas que se vão e as deixam em nossa vida.

Enquanto gritava para os homens, "olha o piano na escada!" e "cuidado com os caixotes de louças!" pensava assim: vou-me embora... vou-me embora para sempre.

Fiquei, enfim, sozinha, e fui dar uma olhadela pela casa toda. Fui primeiro ao meu quarto. Debrucei-me à janela e, arrancando uma folha do abieiro, pus-me a mastigá-la. "Está carregadinho, este ano dará muita fruta! E eu me vi, então, ali, garota ainda, com os cabelos alvoroçados, trepando pelos galhos daquele abieiro amigo de infância, colhendo os frutos e atirando-os para Lúcia embaixo.

- Anda, boba, vovó vem aí... - dizia ela e ria, batendo palmas de contente.

Eu me deixava ficar olhando o quintal e lembrando cada uma de nossas travessuras. E pequeninas coisas me faziam saudade! A fenda no muro, por onde olhávamos para o quintal do vizinho. O vizinho tinha um macaquinho, e nós adorávamos vê-lo. Jogávamos pedacinhos de pão e morríamos de rir de suas macaquices.

Vovó dizia:

- Venham para dentro. Que tolice estar aí espiando um bicho tão porco, que até de longe fede. Bicho feio! Tomara que dê uma doença nele e morra... - Mas praga de vovó não matava macacos. Lúcia era bem pequenina e dizia "atato". Perguntava assim, a toda visita que aparecia:

- Cê tem medo atato? - e quem tinha era ela mesma.

Era como se eu estivesse vendo sua carinha gorda e corada. E parecia ouvir o chorinho dela ecoando na casa. Guardariam ainda aquelas paredes as cantigas ternas de uma voz infantil embalando um bebê? Andei pela casa acariciando as paredes nuas.

Entrei na sala de visitas: tudo vazio, despido, triste. Nunca pensei que fosse tão triste uma casa vazia! Uma só cadeira é já uma presença, mas aquele vazio... Eu via as marcas dos quadros nas paredes e o fio pendente, sem o lustre de cristal, que havia sido vendido. Passei ao escritório de papai, que ficou sendo chamado assim sempre, tantos anos depois de ele haver morrido.

Cada canto me recordava um mundo de coisas. Precisava ir embora... não podia eternizar-me ali. Mas como doía, meu Deus do céu! Eu tinha a impressão de que vovó ali estava, ligada àquela casa, e eu ia abandoná-la.

Desci as escadas, lentamente, e deixei o velho casarão, onde nasci. Olhei-o: sua fachada era como uma fisionomia humana.

Autor(a): Magdalena Léa

 

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