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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO XI
publicado em: 04/09/2017 por: Lou Micaldas

"Quantas vezes não fiquei pensando em casar-me e ter um filho meu mesmo!
A "minha" casa, o "meu" marido, o "meu" filho... mas não sentia nenhum desejo de que esse marido fosse Luís."

Foram bem duros os primeiros meses de gravidez. O enjôo, para o qual nenhum médico ainda descobriu alívio, deixara Lúcia prostrada. Fugiram-lhe as belas cores, a vivacidade, o brilho dos olhos. Ora recostada, ora deitada, passava os dias sem um minuto de sossego. Qualquer cheiro forte era um suplício. Precisávamos fechar as portas da cozinha quando se fazia algum refogado.

Não suportava o cheiro do cigarro, e Rui fazia-lhe o sacrifício de não fumar em casa. Às vezes, conseguia ingerir algum alimento, regado de limão, ficava imóvel na cadeira a ver se o retinha, mas vinham os vômitos, e lá se ia tudo.

Rui dava-lhe injeções, pílulas, gotas, poções, uma infinidade de drogas que, as mais das vezes, quase não lhe chegavam ao estômago. Eu procurava distraí-la, lendo para ela contos e poesias, contando-lhe casos e anedotas para fazê-la rir, que rir é sempre um bom remédio. E brincava com ela como quando fazia na sua infância, parodiando a célebre frase da madrasta de Branca de Neve:

- Quem é a menina mais bonita desse mundo?

- Eeeeeeeu! - respondia ela.

- E a segunda?

- Eeeeeu - outra vez!

E caíamos na risada.

Quando conseguia passar um dia todo sem vomitar, o seguinte era pior, e ela perdia a paciência:

- Isto só acontece comigo. É azar! Veja você as outras: passeiam, pertem-se e esperam o filho com prazer; mas eu, é só vomitar, vomitar, vomitar ... - e chorava.

Ficava irritada e dava para implicar com Rui:

- Você é que é uma beleza, hem? Sai o dia todo, enquanto eu fico sofrendo horrores... depois é só brincar com a gracinha do neném! Deus é homem... pudera!

- Meu bem, não fui eu que fiz o mundo, não posso ter o filho por você... E não vou passear, você sabe. Vou ganhar dinheiro para você, para nosso filhinho, meu amor...

E acariciava docemente os cabelos dela.

Eu fugia aos diálogos e às carícias.

O bangalô, com trepadeiras nas janelas, que se debruçavam sobre o telhado da varanda em festa de florinhas vermelhas, ficava numa rua perpendicular à praia, e por uma nesga entre dois prédios se via o mar. Em centro de terreno, cercado de jardins, mostrava o bom gosto de Rui para a decoração, no moderníssimo mobiliário, escolhido por ele, em segredo, que se distribuía pela casa, ornada de cortinas de seda achamalotada e tapetes de vivo colorido e felpos macios.

Tinha sido objeto de muitas confabulações a disposição dos ricos presentes de casamento, de porcelana, prata, cristal, sobre os móveis ou em exibição através dos vidros bisotês da cristaleira.

O living se abria para a sala de jantar por uma larga porta em arco; dispôs-se aí o jogo estofado de veludo verde-escuro, o piano e a eletrola, que substituía agora a pobre vitrola de manivela dos meus antigos serões. Pela escada atapetada, ia-se ter aos quartos e ao banheiro de louça rosa, com azulejos reluzentes e cromados, um encanto para nós, que vínhamos de uma casa antiquada.

Meu quarto, bem simples, a mobília a mesma. A cama de pau cetim; o armário alto de porta de espelho; a penteadeira, com alguns frascos de cristal e bibelôs; e havia a pequena secretária de tampa corrediça, onde eu tinha alguns livros e meus rabiscos.
A leve cortina de cassa combinava o colorido com as flores do tapete. Alguns quadros na parede e um retrato de vovó, na mesinha de cabeceira, ao lado da lâmpada, completavam a decoração singela. E era ali o meu retiro. Era ali que, tirando a máscara, podia chorar livremente.

Alzira, que quando Carola morreu tomou conta da cozinha, não quis vir conosco, disse que Copacabana ficava muito longe.

Carola, nossa boa Carola, que falta nos fazia! Tivemos que nos resignar às criadas modernas, de fala atrevida e arrogante. Cada dia havia um caso engraçado para contar. Muito engraçado, na verdade, mas o que não tinha nenhuma graça era irem e me deixarem com todo o serviço.

Lúcia tentava ajudar, querendo pôr ou tirar a mesa, mas andava fraca e se cansava das idas e vindas da sala para a cozinha. Também, só de olhar, os pratos sujos davam-lhe náuseas. Eu dizia-lhe que ficasse sentada, que fosse para junto do marido, e ela então comentava:

- Não sei como pode aguentar esse serviço! É horrível a cozinha, só esse cheiro me mata. Ah! Marta, se não fosse você, não sei o que seria de mim. Só penso no que Rui iria comer!

E ria-se ao lembrar as poucas tentativas que fizera para aprender. E eu então representava, exagerando para maior efeito cômico, a cena dela a fritar bolinhos. Jogando, de longe, com um garfo comprido, cada um na banha quente, que espirrava e fazia a cozinheira improvisada, aos gritinhos de ai! e ui!, soltar garfo e frigideira mais que depressa. E ela ria às gargalhadas.

Ficava totalmente esquecida de que era a dona da casa.

Até para dar ordens às empregadas pedia-me:

- Marta, diga-lhe que ponha o molho na molheira, sim?

- Por que não diz você, "madame"? - brincava eu.

- Não, você tem mais jeito de tratar com elas, eu não...

Precisávamos de duas empregadas para dentro da casa, uma arrumadeira-copeira e a cozinheira. Às vezes, quando parecia que acertávamos com ambas, elas davam de brigar, e lá se iam as duas embora. Mas não era melhor quando se tornavam grandes amigas e davam em conversar pelo dia todo. Com essas e outras, eu me mandava para a cozinha e ficava moída de tanto trabalho, porque na casa havia muito que arrumar e limpar, além de cozinhar.

Lúcia melhorava o enjôo e começava a ter desejos. Não foram poucas as vezes em que fazia Rui sair para lhe buscar alguma gulodice, quando já estava até de pijama.

Paciente, ele lhe fazia todas as vontades, feliz por vê-la recuperar-se e voltar a ser o que era. Paciente também com as ranzinzices dela. Não raro, eu ouvia retalhos de discussão quando, na cozinha, fazia a limpeza depois do jantar. Ou porque ele tivesse chegado mais tarde, ou porque não estivesse no consultório à hora em que ela havia telefonado.

Tudo era motivo para seu ciúme. Gritava-lhe que dissesse às clientes que tinha mulher, que não havia de andar o dia todo atrás delas. "Você faz assim - dizia-lhe com voz chorosa - porque eu estou imprestável, feia, amarela que nem sabão... quando eu era bonita, admirada por todos, você andava bem agarrado na roda da minha saia. Deixe estar, jacaré, a lagoa há de secar... e lembre-se, seu baiano, foi você mesmo quem me ensinou esse ditado!" Ele ria-se. Eu, da cozinha, ouvia-lhe o riso calmo, a voz cheia de ternura que procurava apaziguá-la.

- Meu bem...

- Pare com esse "meu bem", que me enjoa. Aposto que você não será capaz de explicar nada, não é? É só chamados, chamados, chamados! A mim você não engana.

Mudava, às vezes, a raiva em lamentações, e punha-se a gemer:

- Você devia ser mais meu amigo e ficar mais tempo junto de sua mulher. Agora que estou tão precisada, sofrendo tanto, é que você se afasta de mim... só fica comigo um instantezinho à toa e daí a pouco... chamados! Maldito telefone! Vou mandar arrancar essa porcaria.

- Lúcia, querida...

- Vou ter neném e às vezes... às vezes... Você não liga porque é homem... ser pai é mesmo mais fácil, não há dúvida...

- Às vezes o quê, meu amor?

- Tenho medo de morrer de parto, ora essa!

- Não diga assim, querida, bem sabe que a adoro. Como não ligo? É que sei que você será muito feliz. Tenho esta convicção. Mesmo não há motivo para não ser assim. E você não devia se irritar. Sabe que faz mal, não sabe, meu amor?

Aí a voz se tornava mais doce, mais cálida, e o ruído de louças e talheres que eu guardava nos armários abafava o resto.

Prometi a mim mesma que não havia de me meter e deixar que eles se entendessem.

Era como se não estivesse ali, mas às vezes pensava: até quando duraria a paciência dele? Tinha medo. Ouvia que muitas mulheres cavam a ruína do casamento com as próprias mãos, e o ciúme é arma perigosa. Mas talvez fosse do estado, esta irritabilidade, e eu me acalmava. Tudo acabava sempre em tantos beijos... tantos!

E o tempo corria.

Já agora me dedicava amorosamente a fazer roupinhas. Sentia o bebê tão vivo em mim, no meu coração, como no ventre da mãe. Eu o esperava mais ansiosamente do que Lúcia. Talvez porque ela tivesse outras coisas...

Lúcia, já de todo restabelecida, passada a fase do enjôo, saía a passear quase todas as tardes. Arredondavam-se-lhe as formas; a cintura mais grossa e os seios volumosos faziam-na reclamar pela vaidade:

- Que coisa! Nada me assenta? Olha, Marta, o meu vestido verde... não abotoa mais, tenho de ir com outro... ou pedir um de Paula.

Paula era a cozinheira atual, e tão gorda que enchia a cozinha. Mas dizia isso tudo sorrindo, sem azedume, num misto de desgosto, por vaidade, e de orgulho, pelo estado.

Se bem que não esperasse o filho apaixonadamente, gostava de tê-lo. Era uma novidade, era um motivo mais para que a cercassem de mimos. Rui, sentia-se, mostrava-se orgulhoso dela e chamava-a, às vezes, de mamãezinha.

Lembro-me de um dia em que ele pegou uma toalha e, dando-lhe a forma de um boneco, pôs-lhe na cabeça a touca de rendas que eu fazia e, enrolando-o numa coberta, andava pela sala ninando o bebê improvisado:

- Dorme, filhinho, que o papai tá qui...

E fazia:

- Bilu, bilu, bilu...cadê o neném do papai?

E Lúcia dizia:

- Seu bobo, aposto que vai ficar um babão... É melhor, Marta, você fazer uns babadouros maiores, para o paizinho...

E ele corria a beijar a mãezinha.

Eu tinha já uma grande caixa, com muita coisa pronta: toucas, camisinhas, mandriões etc.. (e bota coisas neste etc.) tudo de cambraia, de opala finíssima, bordadas, entremeadas de rendas. Gostava tanto de trabalhar nessas peças delicadas que ficava, às vezes, até altas horas, e eles, quando iam a cinemas ou teatros, ao voltarem encontravam-me ainda na sala, bordando.

Corria a agulha e corria o meu pensamento para o dia em que um choro de bebê encheria aquela casa, e um corpo de criança encheria meus braços vazios.

Certas visitas, por vezes, tiravam o sossego da casa. Tia Dulce e as filhas, que vinham ver Lúcia, a casa, a mobília e tudo.

A tia achava Lúcia muito abatida, muito "desfeita", palavra que deixava Lúcia aborrecida. Recomendava mil coisas e recitava outras tantas, sem se dar conta de que o dono da casa era médico.

A mim, dirigia alguns elogios, à costura, aos bordados, ao lanche, e acrescentava:

- Sim, senhora, uma boa titia...

Eu não me dava por achada nem perdida e perguntava pelo casamento de Vera. A esta altura, a velha senhora contava maravilhas. Gabava o noivo, o enxoval, a família do noivo e seus negócios, seus bens. E acrescentava, com um rizinho de triunfo, que seria para daqui a dois meses, com certeza. Tão empolgada ficava pela vitória de casar a Vera que se esquecia da pobre Lali, que estava ficando, comigo, para "tia".

Eu pensava: como isso é ridículo! Sair de casa, gastar passagem, gastar tempo, gastar o esforço de sorrir, para visitar pessoas de quem nem gosta, apenas pelo prazer de aborrecer e ser aborrecida! Pois impossível que ela não visse nosso constrangimento e desagrado. E ela mesma, que nada tinha de amável para dizer-nos e torcia a boca elogiando isto ou aquilo.

Outra visita era Luís. Explicava que vinha como um "bom primo", mas guardava a esperança de que eu me acostumasse com ele e, simplesmente pelo hábito, o tomasse para marido. Dizia-o em tom de troça e troçava também dos meus trabalhos, da minha situação de "titia".

E era só assim que me chamava ultimamente, baixinho, para que Lúcia e Rui não o ouvissem.

Quantas vezes não fiquei pensando em casar-me e ter um filho meu mesmo! A "minha" casa, o "meu" marido, o "meu" filho... mas não sentia nenhum desejo de que esse marido fosse Luís. Creio que tudo se devia a um natural desencontro, tão frequente na vida, em que o interessante não está interessado e o interessado não é interessante.

Também ele não se conformava com a minha descrença e queria saber em que me baseava. Eu dizia-lhe que a fé ou a falta de fé não tem base. A gente crê ou não crê. Eu não podia crer num Deus à feição de um pai, que olhava para nós, que espiava as nossas ações, atendia a nossos pedidos, que estivesse no céu ocupado em vigiar o mundo.

E o que é o nosso mundo? Uma insignificante bolinha solta no espaço infinito que, por si só, desafia qualquer inteligência, qualquer imaginação. Milhões de outras bolinhas, e maiores, estão também aí suspensas.

Haverá um Deus para cada uma delas? Ou será um único, grandioso e onipotente, que criou o universo inteiro e pousa o seu olhar soberano sobre este mundo insignificantíssimo, de insignificantíssimas criaturas, espiando seus erros e faltas? Fez o homem capaz de pecar, para depois perdoar ou castigá-lo, coitado, como se brincasse com bonecos?

- É incrível como você raciocina sobre o mistério de Deus! Você mede e pesa cada coisa como se fosse palpável. Então não sente que pode haver algo que a nossa curta inteligência não alcança?

- Mas é isso mesmo, Luís, se a minha inteligência não alcança, não posso ter certeza.

Sou uma pessoa lógica, objetiva, e penso como São Tomé: ver para crer! Será que ele viu alguma coisa? Ora, meu primo, Deus nos deu uma inteligência para o nosso tamanho, não para o tamanho d'Ele.

- Santo Agostinho dizia, em sua sabedoria: "Se tivéssemos certeza, não precisaríamos de ter fé." - disse, pensativo.

- Esta é a verdade - respondi. - A fé é um sentimento e não uma convicção. E eu sinto muito, Luís, você nem sabe o quanto! Quisera ser simples, crer num Deus de bondade e justiça e em outra vida onde pudéssemos nos reunir àqueles que perdemos.

Ele então dizia que tinha pena de mim, que a fé era um apoio, e ele tinha fé. Ao contrário de mim, não podia compreender a criação sem um Criador. Uma força tinha que reger tudo isso e se chamava Deus. E ele, Luís, sentia a sua existência. Impossível explicar, era pura questão de sentir.

Era incontestável o poder da oração. Um pedido com fé, à cabeceira de um doente, operava milagres. Os mistérios não eram só os da morte. A vida estava cheia deles, a própria vida entre eles. Havia coisas bem diante de nossos olhos que não explicávamos. No entanto, existiam.

Nenhum sábio pôde ainda explicar o princípio da vida. E tudo se resume nesta pergunta corriqueira: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Diante de tanto mistério que não houve sábio que explicasse, eu não compreenderia que há de haver uma força sobrenatural que rege o universo?

Tudo tinha que ter uma razão de ser, e só havia um meio racional de explicar o mundo: crer nas Escrituras Sagradas. E doutrinava:

- "No princípio, Deus criou Adão e Eva" - dizia, empolgado. E eu pilheriava:

- Ah! Você viu!

Mas, no fundo da minha alma atribulada, sentia inveja de uma fé assim.

Nossas conversas eram secretas, pois eu não queria que Lúcia soubesse. Tinha medo de escandalizá-la ou, ao contrário, influir de modo negativo em suas crenças religiosas. A religião era algo em que ela não se detinha para analisar. Devia ser católica, todos o eram na família, não lhe cabia o direito de alterar as normas. Aprendera a crer num Papai do Céu e a amá-Lo, desde que nascera.

E o que seria se ela viesse a saber que Marta, a equilibrada, a ajuizada Marta, não tinha fé? Não acreditava sequer na existência de um Deus? Credo! Deixe que ela vá às suas missas e faça suas orações da noite, sem problema.

Além de Luís, havia um bando de amigas e ex-colegas de Lúcia que a vinham visitar. Tocavam o telefone avisando, e havia que preparar o lanche. Da copa, enquanto eu me esmerava na confecção de bolos e sorvetes, ouvia-lhes as gargalhadas e tagarelices. Depois tirava o avental e ia à sala cumprimentá-las e servir-lhes o lanche. Voltava em seguida para guardar cuidadosamente a louça fina e os cristais.

Elas nem davam por mim, eu não era interessante, nem conversadeira, mas ouvia suas conversinhas:

- Sabe quem está muito mal? A Maria Rita, lembra-se dela? No colégio era uma santinha, era a queridinha das freiras... Casou, teve dois filhos, agora, para o terceiro, tomou lá uma droga e está ruinzinha! Também, tantos filhos!

- Dão um trabalhinho! - exclamou a voz de Olga, morena bronzeada, que já tinha um menino de três anos; e acrescentava - o meu é levadíssimo, as babás não prestam ou não param, e eu quase fico doida. Já disse a meu marido: se aparecer outro, "enforco"!

- Os homens não estão de acordo com essas coisas - dizia outra. Essa se chamava Violeta e vinha para a minha lista de nomes disparatados. A mãe devia esperar que ela crescesse, pois ela cresceu nas três dimensões e em nada se parecia, ou fazia de longe lembrar, a modesta florzinha que se esconde entre as folhas timidamente. Aquela Violeta ali, grande, espalhafatosa, cheia de enfeites, com um chapéu que parecia uma galinha, de tantas penas, era mais chegada a papoulas ou girassóis. Bom, chega.

- Ah! Não estão porque não são eles que os têm. Mamãe sempre dizia que, se homem tivesse filho, o mundo já tinha acabado.

E mais outra:

- É... são uns valentões! Mas um machão desses, com dor de dentes, põe a casa em polvorosa. E se vocês vissem como sofri!...

- Eu tenho muito medo - disse Lúcia. - Há horas em que tenho até certeza de que morrerei no parto.

- Aaaaaaaah! - fizeram todas em eco - somos sempre assim. Sempre se pensa que vai morrer, ou que a criança vai sair torta... Aí, cada uma queria contar partos felizes: uma, que quase teve o filho no carro, quando ia para a casa de saúde; outra, que nem houve tempo para o médico chegar, a criança nasceu e ele só teve que cortar o umbigo.

Havia outra, além de Lúcia, que esperava criança. Estava muito no começo ainda, e gritou horrorizada que preferia sofrer mais um pouco, mas que desse tempo para o médico chegar e acudir. E acrescentou:

- Que coisa, nascer a criança sozinha!

Depois, mudavam o assunto para o enxoval: combinavam feitios, cada uma prometia fazer alguma coisinha... Aí me chamavam, e eu ia buscar a caixa para exibir o que estivesse pronto. Era uma pena. Toda vez que vinham visitas, tinha de mostrar tudo, desarrumando e amarrotando.

Eu olhava o conteúdo da caixa e via as peças tão bem dobradas, passadas, atadas de fitinhas azuis, brancas, rosa, com sachês enfeitados espalhando aroma de alfazema. Punha, resignada, sobre a mesa, a enorme caixa, e elas mergulhavam as mãos, com gritinhos de surpresa, tomando as camisinhas, por baixo das mangas, como se pegassem o bebê.

Choviam elogios sobre o bom gosto do modelo, das cores, do primor dos bordados e da confecção, e uma dizia que havia qualquer particularidade no talho da roupinha, pela qual se poderia apinhar o sexo da criança, e a de Lúcia parecia menina.

- Qual! - exclama uma lourinha bonita, que já tinha um bebê de seis meses - quando eu estava esperando o Roberto, todos diziam que era menina, até o médico. Fizemos uma porção de simpatias e tudo dava mulher, mas veio homem. Eu gostei bem, porque meu marido queria porque queria um menino, assim, toma o menino, e fica sossegado; outro não há de vir!

- O que é que você quer? - perguntaram a Lúcia.

- Eu? - e Lúcia hesitou - Nem sei... tudo é filho! Rui prefere menina, e eu... qualquer coisa.

Eu ia arrumando na caixa a roupinha por ali espalhada e pensando: para que estas visitas? Vinham atrapalhar o meu trabalho, o serviço da casa, para dizerem um montão de tolices. Era melhor que ficassem em suas casas, cuidando dos filhos e de suas coisas.

Enviesava um olhar para elas e as via tão alegres a saltarem de um assunto para outro, pelo simples prazer de tagarelar. E, então, pensava com os meus botões, ou com os meus fechos écler, que eu estava mesmo o tipo acabado da solteirona azeda.

Algumas lembravam-se de se dirigir a mim. Uma ou duas frases e o assunto morria, porque eu fugia para o meu mutismo. Também, às vezes, procurava reagir, buscando alguma coisa para dizer-lhes, mas as visitas se iam e eu não achava a coisa.

Havia de ser triste o meu papel, assim, à margem, mas creio que ninguém dava por isso, nem elas, nem Lúcia.

Num frio dia de junho casou-se a Vera.

Lúcia não quis ir, estava já volumosa e, cheia de vaidade, protestou que não havia de ir a um casamento com um barrigão daqueles. Rui mostrou-se admirado de que ela pensasse assim, pois que havia moças que até se envaideciam por se exibirem naquele estado. Lúcia respondeu que se envaidecia também e se orgulhava, mas não para se exibir em festas. Como poderia estar chique com aquele corpo disforme?

A discussão ficou por aí, e eu é que fui ao casamento, levando, com o presente, as desculpas de Lúcia e Rui.

Foi um luxo! Muita gente, muita flor e muito presente! Meninas em trajes de dama antiga jogavam punhados de pétalas de rosas, que traziam em uma cestinha graciosamente ornada, enquanto atravessavam a nave da igreja, à frente da noiva. E os chapéus de plumas e aigrettes, espalhafatosos modelos da época, de grandes abas e altas copas, a se alvoroçarem para ver passar o cortejo.

Não havia dúvida de que a fina flor da sociedade fluminense estivesse ali, metida naqueles brocados, veludos, cetins e sedas vistosas. Mas o vestido da noiva era pesado e feio. Tia Dulce nunca primara pelo bom gosto, e Vera parecia uma trouxa de panos, em seu vestido de noiva fartamente enfeitado de fofinhos, ela que era fofinha.
Mas no alto, por entre a nuvem finíssima do véu de tule, o rosto moreno-mate de minha prima era encantador, e havia em seus olhos japoneses uma expressão de vaga tristeza. Não era um rosto feliz, aquele, e fiquei pensativa.

Vi, durante a cerimônia, que ela mexia os lábios rezando, com os olhos fixos na santa do altar. Estaria pedindo a felicidade? Nunca me detive em analisar a personalidade de minhas primas. Elas eram apagadas nestas simples palavras: as filhas da tia Dulce. Era como se dissesse "os gatos da tia Dulce", ou coisa que o valha. Mas agora, ali, ao vê-la casar-se, eu me esqueci da mãe e fiquei a observar a filha.

Era uma jovem que se casava, como tantas outras.

Desejou, esperou o momento, mas não assim, não bem assim. As moças não sonham propriamente com o casamento. Sonham com o amor. Mas para nós, mulheres, o amor está de tal forma ligado ao casamento que a gente então diz casamento, só. E daí, quando dizemos - "quero me casar" - a tradução seria: "Quero amar e ser amada."

Junto à noiva, o noivo todo empertigado, corado e feliz. Sim, ele podia dizer que realizava seu sonho. O homem é que escolhe, salvo engano, mas naquele caso, não havia um engano, ele quis Verinha e, assim, por que não obtê-la? Era um bom rapaz, com ótimas qualidades, e que mais quereria ela?

"Hem, Vera? Terás uma vida tranqüila e nunca hás de sacudir fibra por fibra o coração. Serás uma boa esposa para um bom marido, e o que queres mais?" Mas seus olhos amendoados escondiam aquela tristezazinha, filha da decepção e da frustração de um sonho, agora que tudo se consumava per omnia secula... seculorum... Amen.

Depois do beijo nupcial, discretamente pousado à fronte da noiva, vejo minha tia pressurosa abraçar a filha, apertando, no seu farto peito bordado de vidrilhos, a trêmula noivinha cheia de susto. E vejo a tia assoar-se num lenço branco e grande, para que ninguém tenha dúvidas de que ela está chorando.

E eu penso acrimoniosamente que ela talvez chore, por não casar logo as duas. E por falar em duas, lembrei-me de Lali, vestida de cor-de-rosa-papel-de-embrulho, com rosas num buquê e no chapéu desabado. Olhos grandes e vazios, passeando por ali, pousando ora numa, ora noutra pessoa, e as abas do chapéu abanando para cá e para lá. Fiquei olhando-a e recordando as palavras da mãe: "Vera é mais graciosa, mas a Lali tem os olhos mais bonitos; já viram como são grandes os olhos dela?!"

Todos ficaram de acordo, e não seria eu quem dissesse alguma coisa. Mas, Deus meu! Se aquilo era olho bonito... eu queria ser mico de circo. Que fossem grandes, vá, mas onde a expressão do olhar? Aquele vazio do olho de vidro! As mães são cegas! Cegas de amor pelos seus rebentos! - assim dizem.

Da igreja fomos para a casa. O bufê, de fina confeitaria, era servido por garçons de gravata preta. Sobre a mesa, ricamente decorada, com pirâmides de docinhos coloridos, se erguia em toda a imponência o bolo tradicional, com o casal de bonequinhos no alto. Espocaram os champanhas e distribuíram-se as balas de estalo para as sorte das outras que desejam casar. E a corbeille da noiva encheu-se de finos e ricos presentes.

Mais tarde, a noiva, metida num tailleur de lã azul e um gracioso chapeuzinho de feltro, apareceu para as despedidas. Chovia, e nós ficamos na varanda, acenando para os seus rostos, através dos vidros molhados. E eles lá se foram para a lua-de-mel.

Tia Dulce chorou tudo de novo, e eu despedi-me para ir embora. Mas não fui. Chovia a cântaros, e era já muito tarde, não me deixaram sair. Acomodei-me na cama de solteira da Verinha, ao lado da prima Lali.

De manhã, pelo café, os comentários sobre a festa. Lali permanecia calada, e, se dizia alguma coisa, era invariavelmente acompanhada de "mamãe disse" ou "mamãe fez". E a mãe, ela mesma, elogiava tudo, gabando os convidados, as toaletes, os presentes, o bufê, rotulando tudo com os devidos preços e valores, enquanto enchia a boca de bolo e soprava "farofa" em várias direções.

Eu comia a minha refeição, ouvindo e batendo com a cabeça, de acordo com todo o mundo. Mas a tia não me deixava sem uma alfinetada, a minha "doce" tia Dulce:
- E você, Marta? Agora deve ser o seu ... - falou numa voz de falsete.

- O meu, não; deve ser o de Lali, que é mais velha do que eu.

E continuei a comer meu pão com manteiga, calma. Depois pensei: para que fui bulir com a pobre? Por que ela havia de "pagar o pato"? Bem vi como corou e se remexeu na cadeira. Afinal, que culpa lhe cabia de a mãe ser implicante?

Solteirona! Uma palavra que apavora. E por quê? Convencionou-se dizer que a mulher que não se casa é porque não acha com quem. Vem daí o tom pejorativo dado à palavra. "Solteirona" equivale a dizer "desprezada", enquanto que solteirão se aplica ao homem que não quis casar. "Deus é homem!" diz Lúcia.

Mas, num e noutro caso, nem sempre isso é verdade. Deve haver muita mulher que não casa porque não quer, e muito homem que não encontra quem o queira. Não há dúvida, porém, de que é deles o privilégio da escolha... Deixa andar... A mim pouco se me dá ficar solteirona, o que eu quero é paz.

A barca jogava pesadamente, num mar de ressaca, e eu olhava toda aquela massa d'água com estranho fascínio. Sempre gostei do mar. Em Copacabana, me deixava ficar horas inteiras na contemplação do arrebentar das ondas. Ficava extasiada, presa àquele espetáculo da água que crescia em montanha, como uma fímbria de espumas a borbulhar na crista, para depois despedaçar-se pelas areias, num estardalhaço. E outra, e outra mais, e outra ainda maior...

Há espetáculos que prendem pelo medo. Ficava diante do mar como um pequenino pássaro atraído pelo encanto da serpente venenosa e má. E me parecia ver meu corpo rolando, chicoteado, espedaçado ao sabor das ondas gigantescas.

Quantas vezes, Deus meu, sonhei com um mar assim, e eu entre as ondas, debatendo-me, e debatendo-me acordava! E a barca lá ia bamboleando, pesada, adernando assustadoramente, enquanto eu me acomodava ao medão de que afundasse.

Em casa, tive de contar tudo à Lúcia, descrever toaletes, pessoas e presentes, entrando nos mínimos detalhes; quando cheguei à mesa de doces, ela ficou gulosa, com pena de não ter ido.

Andava com desejos, e falar em coisas gostosas punha-lhe água na boca.

- Telefone para Rui e peça-lhe que traga os doces da cidade. - sugeri - A Colombo está lá mesmo.

- Não é a mesma coisa, assim, comendo em casa, à toa.

- Quer que eu faça algum?

E toquei para a cozinha, lembrando-me, com pena, de uma porção de docinhos que nem provei. Meti mãos à obra e fiz uns quindins de coco, tão finos e leves que desmanchavam na boca, e os comemos à sobremesa do jantar, como vingança.

À mesa, Rui perguntou-me por Luís, se o tinha visto no casamento. Percebi seu olhar irônico e seu riso disfarçado. Encabulei. Lúcia tapou a boca com o guardanapo e me pareceu que escondia um sorriso, mas respondi que não, bem séria, que ele não tinha ido, e fiquei muito ocupada em partir meu bife.

Teria Luís contado a Rui? Que lhe parecia esta minha atitude, guardando tanto segredo? Qualquer moça gostaria de dizer a todos que tinha sido pedida em casamento. E por que eu não?

Temia que me fizessem perguntas e que, ao responder, eu abrisse uma janelinha desse meu eu hermético e não pudesse, aí, evitar a invasão. Essa era a parte que eu poderia explicar, mas havia outra, a que seria fruto de um estranho pudor.

Autor(a): Magdalena Léa

 

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