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LIVROS / FEIA

CAPÍTULO XII
publicado em: 15/09/2017 por: Lou Micaldas

Não causava danos senão a mim mesma, que eles de nada sabiam, nem suspeitavam, ou porque eu era ótima atriz, ou porque, ai de mim, ninguém se detinha na minha pessoa.

Agora que a crise de empregadas havia serenado, eu voltava à minha vida. Passava quase os dias inteiros no meu quarto, mergulhada nos meus bordados e em mim mesma. Lúcia, não raro, saía às tardes, só voltando à noite, indo encontrar Rui no consultório, para virem juntos os dois.

Tínhamos acertado com a cozinheira, Paula, uma nordestina. Simpática, cor de café, com seu volume quase ocupava toda a cozinha. Tinha-nos trazido sua sobrinha para copeira-arrumadeira, mulata de dezoito anos, espigada, que nos olhava de viés e chamava-se Elza. Não simpatizávamos com ela, mas não havia dúvida de que o serviço andava a contento.

Corria a vida calma e equilibrada. E eu ficava pensando paradoxalmente que a base da casa, o alicerce da família, era ter uma boa empregada.

De manhã, eu ia à praia, o tempo de tomar um pouco de sol e atravessar uma onda de ponta-cabeça. Depois vinha para casa, atendia aos fornecedores, dava uma ou outra ordem e me recolhia. Mas, se Lúcia não saía, sentávamos as duas, ela com o tricô, eu com o bordado, e entabulávamos uma conversação em que os assuntos saltavam como pipoca na panela.

Gostava de ver seu corpo arredondado, num misto de pena e de inveja. Ela era tão bonita! Tão bem feita! E a gravidez a deformava. Enquanto que a mim...

Lembro-me de quando veio da costureira o vestido próprio. Azul-marinho, com elástico na cintura, fazendo um apanhado de franzidos sobre o vente. Vaidosa como era, ela se pôs diante do espelho para prová-lo e só dizia: "É horrível isso, Marta, pareço um saco de batatas! Tomara já acabar, mas faltam dois meses, ainda... também já vou avisando a Rui: é só esse!"

Não pude deixar de dizer:

- Não fale assim, Lúcia. Rui não é homem de gostar disso. Essas ôcas que são suas amigas é que andam a amolecer o seu miolo...

- Ora, Marta - ela interrompeu - então você pensou que eu me casava e ia ter quantos filhos Deus mandasse? Você não sabe, mas estas coisas - dizia com superioridade - a gente pode evitar...

- Suponho que haja meios para isso, não sou tola nem nasci ontem, mas você não deve fazer nada sem que seu marido esteja de acordo.

- Claro!

Para fazer desaparecer o corpo disforme, ela apurava o rosto. Pintava-se bem, penteava-se com arte e esmero e usava uns chapeuzinhos, que eu considerava ridículos para o seu estado. Mas ficava linda! E lá iam os dois a passeio.

Algumas vezes eu notava que Rui preferia ficar em casa. Mal havia tempo para que ele passasse os olhos nas revistas médicas que lhe eram enviadas e que eu dispunha sobre a sua secretária. Pela manhã, o hospital; à tarde, o consultório; à noite, cinema, passeios, visitas.

As poucas vezes em que não saíam, andavam de braços dados na calçada em frente, pois Lúcia precisava desse exercício. Dedicava-se de corpo e alma àquela mulher, que ele tanto amava e que trazia, no ventre, um filho seu.

E é horrível confessar que eu sentia ciúme. Mas, se era culpada, era também castigada, e talvez o castigo fosse maior do que a culpa.

Nesses momentos, ela não era a minha irmã, a irmãzinha que, a bem dizer, criei, era a "outra mulher", a que me tinha roubado o amor dele. Ah! Se ela não fosse tão linda! Talvez, quem sabe, ele me tivesse querido.

Tinha crises de desespero querendo, à força de autocensura, arrancar de mim esta obsessão. Era o duro choque da carne e da alma. Era o conflito entre o que se é e o que se quer ser. Quando se beijavam, eu mais apinhava do que via esses beijos, porque fugia sempre ao quadro, doloroso aos meus olhos. Mas, malgrado meu, atenta, ouvia-os beijarem-se.

Não me esqueço de um certo dia. Rui tardava, e Lúcia, impaciente, ia e voltava da porta para a janela. Eu lia um livro, afundada na poltrona, a mesa posta para o jantar, e nada de Rui. Ela vinha, parava diante da mesa, arranjando uma coisa e outra, olhando disfarçada o relógio. Passava bem das oito, e Elza, a copeira, veio à sala perguntar:

- Não qué que tire o janta, não?

- Quando eu quiser a "janta", peço - respondeu Lúcia irritada.

Eu me preparava para assistir a uma cena, pensava que ela estivesse fervendo de ciúme. Súbito, Rui entrou. Então, ela correu-lhe ao encontro e, enlaçando-o, beijou-o na boca. Não sei o tempo que durou esse beijo tão longo. Só sei que, assim de surpresa... assim sem que eu pudesse ter apinhado, me fez mal. Era como uma traição.

Ninguém viu minha perturbação, naturalmente que não olharam para mim, e pude fugir para o meu quarto.

Bati a porta e me encostei nela desalentada. O jantar estava na mesa, e Elza já me viera chamar. Precisava recompor as feições e pôr os nervos no lugar. Sentei-me à penteadeira e finquei o rosto nas mãos.

Pobre rosto, pálido, de olhos cheios de angústia! Mas eu me detinha na boca, trêmulos lábios que nunca seriam beijados. Passei os dedos de leve sobre eles e senti como estavam ardentes.

Levantei-me de um ímpeto e, após a alisar o cabelo com uma escova, voltei à sala, para mentir, rir com eles, que, felizes, se riam de tudo.

Comi distraidamente, sem sequer ouvir o que diziam. Pensava: por que aquele beijo? Não estava ela aborrecida? Não costumava abrir discussões quando ele se demorava? Olhei-a com raiva. Meus olhos passavam dos seus cabelos ondulados, onde a luz punha reflexos de cobre, para os olhos risonhos, sombreados por espessa franja de cílios. E depois para a boca.

Ela ria. Polpudos, os lábios se entreabriam, alvos e miúdos, os dentes surgiam brilhando em contraste com o vermelho vivo do batom. Duas covinhas nas faces carminadas, o queixo pontudo e o pescoço roliço...

Meus olhos ávidos percorriam a sua beleza, com maldade, com inveja, como se ela fosse uma estranha, uma inimiga. Meu peito arfava, mas não podia desviar os olhos das suas belezas, deleitando-me em apinhar as carícias que gozavam. E esse olhar ousado e impudico, como que hipnotizado, descia para o seu colo, que uma leve respiração ondulava, e o decote generoso descortinava, e descia ainda...

Súbito, a consciência doeu, desperta como por uma cutilada. Atônita, contemplei por alguns instantes o ventre volumoso e compreendi meu sacrilégio... Só então vi que aquela mulher era a minha irmã.

Fugi para o meu quarto. Deitei-me, os olhos secos, a cabeça estalando. Creio que havia dito, ao deixar a mesa, que tinha dor de cabeça; e não menti. Dentro de mim se fazia o caos. Só tinha consciência da minha infâmia. Mergulhava fundo nesta consciência, como um bisturi de cirurgião em músculos gangrenados. E me amaldiçoei. E me condenei. Estaria louca? Por que não ia embora? Por que havia de estar ali, alma penada, com a sombra negra da inveja, do ciúme, a pairar sobre os dois inocentes e felizes?

Lembrava-me então de Lúcia pequenina, no meu colo, e eu a beijar suas gorduchas mãozinhas, chamando a "criancinha querida..." E agora tinha inveja dela? Cretina! Tinha a coragem de profanar a pureza do amor deles com os meus desejos ilícitos? E me torturei assim durante horas, condenando e execrando os meus sentimentos mais ocultos em suas baixezas.

Quedei-me exausta. Os lábios ressequidos. Uma saliva viscosa e amarga se me espalhava na boca. E eis que, no fundo da minha consciência, uma voz surgia e me segredava: não, não sou má, sou infeliz. Estarei condenada a viver neste suplício toda a minha vida? Tenho culpa de amá-lo? Tenho culpa de não poder arrancar de mim esse câncer moral? Não sou má. Tenho remorsos, e o remorso é próprio dos bons. Os maus não se arrependem.

Na língua castelhana se diz: remordimiento. Algo que nos morde as entranhas.

Que recursos teria eu para fugir à situação? Acaso era senhora de mim? Deus sabe que não. Que razão assaz forte teria eu para apresentar e poder ir embora?

Era impossível, tanto dizer-lhes a verdade, como arranjar algo que justificasse minha ida da casa deles. Não causava danos senão a mim mesma, que eles de nada sabiam, nem suspeitavam, ou porque eu era ótima atriz, ou porque, ai de mim, ninguém se detinha na minha pessoa.

Eu era, assim, uma espécie de mobília: uma cômoda, uma cadeira ou - quem sabe? - um tapete, desses em que a gente pisa sem olhar. Tinha a minha utilidade, e só.

Ficava imaginando se Lúcia tivesse se casado com outro. Embora Rui não me quisesse, pelo menos não estaria ali, diante de meus olhos, numa intimidade de todas as horas, com aquele maldito riso que me dava tonturas, a prodigalizar carícias a outra mulher, não importa quem...

Uma barata entrou voando pela janela. Maldita barata - pensei - tinha horror a elas, e elas pareciam me perseguir. Por que existem baratas? Cobri a cabeça com o lençol e fiquei ouvindo o zunido de suas asas e as batidas na parede.

Deus, que criou todas as belas coisas, teria também inventado as baratas?
Precisava perguntar isso a Luís.

Ou seria o diabo o culpado da existência das pulgas, percevejos e baratas, dos erros e das aberrações?

Quando eu chegar ao inferno, que para lá hei de ir, na certa, pergunto tudo direitinho. Levanto a ponta da coberta e espio: lá está ela, pousada na parede. Mas não me iludo com seu ar inocente. Se me descuido, ela vem direto em cima de mim.

Fui indo, fui indo e dei-lhe, com a toalha, uma batida. Ela caiu, e o meu chinelo completou a execução. Arrastei o cadáver para fora da porta. Como fizesse ruído com o trinco, Lúcia veio ver o que eu tinha. Entrou, sentou-se à beira da cama e começou, preocupada:

- Você está doente? Não jantou nada e saiu da mesa com dor de cabeça. Que é que tem? Quer que Rui a examine?

- Não - gritei - não tenho nada. Estava com dor de cabeça, mas já passou. Não fico doente. Esteja descansada. O máximo que me acontece é, como direi, cambalear, sabe como é? Pois então cambaleio, mas me ponho logo de pé. Olhe, sou assim como aquele boneco que chamam joão-paulino, não conhece?

Falava rindo, disfarçando a ironia, e ela riu comigo, tão longe de pensar que eu pudesse ter amarguras.

- Rui foi quem mandou que eu viesse - disse. - Achou você esquisita na hora do jantar...

- Não. Não tenho nada mesmo, fiquem tranqüilos.
Ela estava de camisola, e o ventre bastante volumoso tomava toda a roda. Viu o meu olhar e disse:

- Estou enorme, não é?

Pôs-se diante do espelho do armário, mirando-se. Alisava com ambas as mãos o grande ventre e continuava:

- É muito feio isso! Está custando tanto a passar o tempo... este finzinho é o que custa mais, disse-me a Olga...

- Pense só no bebê e esqueça a feiúra. Eu, se fosse você, estaria muito orgulhosa.
- Orgulhosa de quê? De ter filhos? Ora, até os bichos têm...
- Não diga tolices. É um filho seu, nascido do seu amor... Como pode fazer esta comparação?

- Marta - mudou ela de assunto - quando tudo acabar, vou fazer uma coleção de vestidos bonitos. Está se usando verde, demais. Verde de todos os tons em chapéus, luvas, bolsas, vestidos... Estou louca para me vestir chique. Não agüento mais esta espécie de uniforme, escuro e feio. Credo! E eu sei que Rui aprecia bem a mulher elegante. Se você visse como ele olha as enfeitadinhas! Me dá um ódio!...
Sentou-se, outra vez, à beira da cama.

- Você está com dor de cabeça, e eu aqui tagarelando...

Protestei. A dor já tinha passado, e eu gostava de conversar um pouco.

- Marta, você sabe? Eu às vezes tenho tanto medo... Rui ralha comigo e diz que é tolice, que eu devo pensar em coisas boas para atraí-las. Mas... a gente não governa os pensamentos! Você nem imagina como fico assustada de pensar no parto.

Assim dizendo, deitou-se ao meu lado. Fiquei olhando o teto e pensando que ela estava ali me pedindo apoio, confiante na minha amizade. Senti isso como uma bofetada. Marejaram-se-me os olhos e, instintivamente, a minha mão acariciou os seus cabelos, enquanto baixinho, tão baixinho que ela nem pudesse ouvir, eu pedia: perdão! perdão!

Depois animei-a, dizendo que Rui tinha razão; ela devia afugentar os maus pensamentos, lembrar-se só do filhinho e pensar na felicidade de ambos, que seria enorme quando o bebê nascesse. Que ele seria lindo e que ela ficaria orgulhosa de mostrá-lo às amigas.

O filho de Olga era tão feiozinho! Quanto ao parto, não se preocupasse. A medicina estava bem adiantada, ninguém mais morria disso. Antigamente, sim, até, quando uma mulher estava grávida, dizia-se que tinha o pé na cova. Também, ninguém tinha filho com médico, era parteira curiosa, nem eram formadas.

Passei a falar de roupinhas, disse que ia comprar um cetim, para fazer um edredão, como o que eu tinha visto numa vitrina de modas infantis. O de lá era rosa, mas azul e branco também ficaria lindo. Que ela escolhesse a cor que preferia.

Ficou então combinado que sairíamos depois do almoço. E lá foi ela para o quarto.

Apaguei a luz e procurei minhas amarguras. Estavam longe. Tinham ido com a barata. Já não podia perguntar por que existiam elas.

No dia seguinte, logo depois do almoço, fomos à cidade, eu e Lúcia. Andamos pelas ruas movimentadas, numa azáfama de comprar coisas. Nas vitrinas das casas de roupas para crianças havia uma profusão de coisas lindas, na cor, no bordado, no feitio...

Lúcia queria comprar tudo que via, eu precisava controlá-la um pouco, lembrando que o nosso bebê já tinha muitas coisas que eram também muito lindas, e que ele não seria bebê a vida toda. Não teria tempo para vestir tudo aquilo.

Os vendedores riam-se, mas Lúcia ficava teimosa como uma criança e dizia!

- Não, Marta, tenho de levar isto, olhe que encanto! Esse eu tenho que ter, você já viu que tom de rosa? Tenho certeza de que não temos nada assim.

E depois, para o rapaz:

- Moço, pode separar esse, que já é meu.

E eu ficava vendo a pilha que crescia sobre o balcão, e o moço que ia e vinha, risonho e amável, cheio de madame para cá e para lá.

Ela parecia tão jovem que se me afigurava estar ali brincando de comadres, como em criança, quando ela punha o chapéu de vovó para se fazer de senhora. Nestas brincadeiras, eu sempre era a criada, e ela me punha o nome de Maria, que tinha sido o de uma babá. Ficava de cima, com ares de patroa, mandando que eu cuidasse da casa improvisada e das "crianças", enfileiradas de encontro à parede, e que eram seus filhos. Uma porção de bruxas de pano e bonecas de louça a que faltavam braços ou pernas e as cabeleiras.

Parecia-me estar a vê-la, dedinho em riste, a ralhar com a boneca:

- Você é uma menina feia e teimosíssima, ouviu? Teimosíssima! Vou castigar você, já, já. Vai ficar dois dias de cara para a parede!

Então eu acudia para abreviar o castigo e pô-lo num plano mais normal. E a pobre coitada, com a careca à mostra e olho metido para dentro, lá ficava horas.

Eu, a babá das "criancinhas", também levava minhas descomposturas, era ameaçada de ser posta pela porta afora. Ficava corada de energia, a pequenina figura se empertigava toda de autoridade, e eu achava tanta graça no seus ditos, nos seus gestos! E, quando bem pequenina, os ralhos ainda eram mais engraçados, por causa do tatibitate quase incompreensível.

Agora olhava-a e ficava admirada de como o tempo havia corrido. Aquela meninazinha autoritária, ali estava, com um vendedor diante dela, a chamá-la de madame. Era a realidade e não mais um faz de conta. Mas a menina era quase a mesma, só que maior, só que mulher feita, esperando um filho de verdade. A boca tinha aquela mesma curva de energia, e o lábio inferior, polpudinho, era o de um bebê cheio de vontades, a bater com o pé e a dizer:

- Você tem de me dar!

Arrumados os pacotes, fomos saindo. Corremos muitas lojas para a escolha do cetim para o edredão e parávamos às vezes para falar com um e outro conhecido.

Foi quando íamos tomar lanche na Colombo que vimos Luís num grupo, mesmo em frente à confeitaria. Assim que nos viu, veio-nos ao encontro, todo sorrisos:

- Que é isso, meu Deus do céu, estão comprando a cidade?

- Vontade não me falta - respondeu Lúcia - gostaria de encher um caminhão bem grande; que coisas lindas, Nossa Senhora!

- Por isso é que eu não me caso - disse Luís. - Quando vejo um casal feliz, alguns garotinhos etc., fico com água na boca, mas, quando passo pelas vitrinas de modas, esfrio.

- Isto quer dizer que você é um sovina - disse Lúcia, rindo-se.

- Não - protestou ele - não sou tanto, vou até convidar vocês para um grande lanche, que tal? E aposto, era isso mesmo que iam fazer, não? - e consultando o relógio de pulso - Cinco horas em ponto, e o ponto exato para um bom lanche.

- Você apinhou que vínhamos lanchar - disse Lúcia - mas a charada não era difícil - e acrescentou ironizando - cinco horas, na porta da Colombo, duas moças e já cheias de embrulhinhos, o que quer dizer: tarefa cumprida... Ora, Luís!

- Mas eu sou assim mesmo, minha prima, charada para mim só com a decifração por baixo... Mas vamos ao sorvete.

No tempo em que todo o mundo se conhecia, era a Colombo o tradicional ponto de encontro. O centro social da "Cidade Maravilhosa", como a batizou Coelho Neto, no começo do século.

A confeitaria Colombo punha em destaque a Rua Gonçalves Dias, que fazia esquina com a Rua do Ouvidor, consideradas as principais artérias da cidade, chamadas mesmo de a "sala de visitas do carioca". Ali desfilava a jeunesse dorée e era onde se achava o fino comércio de jóias, de flores, de chá e guloseimas, e as principais casas de modas ao gosto francês: Palais Royal, Notre Dame de Paris, Torre Eiffel e outras. Aliás, na época, vestia-se, comia-se e bebia-se à francesa, e até belas mulheres eram da França importadas.

O chá das cinco movimentava a cidade, enchendo as confeitarias mais centrais. Eu me lembro de alguns nomes: a Pascoal, a Lopes Fernandes, cuja especialidade era a salada de frutas, a Lallet, a Cavé, a Alvear, na Avenida Rio Branco. Umas, desaparecidas, outras, ainda lutando contra o tempo e as modas, que tudo mudam.

Mais belas que todas, porém, a Colombo imperava, atraindo, dominando o êxito social. Ambiente de elegância, seus salões, de amplas dimensões, abrigavam o grand monde, a fina flor da sociedade carioca.

Famosos espelhos importados da Bélgica, emoldurados de um soberbo trabalho de entalhe feito à mão - mão brasileira - em jacarandá, refletiam o luxo, o charme daqueles chapéus de plumas e flores. E mais os leques, os véus, as luvas de pelica, e mais quantas quinquilharias possam haver para adorno das belas damas. Também os homens se tornavam notáveis em seus elegantes trajes, de colete e gravata, nunca dispensando o palheta ou o chapéu mole - assim chamado o de feltro ou de lebre.

Na fina decoração de estilo Luís XVI, com suas mesinhas de pés de ferro e tampos de mármore, suas graciosas cadeiras de jacarandá e palhinha, além dos espelhos imensos que forravam as paredes, destacava-se o lampadário, que neles se multiplicava, inundando de luz os ricos salões. A clarabóia, lá no alto do alto teto, coava uma luminosidade difusa por entre os vidros coloridos e caprichosamente desenhados.

Era principalmente aos sábados a grande afluência. Dia consagrado ao que se chamava "fazer a Avenida", expressão que, mais tarde mudaria para o americanizado footing, mudando também de local.

Nesse dia a Avenida Rio Branco, antes chamada Avenida Central, ganhava um desfile de modas que era uma festa para os olhos. Muitas toilettes faziam ali suas estréias. Os homens abriam alas e as mulheres passeavam suas garridices ao longo da Avenida, no trecho compreendido entre a esquina do Ouvidor e a Galeria Cruzeiro, onde os bondes passavam por dentro. Dificilmente se andaria sem esbarrar em uma dúzia de conhecidos.

Mas voltemos à Colombo e voltemos ao começo do século. Naquele tempo a confeitaria era chamada "O Quartel General dos Escritores" e também "Sucursal da Academia Brasileira de Letras", na expressão de Olavo Bilac. Seria por felicidade, por coincidência, que ela era numa rua com o nome do grande poeta nosso - Gonçalves Dias?

Reunia-se, todas as tardes, o grupo formado pela boêmia mais ilustre do Rio de Janeiro, que ali se entregava de "copo" e alma às empadinhas e outros petiscos famosos da Colombo. Naquelas mesinhas nasciam sonhos, pipocavam idéias, planos, projetos para jornais, revistas e livros, que ali se afogavam nos copos de cerveja ou vinho.

Claro que desse naufrágio muita coisa se salvava para o enriquecimento das letras e das artes. Era também ali que fervilhavam as críticas em versos ferinos, mordazes, com a dose necessária de humor.

Grandes nomes desfilaram pelos salões da confeitaria: Emílio de Menezes, o gordo humorista, que considerava a Colombo seu gabinete de trabalho; Coelho Neto, Martins Fontes, Guimarães Passos e o Poeta do Humor - Bastos Tigre - autor de Pingos e Respingos, que pingou fogo, por meio século, no Correio da Manhã. E outros, todos velhos conhecidos, que comigo conversavam através de suas obras.

Pensava nessas coisas e em como seria maravilhoso sentar-se a gente entre eles para ouvi-los ao natural, sem literatura, no puro espírito e talento de cada um.

Passeava o meu olhar nostálgico pela sala, como se pudesse vê-los ali, ocupando as mesinhas, como antigamente, os de outrora, os de outros tempos que não os meus.

Mas voltava ao meu e voltava a olhar a sala repleta, onde descobria um rosto conhecido entre o adejar das asas de algum chapéu de sábado, que cumprimentava distraidamente. Havia um zunzum rico de vozes, que os violinos da orquestra dominavam executando valsas e tangos.

Tinha diante de mim um sorvete piramidal e colorido, encimado por uma cerejinha, e, diante do sorvete, Luís. Seus pequenos olhos vivos e curiosos pousavam ora numa ora noutra mesa.

Lúcia reclamou que ele andava sumido desde o casamento da Vera, ao que ele respondeu:

- É verdade, não fui. O tempo é curto e tenho tido muita coisa para fazer. Vocês não sabem... eu ando escrevendo um livro... - e acrescentou depressa. - Também já estou farto de ver casamento dos outros.

- Pois então se case, ora essa! - disse Lúcia.

- E o livro - perguntei - que livro é esse?

Ele corou e respondeu apressado:

- Bem, eu estou escrevendo aí umas coisas, mas ainda não sei se vale a pena... estou tentando, se prestar, mostro a você, e se não prestar... cesta.

- Romance? - perguntei.

- Romance. Uma estória que conta a vida... é um estudo psicológico de um sujeito, assim como eu, meio idiota.

- Mas é uma autobiografia? - indagou Lúcia.

- Não, claro. Tudo é ficção, só que empresto um pouco de mim, um pouco desta minha "personalidade interessante", mas não será a minha vida, senão seria cacete à beça.

- E como se chamará a grande obra? - perguntei.

- Ah! Isso eu não sei ainda. O mais difícil me parece que é batizar a "criança". Talvez eu ponha um nome retumbante, melodramático. Por exemplo: Poço da solidão.

Catacumba, o diabo! Qualquer asneira dessas...

- Espere aí - interrompi - você está tratando com muito desprezo seu trabalho, e tachá-lo de asneira, idiotice, nem sei mais o quê. É melhor que o dê à gente, para ler e dizer se é ou não boa coisa. Que você não sabe nada. A gente nunca sabe nada de si próprio.

Ficou entusiasmado:

- Marta, uma grande verdade foi essa que você disse. Se alguém me perguntar se acho bom o que escrevi, juro que não saberei responder. Há momentos em que acho formidável, compreende? E sou capaz de chamar de imbecil o sujeito que não achar assim. Mas há horas em que releio e acho tudo tão ruim que então digo que o imbecil sou eu.

Rimos, eu e Lúcia, da cara de desgosto que ele fazia, e ele atalhou:

- Olhe o seu sorvete, Marta, está se derretendo todo. Querem mais alguma coisa?

Voltei ao meu derretido sorvete enquanto pensava no livro de Luís. Ele havia falado em solitário... Quem seria o solitário, ele mesmo? E eu o observava discretamente, enquanto o ouvia falar com aquela volubilidade que lhe era peculiar, emprestando ao que contava um toque picaresco.

Deixamos a confeitaria, já caía a tarde. Fomos em busca de um táxi. Lúcia impôs a Luís que fosse jantar conosco. E o assunto à mesa foi o livro que ele escrevia. Rui incentivou-o, falando de suas boas qualidades de conversador, e até disse que, no físico, ele tinha o tipo adequado: pequeno de estatura, crânio desenvolvido e aquele olhar de fogo, agudo, próprio dos espíritos observadores e críticos. Olhar que era uma centelha de inteligência.

- Basta, basta, basta! Já estou me sentindo consagrado. Não abuse da minha modéstia... Mas fora de brincadeira: grande é o Machado! Escrevia como se estivesse aqui, na sala, conversando com a gente. E que apuro! E que elegância! Em geral, quando se lê um romance, se esquece o autor, e mergulha-se na história, mas com o Machado, não. A gente sente o autor em cada linha, e é como se, em cada página, houvesse um retrato do homem. Impressionante!

Voltou-se para mim:

- Olha, Marta, eu vou trazer tudo o que escrevi para você ler, mas vai ser franca, ouviu? Não me venha com "panos quentes" e pedras de açúcar para me adoçar. Quero uma opinião franca.

- Combinado. - disse eu.

Autor(a): Magdalena Léa

 

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